O gol do centrefó
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De
repente veio a lembrança do Colégio São João. O colégio e seus dois
campos de futebol. Anos 60.
O colégio era uma lembrança grande, larga
como o passado. O primeiro campo, verdadeiro forno com seu chão de areia
calcinada, servia para partidas improvisadas. O outro campo, não:
gramado, com medidas oficiais, era usado para prélios renhidos,
jogadores com posições definidas. Os professores eram os técnicos.
Era
o tempo de Pelé, Vavá, Zagalo, Garrincha, Gilmar, Djalma Santos, Didi,
Nilton Santos. O Brasil bicampeão. Goleiros eram chamados de goalkeeper,
valendo também guarda-valas, mas também se aceitava dizer arqueiros.
O
menino tinha uma decisão: entrar para o time da classe e disputar o
campeonato do colégio. Munido de uma vontade secreta e firme começou a
treinar. Depois de muito esforço foi aceito. E mais: ia ser o
“centrefó”. Quando o professor anunciou sua posição no time, ele quase
caiu. Já pensou? Ele ia ser o centrefó. Era o máximo. A palavra inglesa
center for ward, absolutamente impronunciável para aqueles meninos,
acabou virando isso mesmo, "centrefó". Ele jamais imaginaria que, anos
depois, todos estariam chamando centrefó de... centro-avante.
E
ele ia ser o centrefó. A posição na equipe, vista como algo quase
heróico, o jogador avançado que rompia defesas com seus dribles mágicos,
era o sonho afinal realizado. Chegou em casa, contou aos pais, riu e,
na rua, com os colegas, gritou: – Eu sou o centrefó! Eu sou o centrefó!
Era o sonho calçando chuteiras. Sentiu-se completo. A vitória
antecipada. O gol, guardado na gaveta das vontades, afinal iria brotar
dos seus pés.
Veio
então o jogo. Antes de entrar para a equipe principal ele somente havia
jogado no campo de areia. Era o que os meninos chamavam de futebol de
poeira. Ali, ninguém tinha posição definida, os pés afundavam e cada
chute levantava uma nuvem, daí o nome futebol de poeira. Detalhe:
naquele campinho de areia, ele jamais havia marcado o “seu gol.” Mas
agora, não: faria muitos gols, e gols de classe, gols marcados num campo
de verdade.
O
juiz apitou. Os lances duros, as jogadas corajosas, até mesmo aquela
bicicleta que quase vira um gol, que naquele tempo era chamado também de tento. Seu time ganhou. Cinco a um. Mas não deu para ele fazer o “seu gol”. Nem naquele jogo nem nos outros. Nunca. Jogava bem, mas não conseguia o gol.
A
vida escorreu sob os seus pés, acabou o ano, acabou-se o tempo de
colégio, tudo passou. O colégio São João virou lembrança travada na alma ano após ano.
Certo dia tomou uma decisão: aquele gol não podia ser apenas uma
vontade com sabor de derrota, um passe malfeito num jogo que dentro dele
nunca tinha fim. Então, num final de tarde, entrou numa loja de
material esportivo, comprou a melhor bola, a mais cara e dirigiu-se ao colégio.
Ali
todos estranharam ao ver aquele senhor de paletó e gravata, cabelos
grisalhos, entrar colégio adentro segurando uma bola. Ele escolhera o
momento de maior movimentação. Era final de aula. Centenas de meninos
deixavam as salas em meio a gritos de estopim que comemoraram mais um fim de estudos chatos.
Ele
cruzou a curiosidade geral como um tiro de meta e dirigiu-se ao campo.
Todos o acompanharam. Mais e mais gente o seguia. Ele passou pelo campo
de futebol de poeira, já seguido por uma multidão. Pronto. Chegou ao
campo gramado.
Dirigiu-se
à marca do pênalti e ajeitou a bola. Os meninos ficaram ao redor,
deixando a trave ao fundo. Ele estava em meio a um largo círculo de
expectativa. Estranhamente todos perceberam que viviam ali um momento
especial, intenso. O rigor na face severa daquele homem, a luz do
crepúsculo, a seriedade de cada gesto seu, tudo dava à cena uma
composição litúrgica, ritual. Todos respiravam compassadamente; ninguém
entendia nada, mas havia respeito em todos os olhares.
Ele afastou-se da bola, esperou um pouco e correu. O pé bateu com força
na bola, uma força de raiva alegre e solene. A bola partiu. Como se
fosse em câmera lenta foi bem no ângulo direito. Balançou a rede e
desceu, belíssima, até se esconder lá no fundo.
Ele
saltou e deu um soco no ar. Nesse instante, uma fagulha de emoção.
Todos os meninos gritaram: – Gooooooooool! – e se abraçaram.
Em
silêncio, tal como chegara, ele retirou-se. Deixou a bola lá no
cantinho da rede. Ao sair, ouvia aplausos, aplausos antigos, ecos que
somente agora chegavam, tão tarde, depois de tanto tempo...
Nunca mais foi visto no Colégio São João; mas, agora, ele era realmente o centrefó.