sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Primeira de uma série de histórias de Alberany, o abominável, a ser narradas neste folhetim

De como Alberany fingiu-se de eremita e acabou em ignóbil masmorra

Ó vós, que vos abalançais a ler este coranto, digo-vos que sou Alberany, o abominável, e que encontro-me em lamentável situação, atirado a cárcere de masmorra hedionda e vil. A princípio contar-vos-ei como vim aqui parar, hoje dormindo sobre a palha e comendo códeas de pão dormido, ao lado de infeliz farsante que cometeu o erro de me acompanhar em meus intentos e embustes. Estamos no ano da graça de 1712 e nesta quadra se passa minha existência malsã.
 Eis o que digo e o que aconteceu: encontrava-me eu percorrendo aldeias e vilarejos onde exercia meu nefando ofício de enganar e surrupiar de pessoas crédulas até mesmo a roupa do corpo, mediante anúncios de tragédias e outros males, e me apresentava como curandeiro dotado de grandes poderes. Se me dessem o que pedia nada de mal lhes aconteceria. 

http://cinerama.blogs.sapo.pt/322811.html
Neste périplo encontrei, caído de bêbado, o indivíduo já citado. Dormia ele num estábulo onde eu também vim a me abrigar. Quando acordou conversamos e percebi que ali estava um ordinário igual a mim. Combinamos que ele chegaria antecipadamente a um povoado, fazendo-se passar por coxo. Pediria esmolas para ir a Roma em busca do Papa, que certamente o curaria. Nesse momento eu chegaria e, fazendo rezas fortes, o faria curado, atraindo sobre nós os favores do populacho. 

Destarte fizemos muito dinheiro e partimos então para grande e ilustre cidade, onde iríamos explorar o povo nos arrabaldes. Assim pensamos e assim fizemos. Bom dinheiro entrou e o gastamos todo em casas de tavolagem. Então rumamos para iniciativas mais ousadas. Disse eu ao detestável comparsa: 


- Vamos fazer pregações em púlpitos. Seremos dois eremitas que recolhem recursos para uma nova e definitiva Cruzada que libertará a Terra Santa do jugo dos infiéis. Conheço o latim e...

- Sabeis latim? - quis ele saber.


- Sim - respondi.

- E o que sabeis de latim?


Respondi que conhecia duas palavras: "orater frater" e que isso, no que se resumia meu grande saber, seria o suficiente para dosar as multidões aos nossos intentos. 

- O que significa tal coisa? - questionou.


- Não sei. Mas sei que quando os padres dizem isso nas missas todos se curvam. E um rapazinho, munido de uma vara que tem em uma das pontas uma sacola recolhe dinheiro e muito. Até mesmo moedas de ouro.


Ele então sugeriu que às palavras em latim ajuntássemos esta outra: "catecúmeno". Nem eu nem ele sabíamos o que significava, mas o perverso aduziu: - Certa feita quando eu, praticando diatribes no adro de uma igreja promovia grande confusão, fui de tal palavra acusado pelo padre. Portanto,se sou um catecúmeno, e sei bem o que sou, catecúmeno deve ser algo mui lamentável e péssimo. 


Pusemos em andamento o plano. Vestimo-nos de andrajos, munimo-nos de cajados e fomos para o centro da cidade. Ali havia duas grandes praças e nas praças, que distavam uma da outra muitas braças, havia dois púlpitos em pedra, de onde os cidadãos podiam se manifestar, gritar e reivindicar, muitas vezes recebendo em troco ovos podres e repolhos na cara. 


Caminhamos cada um para uma praça e começamos nossa solerte prédica. Deu-se então o meu exórdio. Subindo ao púlpito ergui o cajado e elevei a voz. Berrei: - Orater frater, catecúmenos! - ninguém me deu atenção. Repeti: - Orater frater, catecúmenos! - e mais uma vez: - Orater frater, catecúmenos!

A multidão continuava a passar, ignorando-me. De nada adiantava minha sórdida surtida. Até que vi um homem que parecia se encaminhar para mim. Pelo menos olhava para mim e disso não havia dúvida. Era um tipo alto e fornido, envergando roupas de certo luxo e um portentoso tricorne. Entendi que estaria ali a minha vítima primeira.

Encarei o tipo e insisti: - Orater frater, catecúmeno! - Orater frater, catecúmeno! - o homem aproximou-se e eu lhe disse:   -Orater frater, catecúmeno! Orater frater! Ajoelhai-vos e ouvi a palavra de um austero eremita que o deseja ao lado da luta contra os mouros!


Tomado de surpresa o homem reagiu quando gritei: - Orater frater, maldito! Orater frater, farsante!  já fora de mim, pois percebia que meu plano não estava dando certo. Possuído de grande furor passei a acusar o homem de torpe, de vil e de avaro; de mesquinho, de ímprobo e de corrupto;de sonegador e retentor do dízimo na luta contra os infiéis. 


Grande erro cometi. O homem era padre que gostava de livrar-se da sotaina e envergar trajes civis. Para completar havia bebido um pouco e atacou-me a golpes de sólida bengala de cedro. Reagiu assim quando eu dizia ser "enviado do Papa em nobre missão de postular esmolas santas para a guerra contra os mouros".


Munido de tal arma ele saltou sobre o púlpito e vibrou-me formidável golpe no crânio, pondo-me abaixo. E gritava: - Ataquem o perjuro! Ataquem o herege! - foi o suficiente. Um grupo de desocupados investiu contra mim e me pôs em fuga sob uma chuva de golpes e pedradas.

Enquanto corria ouvia as invectivas: - Atacai o monstro! Atacai o malvado! Matai ao assassino! Atacai-o e matai-o! É um lúbrico e um vilão e matou seu próprio pai! Parricida! Parricida! - as coisas estavam fora de controle. Em poucos minutos boato daninho havia se espalhado e agora eu era um parricida. Já me via pendurado à forca. Corri em busca do meu amigo. 

Este não tivera melhor sorte. Insistindo com um mendigo que deveria dar-lhe todo o seu dinheiro para as Cruzadas, enfureceu-se quando este o agrediu com gesto chulo.  Ato contínuo atirou-se à goela do patife e tentava meter as mãos em seus bolsos para se apoderar de tudo o que pudesse.



O miserável mendigo, vendo-se a ponto de perder suas parcas moedas valeu-se do povo: - Atacai-o, ó meus! Atacai-o! Eis que tenta roubar os vinténs de um pobre e todo pobre é um santo, como dizem as Escrituras! - as pessoas então atentaram àquela mesquinha contenda e moeram de pau o meu amigo.


Corremos então de uma praça à outra. Ele de lá e eu de cá, e nos encontramos no meio do caminho. A gendarmeria fazia a sua ronda e fomos capturados. E agora estamos aqui, nesta infecta prisão. Creio que em breve seremos levados ao juiz.
(Continua)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Wanda Jackson - Let's Have a Party

Wanda Jackson - Thunder On The Mountain

Capa do Correio: síntese perfeita da guerra no trânsito. O jornalismo impresso, com seu potencial de enunciação, que é processo, ação que envolve competência declaratória e habilidade de empatia, garante ao impresso seu estatuto de artefato comunicacional pleno de possibilidades interpretativas e representativas.

As mãos do mestre


Conheci, isso há muitos anos, um titereteiro chamado Zé Relampo - não sei se ainda é vivo. Titereteiro é o artista popular que trata com títeres, ou, mais claramente,
é o brincador de joão-redondo. Pois bem,
Zé Relampo, que me foi apresentado pelo
professor e folclorista Deífilo Gurgel,
era um grande mestre na arte do teatro de bonecos.

Acompanhado por um fotógrafo, isso no já distante
ano de 1974, cheguei à casinha de Zé Relampo, num
bairro periférico de Natal, sequer me lembro aonde.
Era manhã. A matéria abordaria exatamente a
criatividade da arte dos bonecos, sua função social,
sua crítica ferina aos poderosos, a representação
emblemática de cada um dos bonecos. A matéria foi publicada no O Poti.

Por trás da empenada Zé Relampo ia levantando seus
tipos para a ação do fotógrafo, enquanto eu anotava
os aspectos mais representativos da encenação.
Fiz a matéria, redigi o texto. O tempo passou e perdi Relampo de vista.

Anos, muitos anos depois, reencontrei Zé Relampo.
Mais velho, quem sabe mais pobre, quem sabe mais artista, uma vez que o sofrimento atiça,
aguça e aumenta a sensibilidade. Estava em sérias
dificuldades financeiras, há tempos sem fazer
uma brincadeira para ganhar dinheiro.

Explica-se: ele trabalhava muito para entidades
oficiais, ligadas à cultura ou ao ensino. E há tempos
não havia um só convite. Dei um jeito de mobilizar
alguns amigos e conseguimos o dinheirinho que
ele precisava. Cerca de 15 dias depois, eis que me
aparece o mestre titereteiro. E vinha com um presente:
esculpida em madeira própria para a criação de
personagens de joão-redondo a cabeça de um negro,
bem ao estilo popular, ao mesmo tempo grosseiro e expressivo.

Foram as mãos humildes do mestre, agradecendo
pela pequena ajuda. Ainda hoje esse negro está comigo,
em meu escritório, pertinho do computador.
Mas Zé Relampo nunca mais. Sumiu, como os
relâmpagos, que desaparecem depois que a chuva passa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Bens a penhora

Quando o oficial de justiça chegou àquela casa para executar mandado de bens a penhora encontrou tristezas. O devedor havia morrido na noite anterior e seu corpo jazia no caixão, centro da sala. Cumpridor, o zeloso funcionário não recuou: apresentou-se à viúva e exigiu a entrega de um bem pela dívida de dois mil reais. Em desespero a mulher disse que não tinha o que dar, lembrando que se o marido devia ao Estado era exatamente por não ter dinheiro.

Mas o oficial de justiça não se deu por vencido. Queria levar qualquer coisa, mas tudo que pedia a mulher dizia que era coisa essencial à família: geladeira, rádio, toca-discos, TV, camas, roupas. Nisso, o homem, para não sair sem levar nada, pediu o caixão onde estava o morto. Afinal, ninguém ali precisaria daquele utensílio. Pelo menos era o que se supunha.

Aí, um sobrinho atalhou: pega o caixão mas tem de levar o morto junto. Negócio sério: leva o caixão ganha o defunto como bônus. O oficial de justiça recusou, dizendo que aquilo era transferência de ônus ao Estado, de acordo com a lei nº 899. 88678777.88789,78787999.9990.998.776353444.6968688.9898900?99, uma das mais severas e respeitáveis leis do mundo. Mas o sobrinho insistia: pega o bem, paga bem. Pagar bem, no caso, representava levar o corpo, claro. Formou-se grande alarido e a família gritava: - Le-va! Le-va! Le-va!

Nisso, um vizinho se aproximou da confusão e cochichou alguma coisa no ouvido do oficial de justiça. Em menos de um minuto ele pôs o caixão nas costas e já ia fazer carreira com defunto e tudo, quando o vizinho disse a um dos familiares do morto: - Ele vai ficar rico - e começou a rir. Perguntaram por que ria e respondeu que havia indicado ao funcionário da justiça o endereço de um sujeito que praticava vudu e pagava bem por um corpo em bom estado.

Foi o suficiente para que a família, aos gritos, partisse atrás do oficial de justiça que foi agarrado, já na esquina, chamando um táxi. Ele soltou o caixão e atracou-se com a viúva que gritava: - Roubando morto dos outros, rapaz?!! Está louco?!! Onde já se viu isso?!!

O oficial reagia: - O morto é meu! Veio de bônus! Além disso, ele vai ser um bom zumbi e pode até fazer carreira em filmes de terror. Dizem que zumbi ganha muito bem, viu? Não quer um bom futuro para o seu marido que lutou tanto na vida? Deixe ele comigo. Depois, pode assistir aos filmes dele. E de graça, que família, nesses casos, tem a preferência!

Enquanto isso os filhos e o sobrinho do falecido corriam a recolocá-lo no caixão. Acontece que o homem do vudu estava por perto. Ele sabia de todas as mortes da cidade e sempre acorria aos enterros querendo negociar com a família. Por bons preços, óbvio. Mas como havia chegado atrasado e aquele escândalo já estava parando o trânsito, não seria bom para os negócios falar em dinheiro, dado o alto nível de exaltação da mulher e dos filhos, além da presença de testemunhas - muitas, por sinal.

Resolveu então agir como se fosse um bondoso homem de religião. Aos gritos de "acalmai-vos, ó meus filhos!", aproximou-se e disse que levaria o corpo para "um bom lugar". Todos caíram na emboscada e acataram brandamente aquele tratante. Quando ele saiu, entretanto, recomeçou a luta da mulher contra o oficial de justiça. Ela e o funcionário, refeitos do logro e percebendo que haviam sido enganados passaram a berrar: - Quero meu morto! Você me fez perder o meu morto!

Distanciando-se da briga, o homem do vudu afinal chegou à sua casa e, num quarto escuro, largou o corpo e o caixão. O problema é que o homem morto na verdade estava em transe cataléptico, voltando a si quando o voduísta entrava no quarto. Foi um susto enorme para os dois: o homem por saber-se tido como morto, o voduísta por encontrar seu zumbi pronto antes mesmo do cerimonial. 

Cada um correu para um lado. O sujeito do vudu perdeu-se na noite, o homem foi para casa. A família, ali, lamentava o prejuízo: - Já pensou, perdemos um bom lucro. E ainda tinha os filmes de terror, já pensou?

O homem não entendia nada. Estava escondido ao lado da casa e esperava um bom momento para entrar. Sem entender as coisas ficou ouvindo tudo. Quando percebeu que havia sido vítima de uma negociata resolveu se vingar: deixou os olhos entreabertos, estirou os braços e entrou em casa como um sonâmbulo de filme classe B. Nesse momento faltou luz. Alguém chegou com uma vela e viu a cena: o sujeito andando aos tropeções, olhar envidrado.

Alguém foi chamar a viúva: - Mulher, seu marido enviveceu! Corre!

A mulher veio correndo. Quando viu o marido teve um ataque a morreu ali mesmo. Aí volta o homem do vudu e diz: - Agora nós: vamos fazer negócio?
Pequeno até fisicamente

A morte do minúsculo Kim Jong-il funcionou para mim como a metáfora viva do poderoso abominável. Pequeno até fisicamente, aquele ser humano encarnava o ridículo trágico do poder; aquele poder que em seu exercício, pela mistificação, permite a transformação do poderoso em mito.
http://www.google.com.br/imgres?q=kim+jong+il+coreia+generais+fotos

Achava esquisito quando aquela figurinha aparecia. Como se fosse um duende amendoado, cercado de generais bem mais velhos que ele, Kim dava adeusinhos a multidões previamente adestradas à sua adoração. Curvados ao peso de uma miríade de medalhas apensas em suas roupas os generais rebrilhavam. O povo aplaudia.

Pelo adestramento, as pessoas pareciam sinceramente ligadas àquele que regia suas vidas, pois o sistema político da Coreia do Norte é de um orwellianismo impressionante, demencial. E o povo era ensinado a amar aquele Grande Irmão.

Nos últimos dias têm passado matérias na TV, como decorrência da morte do ditador. Já observou como marcham as tropas? Ficam entre o ridículo e o grotesto. A marcialidade robotizada lembra-me bonequinhos mecânicos. Para mim isso é a representação de como aquelas mentes funcionam: as coisas são o que o Partido diz que são.

Na verdade quero deplorar o Poder como instância de auto-preservação, posse do poderoso. No Ocidente temos uma manifestação de potestade diversa, mas habilidosa: pelo veio da ideologia vivida sem imposição aparente as pessoas seguem um mesmo caudal e cumprem normas que vão do consumismo à idolatria a um jogador de futebol. E isso é muito político. Quer dizer, de alguma forma, temos os nossos kins...

domingo, 18 de dezembro de 2011

 Monumentos de lembrança, pessoas-estuário

http://www.google.com.br/imgres?q=joaosinho+trinta&hl
As coisas de jornal da Folha registram a morte de Joãosinho Trinta, Sérgio Brito e Cesárea Évora. Três perfis criativos, pessoas essenciais, saudades que se alongarão como lâminas no azul.
http://www.google.com.br/imgres

É como se de repente o dia se tivesse feito de cinzento e houvesse nuvens pesadas no ar, nuvens chegando ao chão, quase, e se transformando em brumas, pesadelo. 
Há pessoas que são história e estuário. É o caso.

http://www.google.com.br/imgres?q=c+esarea+evora&h
Eles e se fizeram música, carnaval, teatro e vida e agora se transformam em monumentos de lembrança. Invisíveis e eternos.
No registro do jornal biografias terminais em poucas palavras:

Morreu na manhã de ontem, aos 88 anos, o ator e diretor Sergio Britto. Ele estava internado no hospital Copa D'Or, no Rio, havia um mês. Segundo nota do hospital, sua morte foi causada por insuficiência respiratória aguda. O sobrinho dele, Paulo Brito, disse à Folha que o rim do ator não funcionava mais.
 
O carnavalesco Joãosinho Trinta, 78, morreu ontem em São Luís (MA), sua cidade natal. Polêmico, criativo e fiel à máxima de que "Pobre não gosta de pobreza, gosta de luxo", o maranhense foi um dos principais responsáveis por modernizar o Carnaval do Rio.Ele estava no UDI Hospital desde o dia 3. Segundo o hospital, morreu às 10h (11h de Brasília) em decorrência de choque séptico (infecção generalizada), causado por uma série de problemas, como pneumonia e infecção urinária. 
 
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Raios do amanhecer
--- Walter Medeiros


Guardei os raios de cada amanhecer,
Mesmo aqueles das manhãs mais nubladas,
Aqueles das manhãs mais chuvosas,
E os que não aplacaram o meu frio.

Eles pareciam comigo, a cada dia.
Nuns dias brilhavam feito centelhas.
N’outros apenas anunciavam o dia.
Uns eram mesmo parceiros da escuridão.

Lembro dos que realçavam minhas flores,
Dos que me traziam imenso calor,
Os que até aumentavam minhas dores,
Mas todos guardei com o maior amor.

Oh! Raios da manhã de minha infância...
Raios da vida aventureira e destemida,
Raios que agora aplacam minha ânsia,
Raios tantos, que guardo pela vida.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Poema para Bagdá 
(1/30 - Março/2003)

Madrugada em Bagdá

--- Walter Medeiros


Naquelas ruas passaram
Homens, deuses, peregrinos,
Os mais diversos destinos,
Até os que lhe assaltaram.

Naquelas ruas viveram
Sonhos da humanidade;
Lutas pela liberdade,
Que agora inverteram.

Naquelas ruas caíram
As bombas imperiais;
Descabidas, ilegais,
Que o mundo não ouviram.

Naquelas ruas tombaram
As crianças indefesas;
O povo, a fácil presa,
Para os que usurparam.

Naquelas ruas ficaram
Sonhos do meu coração;
Com pranto e emoção,
Que nem as bombas mataram.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Entrevista feita por mim com a ajuda do Professor Deífilo Gurgel, em 1975

"Vou entrando neste ornó"


O que é isso, Sr. Sarnoff?
Que bruxaria é essa?”
(Assis Chateaubriand vendo, nos EUA, experiências de TV em cores, anos 50)

Uma velha empregada dos meus idos de menino costumava me cantar uma canção folclórica, com os seguintes e estranhos versos:

Vou entrando neste ornó
Não venho fazer mal
 

Venho arregatar a meu filho
Que está preso neste ornó...
 

Meu filho é moura, 'stá batizado
Já 'stá na lei da cristiandade... (bis)

E repetia aquela esquisita música: que o filho do personagem era “moura”, “estava batizado” e, santamente, “na lei da cristiandade”. O que queriam dizer aqueles versos? Qual seu sentido? A poética, eminentemente despojada, escovada de qualquer enfeite estético convencional, sequer tinha rimas. Mas, se eu conseguisse cifrar musicalmente essa letra e você soubesse ler pauta musical, veria como havia força, raiz, virtuose telúrica naquela exótica composição. Uma cantilena, uma oração. 

Pois bem, jamais esqueci aquela música, apesar de sequer imaginar qual o seu verdadeiro sentido.

Mas, veja só como são as coisas: certa feita fui, na companhia do folclorista Deífilo Gurgel a um bairro popular, na periferia, para entrevistar Zé Relampo, artista genial que, se vivo ainda for, dá espetáculos maravilhosos com bonecos de joão-redondo. Era o ano de 1975. A entrevista era para o Módulo III, um caderno especial, dominical, que então o Poti, edição dominical do Diário de Natal, publicava.

Antes de chegarmos à casa de Relampo, me vem à memória a velha canção folclórica, coisa do Amazonas ou arredores e vi que ali poderia estar a solução: Deífilo, como estudioso do assunto, poderia ser o decifrador daquele antigo  mistério de um menino que, agora jornalista, já pouco acreditava em lendas e dava passos rápidos para duvidar de tudo.

Cantei a Deífilo a canção - que ele jamais tinha ouvido - ele a achou interessante e, num minuto - para você ver o que é tratar de um assunto com um especialista - ele decifrou o mistério.

Explicou: aquilo era um romance, um tipo de literatura oral. E mais: “ornó”, era uma corruptela de “nau”, as naus portuguesas, que cruzavam os mares, dominando o mundo. “Arregatar”, nada mais era do que “resgatar”, salvar, livrar quem estivesse preso. E “moura”, era nada mais nada menos que “mouro”, o árabe, o infiel, que dominava a Terra Santa.


Daí, o motivo da composição: se o filho do cantor era “moura, mas já estava batizado”, não, realmente não, jamais poderia ficar preso no “ornó”, uma vez que já estava convertido aos princípios da Igreja. Faz sentido, faz sentido... Faz sentido, mas demonstra uma relação de dominação cultural, imposição de poderio injusto. No fundo, a canção revela uma perda de identidade, em função da força vinda de fora e que nos leva sempre a um ornó que não desejamos.

Para mim, foi como um achado, uma alegria, um reencontro e um estímulo a fazer com o meu maior entusiasmo de foca a matéria com Zé Relampo. E ainda hoje, em horas vazias, às vezes quando teclo estes textos noturnamente para enviar ao Coisas de Jornal, pareço ouvir:
Vou entrando neste ornó, não venho fazer mal...


E eu, que continuo mouro, sinto-me ausente da minha própria, simples e esquecida canção vinda dos moradores do Norte. Mas espero, algum dia, ser arregatado deste ornó...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

De como eu fui preso no meio do catimbó ou o representante das almas

No ano de 1930 morava eu na Pensão Calango, na verdade Hotel Hospedaria S. Francisco das Boas Almas, mas que, dadas as suas modestas acomodações, havia recebido dos seus ocupantes aquele título, bastante elucidativo. Ali se arranchavam estudantes como eu, caixeiros-viajantes, ocasionais visitantes da cidade e, algumas vezes, indivíduos de trato furtivo, devo supor fugitivos e que tais.

Pois bem, dentre esses tipos eis que nos chega um que se apresentou como "alta autoridade em coisas místicas". Era um tipo alto, magro, branco de cabelos avermelhados e crespos. Os olhos muito pretos completavam a figura. Levemente encurvado, era de poucas palavras e recebia pessoas que iam "pedir conselhos". Quando isso acontecia ele fechava a porta do quarto a chave e se ouviam cantorias e loas numa língua estranha. Algumas vezes gritos horrendos, guinchos cortavam os ares e então silêncio total . Pouco depois o consulente saía dizendo "está bem. Agora está tudo bem."

Certa noite cheguei tarde das aulas. O quarto do tal sujeito ficava nos fundos do quintal da hospedaria e para lá me dirigi ao ouvir chorosa ladainha que aos poucos se transformou em um batecum pesado, em meio a grande falariço que virou cantar forte e rápido. Aprorimei-me da janela lateral e, pela fresta, vi a seguinte cena: o tipo estava entonado numa capa preta que lhe chegava aos pés e tinha acendido uma fogueira no meio do quarto. A seu redor uma ciranda de mulheres dançava um samba de doido.
Ao fundo sentava-se um homem que gritava: "Ele vai chegar? Ele vai chegar?" 

E aquele círculo de dementes respondia:"Ele vai chegar! Ele vai chegar!", e continuava a dança. O da capa preta dava voltas rápidas e fortes fazendo o manto abrir-se, o que lhe dava poderosa aparência de taumaturgo do além.Continuemos: para melhor ver a cena, subi ao telhado do quarto, fastei umas telhas e de lá continuei a acompanhar o amalucado espetáculo. 

Para completar, um amigo meu, colega de hospedaria, também fora atraído por aquela loucura, e ao ver-me encarapitado correu para perto de mim e ficou a meu lado. Perguntou: "O que diabo é isso?, e eu espondi: "Só Deus sabe o que diabo é isso. É negócio de doido."

Nesse instante o homem, lá embaixo, insistiu: "Ele vai chegar? Ele vai chegar?", ao que turma toda respondia: "Sim! Ele vai chegar!, e o homem retornava: "E vai trazer o dinheiro? Vai trazer o dinheiro?!"
E todos, no mesmo tom, garantiam: "Vai trazer o dinheiro!"

Aí, aconteceu outra loucura: as mulheres se apoderaram de latas cheias de água e jogavam no sujeito, dizendo: "Toma este banho de salvação! Fica limpo que a fortuna vem!". Encharcado, o pobre começou a dar saltos enormes e se dizia forte e poderoso e berrava: "Agora que ele chegue e traga o meu dinheiro! Estas santas orações vão me fazer ficar rico!"

Então o mestre daquela cantilena apoderou-se de uma chibata e passou a surrar o infeliz que gritou: "O que diabo é isso? Pelo amor de Deus, o que diabo é isso?", enquanto a chibata ligeira o açoitava. O mestre respondeu que aquilo era a "limpeza" da alma. "A surra divina retira o pecado!" e lepo no lombo do coitado, que se desesperava: "Ele vai chegar? Ele vai chegar? Quero que chegue com o meu dinheiro!"

Nesse momento meu amigo se mexeu. Foi o suficiente: as telhas se deslocaram, um caibro cedeu, outro também, um terceiro escorregou e o telhado veio abaixo. Caímos bem no meio da bagaceira. O feiticeiro gritou: "Pronto! Ele chegou e veio logo dois. Veio logo dois, tá vendo?!" Diante disso o homem surrado não se fez de rogado e atirou-se ao meu pescoço perguntando "onde estava o dinheiro". Queria saber se eu "era o representante das almas" e como iria ajudá-lo a sair da falência de sua bodega.

De nada adiantava negar. O homem continuava sua inquirição e partia para cima de mim e do meu amigo. O mestre gargalhava alto e sua ciranda de mulheres loucas dançava sem parar. Nessa luta, a fogueira cresceu e tomou conta do quarto. Todo o Hotel Hospedaria S. Francisco já estava desperto e correu para ver aquela cena de alucinados.  O corre-corre e o falariço tomavam conta de tudo. As chamas se espalhavam e assumiam proporções enormes e o homem lá: "Você é o representante? Se é o representante, onde está o dinheiro?" Cadê o dinheiro que Deus mandou, fila da puta?"

O dono da pensão e os moradores, vendo isso, partiram para cima de mim, do meu amigo e dos desmiolados, gritando: "Bando de catimbozeiros! Bando de catimbozeiros! Arreia o pau no lombo deles! Arreia o pau!" 

E o pau cantou. Uma velhinha, empunhando uma cruz e uma enorme vela, como se já não bastasse tanto fogo, cantava:

"Queremos Deus, homens ingratos
"Ao Pai supremo, ao redentor
"Zombam da fé os insensatos
"Erguem-se em vão contra o Senhor
"Dá nossa fé, oh! Virgem, o brado abençoai
"Queremos Deus que é nosso Rei
"Queremos Deus que é nosso Pai"

Para atiçar ainda mais a assembléia de dementes aconteceu o seguinte: nas imediações morava um padre que sofria de insônia. Quando ouviu toda aquela lamúria, cantilenas, loas e proclamas alucinados, veio ver o que era. Percebendo que o louco se atirava ao meu pescoço correu para me ajudar, gritando: "Em nome de Deus para com isso!" E dizia: "Irmãos, vamos rezar em outro credo. Abaixo o catimbó!" Mas deu tudo errado. As pessoas pensaram que o padre fazia parte do magote e meteram-lhe: "O pade está chamando Deus para perto do Cão!", urravam. No meio da confusão o mestre de todo aquele pandemônio se evadiu, bradando: "Taí! Isso é a paga por terem prejudicado os trabalhos!" E sumiu.

Para encerrar: o comerciante foi dominado e eu posto a ferros. O padre também foi preso. Meu amigo conseguiu escapulir. Logo depois a polícia chegava e fomos parar na delegacia.  Lá, o delegado, já quase umas duas horas da manhã, virou-se para mim e disse:"Bota todo mundo no xilindró. Especialmente esses dois: o padre, que é padre catimbozeiro e esse aí, que é o secretário do Cão".

O "esse aí" era eu, e somente então fui perceber: no meio da desordem a capa preta tinha ficado presa ao meu pesçoco e eu estava vestido de secretário do Cão: dos pés à cabeça. Passei bem uns dez dias preso, só comendo pão e água, até que um tio meu foi me soltar. Quando me viu em estado tão lamentável, disse: "Que vergonha, meu filho, que vergonha para a família. Além da cachaça, agora deu pra catimbó..."

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Minha neta virou um camarão
--- Walter Medeiros
– waltermedeiros@supercabo.com.br

O Teatro Alberto Maranhão lotado, domingo, começo da noite, mostrava “Uma História no Fundo do Mar”. No salão do Palácio de Poseidon, Deus dos Mares, o ballet das Pérolas encanta a todos, principalmente Seida, filha de Poseidon. Ela é uma princesinha que adora dançar com todos os seres do mar: camarões, cavalos-marinhos, estrelas, algas e com suas queridas amigas sereias. Aí aparecem problemas, que repercutem, preocupam, mobilizam, são finalmente resolvidos, e a paz e a tranqüilidade voltam a reinar no fundo do mar.

Belo resultado do trabalho da Escola de Ballet Maria Cardoso que, segundo quem bem conhece, zela pelo trabalho técnico e artístico dos alunos. São aulas práticas e teóricas de ballet clássico, aulas de alongamento, aulas teóricas de anatomia-fisiologia e nutrição, que atendem qualificada clientela. Uma grade de níveis composta por baby-class, iniciação, preparatórios, básicos, intermediário, avançado e ballet adulto, findou toda naquela aventura marinha. 

Era uma espécie de fantasia real, materializando um método humano que preza primordialmente pela amizade e respeito entre todos os participantes da Escola - mães, pais, alunos, professores e funcionários. É o que corre no meio do ballet clássico em Natal, onde a diretora geral Maria Cardoso é considerada um exemplo de profissional a ser seguido, pela sua criatividade e pelo trabalho que desenvolve. 

No meio da fantasia, lá estava eu assistindo embevecido o carinho de todas aquelas bailarinas, que passam, sobem, dançam e envolvem seus corpos de pérola, ouro, água marinha, em cenário tão belo, onde flutuam ao som das notas sentidas e fortes da música clássica. Os braços elegantes contornam o espaço, desenhando círculos e outras formas, as mais belas que alguém já viu. A beleza da dança é por demais potente e deixa extasiados centenas de corações felizes.
Cheio de emoção, fixamos nos olhos belos de Nicole, que olha para a multidão e nem me vê. Mas ali estava vivendo belo momento e o guardando na memória. Era o ápice do espetáculo e, ao seu redor, brilhavam apoteoticamente, como Joia, a
primeira Bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Cláudia Mota e como Guardião do Tesouro o primeiro bailarino solista Edifranc Alves. 

Tudo em meio a pérolas, camarões, cavalos marinhos, peixes, algas, ouriços e estrelas do mar. Nicole é a nossa neta; em meio a tudo isso, ela foi transformada em um belo camarão. A outra neta, Letícia, de um ano e meio, estava na platéia e já queria que aquele espetáculo, formado por mais de sessenta bailarinos, demorasse mais. Ou seja: minha agenda vai ter muito ballet pela frente.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"O delegado sou eu"

Eu o vi duas ou três vezes: bêbado, mirrado, bracinho fino erguido e indicador apontado para o alto, bradando uma inútil advertência: "O delegado sou eu! O delegado sou eu!" Ninguém contestava, até porque nele ninguém prestava atenção, a não ser eu; não sei se perplexo ou estranhamente fascinado com aquela cena que oscilava entre o ridículo e o comovente.

Corriam os anos 60, e da minha casa eu o via seguir ladeira abaixo, Rua Princesa Isabel, centro de Natal. Ele passava na calçada do outro lado da rua e seus gestos hoje me lembram um Carlitos torto e anônimo, um brasileiro pobre que se dizia autoridade.

Não sei mas, na época, bem que eu poderia tê-lo presenteado - meninos, se você não sabe, podem tudo - com uma linda viatura policial que naqueles tempos eram chamadas de "tintureiras", para ele fazer valer sua disposição de Quixote e prender todo mundo. A tintureira seria toda pintada em preto e branco, e Delegado poderia cumprir mandados, fazer flagrantes, capturar os maus. 

E mais: eu poderia pedir ajuda aos meus amigos Zorro e Tonto, Billy the Kid, Kit Karson, Roy Rogers, o Fantasma, Búfalo Bill, Águia Negra, Falcão Negro, Daniel Boone, Dom Chicote, Cavaleiro Negro, Kid Colt e, claro, Jerônimo, Aninha e Moleque Saci. Se a coisa ficasse muito feia poderia chamar o Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda e mais: El Cid, o imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan também poderiam vir.

Eles eram invencíveis e jamais se negariam a me ajudar e ao Delegado. Eu daria a ele um dos meus revólveres de plástico, quem sabe até mesmo um de metal, o mais bonito, o que disparava espoletas. 

Com essas armas eu mesmo prendi muitos bandidos que habitavam esconderijos que somenete eu conhecia. Eu tinha até uma estrela de xerife, ganha numa promoção da Toddy chamada Patrulheiros Toddy. Eu era um Patrulheiro Toddy e bem poderia ter ajudado ao Delegado. E eu não fiz nada. Não chamei os caubóis meus amigos, nem os grandes espadachins, não lhe dei a tintureira, não lhe dei meu revólver, não saí galopando a seu lado rua abaixo. Nada, nada, nada; somente o vi passar, tão desamparado, maltrapilho e tão bêbado, um pobre brasileiro e se perder na pesada ladeira da Princesa Isabel.
E ele se dizia o delegado. É porque ele só queria respeito. Porque tinha a autoridade de ser povo, pobre e embriagado. 

Depois eu o vi duas ou três vezes. Então, nunca mais reencontrei o Delegado. E acho, somente hoje descobri, que ele também era meu amigo, e tão corajoso e firme como Jerônimo ou Zorro. Afinal, eun e o Delegado vivíamos em mundos paralelos, universos imaginários e queríamos ajudar, prendendo bandidos. Naquele tempo além de querer prender bandidos, eu tinha outra paixão: queria ser arqueólogo, pensava em ir ao Egito e fazer grandes descobertas.  

Hoje penso no meu amigo Delegado, reduzido a uma réstia de lembrança. E agora me vem, não sem um certo temor e uma fisgada de angústia: acho que quando ergo minha voz nestes textos de internet também estou descendo alguma ladeira e grito como o louco sublime: "O delegado sou eu! O delegado sou eu!"


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Recebo e divulgo:

Professor Marques de Melo agraciado com a Ordem do Mérito dos Palmares

O Governador Teotônio Vilela Filho anunciou, no dia 21 de novembro de 2011, no Palácio dos Martírios, em Maceió,  a outorga da Ordem do Mérito dos Palmares ao professor José Marques de Melo pela sua contribuição para o desenvolvimento da sociedade brasileira. A comenda é atribuida anualmente pelo Estado de Alagoas a 10 personalidades que fizeram “diferença”, utilizando uma “importante ferramenta para transformar a sociedade”. 

A lista dos homenageados neste ano inclui intelectuais como o historiador Moacir Medeiros de Sant´Ana, a escritora Solange Chalita e o jornalista Enio Lins, os engenheiros José Carlos Lyra e José Roberto Fonseca, o político João Evangelista Tenório e a mãe de santo Maria Celestina da Silva, entre outros.

Alagoano nascido em Palmeira dos Índios, mas criado em Santana do Ipanema, José Marques de Melo pertence ao quadro acadêmico da Universidade de São Paulo, onde co-fundou a Escola de Comunicações e Artes, ali fazendo sua carreira docente e científica. É autor de meia centena de livros sobre jornalismo e comunicação, que circulam em universidades brasileiras e latino-americanas. Dirige atualmente a Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação e presidente a Federação Brasileira das Sociedades Científicas e Associações Acadêmicas de Comunicação.

Escolhido como Personalidade da Comunicação no ano 2011 pela comunidade da área reunida em congresso nacional (Mega-Brasil), recebeu anteriormente a Medalha Rui Barbosa (Ministério da Cultura), o Prêmio Wayne Danielson de Ciências da Comunicação (Universidade do Texas, EUA), o Prêmio Ibero-americano de Teoria da Comunicação (Universidade de Oviedo, Espanha), o Prêmio Adelmo Genro de Jornalismo (SBPJOR) e o Prêmio Comunicador da Paz (Organizações Católicas Internacionais de Comunicação).


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um bom emprego num buraco federal

Um amigo me liga para informar que ganhou um novo emprego: está, garantiu alegríssimo, trabalhando num buraco. Disse que trabalhar em buracos é a nova onda e o mais alentado sonho de desocupados e apadrinhados de políticos e que tais. A relevância de tal ofício, disse, é que os buracos têm também status. "Têm status?", perguntei. E ele, empafiado, garante: "Sim!" 
http://www.google.com.br/imgres?q=buracos

E explicou: há o buraco de rua, aquele feito pela chuva, mas é buraco de segunda, não tem futuro; todavia, existe o buraco de estrada, os melhores estão em rodovias federais,  e estes já são buracos de maior tamanho e responsabilidade. Há ainda aqueles enormes, resultantes de pontes rompidas e grandes desastres naturais. Esses são o máximo, pois ali cabem muitos inúteis e assemelhados, magotes deles.

Os buracos maiores têm muitas ligações subterrâneas. Têm nichos climatizados, onde os citados elementos se acomodam para dormitar após almoço e janta. A importância do buraco é que, sendo confortáveis, digo aqueles buracos de primeira, o indivíduo pode dormir por lá mesmo e dia seguinte já está no serviço.

Perguntei a meu amigo como se arranja emprego num buraco e ele me respondeu que é coisa difícil, de grande complicação e altos engenhos, perquirições e encômios. E, com um olhar vago e algo sarcástico, disse, já que eu insinuava saber demais a respeito de tão altas instâncias: "Não é para o seu bico."

Disse isso e meteu-se num buraco federal que ia passando. Sumiu. Dias depois passou novamente pela minha casa e anunciou: "Agora estou trabalhando numa gaveta: cheia de contratos e papéis de cauixa dois. De lá só saio se for para trabalhar, e me aposentar, no escaninho de alguma ONG.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Joan Baez - Gracias a la vida

Deu na Folha

Foto inédita mostra Dilma num interrogatório de 1970

Revista Época/Reprodução

A foto acima exibe Dilma Rousseff no frescor da juventude. Foi clicada em novembro de 1970, na sede da Auditoria Militar do Rio de Janeiro.

Presa pela ditadura, a então guerrilheira Dilma –ou Estela ou Vanda ou Luíza, seus codinomes na clandestinidade— tinha escassos 22 anos.

No momento em que a máquina fotográfica foi acionada, ela estava sendo interrogada. Repare num detalhe: os inquisidores escondem o rosto com a mão.

Deve-se a veiculação da imagem ao repórter Ricardo Amaral. Içou-a das páginas do processo contra Dilma na Justiça Militar. E  acomodou-a num livro que chega às prateleiras no próximos dias.

Chama-se ‘A vida quer Coragem’. Foi impresso pela Editora Primeiro Plano. Contém uma reportagem de fôlego de Amaral. Relata os passos de Dilma da guerrilha até o Planalto.
A foto e trechos da obra foram publicados pela revista ‘Época’, um dos veículos para os quais Amaral já trabalhou.

Os pedaços do livro que tratam de 2010 trazem o relato de olhos que perscrutaram os subterrâneos da campanha petista.
Amaral foi assessor da Casa Civil da Presidência e também da campanha de Dilma. 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Veja só que festa de arromba

Foto: Aldair Dantes, Tribuna do Norte
Natal em carne-viva na esbórnia do Carnatal

Mesmerizados: o pesadelo vem depois do Carnatal
Enquanto uns poucos se divertem com o Carnatal, Natal está em carne-viva: o Auto do Natal foi suspenso por falta de dinheiro da Prefeitura para custear o evento. Para completar, ouvi na Rádio Universitária FM que o funcionalismo municipal está em pé de greve: não foi pago o décimo-terceiro mês, esse abono providencial que ameniza a vida do trabalhador no fim de ano.

Ao que parece vivemos um sonho louco que lembra aquela tela de Salvador Dali, uma que tem por nome a esquisita palavra "Mesmerizado", isto é: enfeitiçado, hipnotizado.

Retraduzindo para o nosso caso: uma alucinação coletiva em que se comemora de alguma forma a entrada de Natal na fase preparatória da esbórnia da Copa do Mundo, se festeja não-sei-o-quê no Carnatal, digo Carne-Viva, e se escarnece do funcionalismo público que não recebera seu dinheiro até hoje de manhã.

Desassizados e  insensatos de todos os matizes reúnem-se para festejar o descalabro pago com o dinheiro público. Pelo menos 1.200 policiais trabalham no Carne-Viva toda noite. São substituídos dia seguinte. Essa tropa falta nas ruas, becos, esquinas e espeluncas. Falta polícia, falta, falta tudo. E o povo no Carne-Viva tem a pipoca para se enganar: gente empilhada atrás de um trio elétrico. Gente que no Carne-Viva nada mais  que carne-seca.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Deu no Globo

Senado aprova PEC que exige diploma em jornalismo



Documento não é obrigatório desde 2009, após decisão do STF sobre sua exigência


BRASÍLIA - O Senado aprovou em primeiro turno nesta quarta-feira, por 65 votos a 7, a proposta de emenda constitucional que exige o diploma em jornalismo para exercer a profissão. A PEC, que tem como relator o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), é de autoria do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), e ainda precisa ser votada em segundo turno no Senado.

A PEC tem parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A votação em plenário teve protesto do líder do DEM, senador Demóstenes Torres (GO). Ele reclamou por não haver acordo de líderes para levar a PEC a voto.

Em junho de 2009, por maioria, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que era inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista. O entendimento foi de que o decreto-lei baixado durante a ditadura, com a exigência do diploma, feria liberdade de imprensa e contrariava o direito à livre manifestação do pensamento
A base de pesquisa Comunicação, Cultura e Mídia fará amanhã o laçamento de e-book com estudos sobre o tema. Participo com o artigo "A Folha de S. Paulo, o Grande Irmão e as Diretas Já", onde analiso como o jornalão dos Frias se tornou hegemônico. Segue o convite para o lançamento.

Convidamos a tod@s para o lançamento do livro 'Comunicação, Linguagem e Inovações Midiáticas' que será realizado nesta quinta-feira, 1º de dezembro, às 17 horas no auditório do Laboratório de Comunicação da UFRN. A publicação, organizada pelos professores Adriano Lopes Gomes e José Zilmar Alves da Costa, reúne artigos de pesquisadores do Grupo de Pesquisa Comunicação, Cultura e Mídia (COMÍDIA).

A obra, editada pela Editora da UFRN, será lançada no formato de e-book e já está disponível para download em www.comidiaufrn.blogspot.com

A reconfiguração da comunicação midiática na esfera pública contemporânea vem promovendo uma série de transformações sociais que, de igual modo, possibilita novas reflexões sobre a cultura, a economia, a política e a organização da vida cotidiana. Reconhecer esse novo cenário implica problematizar questões que envolvem os sujeitos e suas relações com o meio. Tal situação particulariza uma realidade que necessita ser investigada sob diversos aspectos em cujo contexto estão os mecanismos de interação entre os atores sociais e a mídia, do ponto de vista da produção de sentido e das práticas sociais. 

Foi pensando assim que a base de pesquisa Comunicação, Cultura e Mídia gerou vários temas epistemológicos para compreender este novo fenômeno social, reunidos em três eixos: a comunicação, a linguagem e as inovações midiáticas.

Esta é a segunda publicação do nosso grupo, porém com a perspectiva que, inclusive, norteia o presente trabalho: um livro eletrônico, que possibilitará o maior acesso aos artigos que aqui estão elencados, na perspectiva da democracia do conhecimento. O livro reúne trabalhos de professores-pesquisadores e alunos de pós-graduação em níveis de mestrado e doutorado, os quais se utilizam dos estudos culturais, da economia política da mídia, da etnometodologia e da análise do discurso como métodos de investigação.

A COMÍDIA funciona desde 2003 e tem como principal compromisso desenvolver estudos e pesquisas sobre a comunicação midiática e suas interfaces com a cultura, cujos frutos se refletem em suas várias iniciativas de natureza científica, tais como: realização de seminários, conferências, colóquios, fomento à iniciação científica, produção de artigos e publicação de livros.
Acreditamos que estamos cumprindo o nosso papel de pesquisadores, com vistas ao engajamento do grupo à comunidade científica.

Adriano Lopes Gomes e José Zilmar Alves da Costa, organizadores
Música no Natal

Walter Medeiros* 
 
A proximidade dos festejos natalinos, que sempre gera algo contagiante e envolvente, realçando a felicidade, a bondade, a ternura, simpatia, amor e tantos outros sentimentos bons, mundo afora, sempre aguçou minha atenção. Quando criança, lembro dos presentes que ganhei; não foram tantos, mas todos foram muito valiosos: do dominó verde trazido pela minha prima Socorrinho, ao Gordini azul presenteado pela minha irmã Clemilda, e o dinheiro que meu irmão Wellington dava para eu comprar o que quisesse e aproveitava para gastar na Livraria Moderna.

Guardo na mente também as vitrines da Cidade Alta, que nos anos 70 e seguintes atraiam a freguesia com aqueles motivos de recursos propagandísticos ainda parcos, mas da melhor qualidade. Assim encontrávamos objetos para realizar sonhos no Magazin Jóia, de Auta Vieira e irmãos; na Galeria do Barão do Rio Branco; na Lobrás; Americanas, enquanto não chegava a nova dimensão do comércio de Natal, através do Hiper Bom Preço, Carrefour e shoppings. Até a chegada dessas grandes estruturas, tudo que se tinha para momentos com a família na cidade eram as lanchonetes e a Casa da Maçã. Só depois é que surgiram as pizzarias.

Em meio a esse clima natalino, que começou faz tempo, vou olhar as vitrines de um grande shopping, em busca de alguma novidade que justifique novo entusiasmo. E encontro. Numa prateleira ou outra, lá está sempre um objeto que faz brilhar os olhos e toca o coração pela descoberta de algo com a impressão de que quem o receber de presente irá vibrar e valorizar.  Ou aquele objeto que fica bem em algum lugar da casa, para tornar o ambiente mais agradável a quem nos visitar.  No fundo, todos com aquele aspecto de Décimo Terceiro Salário, gratificação natalina que começou com esse nome, depois passou a ser tratada só como “décimo terceiro” e agora já chamam de “décimo”.

Em meio a essa andança, ouço um piano solitário, executando bela música clássica, que me leva para dentro de algum castelo, na Renascença, e aos bailes que embalaram os corações da humanidade através da história. Fico sensibilizado e grato pela feliz escolha do programador do shopping, lembrando inclusive do tempo em que sonhei em ser discotecário da rádio, mas o destino me transformou em repórter. Era uma música daquelas que o popular extraiu do erudito e a transformou em universal. Mas em meio a esta sensação, passa um cidadão com uma impressão diferente, aquela que foi formada no tempo em que a Paixão de Cristo e outros momentos eram embalados pelas músicas clássicas, e exclama: “agora tão tocando música fúnebre, né?”

Nem vi o cidadão, que passou rapidamente, mas suas palavras alteraram completamente a cena. Como acontece muitas vezes as coincidências da vida, poucos passos adiante vejo ninguém menos que o Padre Pedro Ferreira, uma das pessoas mais qualificadas para falar sobre música. Aquele mesmo andar calmo, aquela mesma voz forte de sempre. Aí conto o ocorrido. Com a bagagem imensa de pesquisador e músico, ele esboça aquele sorriso que vai além do homem comum que classifica as músicas. E fala com a grandeza do sacerdote: “veja como são diferentes as percepções”. E ao final roga para que Deus me acompanhe. Como a música é mesmo divina, saí me guardando para ouvir, no Natal, aquela música que conheci através da sua regência no coral da UFRN: “Hallelujah”.
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*Jornalista

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Chuva menina na manhã nascente

Fui acordado por uma chuva menina que resolveu não sei porquê brincar nos telhados de Natal de manhãzinha. Pedi que ela ficasse o dia inteiro e me contasse coisas de nuvens, de pássaros e das travessuras que faz escondendo e atrapalhando o sol quando ele quer enfeitar as praias e as mulheres bonitas, os barcos e as ondas.


http://www.google.com.br/imgres?q=chuva&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-
Mas ela disse que não, que tinha de passar lá do outro lado do Atlântico: compromisso com uma linda praia d´África, onde elefantes e leões às vezes aparecem e se metem na água com estardalhaço.

De lá, linha reta à Europa. Passar em Portugal, ouvir um fado, girar até Londres se misturar com o fog e depois lavar a imponência do Coliseu, Roma. Em seguida... bom , disse que não sabia. Mas ia dar uma volta ao mundo, com certeza, penetrando na escuridão temerária da jângal indiana; tigres, já pensou?


No fim a chuva partiu, mas garantiu-me: qualquer dia volta bem cedo e vem molhar minha grama. Deixou-me uma gota de luz de presente e uma imagem de esplendor no ar.

domingo, 27 de novembro de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Dercy Gonçalves
http://www.google.com.br/imgres?q=derci+gon%C3%A7alves&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-a&hs=3I8&sa=X&rls=org.mozilla:en-US:official&biw=1024&bih=602&tbm=isch&prmd=imvnso

A destruição do Machadão

http://pt.fifa.com/worldcup/news/newsid=1529425/index.html

  "Encha o bucho de gol. Você merece"


Atacado pelos dinossauros de metal o Machadão viu-se em escombros. Pudera. O estádio vivia sua condição de poema de concreto. E, como se sabe, poemas pouco podem contra a brutalidade, a insânia, o ato violento. Sua destruição foi o passo inaugural da intentona da Copa do Mundo. 

Para a consecução do desastre, rios de dinheiro serão atirados no estuário que desemboca no fosso escancarado das despesas com a Arena das Dunas. Arena. Sinistro nome. Arena lembra sofrimento, dor, enfrentamentos brutais. Desde os gladiadores, que em Roma faziam o espetáculo. 

A construção da Arena agora terá início. Farônica. Talvez até se possam invocar as almas avoengas dos desgraçados que ergueram as pirâmides. Para que revivam aqui sem pleno sofrimento. Nosso sol nordestino tem o mesmo calor vulcânico do sol que queimou as costas dos que levantaram as pirâmides, pedra sobre pedra. 
 
O dinheiro que será gasto fará falta à saúde, à educação, à segurança, às estradas, à cultura. Onde houver um problema social aí haverá a ausência dessa fortuna.
Mas infortúnios não faltarão, disso estou certo. E iniciada a Copa, quando derem o primeiro grito de gol, haverá o último suspiro de alguém a quem faltou o remédio, quem sabe até mesmo a esperança de seriedade nos que fazem - e desfazem - a história e o futuro.

Ai, dirá o povo. Calaboca, dirão os poderosos. Encha o bucho de gol, você merece.