sábado, 9 de novembro de 2013

A astúcia do político corrupto

O  corrupto ficou livre e o doente ficou preso

https://www.google.com.br/search?q=pol%C3%ADticos&client=firefox
Político Corrupto havia sido preso. Após muitas falcatruas, descaminhos, tramas, tenebrosas transações não houvera mais como seus, digamos, pares, salvá-lo. E como os demais não queriam expor-se em ligações perigosas, meteram-no na cadeia. Alívio. Agora, poderiam trabalhar nas sombras, a salvo da presença malquista do companheiro em desgraça.

Mas, Político Corrupto não perdeu tempo. Após uns poucos meses reuniu a imprensa para anunciar: contrito, havia descoberto os valores morais a que antes não atentara e agora destinaria sua vida ao próximo. E detalhou: quem precisasse de doação de órgãos, ou mesmo partes do seu corpo, como pernas, braços, mãos, etc, poderia fazer contato, que ele os cederia de bom grado.

Acontece que um senhor idoso, homem honrado, mas de saúde debilitada desde a juventude, estava precisando, e muito, de doações. A cada dia seus médicos descobriam uma nova enfermidade que requeria transplante.

Político Corrupto sabia disso de antemão e era nele, naquele pobre sofredor, que focara seus projetos. Primeiro doou uma perna pedindo em retribuição que a perna doente lhe fosse implantada: queria martirizar-se, dizia, sentindo as dores e tudo de ruim que o outro havia sentido. Era uma forma de purgar seus pecados morais e cívicos. Foi atendido.

Depois, mandou a outra perna e recebeu nova perna doente. Mandou as mãos, os braços e o tronco. E assim sucessivamente. Somente faltava a cabeça. Então, os médicos descobriram que seu doente estava em vias de ter um derrame e Político Corrupto aceitou o sacrifício final: mandaria a própria cabeça para livrar a pobre criatura da moléstia.

Assim foi feito. Como você já deve percebido, Político Corrupto literalmente se transportou, conseguindo sair da cadeia. E como todo o seu corpo fora doado, não fora uma fuga e assim ele poderia iniciar vida nova, quer dizer, voltar à boa vida velha.

Foi o que fez. Como era período eleitoral comprou todos os votos que pôde, elegeu-se com votação recorde e foi recebido com gritos e fanfarra. Quanto ao velhinho doente, acordou numa cela e, depois, morreu.

O ladrão e os velhos catimbozeiros

 Mexendo no blog encontrei este texto e resolvi republicar:

A toalha roubada e os velhos catimbozeiros: uma história meio amaldiçoada

Diário de Natal, um sábado qualquer de 1975. O repórter Pepe dos Santos tinha saído para uma matéria importante do noticiário policial e eu, um foca sem graça, fui mandado a uma delegacia fazer uma matéria. “É só queda de bebo, Barreto. Só pra fechar a ronda”, disse Alexis Gurgel, editor de pol


“Queda de bebo” era a expressão que significava matéria besta, sem futuro, coisa menor do submundo do crime e da vagabundagem. Eram relatos curtos, publicados na coluna Ronda, sem assinatura.


Peguei o carro e desci. “Descer” queria dizer sair da Avenida Deodoro, onde ficava o Diário, fuzilar ladeira abaixo e ir parar na Ribeira, a Cidade Baixa. Fui à Roubos e Furtos ou melhor: à Delegacia de Furtos, Roubos e Defraudações. 


Falei com o delegado, ele deixou-me ir à carceragem mas avisou: “Só tem um marginal. E marginal escarradeira”, ou seja: bandido menor, ladrão de roupa em varal, lanceiro. Aquele tipo que, aproveitando um descuido, dava um “lance”; metia a mão no que estivesse perto e corria.


Pois bem: o marginal era um sujeito esguio, pequeno, manhoso. Sentei no chão ao lado da grade, ele contou que tinha dado um azar danado quando furtava nem sei mais o que e uma radiopatrulha que passava o metera na chave.


Anotei a lorota e já ia saindo quando ele me chamou: “Quer uma história legal para você fazer munganga no jornal?” Eu disse que sim e ele contou o seguinte:


“Quando eu era menino minha mãe tinha o maior medo do mundo que eu virasse ladrão. Ele já tinha notado que eu andava perto da casa de dois velhos, um casal, olhando muito pelas janelas. Notou minha intenção e avisou:  ’Não se meta com eles que eles são catimbozeiros. Se pegarem você comem seu figo.’ Fiquei com um medo danado e por uns tempos não cheguei perto dos velhos.”


“Mas, um dia, notando que há tempos eles não apareciam na porta da casa criei coragem e entrei lá. Invadi a casa dos velhos. Era uma casa escura, feia por dentro, e saí batendo pelos escuros. Senti um cheiro ruim e pensei: ‘Tão fazendo catimbó.’ Segui no rumo da catinga e entrei no quarto dos velhos. E aí tive uma visage, a coisa pior do mundo. Tavam lá os dois. Tavam deitados na cama, um do lado do outro. Cheguei mais perto e vi que estavam mortos. Dei um pulo e saí correndo feito um doido.”


“Somente parei em casa, o coração quase saindo pela boca. Minha mãe perguntou o que tinha havido e eu disse que tinha ido na casa dos velhos e eles tavam fazendo catimbó. Minha não disse: ‘Tá vendo?’, e completou: ‘E o que você tá fazendo com essa toalha enrolada no pescoço?’”


“Somente aí notei que na carreira em que tinha vindo uma toalha do varal da casa dos velhos tinha se enrolado no meu pescoço. Acho que foi mesmo um catimbó. Aquela toalha me fez ficar ladrão.”


Foi a única e miserável história que apurei naquele sábado. Voltei à redação, mas não quiseram publicar. Caíram na gargalhada e eu fiquei ali, parado, meio tonto. Hoje lembrei desse caso e conto a você. E sabe que era mesmo uma boa matéria? A toalha maldita que fez um menino virar ladrão? E agora, vendo os ladrões de gravata, penso: será que eles também não eram meninos que queriam roubar coisas em casa de velhos catimbozeiros? Acho que eram, eram sim: meninos ladrões com toalhas enroladas no pescoço.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Cuidado, ha perigo na esquina



Uma estranha realidade
Ao sair ontem de minha tipografia, mais de dez da noite, não supunha o que me aconteceria. Foi assim: caminhando pela rua mal iluminada pelos lampiões de gás, percebi que era seguido por um orangotango de má catadura. Nos últimos tempos era sempre assim: animais de todos os tipos nos assediavam, pediam esmolas, praticavam pequenos furtos, assaltavam, invadiam casas.
 
http://natgeotv.com/pt/eu-predador/galerias/animais-perigosos
Então, olhado para trás, notei que ele se aproximava rapidamente. Temendo pelo pior entrei num bar onde havia unicamente seres humanos. O orangotango, sentindo que estava em desvantagem, recuou, meteu-se na escuridão e sumiu. Comentei com uns homens a respeito e todos confirmaram: também sentiam-se perseguidos por bichos, como onças e antas, todos agressivos.

Um deles, aparentando ser o mais esperto de todos, disse que a presença dos bichos era decorrência da destruição das florestas pelo homem. Assim, bestas as mais variadas tinham vindo para a cidade, estabelecendo-se nos arredores e formando grandes povoados. 

 Agora, organizados em bandos, atacavam a todos os homens.
Saí do bar depois de uns quinze minutos. O macaco não estava perto. Eu temia que ele tivesse se escondido nas cercanias, numa espécie de gesto tático ou seja: fingira ter fugido, mas havia voltado para me pegar em momento oportuno. Mas, não: tinha mesmo ido embora.

Saí a caminhar e esperava chegar em casa o mais rápido possível. Após meia hora cheguei à casa e tive terrível surpresa: minha casa havia sido tomada por grande número de macacos, papagaios, quatis e um tigre. Entrei na sala e ali estava, sentado no sofá, um grande hipopótamo. Era o chefe do bando.

Perguntei-lhe o queria e ele: “Queremos apenas a sua casa. Somos animais sem teto. E saia logo daqui, por favor.”

Respondi que não iria deixar meu lar nas mãos ou melhor nas patas de tão temíveis invasores. Ouvindo isso ele gritou uma ordem e fui dominado por um gorila, que atirou-me ao meio da rua. Tentei voltar, mas fui expulso novamente, agora com grande violência. 

Uma onça perseguiu-me e corri o mais rápido que podia, até chegar a um bairro distante, um arrabalde. Ali encontrei uma multidão de humanos, todos também despejados de suas casas. E mais: a cada momento outros e outros seres humanos chegavam ao bairro, todos também atirados de suas moradias.

Ficamos a noite inteira ao relento, pois as casas haviam sido destruídas pelos animais. Dia seguinte reunimo-nos e resolvemos atacar os bichos e recuperar nossas habitações. Marchamos todos unidos, mas fomos recebidos pela tropa de choque dos bichos e dissolvida nossa manifestação a golpes de cassetete. 

Recuamos para nosso bairro periférico e passamos a morar em choupanas. Desde então temos tramado planos para voltar às nossas casas. Mas, sempre que intentamos uma surtida, somos repelidos pela polícia dos bichos. Não sei mais o que fazer: temo que doravante e humanidade tenha que correr para as florestas e ali tentar sobreviver.

Mas logo alguém me advertiu: não há mais florestas. Nós acabamos com todas, lembra? Entendi então que estamos perdidos: não temos mais casas ou matas. Diante disso, uma certeza: para sobreviver precisamos aprender a galopar.

Minha entrevista com o santo do povo

E aí Frei Damião disse: "Quereis o comunismo?"
 E o povo respondeu bem alto: "Quereis!"


https://www.google.com.br/search?q=frei+damião+biografia&client
Creio que foi no ano da graça de 1978 que  tive a oportunidade e fui pautado para entrevistar a venerável figura de Frei Damião, o santo do sertão, amado do povo, protegido de Deus e de Nossa Senhora. Vindo da distante cidade de Bozzano, Itália, para cuidar do rebanho de sertanejos, preservar a fé e encaminhar as almas todas para o Céu.

Fui à cidade de Ceará Mirim, pouco mais de 30 minutos de Natal, onde ele se encontrava. Encontrei-o na igreja matriz. Abençoado templo povoado por imagens de santos e de anjos, querubins e serafins. A pequena e cândida figura atendia em confissão a enorme fila de mulheres cobertas por véus e envoltas em doce auréola de rezadeiras, como só as existem no Nordeste. Mulheres suadas de fé.

E eu fiquei olhando para elas. Atentei para suas bocas que fervilhavam baixinho rezas velhas, mistérios sussurrados em uma língua estranha que jamais consegui apreender desde quando, ainda menino, olhava minhas tias fervorosas diante de uma vela e de uma imagem de Nossa Senhora. Deviam ser coisas muito altas, evoladas da inefável religião dos bons, áugúrios de uma vida melhor depois da morte, quem sabe o repouso calmo no regaço da Virgem.

Preste atenção na boca de uma velha rezadeira: é ali que mora a alma, tenho certeza. A minha mente de repórter, todavia, estava preocupada com algo mais urgente e menos devoto: o tempo. Eu tinha hora para voltar à Tribuna do Norte e fazer o meu texto.

Com alguma insistência junto a um auxiliar do beato consegui parar a confissão e ele me atendeu. Confesso, sem trocadilho algum, que nem mesmo sei o que perguntei. Mas, o que mais valia era relatar o encontro dulcíssimo do pastor com o seu rebanho, captar o ambiente angélico, a doçura do olhar do Frei, seus conselhos e penitências passadas àquelas pessoas sacras e pias.

Saí, confesso novamente, com a alma cheia de alguma candura - certamente meu coração de repórter feio e mau tocado pelos instantes miríficos. Assim, de volta à Redação, encontro com outra figura humana portentosa: Dorian Jorge Freire, diretor de Redação. Católico, minúsculo de tamanho mas enorme em sabedoria e humanismo.

Terminado o meu texto, Dorian, que também tinha grande espírito de humor, contou-me o seguinte: Certa vez, Barreto, Frei Damião estava com suas missões pelos sertões distantes. Fazia sua costumeira pregação contra o pecado, a devassidão e o adultério. Defendia o sacramento do matrimônio e dizia que, sem ser casado, o casal era "como o cachorro e a cachorra, o touro e a vaca." . Advertia também a todos contra o perigo do comunismo vermelho e ateu.

E dizia: "O comunismo é pecado grande, pecado mortal. O comunismo é a besta-fera que vem para desafiar o Evangelho. O comunismo é o perigo até mesmo para as mocinhas." O povo olhava e ouvia tudo, pasmo, temeroso, pronto para fugir, caso o comunismo chegasse a qualquer instante.

Parecia até que o comunismo estava por ali, pronto para desferir seu bote. Afinal, Frei Damião fez sua última invectica contra o comunismo periculoso e bradou ao povo sertanejo, como se fora um novo Conselheiro: "E então, quereis o comunismo?, e o contrito povo, procissão desvelada e crente, respondeu piedosamente, em coro monumental "Quereis!"