sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Abaixo a CLT! Abaixo a CLT!



Uma colher e uma cumbuca de angu

Está-se falando muito em reforma trabalhista. A alegação para que aquela se aplique é que a Consolidação das Leis do Trabalho-CLT é algo superado, atrasado, perdido no tempo; algo getulista e, portanto, coisa social empoeirada, trambolho histórico a ser superado.
Gravura de Debret

Nonada. Tudo isso é apenas ação discursiva, ato da fala ideológica para esconder o verdadeiro propósito: o que se quer é esmigalhar o trabalhador enquanto categoria, retirar suas conquistas históricas e, em última instância, fazer parecer ao próprio trabalhador que isso foi feito para o seu bem.

É típico da ideologia conjugar como se fosse gesto bondoso, fato racional, urgente e necessário qualquer transformação que prejudique àqueles que constroem a riqueza da nação.

A mesma coisa se dá com as privatizações e assemelhados: o governo diz que a iniciativa privada fará o trabalho melhor que ele, o próprio governo. Sendo assim, vamos entregar tudo aos empresários, o que inclui o capital estrangeiro. Na sequência tudo estará perfeito. 

A respeito tenho sugestões: Primeira: por que o próprio governo não se privatiza? Sim. Se o governo julga-se desnecessário venda-se ou alugue-se tal instituição a um grupo empresarial poderoso; este passa as gerir a nação dentro de princípios capitalísticos e algumas décadas chegaremos em a alguma forma de Nirvana, Paraíso, Éden ou, quem sabe, à Lagoa Azul. 

De quebra, nos livramos dos políticos e seus cornacas. Já é um avanço, não é mesmo?

Pois bem, chega agora a minha segunda sugestão: por que, para escapar da hipocrisia, não acabamos de vez com todos os direitos trabalhistas e não se extinguem nesse aluvião férias e décimo terceiro?

Para coroar, acredito que haveria um mínimo de decência no retira-se a máscara e proclamar: 

“Artigo único da nova legislação trabalhista: fica extinto o salário. Em seu lugar serão dadas, de pagamento a cada trabalhador, uma colher e uma cumbuca de angu.”
Perfect!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Promessas sérias e atos altaneiros



Como construir uma cidade chamada Natal

Ó pobres, ansiosos e sofridos moradores desta cidade do Natal à beira-mar plantada. Eis que aqui venho e anuncio minha candidatura a prefeito, o que representa sem dúvida salvação e curso para este burgo. Faço o comunicado após muito meditar e receber chamamentos e convocatórias; e como sempre estive à disposição do povo assumo esta missão.

E o faço com um grandioso programa de metas à semelhança do fez o saudoso presidente Juscelino Kubitschek. São, todas, metas monumentais, que muito atenderão aos reclamos de uma cidade grande e saudável como aqui a veremos. 

Teremos quatrocentos anos em quatro, o que levará nossa cidade à condição de grande metrópole que é o seu destino. Isto posto, seguem minhas metas e propostas:

1) Farei a inauguração de uma grande construção que se chamará Forte dos Reis Magos;

2) Da mesma forma mandarei cavar um grande buraco que será cheio de água. Esse buraco terá o nome de mar. Assim que der, vou inaugurar o mar;

3) Para conforto da nossa população o mar será dividido em praias. Praia do Forte, Praia dos Artistas, Redinha, Areia Preta, Ponta Negra e por aí vai;

4) Haverá grande festa quando, na praia de Ponta Negra, eu descerrar a fita de abertura de uma obra chamada Morro do Careca. Por minha própria conta já mandei buscar no deserto do Saara a areia para a construção do citado Morro;

5) Chegando a noite vou inaugurar a escuridão; 

6) Determinarei que se junte um bocado de cajueiros em Pirangi –  que não é de Natal; mas declararei guerra a quem quer que seja dono e o tomarei para nossa cidade. E que ali seja plantado o maior cajueiro do mundo. Informo que este será inaugurado em seis meses de gestão. Meu primeiro ano de governo será comemorado com batida de caju;

7) Cavarei um buracão em forma de estrada, mandarei encher de água à semelhança do mar, e ali será chamado de rio Potengi;

8) Criarei uma grande instituição que será chamada Câmara Municipal de Natal para trabalhar em prol dos natalenses; 

9) No centro da cidade haverá um grande templo, chamado de catedral. Vamos rezar para que tudo dê certo;

10) Sempre que chover, acredite, será obra de minha realização. E funcionários públicos estarão nas ruas e acompanharão as pessoas com guarda-chuvas para que ninguém se molhe;

11) Serão inaugurados o sol e as nuvens. As nuvens e o sol serão customizados e atrairão novos e mais turistas. O sol e as nuvens serão inaugurados a devido tempo;

12) E em todas essas ruas farei implantar uma coisa chamada buraqueira para auxiliar o tráfego; 

13) Criarei algo importantíssimo chamado placa. Placas são objetos planos e largos onde se escrevem coisas. E em cada local onde houver obra de minha administração será colocada uma placa. E isso comprovará a tese de que placas também são grandes obras;

14)  Farei inaugurar uma coisa chamada chão. E haverá um grande programa de casas populares. A prefeitura dará o chão gratuitamente a cada morador. É só passar a pegar o seu;

15) Vou inaugurar também a maré e o mangue e construirei grande quantidade de buracos. 

16) Afinal, vou mandar derrubar o Forte dos Reis Magos e em seu lugar construir as pirâmides do Egito. Tenho dito. 

Caríssimo, confio em você e em sua capacidade de escolher o melhor para nossa cidade. Afinal, serão obras assim que nos levarão ao futuro. Como prova de que quero botar para quebrar já derrubei o Machadão – não sei se você viu como ficou bacana. Não acredite em nenhum outro candidato. Tudo o que este disser serão mentiras e fabulações. Precisamos dar um banho de realidade em nossa cidade Natal.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

É pegar ou largar



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 Vende-se 

um país



Em política não há gratidão
nem reconhecimento."

 (Majó Theodorico Bezerra, político da velha guarda, tempo do antigo PSD)

Vende-se um país, largo, bem montado. Vende-se um país, bom de se morar. Vende-se um país, alto, florestado; vende-se uma terra, boa de plantar. 
Ah! Vende-se mais. Vende-se tudinho, dá-se até que seja; só que, lá por trás, vem minha gorjeta.Vende-se esta terra, pode olhar seu moço. Já viste maior, rica, mais ornada? Viste rios largos, grossos, caudalosos, todos bem bonitos, prontos pra pescar?

Vende-se um país. Vende, vinde, veja. É aqui mesmo, entende? Começa na praia, vai até lá longe, onde bem de noite, sempre o sol se esconde. Tem índio, tem bicho, tem folha e tem mato. Também tem cidade, que vale se ver.

Vende-se um país. E já tem quem o queira. Se tu não te apressas, perdes a pechincha. A venda é ligeira, por baixo do pano. Sem rastros, caneta, papel assinado. Me pagas primeiro, depois vamos ver... O povo é ordeiro, ganha uma miséria, só olha TV. E tem mais: nem liga o que vais fazer. Pagou, tem direito: pagou, vai entrar. Tu entras sozinho. Tu vais me dizer: "Valeu, velho amigo, tem terra a valer."

Vende-se um país. Todo, por inteiro. Mas venhas depressa ou se entrega tudo.Compra este país, tá muito barato, tá de preço baixo, abaixo do mercado. Se não compra'gora...mau negócio fazes.
É uma pechincha, venha só pra ver. 

Vende-se um país. 
Bato-lhe o martelo. 
Dou ao cavalheiro que lá no cantinho, faz gesto discreto e ganhou na manha.

sábado, 3 de setembro de 2016

O PSDB é quem manda



O presidente terceirizado

O ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer deixou tal situação para enveredar por caminho agora mais vexatório: ele, você deve se lembrar, havia se queixado em carta a Dilma quanto à sua condição de “vice-presidente decorativo”. Agora ficou pior. Agora o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer deixou de ser decorativo para ser presidente terceirizado.

Bem pior, não é mesmo? Agora o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer é caudatário do PSDB, que não brinca em serviço. Sim, e ele também deverá atender aos puxões de orelha do centrão. A terceirização implica obediência. Ou faz ou racha. 

Como se deu a terceirização: o partido tucano, como não pôde assumir o protagonismo com o golpe terceirizou ao ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer encargo e label de passar uma vassoura nos direitos trabalhistas e fazer escoar a Petrobras ao capital internacional, além de garantir ao capital rentista mais lucros e gorduras.  

Mais claramente: o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer é aquele sujeito que vai passar à história como o obediente mandatário, o obreiro do desmonte, o jardineiro da desertificação. 

Assim, como presidente terceirizado, cuja parceria com o PSDB tem data certa para acabar – 2018 está ali na esquina e o PSDB vai demiti-lo – o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer sabe que vai arrostar todos os desgastes decorrentes dos ataques aos trabalhadores, enquanto o tucanato ficará à espreita e – não tenha dúvida –, lhe fará oposição oportunista e tática sempre que julgar necessário. 

Resumo: o ex-vice-presidente-e-ex-presidente-interino-Michel-Temer continua como decorativo ao assumir sua condição de presidente terceirizado. E o que é pior: não tem mais a quem mandar carta lamentando sua desdita.
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Foto: https://www.google.com.br/search?q=temer&client=firefox-b&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwiLlcfIi_POAhUHgpAKHeO1C-8Q_AUICSgC&biw=1920&bih=922#imgrc=XkAFAFXVcWx--M%3A


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Um velho texto que me comoveu



E foi só pra receber um pedaço de papel

(Emanoel Barreto, setembro de 2010)

Tenho dificuldade em viver situações cerebrais; situações em que valem esquemas mentais lisos, rapados como tábua que acabou de sair da carpintaria. Tenho dificuldade em conviver com grupos que pensem de forma matemática. Prefiro a diversidade da vida ao numérico; as coisas arriscadas da escrita ao que já esteja com final antevisto; as coisas que podem se desvencilhar do estrutural e do planejado, do programado e reto e, por isso, estático de nascença. A matemática não erra nunca e isso para mim não tem graça.


Certa vez, isso há anos, quando ainda fazia o mestrado, participava de equipe de pesquisa social muito rígida. Muito competente e séria também, diga-se, em seus propósitos. Mas eu nunca me ajustei. Eram planilhas demais, argumentos demais, certezas demais. Um dia fui assim descrito: "Barreto é um outsider". E era verdade. Então, para não prejudicar as certezas acadêmicas retirei-me do grupo. 


Trabalho com o imponderável, o inusitado, as pequenas coisas, o dispensável. Para mim uma formiga carregando uma folha que pesa mais de dez vezes que ela é acompanhar uma odisseia, uma travessia, uma grande aventura que chega a ser humana - pelo menos no paralelismo que estabeleço entre humanidade e a vida de uma formiga. Com vantagem para a formiga: ela não está sendo explorada porque, a rigor, aquilo não é trabalho: é vida. Todo o formigueiro comerá daquela folha. Sem pagar.


Acompanho aquela formiga com vivo interesse, até que ela suma no misterioso, secreto, escuro e seguro túnel que é sua morada. Também acompanho com interesse os passos dos meus netos. Suas pequenas e inestimáveis descobertas, sua ingênua aventura de começo. Mas, devo admitir, as coisas que crio têm também sua organização caótica. O caos é a essência de todos os inícios, a desorganização em estado perfeito. A imprevisibilidade do próximo passo. É não chegar nunca e continuar querendo não chegar.


Foi assim pensando que este ano fui a Bogotá apresentar trabalho acadêmico: "A fotografia como paixão em Cartier Bresson". Está vendo? Não consegui produzir um texto científico; apresentei um ensaio apaixonado sobre a paixão do mestre da Leica. Foram mais de dez horas de avião até a capital da Colômbia: primeiro de Natal a São Paulo saindo daqui de madrugada. Ali, uma espera que dava a impressão de século. Afinal o voo que me levou à belíssima Universidade Javeriana, entidade católica. Elitíssima: meninos e meninas da mais fina flor bogotana.


Apresentei meu trabalho um dia depois da chegada. Completamente diverso dos trabalhos dos colegas: eles e elas científicos. Eu, gauche, alumbrado com as fotos de Bresson. E deu certo: fui o último a mostrar meus slides e meu texto. Mas o fiz com tanta convicção que a Mesa Diretora, ao encerrar nosso seminário, me fez um carinho de ego: "Barreto, foi o ponto alto. Seu trabalho foi uma celebração". Confesso que vivi - aqui peço esse empréstimo a Neruda -, essa ponta de vaidade.


Mas o mais importante ocorreu quando voltei. Dias depois da chegada minha neta perguntou o que eu tinha ido fazer tão longe. Expliquei. E ela indagou: “Mas, Vô, você tirou o primeiro lugar?”.

Disse que não, que não era um concurso. Apenas a gente apresentava o trabalho e “recebia um certificado, um diploma, viu?”.


Aí, ela me fez a pergunta decisiva: “Mas, Vô, você fez essa viagem tão longe só pra receber um papel?”

E eu: "????????????????????????????????????????????".