Cascudo e o lobisomem
Por Emanoel Barreto
Uma das coisas que
mais gostava de fazer quando repórter da editoria de Geral da Tribuna do Norte
era entrevistar Luís da Câmara Cascudo; para mim Mestre Luís da Câmara Cascudo.
Dali, de sua casa na grande subida da Junqueira Ayres, o Professor via o
Potengi amado e descortinava todo um mundo de lendas, mistérios, cantigas e
danças, credos e medos que o Homem brasileiro tem guardado dentro de si.
Certa vez, pautado
para entrevistar o Professor, passei uma bela tarde conversando. Terminamos
falando exatamente sobre lendas e crendices populares. As coisas do povo, a fé
do povo, o medo irracional que nos acompanha a todos e se aflora nos momentos
de tensão ou insegurança.
Ele me falou do Saci Pererê; disse que o molequinho, em tempos outros, fizera medo a muitos e comparou essas épocas passadas com o tempo em que a
entrevista transcorria (anos 70) e lembrou: o medo do Saci se transformara no
medo da perda do emprego, no terror da altíssima inflação que então corroía o país.
Explicou o Mestre que o medo persiste na humanidade, mas se apresenta
sob formas variadas dependendo do estágio em que se encontre uma certa
sociedade. E vieram outras lendas: a Caipora, o Bicho Papão, a Mãe d’Água, a
Boitatá, o Lobisomem, ah, o Lobisomem.
Sobre a Boitatá – me lembro como se fosse hoje – ele comentou:
“Bicho grande, cobrona que brilha de noite
reluzente toda pela luz dos olhos dos bichos que já comeu. Os olhos ficam
brilhando dentro da cobra, meu filho... E disso o povo tinha medo, porque nisso
o povo acreditava. Porque uma boa parte do medo é construída dentro da gente.”
E completou: “Hoje, a boitatá é a inflação”, e deu uma de suas gargalhadas
envolto na fumaça do charuto.
Sentado em sua cadeira de espaldar alto, largos
apoios para os braços, o Professor foi servido de água por Dona Dhália, sua
mulher. Nisso, ele virou-se para mim e disse: “Já estou quase mandando você
baixar em outro terreiro” (era com essa expressão que ele gaiatamente expulsava seus
entrevistadores). E disparou de letra: “O que mais você quer saber?”
Perguntei: "O senhor acredita em Deus?", ao que ele respondeu:
"Acredito em Deus, quero bem a Nossa Senhora, tenho medo de
lobisomem."
Fiquei espantado: “Professor, o senhor tem medo de lobisomem?” Sorrindo,
após mais um fumarento aspirar do charuto, respondeu. E sua voz tinha um tom
sombrio, como a recitar um pesado sortilégio de quem sabe de tudo. Disse:
“Não, meu filho, não.
Aqui dentro desta casa, sentado em minha cadeira, nesta cidade do Natal, sob a
proteção das luzes que nos cercam, digo a você que não. Mas, no sertão, numa
noite de lua, numa sexta-feira aziaga, a cruviana* me rondando, o vento assanhando
a crina do cavalo, digo que sim. Numa hora dessas, Barreto, eu digo que sim: sim Barreto, eu tenho medo de lobisomem. E agora, vá
baixar noutro terreiro!”
· Cruviana: vento frio
das noites nordestinas. Termo hoje em desuso.