O jornalismo e a mentira
O repórter
precisa aprender a conviver com a mentira, o gesto esquivo, a palavra encantadora
mas de sentido vago ou vazio. É verdade que a declaração foi feita, mas pode
ser mentira o que foi dito.
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(Caricatura de Tancredo Neves - fonte: www.felipex.com.br) |
O repórter
deve estar atento ao que pretende a fonte: toda declaração é intencional, toda
informação busca ser validada. O perigo está na intenção e nos propósitos. É preciso
saber pesar bem aquilo que se ouve. E, a partir disso, delinear o texto de
maneira que o leitor perceba a intrusão da mentira, da manipulação, do falseio.
Com tempo e talento você consegue insinuar ao leitor que aquilo que foi dito e
está sendo publicado é uma farsa em processo, é um blefe, uma enganação.
O uso
de aspas e um título bem feito podem passar ao leitor que a fonte tergiversou a
verdade, tentou esconder seus intentos, procurou fantasiar ou diluir aquilo que
fez ou pretende.
O caso
clássico é o do político que diz “estar à disposição do partido” para ser
candidato. Na verdade ele já trabalha para ser candidato e busca no jornalista
não o relator veraz, mas o estafeta de fonte. Ouça essa declaração, mas busque
nos bastidores, e aponte no texto, o que efetivamente está em andamento.
Em minhas
aulas relato costumeiramente um caso típico. Corria o ano de 1982 e Tancredo
Neves era candidato ao governo de Minas. Eleito, ano seguinte iria tomar posse.
Começaram as démarches para a composição do secretariado. Um deputado – cujo nome
não me ocorre – tinha intenção de ser guindado à Secretaria de Agricultura.
Esperto,
lançou aos jornais o que em jornalismo chamamos de balão de ensaio: a
divulgação de informação cujo intento é testar até que ponto alguém, geralmente
um político, tem chance de alcançar um determinado cargo.
Mais
claramente: com amigos nas redações mineiras, fez circular a informação de que
seu nome estaria sendo cogitado para o cargo. A ideia era criar um fato
consumado via pressão de imprensa. Ou seja: de tanto o nome ser veiculado, o
governador não teria alternativa a não ser a nomeação.
E assim
prosseguiu até saturar o mundo político com sua iminente “convocação”. Então, sentindo-se
forte o bastante para “questionar” Tancredo pediu uma audiência e foi ao
encontro do governador. Lá chegando, disse:
–
Governador, a imprensa tem informado com insistência minha convocação à sua
equipe. As bases já me procuram. Querem saber se serei realmente secretário de
Agricultura. Estou numa situação difícil. O senhor sabe como é a política: o
suplente já pensa em assumir meu lugar na Assembleia Legislativa. Não pleiteei o cargo, pois a minha modéstia o impede
e, assim, gostaria de saber se o anúncio da imprensa tem algo de concreto. O
que me diz, governador?
Tancredo,
em sua fleuma, respondeu:
– Faça
o seguinte: diga que foi convidado mas recusou o convite...