sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Notícia, corrupção e vida pública

Deadline, o prazo fatal da notícia

"Era isso mesmo o que eu esperava:
comprar um cemitério."
(Assis Chateaubriand) -- ao comprar e recuperar o jornal O Estado de Minas

Muito antes de as prensas comecem a rodar, o jornal começa a ser feito. É um trabalho de equipe, intenso e coordenado. Como num jogo de passes é preciso que cada jogador entregue ao companheiro o bastão da notícia. Notícia esse objeto abstrato que só aparentemente está expresso nas palavras. 
http://thebsreport.files.wordpress.com/2009/07/800px-hoes_six-cylinder

Na verdade, da notícia enquanto mensagem vale a compreensão, a representatividade do relato, o valor que previamente se dá a um determinado tipo de acontecimento
que deve ser importante ou interessante. Sem isso nada de notícia. 

Importância ou interesse são essenciais.
Letras, palavras, fotos, ilustrações, tudo isso somente vale pelo que representa. E pelas consequências junto ao leitor. Vale pelo rumor social que pode causar. Em si não têm essência ou consistência. O código é a expressão tosca do entendimento humano. E o jornal é a desesperada tentativa de captar o mundo, transformando em tinta impressa a pressa das pressões que o homem sofre todos os dias.
A notícia sobrepaira à página impressa, se espalha, sai da mancha gráfica e se espraia no mundo.

O jornal trabalha com um repertório de fatos que nada mais são que os padrões do mundo, as coisas que escolhemos como cotidianas. Mesmo que essa estranha cotidianidade jornalística sejam o inusitado, o grotesco, o excessivamente bom ou a maldade em sua mais requintada forma. De alguma forma ao longo da História a história da maldade se sobrepôs. O homem tem o dom do ruim.
A cotidianidade, rotineira e plana, é plena de um vazio e presivível viver. Assim, o jornalismo dedicou-se dar relevo àquilo que foge do comum. E, lamentavelmente, os atos de maldade superam em muito os comportamentos de caridade, solidariedade, humanidade e bem. 
E, ao trabalhar com tantos fatos, todos recheados de tensão, o jornalismo o faz sob pressão. 

É o que chamamos nas redações de deadline, literalmente "linha da morte", em português prazo fatal, hora-limite. Agora, se você tem uma profissão, digamos, convencional, cumpre expediente litúrgico, atende a uma pontualidade budista, sequer imagina o que é trabalhar numa redação, o que é ser jornalista. E se você gosta de ser assim, jamais seria jornalista. O jornalismo é a tranqüilidade em disparada. Ou, como já se disse, jornalismo é a História escrita à queima-roupa.


A matéria-prima do jornal é o mundo e seu almanaque de acontecimentos, o tal repertório a que me referi há pouco. Cria-se assim, entre o jornal e o leitor, uma relação analógica: o leitor sabe que, numa determinada página, encontrará, sempre, um determinado tema - política, esporte, polícia, economia, por exemplo - mas jamais pode, ou pelo menos não deveria, prever qual assunto será tratado.

Explicando: sabe-se que em política a corrupção é quase norma executiva. Político é quase sinônimo de ladrão, pelo menos no Brasil. Assim, o tema, a novidade jornalística é: qual a nova corrupção a ser exposta? Ou, separando cada coisa: o tema é política & corrupção, irmãos siameses. Já o assunto é a novidade sobre o mais recente corrupto flagrado.

Mas o que quero falar mesmo é a respeito da questão tempo, em função do deadline e seu equivalente literal em português, "linha da morte". Em jornal, adquirimos uma vivência muito especial a respeito da questão tempo. Tempo não apenas enquanto aquele imperceptível passar de horas para o trabalhador de expediente litúrgico, mas para o jornalista, o trabalhador do tempo fragmentado, angustiado. 

Para nós, a convivência com o tempo é como conviver com o silêncio, ou com um lago calmo e profundo. Aparentemente, nada está acontecendo, mas, por trás do biombo da calma, o mundo está em ebulição. O grande problema é que os grandes acontecimentos têm algo de secreto, algo de sagrado. Os criminosos da política, por exemplo, disfarçam seu fervor pelo dinheiro e pelo poder em conciliábulos - perdão pela palavra - e confrarias que ocorrem às ocultas. Há um podre recato no roubar político. 

Compete ao jornalista descobrir esses segredos tão bem guardados como os grandes venenos, aqueles que se ocultam nos menores frascos. O mais triste é que um grande veneno é uma terrível arte. Administrá-lo é uma forma de ciência; como nos venenos há um certo saber no trabalho dos corruptos. Tanto que neles demoram a ser descobertos. Suas doses são homeopáticas. 

O ladrão dos dinheiros públicos tem a perícia de um cirurgião ou a técnica de um pintor do Renascimento ao retocar com suavidade uma nesga de tinta. E o que é pior - dessa cicuta, o veneno de buscar sempre o novo, algo que também nos contamina - os jornalistas bebemos todos os dias. De algum modo os jornalistas também morremos, todos os dias, com o delicado veneno do deadline. Mas renascemos dia seguinte com uma nova manchete.

Faltou foi mesmo uma manchete



Ufa! Renan escapa aos 45 do segundo tempo 

Em jornalismo há uma coisa chamada angulação da notícia. Ou seja: é o ponto de vista da notícia que vem vestida como se fora isenta da sua condição de coisa artificial, coisa feita pelo artifício humano – no caso, representação subjetiva e valorada da realidade.

Quando uma notícia é elaborada o redator segue algumas normas básicas, dentre as quais desponta não usar adjetivo. Isso livraria a notícia da condição de texto opinativo. Mas, nada disso: pode-se perfeitamente opinar sem o uso de adjetivos.

Basta angular a notícia de uma determinada forma e aquela parecerá isenta, portanto credível e bem-intencionada. Na verdade a aparência de objetividade está vinculada a determinados valores predominantes e, mesmo sem qualquer emissão de ponto de vista, uma notícia sugere ao leitor a que com aquela concorde.

Exemplo: se eu faço a seguinte manchete: “Filho mata pais a facadas” ninguém vai esperar que as pessoas concordem que tal ato seja aceitável, em função do senso comum de que os pais devem ser respeitados, amados, protegidos. E não usei qualquer adjetivação. 

Do mesmo modo posso apelar ao senso comum dizendo, como afirmou a Folha: “Maioria do STF decide barrar réus em sucessão”. 

Dá-se ao leitor a sensação de que os zelosos ministros cumpriram com o seu dever de tentar impedir o senador Renan Calheiros de assumir a presidência da República em caso de ausência de Temer ou Rodrigo Maia. O senso comum está aplacado e jornal aparenta haver narrado o fato com isenção. Contou a coisa como a coisa se passou. 

Mas a grande notícia, notícia escamoteada, foi o gesto de o  ministro Dias Toffoli, na undécima hora, pedir vistas ao processo, o que na prática barra todo o esforço da Corte, já que não há prazo para a devolução da peça processual. Na prática o julgamento parou. 

Folha de S. Paulo, O Globo e o Estado de S. Paulo, nenhum dos jornais enfatizou que o gesto do ministro assegurou a Renan a continuidade no cargo de presidente do senado e presuntivo presidente da República em caso de vacância temporária. 

O único jornal a fazer algum registro foi o Zero Hora, de Porto Alegre. O impresso gaúcho afirma exatamente que Temer e Cia. ganham tempo para, com a ajuda de Renan, levar adiante as votações que lhes interessam: a reforma trabalhista e a reforma previdenciária, além das tropelias relativas à educação. 

A angulação voltada para os aspectos éticos e jurídicos do ato de Toffoli não foram alvo de manchete. Até porque, tecnicamente, nenhum jornal divulgou o acontecimento como tal, ou seja: título em letras grandes, ocupando a página de ponta a ponta, acima de todas as demais matérias.
E assim caminha a brasilidade. Em meio a tormentas, acontecimentos turvos, teatro de tramas terríveis. Somos macunaímicos e assim vamos vivendo. 

Ave, César, os que vão morrer de saúdam – e eles estão nas filas e nas dores de um futuro que começa com esses vinte anos travosos, ora em fase de implantação.
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ZOORÓSCOPO  
Formiga - Nascido para o trabalho o formiguiano terá sempre uma condição de vida estável, muito embora dificilmente venha a enriquecer. São valorosos, confiáveis, mas não devem procurar contrair núpcias com quem é de Pavão. Podem acabar no maior buraco. Pavão é vaidoso e gastador. E o formiguiano, falido.

Não fica um, meu irmão

Até em fila tem ladrão;
ladrão de lugar

Irmãos Metralha, personagens de Walt Disney
Somos um povo lamentável. É verdade; é triste, mas é verdade. Somos uma sociedade onde um certo caldo de cultura apregoa como válido e aceitável - mais que isso, necessário e urgente -, levar vantagem, explorar, tirar partido e proveito de qualquer situação: vale até mesmo tomar lugar em fila. Além de, claro, ocupar vaga de idoso e deficiente físico em estacionamento. 

Levar papel off set para casa? Coisa mais normal. Afinal, repartição pública é para isso mesmo: serve para funcionário espertalhão não precisar ter  despesa quando for imprimir os trabalhos escolares do filhinho no computador. 
E o filhinho, por sua vez, copiou e colou todo o texto a ser impresso, não é mesmo? Supercomum, normalíssimo.

O incrível é a falta de respeito, a assunção pública do papel de safado, como pude bem perceber. Veja só: certo dia enquanto aguardava atendimento médico em consulta de rotina levantei-me e fui até o televisor da sala de espera. O aparelho estava com o volume muito alto. 

Levantei-me da cadeira e fui abaixar o som da TV. Para guardar meu lugar, deixei, sobre a cadeira onde estivera sentado, um envelope contendo resultados de exames que tinha levado para apresentar ao médico. Demorei uns dois minutos e, ao voltar, os papéis haviam desaparecido. Estranhei, parei um instante e os descobri ao lado de uma mulher: a matreira havia, na maior cara de pau, se apoderado dos envelopes, jogando-os em seguida sobre outra cadeira a fim de dar o lugar a um sujeito, que era seu pai ou algo que o valha. 

Como sei há muito tempo que com gente safada é preciso ser enérgico, não esperei duas vezes: peguei os papéis e, ante a surpresa do elemento que se preparava para sentar retomei o meu lugar. Sentei-me junto à tipa, que ficou de cabeça baixa. 

Pouco depois chegou um colega jornalista que começou a conversar comigo. O assunto foi corrupção: aproveitei para manifestar o quando são lamentáveis as pessoas que se aproveitam do momento para tirar vantagem e que roubam até lugar. 

Falei alto o suficiente para que a mulher ouvisse. Ela nada disse, manteve a cabeça baixa e encerrou-se aí o incidente.

Mas ficou-me aquele sentimento de indignação ante a indignidade. E veio-me à cabeça um questionamento que sempre me acode quando vejo pessoas safadas, tão safadas que se sujam por muito pouco. Penso assim: se roubam até lugar em fila imagine o que não fazem por dinheiro...

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Zooróscopo 


http://sonhoesignificado.blogspot.com.br/2013/11/sonhar-com-bicho-preguica-significado.html
Preguiça - Preguiciano amigo, logo de início um conselho: não tenha, nem mesmo em pensamento, relacionamento com os que estão sob Esquilo. Se eles são a velocidade em pessoa, você dá a impressão de que vive no mundo da lua, ou melhor: no seu próprio e paralelo mundo. Os preguicianos são calmos, atenciosos, vivem na maciota. São ideais para ocupar cargos de aspone onde se são muito bem. Contam piadas que é uma beleza.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O delicado gesto que o Instagram censurou

João Kehl e Rafael Jacinto


A mulher seminua e sem pecado

O Facebook, que controla o Instagram, apagou foto postada pela Folha naquela rede social. Motivo: a foto mostrava a atriz Maria Alice Vergueiro, de 82 anos, exibindo os seios nus. 

A postagem remetia a entrevista concedida por Alice à revista Serafina, mantida pela Folha e encartada ao jornal. Ou seja: o jornal divulgou no Instagram a capa da revista e o Instagram censurou, pois isso contraria suas normas morais.

Mas, observe bem: o que há de erótico, sensual ou obsceno na foto acima?
Qualquer pessoa de bom senso, mesmo que não seja conhecedora dos intricados caminhos da semiótica entenderá que ali não se encontra a mulher enquanto a visão arquetípica da fêmea, a mulher enquanto objeto do desejo masculino. 

O que temos ali é um ser humano de 82 anos expondo a condição de pessoa em vias de chegar ao seu momento-morte. Somente isso. Os seios não são belos; são muito mais apêndices corporais, estiramento da pele, exibição de corpo antigo, no qual a vida se resseca. 

Há na foto uma espécie de trágica grandeza: uma mulher em perplexidade diante do seu corpo que sem dúvida um dia já foi belo. Ela toca os seios como quem mima as flores que eles já foram um dia.

Aquilo não é uma foto, unicamente uma foto: o que temos na verdade é a exposição de uma atitude de foro íntimo: alguém que decidiu apresentar seu corpo; uma pessoa que se mostra e nos mostra a nós mesmos como seres falíveis e a caminho inexorável das nossas falências: física, intelectual, emocional, existencial. 

O que temos ali é uma atitude de coragem, um momento delicado. Não merecia ser censurado. 
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ZOORóSCOPO   

Preá - Os assim regidos são bem parecidos com os de Esquilo, só que com uma diferença fundamental: enquanto o esquiliano gosta de se expor, o preariano vive entocado, prefere não se apresentar. É signo comum a usurários, agiotas e outros quejandos. Ficam na maior moita, só esperando a desgraça dos outros. Depois, especialmente os de Pavão, grandes gastadores, caem em suas garras e dificilmente se safam.