terça-feira, 16 de agosto de 2016

Um velho texto que me comoveu



E foi só pra receber um pedaço de papel

(Emanoel Barreto, setembro de 2010)

Tenho dificuldade em viver situações cerebrais; situações em que valem esquemas mentais lisos, rapados como tábua que acabou de sair da carpintaria. Tenho dificuldade em conviver com grupos que pensem de forma matemática. Prefiro a diversidade da vida ao numérico; as coisas arriscadas da escrita ao que já esteja com final antevisto; as coisas que podem se desvencilhar do estrutural e do planejado, do programado e reto e, por isso, estático de nascença. A matemática não erra nunca e isso para mim não tem graça.


Certa vez, isso há anos, quando ainda fazia o mestrado, participava de equipe de pesquisa social muito rígida. Muito competente e séria também, diga-se, em seus propósitos. Mas eu nunca me ajustei. Eram planilhas demais, argumentos demais, certezas demais. Um dia fui assim descrito: "Barreto é um outsider". E era verdade. Então, para não prejudicar as certezas acadêmicas retirei-me do grupo. 


Trabalho com o imponderável, o inusitado, as pequenas coisas, o dispensável. Para mim uma formiga carregando uma folha que pesa mais de dez vezes que ela é acompanhar uma odisseia, uma travessia, uma grande aventura que chega a ser humana - pelo menos no paralelismo que estabeleço entre humanidade e a vida de uma formiga. Com vantagem para a formiga: ela não está sendo explorada porque, a rigor, aquilo não é trabalho: é vida. Todo o formigueiro comerá daquela folha. Sem pagar.


Acompanho aquela formiga com vivo interesse, até que ela suma no misterioso, secreto, escuro e seguro túnel que é sua morada. Também acompanho com interesse os passos dos meus netos. Suas pequenas e inestimáveis descobertas, sua ingênua aventura de começo. Mas, devo admitir, as coisas que crio têm também sua organização caótica. O caos é a essência de todos os inícios, a desorganização em estado perfeito. A imprevisibilidade do próximo passo. É não chegar nunca e continuar querendo não chegar.


Foi assim pensando que este ano fui a Bogotá apresentar trabalho acadêmico: "A fotografia como paixão em Cartier Bresson". Está vendo? Não consegui produzir um texto científico; apresentei um ensaio apaixonado sobre a paixão do mestre da Leica. Foram mais de dez horas de avião até a capital da Colômbia: primeiro de Natal a São Paulo saindo daqui de madrugada. Ali, uma espera que dava a impressão de século. Afinal o voo que me levou à belíssima Universidade Javeriana, entidade católica. Elitíssima: meninos e meninas da mais fina flor bogotana.


Apresentei meu trabalho um dia depois da chegada. Completamente diverso dos trabalhos dos colegas: eles e elas científicos. Eu, gauche, alumbrado com as fotos de Bresson. E deu certo: fui o último a mostrar meus slides e meu texto. Mas o fiz com tanta convicção que a Mesa Diretora, ao encerrar nosso seminário, me fez um carinho de ego: "Barreto, foi o ponto alto. Seu trabalho foi uma celebração". Confesso que vivi - aqui peço esse empréstimo a Neruda -, essa ponta de vaidade.


Mas o mais importante ocorreu quando voltei. Dias depois da chegada minha neta perguntou o que eu tinha ido fazer tão longe. Expliquei. E ela indagou: “Mas, Vô, você tirou o primeiro lugar?”.

Disse que não, que não era um concurso. Apenas a gente apresentava o trabalho e “recebia um certificado, um diploma, viu?”.


Aí, ela me fez a pergunta decisiva: “Mas, Vô, você fez essa viagem tão longe só pra receber um papel?”

E eu: "????????????????????????????????????????????".







sábado, 13 de agosto de 2016

Porque precisamos acabar com a CLT



Uma colher e uma cumbuca de angu

Está-se falando muito em reforma trabalhista. A alegação para que aquela se aplique é que a Consolidação das Leis do Trabalho-CLT é algo superado, atrasado, perdido no tempo; algo getulista e, portanto, coisa social empoeirada, trambolho histórico a ser superado.
Gravura de Debret

Nonada. Tudo isso é apenas ação discursiva, ato da fala ideológica para esconder o verdadeiro propósito: o que se quer é esmigalhar o trabalhador enquanto categoria, retirar suas conquistas históricas e, em última instância, fazer parecer ao próprio trabalhador que isso foi feito para o seu bem.

É típico da ideologia conjugar como se fosse gesto bondoso, fato racional, urgente e necessário qualquer transformação que prejudique àqueles que constroem a riqueza da nação.

A mesma coisa se dá com as privatizações e assemelhados: o governo diz que a iniciativa privada fará o trabalho melhor que ele, o próprio governo. Sendo assim, vamos entregar tudo aos empresários, o que inclui o capital estrangeiro. Na sequência tudo estará perfeito. 

A respeito tenho sugestões: Primeira: por que o próprio governo não se privatiza? Sim. Se o governo julga-se desnecessário venda-se ou alugue-se tal instituição a um grupo empresarial poderoso; este passa as gerir a nação dentro de princípios capitalísticos e algumas décadas chegaremos em a alguma forma de Nirvana, Paraíso, Éden ou, quem sabe, à Lagoa Azul. 

De quebra, nos livramos dos políticos e seus cornacas. Já é um avanço, não é mesmo?

Pois bem, chega agora a minha segunda sugestão: por que, para escapar da hipocrisia, não acabamos de vez com todos os direitos trabalhistas e não se extinguem nesse aluvião férias e décimo terceiro?

Para coroar, acredito que haveria um mínimo de decência no retira-se a máscara e proclamar: 

“Artigo único da nova legislação trabalhista: fica extinto o salário. Em seu lugar serão dadas, de pagamento a cada trabalhador, uma colher e uma cumbuca de angu.”
Perfect!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Lembranças do sertão



http://www.flickr.com/photos/gustavopenteado/sets/72157621789524333/detail/


Saudade de Ti Zé Guilherme
Este rosto de vaqueiro lembrou-me fortemente a imagem de Ti Zé Guilherme, na verdade tio de Minha Mãe. Senhor das terras da Fazenda Jordão, acres de terra seca e nordestina, região central do Rio Grande do Norte.

Rijo como um cardeiro, forte como um lajedo, tinha no corpo espigado a marca do sertanejo. Tomava rapé e fumava cigarros de fumo bruto. Pai de Zé Guilherme Moço, Lurdinha e Mariinha. Luquinha, filho mais novo, lidava com o gado e o roçado.

Seu cavalo chamava-se Soberano. Era bicho arisco e difícil de selar e enredear. Cavalo bom de gado e ligeiro; zanho que só ele. Eu era doido por aquele cavalo. Bicho castanho, alto de cernelha, crina preta. Espantadiço, olho de coisa braba, jeito de cangaceiro.

Fui à fazenda acho que só umas duas vezes. Ali vi Vovó Lulu, mulher de Ti Zé Guilherme, pilando café. Colhido não sei como naquelas terras bravias. Passei a chamar Vovó Lulu de Vovó Lulu porque todos os meninos d fazenda a tinham nessa conta: vovó de todos, abraço gostoso em colo de mulher grande, matrona, dessas que amparam, protegem, refugam medo de tudo. Ô, Vovó Lulu, que saudade...

Ela era assim: sertaneja gorda, bonachona, o cabelo preto mesclado de fios alvos. Tudo puxado para trás, enfeixado num totó. A pele branca de há muito recoberta por um bronzeado entranhado, como somente o sol do sertão ferrenho pode fazer. Se você não é nordestino não sabe do que eu falo.

Lá no Jordão tinha também uma vaca de quem eu gostava muito: chamava-se Mangaba e dava um leite bom que só o cão. Naquele tempo, idos de 1959, era assim: quando uma coisa era mesmo muito boa, a gente dizia que era “boa que só o cão”. Não era “bom que só Deus”, mas bom que só o cão. Esquisito, né? Mas era assim mesmo: bom que só o cão...

A Fazenda Jordão me veio hoje à mente . Mexendo nessas coisas da net vi a foto deste vaqueiro. E me chegou também, de repente e num minuto, uma saudade tardia daqueles tempos. Saudade esquecida nas gavetas avoengas da memória de um menino que ainda teima em morar em mim

Às vezes esse menino me chama e me diz: "Rapaz, Soberano ainda espera ser montado; para que você e ele somados se metam na caatinga à procura de Mangaba: é hora de tirar  leite. O leite dos peitos fartos daquela vaca sertaneja."

Mas isso é só lembrança. Hoje eu vivo o meu hoje e digo: Ave, Maria, que tempo é esse? Mas, dai-me Senhora Mãe, coragem, espora e sela; coragem e decisão, que o tempo é de seca é pó. E que vez por outra, Senhora, me venham as lembranças de Ti Zé e do cavalo Soberano


terça-feira, 9 de agosto de 2016

A desonestidade como valor, ou a ética da esperteza

Os crimes de quem 
tem poder

O jornalista norte-americano James Reston traz em seu currículo a publicação do livro Artilharia da Imprensa. O título é suficientemente elucidativo e indica exatamente o potencial do jornalismo em agir como elemento de impacto, funcionando seu noticiário como petardos simbólicos. 
Imagem: http://blogdojuca.uol.com.br/2014/01/cartolagembandidagem/

Pois é exatamente esse canhoneio que está fazendo surgir o agendamento de que este país não tem jeito. Ou seja: o construto da convicção de que nossos líderes são todos uma massa de corruptos, uma malta de facínoras que tem por único objetivo o uso patrimonialista do Estado, a manipulação desse ser coletivo chamado de povo, e, claro, o enriquecimento de si e de seus apaniguados. 

Mas a ação da imprensa – que tem lá seus interesses em expor a corrupção de forma hiperbólica e acusando mais a uns que a outros – tem razão ao anunciar que vivemos uma grave crise moral. E que, sim, nossos líderes devem ser no mínimo bastante vigiados pela sociedade civil, evitando-se de alguma forma a consolidação da ideia de que somos um país sem solução.

 Na verdade, os usos e costumes dos bandidos encastoados no poder – qualquer que seja essa manifestação de poder, estatal ou iniciativa privada – sempre foram, desde os inícios desta nação, algo bastante enraizado, forte, firme, essencializado. 

A corrupção, a esperteza, o lucro fácil, a vantagem tirada do cargo público, tudo isso tem-se imbricado a uma certa escala de valores, chegando-se ao ponto de haver o elogio à malandragem, a louvação da safadeza, as clarinadas que louvam o descaramento.

Eu, você, todos conhecemos tipos de se utilizam da corrupção em qualquer nível: desvio de material da repartição, uso de viaturas oficiais nos fins de semana, matreirices que vão desde o mais anônimo contínuo ao mais graduado empreiteiro. 

Os líderes políticos são diariamente expostos pelos jornais como literalmente maus elementos, o que contraria seus discursos de salvadores da pátria, homens dignos e justos. 

Valho-me de Ruy Barbosa quando alardeava que chegaria o tempo em que o homem teria vergonha de ser honesto, tal o consenso existente a favor da ladroagem. E esse tempo já houvera chegado. Tanto que o tribuno já o recriminava no século 19. 

As raízes desse mal se aprofundaram e hoje as temos alastradas e sofisticadas. São grandes as forças dos criminosos do poder. Espero que a sociedade, pela sua parcela que defende a dignidade, se organize e os saiba punir. 

Mas, sinceramente, não sei, não sei, não sei...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Faça um bom negócio



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 Vende-se 
um país



Em política não há gratidão
nem reconhecimento."

(Majó Theodorico Bezerra, político da velha guarda, filiado ao antigo PSD)

Vende-se um país, largo, bem montado. Vende-se um país, bom de se morar. Vende-se um país, alto, florestado; vende-se uma terra, boa de plantar. Ah! Vende-se mais. Vende-se tudinho, dá-se até que seja; só que, lá por trás, vem minha gorjeta.Vende-se esta terra, pode olhar seu moço. Já viste maior, rica, mais ornada? Viste rios maiores, grossos, caudalosos, todos bem bonitos, prontos pra pescar?

Vende-se um país. Vende, vinde, veja. É aqui mesmo, entende? Começa na praia, vai até lá longe, onde bem de noite, sempre o sol se esconde. Tem índio, tem bicho, tem folha e tem mato. Também tem cidade, que vale se ver.

Vende-se um país. Já tem quem o queira. Se tu não te apressas, perdes a pechincha. A venda é ligeira, por baixo do pano. Sem rastros, caneta, papel assinado. Me pagas primeiro, depois vamos ver... O povo é ordeiro, ganha uma miséria, só olha TV. Besteira, nem liga o que tu vais fazer. Pagou, tem direito: pagou, vai entrar. Tu entras sozinho. Tu vais me dizer: "Valeu velho amigo, é terra pra valer.

Vende-se um país. Todo, por inteiro. Mas venhas depressa ou se entrega tudo.Compra este país, tá muito barato, tá de preço baixo, abaixo do mercado. Se não compras agora...mau negócio fazes.
É uma pechincha, muito conservado. Vende-se um país. Bato-lhe o martelo. Dou ao cavalheiro que lá no cantinho, fez gesto discreto e dobrou o preço.