sábado, 13 de maio de 2006

A mãe dos meus dias

"Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor.
Como as outras, ridículas..."
Fernando Pessoa

Ofereci um cálice de pétalas, ela aceitou.
Ofereci muitos dias de caminhada, ela entendeu.
Ofereci minhas palavras saltimbancas, ela entendeu.
Ofereci gestos e silêncios, ela os soube guardar.
E hoje, Dia das Mães, é a mãe da minha vida e de todos
os meus destinos. E, em assim sendo, somos.

O que foi mesmo que eu comemorei?

"As dúvidas são mais cruéis
do que as duras verdades."
Moliére

Este blog é atualizado diariamente. Entretanto, p0r problemas técnicos, passei quase uma semana sem fazer qualquer acréscimo aos comentários e crônicas. Nesse meio tempo... Garotinho encerrou sua farsesca greve de fome... Evo Morales quase bota o Brasil de joelhos... Sílvio Pereira disse e desdisse que o governo está infestado de corruptos... por efeito de uma decisão do Supremo Tribunal Federal um perigossíssimo assassino foi colocado em regime semi-aberto, medida que deverá beneficiar milhares de outros criminosos hediondos... e vou parar por aí, que a lista é literalmente infinita. Dá até medo.

Assim, com este retorno, sinto-me como se a gente, eu, você, estivéssemos de volta para o futuro. Um futuro incerto e não-sabido, estranho e insensato. Um jogo de luz e sombra, fulgor e escuridão, uma vez que a realidade e a vida são feitas de opostos. E é preciso entender que o oposto negativo, o crime, a devassidão dos costumes políticos, tudo isso é parte da normalidade, integra a vida em sociedade tanto quanto o dormir e o respirar.

É preciso entender que esse "de volta para o futuro", entendido em termos de Brasil, presume a convivência com nossa realidade histórica, com o legado cultural, político, econômico, enfim com o todo que compõe e sociedade brasileira. Sociedade que já está sendo preparada para um grande acontecimento quadrienal: a Copa do Mundo.

Se pensarmos bem, de alguma forma o brasileiro acumula energias para explodi-las todas na Copa. Como se fora um grande e lento processo de decantação de frustrações, dores, desencantos, aqueles sofrimentos todos que vão se depositando na alma do povo, até explodir no grito de gol.

O gol é o divã que aplaca o salário que não vale nada, a péssima escola pública que o filho frequenta, o posto de saúde que nunca funciona, a violência dos criminosos que o Estado não tem competência ou não quer enfrentar, a vontade de trocar aquele carro caindo aos pedaços, a tristeza de não poder comprar aquele remédio caríssimo que o filho precisa, a vontade de... a vontade de... sei lá; você sabe do que estou falando.

Pois bem, chegou o ano da Copa. Os Ronaldinhos estarão mais ricos do que nunca, os jogos terão transmissões impecáveis e a Rede Globo, que se apoderou da Seleção Brasileira como um dos seus produtos de mídia, vai mandar emoções embaladas e você terá a obrigação de concordar com os "comentários" de Galvão Bueno dizendo que a Seleção está ótima, mesmo que o Brasil esteja sendo miseravelmente derrotado.

No fim, se o Brasil for hexacampeão, será vendida mensagem de que "somos todos campeões", ou seja: você, eu, todo mundo no Brasil, deverá comemorar, gritar, beber, dizer "evoé!" como os antigos romanos. Todos estaremos felizes, até que a ressaca vai nos fazer acordar, dia seguinte, com a tristeza de que a alegria passou. E o pior: aquele horrível gosto de guarda-chuva na boca. E mais, no meio da dor de cabeça, a pergunta: "O que foi mesmo que eu comemorei?"



domingo, 7 de maio de 2006

Um homem chamado Esperança

"A vontade enérgica é uma
esperança meio realizada."
Camilo Castelo Branco

A morte do ex-governador e ex-ministro Aluizio Alves nos chama a um momento de reflexão. Não apenas pela figura do homem em si, mas pela circunstância político-comunicacional que sempre o marcou. Ele próprio circunstância que determinava, como líder, outras circunstâncias. Arrojado, criativo, não era apenas um renovador, era, essencialmente, um inovador.
Foi assim em 60, quando introduziu comportamentos de marketing jamais utilizados no Rio Grande do Norte. Foi ele quem introduziu as pesquisas de opinião para guiar suas atutides. Não se usava a divulgação das pesquisas, que eram utilizadas internamente em sua campanha. O polegar erguido relembrava o gesto salvador das arenas romanas, quando a mão assim apresentada significava a salvação do combatente vencido, no instante final. Era a libertação de quem estava prestes a sucumbir.
E, para o Rio Grande do Norte, ele se apresentava como essa mão que se erguia, salvadora e veloz. A força dessa representação calou fundo no povo e ele elegeu-se governador. Seu hino de campanha era um primor de concisão, reunindo em alguns poucos versos toda a essência de um programa de governo.
Comunicador nato, orador vigoroso, quase místico, AA soube como poucos interpretar seu papel de ator político populista e apresentar sua face mais dura, até mesmo implacável, aos adversários. Como ele, nenhum político norte-rio-grandense empalmou melhor o conceito maquiaveliano de fortuna e virtù. Não me refiro aos termos no sentido comum e vulgar de "maquiavelismo", ação política marcada por espertezas cruéis de oportunistas políticos.
Antes, atenho-me à compreensão de fortuna como o conjunto de fatos que, circunstancialmente, favorecem a um político cuja virtù termina por fazer com que esses mesmos fatos venham a configurar-se efetivamente como conseqüências positivas. E o que seria virtù? Nada mais que a capacidade que o ator político tem de apreender uma determinada realidade, dotado, ao mesmo tempo da intenção de nela intervir, segundo sua vontade, moldando tal realidade a seus interesses.
AA teve a seu favor esses dois fatores, muito embora nem sempre a fortuna o tenha acompanhado, como quando do epsódio de sua cassação - apesar de haver apoiado o golpe de 64 - ou o fato de jamais ter alcançado um sonho: ver o filho, Henrique Eduardo, governador do Estado.
Não é minha intenção analisar aqui, em profundidade, uma figura tão polêmica quanto proativa na cena pública do RN. Apenas fazer um breve comentário: AA, com todos os seus grandes erros e com todos os seus profundos acertos, foi um líder como jamais se viu aqui. E como a História não se repete, a epopéia da Esperança, assim como a própria esperança do povo, agora é lembrança que os livros certamente haverão de recordar.