sábado, 30 de março de 2019


A toalha maldita que fez um menino virar ladrão

Diário de Natal, um sábado qualquer de 1975. O repórter Pepe dos Santos tinha saído para uma matéria importante do noticiário policial e eu, um foca sem graça, fui mandado a uma delegacia fazer uma matéria, qualquer matéria.
“É só queda de bebo, Barreto. Só pra fechar a ronda”, disse Alexis Gurgel, editor de polícia; barra-pesadíssima, competente até os pés.

“Queda de bebo” era a expressão que significava matéria besta, sem futuro, coisa menor do submundo do crime e da vagabundagem. Eram relatos curtos, publicados na coluna Ronda, sem sequer assinatura.

Peguei o carro e desci. “Descer” queria dizer sair da Avenida Deodoro, onde ficava o Diário, seguir ladeira abaixo e ir parar na Ribeira, a Cidade Baixa. Fui à Roubos e Furtos ou melhor: à Delegacia de Roubos, Furtos e Defraudações. 

Falei com o delegado, ele deixou-me ir à carceragem mas avisou: “Só tem um marginal. E marginal escarradeira”, ou seja: bandido sem moral no crime, ladrão de roupa em varal, lanceiro. Aquele tipo que, aproveitando um descuido, dava um “lance”: metia a mão no que estivesse perto, pegava e corria.

Pois bem: o marginal era um sujeito esguio, pequeno, manhoso. Sentei no chão ao lado da grade, ele contou que tinha dado um azar danado quando furtava nem sei mais o quê, e uma radiopatrulha que passava o metera na chave.

Anotei a lorota e já ia saindo quando ele me chamou: “Quer uma história legal para você fazer munganga no jornal?” Eu disse que sim e ele contou o seguinte:
“Quando eu era menino minha mãe tinha o maior medo do mundo que eu virasse ladrão. Ela já tinha notado que eu andava perto da casa de dois velhos, um casal, e olhando muito pelas janelas. Notou minha intenção e avisou:  ’Não se meta com eles que eles são catimbozeiros. Se pegarem você comem seu figo.’
Fiquei com um medo danado e por uns tempos não cheguei perto dos velhos.”

E continuou:“Mas, um dia, notando que há tempos eles não apareciam na porta da casa criei coragem e entrei lá. Invadi a casa dos velhos. Era uma casa escura, feia por dentro, e saí batendo pelos escuros. Senti um cheiro ruim e pensei: ‘Tão fazendo catimbó.’ Segui no rumo da catinga e entrei no quarto dos velhos. E aí tive uma visage, a coisa pior do mundo. Tavam lá os dois. Tavam deitados na cama, um do lado do outro. Cheguei mais perto e vi que estavam mortos. Dei um pulo e saí correndo feito um doido.”

“Somente parei em casa, o coração quase saindo pela boca. Minha mãe perguntou o que tinha havido e eu disse que tinha ido na casa dos velhos e eles tavam fazendo catimbó. Minha não disse: ‘Tá vendo?’, e completou: ‘E o que você tá fazendo com essa toalha enrolada no pescoço?’”

“Somente aí notei que, na carreira em que tinha vindo, uma toalha do varal da casa dos velhos tinha se enrolado no meu pescoço. Acho que foi mesmo  catimbó. Aquela toalha me fez virar ladrão.”

Foi a única e miserável história que apurei naquele sábado. Voltei à redação;  não quiseram publicar. Caíram na gargalhada e eu fiquei ali, parado, meio tonto. 

Hoje lembrei desse caso. E sabe que era mesmo uma boa matéria? A toalha maldita que fez um menino virar ladrão. E agora, vendo os ladrões de gravata, penso: será que eles também não eram meninos que queriam roubar coisas em casa de velhos catimbozeiros? Acho que eram, eram sim: meninos ladrões com toalhas enroladas no pescoço; hoje respeitáveis políticos e ladrões.



sexta-feira, 29 de março de 2019


You can’t always get what you want

O título desta crônica foi tirado de composição dos Rolling Stones. Em tradução livre quer dizer mais ou menos que você não pode ter tudo o que deseja. E a canção tem tudo a haver com a história que vou contar.

Seguinte: corria o ano de 1975 e eu era repórter do Diário de Natal, editoria de polícia. 
Certa vez, procurando telegramas das agências noticiosas que tratassem de assuntos da área policial encontrei uma história incrível. Rodriguiana, totalmente rodriguiana. 
Eis a história do tal telegrama: um sujeito, batendo pernas por uma rua do Rio de Janeiro deu de cara com uma cena que o deslumbrou: mulher gravemente bela varria a calçada da casa. 

O olhar do homem deslumbrou-se com a visão,que nele gerou uma epifania de encantamento; um misto de desejo e  respeito sagrado por aquela vênus.

A partir de então passou a cumprir com seu ritual de ânsias platônicas: observar seu objeto de afetos. A mulher passou a ser a santa deliciosa, a madona de prazeres ocultos, proibidos encantos. O interesse virou obsessão, a obsessão transformou-se em decisão e um dia pensou: estava pronto, iria dirigir-se a ela. 
E se assim pensou melhor o fez: certo início de noite, munido de revólver invadiu a casa e ali encontrou-a. A ela e ao marido. Na sala.  Pego de surpresa o casal não reagiu. Marido e mulher pediram que se fosse. Cao quisesse assaltar poderia levar tudo. 

Possesso de todas as vontades, embriagado de licenças, mandou que o casal se calasse. Eles obedeceram. Então ele mandou: queria que a mulher se despisse; lentamente. Foi inútil o pedido para que não, não fizesse aquilo. Ele determinou e pronto: a arma tremendo na mão, o nervoso intenso da situação. E não houve jeito: a mulher obedeceu.

Ela livrou-se primeiro da blusa, depois da saia; do sutiã em seguida, e então da peça mais íntima, ao sul do seu corpo fêmeo: a calcinha caiu ao chão. E ele, afinal, após todas as angústias vividas só para si, a viu nua: seios opulentos, ancas suntuosas, o vértice feminino adornado de delicado e denso veludo negro. 

E então aconteceu: tonto de paixão, atordoado de beleza, ofegante daquela sórdida alegria, o coração desesperado em síncope de blue, ele deixou cair a arma, pediu perdão ao casal, girou nos pés e caiu morto daquela encantação terrível e deslumbrante. 



O repórter-fotográfico João Maria Alves, um dos olhares mais experientes e talentosos desta Natal tão nossa, promove a partir do dia 5 de abril, a partir das 19h, a exposição Vivo Sertão, na galeria Margem Hub de Fotografia, à Rua Amaro Mesquita, Lagoa Nova. Como apresentação da mostra preparei o seguinte texto:

Grande sertão: belezas
Emanoel Barreto – repórter
A pressão do jornalismo diário forjou no olhar do repórter-fotográfico João Maria Alves a percepção do momento preciso, instante exato do disparo da máquina que transforma em imagem a cena de vida; ação e pulsação, brutalidade e grandeza, gesto imprevisto e foto imediata – todo jornalismo é ofegante.
É isso, essa pressa sem parar que define os grandes fotógrafos: a precisão da foto, a transformação do fato em texto de imagem, o teatro do mundo como tragédia e manchete. Com suas lentes João Maria faz isso – como poucos.
Conheci João nos idos dos anos 1970 e continuamos a trabalhar juntos na Tribuna do Norte ao longo de boa parte da década seguinte: muito tempo. Muitas matérias de rua, acontecimentos em ação, assaltos e mortes – a dor do povo nas filas, ônibus lotados, hospitais sofrendo, favelas e gritos; políticos anunciando eras magistrais, obras grandiosas, gente feliz. João registrando tudo.
É que o fotógrafo tem a compulsão do tempo. Ninguém sabe quantos instantes tem um momento, quantos segundos tem um lapso, quantos átimos há num minuto. Mas o fotógrafo sim. Ou sabe disso instintivamente ou não será nada. Ele é dessa estirpe. Captura a alma do fato. Fotógrafo pé quente.
Suas fotos são documentos. Dados e passados no cartório do Tempo.
A exposição que ora realiza traz um João Maria na fase da maturidade pessoal e profissional. Trata-se de trabalho que só consigo definir como magnífico. Seja pelos enquadramentos, expressividade das cores, textura e oportunidade do disparo, ou pelo fato de que nos traz o sertão em forma de beleza. Um sertão reluzente de alguma ternura, mas sem perder a dureza jamais.
João Maria conseguiu dar à paisagem – e à presença humana subjacente – um dado de pujança e força. Somos atraídos às fotos como se estivéssemos atravessando um portal, descobrindo um grande sertão agreste e belo. O sertão parado em seu tempo; sertão como entidade, o homem como vivente enraizado na bruteza do chão.
Não é fácil transformar paisagem em flagrante. Para fazer isso é preciso ser aliado do tempo, saber dos tais instantes e momentos fotográficos – eles são o precioso tempo que os relógios não marcam. João soube fazer isso muito bem, trazendo à tona a essência da paisagem; ele transformou a paisagem em fato e o que está parado em acontecimento. Trabalhou com a luz, captou o silêncio poderoso das sombras. É exímio colorista. Nada mais jornalístico que isso.
Esta exposição é também um registro de vida, os passos na estrada de um grande profissional. Vida, esforço, presença, dedicação e talento. Abraço grande, amigo. Que venham novos momentos.