Vereador candidato a deputado estadual anuncia: Natal e todo o Estado serão transformados em gigantesco e formidável hospício
Fui procurado ontem em minha tipografia por um elegante corvo, hoje cumprindo mandato de vereador.
Como
cavalheiro elegante, aquele nobre homem vestia-se a caráter: fraque
pretíssimo impecável, cartola e monóculo. Procurou-me para anunciar sua
candidatura a deputado estadual nas próximas eleições, garantindo que seu mandato
muito enobrecerá a já muito nobre Câmara Municipal de Natal, este
infeliz burgo.
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Segundo
disse, sua proposta gira em torno de dois projetos essenciais: a
transmigração da ambiência legislativa da Câmara Municipal e a transformação do Rio Grande
do Norte em hospício, onde, por efeito de alucinação midiática, todos
os moradores serão felizes e viverão em paz e conforto.
Pedi-lhe
explicação a respeito de tão doutas intentonas e mo explicou, com graves
ademanes jurídico-comunicacionais. ( Fiquei pasmo - como você, leitor
deste pobre coranto, também ficará.) Eis o que me disse:
Transmigração
da ambiência legislativa é a doutrina jurídica a ser implementada
por ele antes de deixar a Câmara e tomar posse como deputado. Isso significa, explicou, que as leis que
proporá terão âmbito ampliado para todo o Estado, deixando, portanto, de
inscrever-se na jurisdição de Natal e disciplinarão, por conseguinte, a esfera
estadual.
Isto feito, proporá a Lei da Alucinação Midiática. Que será aprovada e com imediata transformação de todo o Estado no almejado hospício, considerando-se todos nós, seus habitantes, legalmente loucos.
Detalho: com a aplicação da doutrina da Transmigração da Ambiência
Legislativa, e com sua vigência em todo o Estado, será determinada a
criação do Hospício Único de Saúde. Com isso todo o Rio Grande do Norte
será cercado por altíssima muralha a fim de que nenhum, ninguém ou
alguém possa escapar.
Isto
feito, a propaganda oficial do governo passará a ser a realidade
oficial: aceita, proclamada e juridicamente imposta pela Lei da
Alucinação Midiática.
Como
todos serão legalmente loucos, a alucinação será a verdade instituída
e a ela todos estarão adstritos sob as penas da lei, penas essas que
são:
1) Envio de todos os dissidentes a sala especial onde serão
obrigados a assistir 24 horas por dia à propaganda oficial durante um ano;
2) Os
recalcitrantes serão lobotomizados;
3) E se mesmo assim os lobotomizados
insistirem em que a propaganda oficial não é a verdade serão levados à
pena capital. Após a execução, serão mandados ao Haiti, onde competente
junta de feiticeiros os transformará em zumbis.
Somente
após tal tratamento terão autorização para voltar a Natal ou,
resistindo ainda, encaminhados a Hollywood a fim de que trabalhem em
filmes de terror tipo “B”, proibidos eternamente de regressar à nossa
cidade, que será então a mais feliz das metrópoles no mais feliz dos Estados.
A
transmigração da ambiência legislativa, garantiu-me o corvo, será a
maior prestação de serviço que a Câmara Municipal de Natal prestará ao
infeliz Estado do Rio Grande do Norte, dentre tudo o que já fez de bom e
de justo.
Ao
perceber que ele me parecia um homem completamente louco, o corvo
anunciou que, para cumprir seus intentos, conta com o magnífico apoio de
grupos de pressão, cuja presença financeira garantirá que venha a ser
eleito.
Argumentando
em favor de suas pretensões disse, teorizando: “A realidade é complexa.
Nela coabitam a realidade mesma, aquela onde estamos inseridos, e a
realidade virtual, aquela dos anúncios. E sendo esta parte daquela, é
realidade em si, uma vez que a propaganda nada mais é do que a
simbolização do real. Ou seja: é verdade que a propaganda existe e,
existindo dentro do real, passará a ser o real validado - aquele que deve imperar e orientar, viger e
ser vivido.”
Quando
argumentei que isso é loucura, rebateu: “Mas a loucura, a alucinação,
será o real vivo. A alucinação que proponho será a realidade; realidade
invertida, mas realidade vigente: portanto, a realidade melhor. E como
quero o melhor para o povo de Natal e do Rio Grande do Norte, devemos
escolher o melhor: a loucura será esse melhor. E como todos os loucos
devem ser confinados a bem da ordem pública, o Estado será elevado à
condição de hospício, já que os loucos não podem ser soltos sob risco de
graves transgressões, não concorda?”
Dito isto, bateu asas e voou.
Tentei
voltar a trabalhar, não consegui. Com muita dificuldade consegui compor
este coranto. Por momentos temi pela minha sanidade mental. Teria eu
visto mesmo um corvo em minha tipografia? Teria mesmo aquele elegante
cavalheiro comparecido com tamanhas proposituras?
Então,
liguei a TV e vi um anúncio oficial, garantindo que tudo está bem e que
nossa realidade é a melhor, no melhor dos mundos.
Não; concluí. Não estou louco: o plano do Corvo é que já está em ação. Há muito tempo. Eu é que não havia percebido...