terça-feira, 17 de março de 2026

  'O delegado sou eu!'

Por Emanoel Barreto

 Eu o vi certa vez: bêbado, mirrado, bracinho fino erguido e indicador apontado para o alto, caminhava bradando uma inútil advertência: "O delegado sou eu! O delegado sou eu!" Ninguém contestava, até porque nele ninguém prestava atenção a não ser eu, em minha ingênua curiosidade de menino de seis ou sete anos; não sei se perplexo ou estranhamente fascinado por aquela cena que oscilava entre o ridículo e o comovente eu acompanhava com o olhar aquele homem trôpego e malvestido. Isso aconteceu em algum instante dos anos 1960.

 Da minha casa eu o via seguir ladeira abaixo. Ele passava na calçada do outro lado da rua e seus gestos hoje me lembram um Carlitos torto e anônimo, um brasileiro pobre que se dizia autoridade.

 Bem que eu poderia tê-lo presenteado (meninos, se você não sabe, podem tudo) com uma linda viatura policial que naqueles tempos eram chamadas de "tintureiras", para ele fazer valer sua disposição de Quixote e prender todo mundo. A tintureira seria toda pintada em preto e branco e Delegado poderia cumprir mandados, fazer flagrantes, capturar os maus. 

 E mais: eu poderia pedir ajuda aos meus amigos Zorro e Tonto, Billy the Kid, Kit Carson, Roy Rogers, o Fantasma, Búfalo Bill, Águia Negra, Falcão Negro, Daniel Boone, Dom Chicote, Cavaleiro Negro, Kid Colt e, claro, Jerônimo, Aninha e Moleque Saci. Se a coisa ficasse muito feia poderia chamar o Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda, e mais: El Cid, o imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Os mosqueteiros Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan também poderiam vir. Jamais me abandonariam.

 Eles eram invencíveis, eram meus amigos e nunca se negariam a ajudar a mim e ao Delegado. Eu daria a ele um dos meus revólveres de plástico, quem sabe até mesmo um de metal, o mais bonito, o que disparava espoletas. 

 Com essas armas eu mesmo prendi muitos bandidos que habitavam esconderijos imaginários somente conhecidos por mim. Eu tinha até uma estrela de xerife ganha numa promoção da Toddy, premiação chamada Patrulheiros Toddy. Eu era um Patrulheiro Toddy e bem poderia ter ajudado ao Delegado. Mas não fiz nada. Não chamei os caubóis, nem os grandes espadachins, não lhe dei a tintureira, não lhe dei meu revólver, não saí galopando a seu lado rua abaixo.  

Nada, nada, nada; somente o vi passar; tão desamparado, maltrapilho e tão bêbado, um pobre brasileiro e se perder na pesada ladeira.

 

E ele se dizia delegado. Ele só queria respeito. Porque tinha a autoridade de ser povo, pobre e cambaleante.

Após aquele dia nunca mais reencontrei o Delegado. E, acho, somente hoje descobri que ele também era meu amigo, e tão corajoso e firme como Jerônimo ou Zorro. Afinal, eu e o Delegado vivíamos em mundos próximos, universos imaginários, e queríamos ajudar, prendendo bandidos. Naquele tempo, além de querer prender bandidos, eu tinha outra paixão: queria ser arqueólogo, pensava em ir ao Egito e fazer grandes descobertas. Não fui. Fiquei aqui no Brasil vendo poderosos fazendo às vezes de faraó e ganhando muito dinheiro às custas da fé popular.

 Hoje penso no meu amigo Delegado, reduzido a uma réstia de lembranças. E agora me vem, não sem um certo temor e uma fisgada de angústia: acho que quando ergo minha voz nestes textos de internet também estou descendo alguma ladeira e grito como o louco sublime: "O delegado sou eu! O delegado sou eu! O delegado sou eu!"

 

 

 

 


sexta-feira, 13 de março de 2026

 Nós, pobres animais de Deus

Por Emanoel Barreto

O poeta potiguar Luís Carlos Guimarães definia os seres humanos como “ nós, pobres animais de Deus”. Não era apenas uma assertiva certeira e perfeita, frase de efeito ou tirada genial em meio a um bate-papo regado a cerveja, mas um belo verso de poema cujo título não recordo.

É isso mesmo o que somos: animais que pastejam pelas ruas, ruminam sonhos, mendigam empregos, buscam horizontes artificiais para correr em busca de suas crenças, inventam santos e demônios, festejam alegrias, guardam rancor ou expressam gratidão e amor – ou o inverso, o que é mais comum.

Isso para citar apenas algumas das nossas facetas, que são muitas, extensas e misturadas em um emaranhado complexo e infinito de fatos e ações, todos largos e sem fim como sem fim são as múltiplas consequências de nossos gestos e atos para o bem ou para o mal – às vezes, para as duas coisas ao mesmo tempo.

As grandes vitórias, os impérios financeiros, as gigantescas corporações, o barraco do miserável, o magnata e o desvalido; tudo isso terá fim com a morte de um e de outro, do potentado e do indigente: são a essência, o trabalho e a consequência de sermos pobres animais de Deus.

E depois virão novamente as grandes vitórias, os impérios financeiros, as gigantescas corporações, o barraco do miserável, o magnata e o desvalido; tudo isso terá fim com a morte de um e de outro, do potentado e do indigente: são a essência, o trabalho e a consequência de sermos pobres animais de Deus.

Somos, ao passar do tempo, como o bicho que busca arrancar da terra a grama que o alimentará. A vaca faz isso todos os dias sem consciência do ato em si. Ela o faz e pronto. Vive a calma, a indolência modorrenta de sua eterna e transitória existência. Nós fazemos a mesma coisa, só que em outro nível de inconsciência e n aturalização.

Lutamos todos os dias, seja num emprego mal remunerado ou atrás do birô do milionário, obedecemos ao chefete atrevido ou somos o próprio, e tememos o ataque do bandido de rua: diante disso a condição humana nos obriga a ter algo de nosso, queremos garantias, defesas.

Como nossa fragilidade não nos permite arrancar grama do chão com a boca precisamos de um prato, de um teto, remédios e amparo na velhice.

Ao final, como a vaca, buscamos de forma inconsciente o que seja necessário e nos proteja. Ela precisa de grama, nós tentamos enganar nossa miserável condição humana com almoços e confraternizações. 

Tudo vale a pena. Nada vale a pena.

Paciência, somos pobres animais de Deus.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

 Os sonhos foram a primeira

forma de cinema

Por Emanoel Barreto

 

Uma vez estava conversando comigo mesmo – gosto de falar comigo mesmo; afinal, preciso conversar com alguém em quem tenha total confiança. No meio da conversa eu e mim começamos a discorrer sobre cinema: chovia a cântaros, e, pela janela, observamos como estava bela a enevoada paisagem, apesar da poderosa e quase aterrorizante chuva. Da janela, vidros molhados, a vastidão campestre distorcida era espetáculo que lembrava uma pintura impressionista.

A tempestade envolvendo o campo poderia ser o cenário perfeito para um filme, dissemos. E então eu disse a mim, “sabia que a primeira forma do cinema foram os sonhos?”. Mim concordou imediatamente, começando por lembrar que aqueles, digamos, sonhos, devaneios, são histórias que surgem das brumas da mente e podem nos levar a momentos de maravilha, magia e encanto ou a abismos profundos, escondidos em nossa própria essência. “Somos nosso próprio terror no cinema embutido em nossas cabeças”.

“Do mesmo jeito que nos filmes de horror”, sugeri, e mim concordou, lembrando que às vezes temos sonhos que se repetem, sonhos que têm continuação, sonhos de que não nos lembramos. E mim disse a eu, “eu também. Veja como somos parecidos.”

Bons sonhos.

Os sonhos foram a primeira forma do cinema, estamos convictos, pois, da mesma forma que hoje o mundo se vale dos críticos dos festivais para divulgar o cinema – esse sonho das multidões –, os reis, os grandes, os  principais, os nobres e cortesãos se valiam de áugures, intérpretes de sonhos, e aqueles lhes atribuíam explicações, avaliações e justificativas para do onírico dizer se eram produções que prenunciavam terríveis acontecimentos futuros, ou auspiciosos momentos de festejos e pompa.

E hoje, em casa, temos também nossas superproduções quando adormecemos, da mesma forma que os potentados ou nossos mais distantes ancestres, reunidos à volta da fogueira, olhando a lua e contando dos terrores ou belezas que haviam visto ao dormir.

Eu e mim estamos certos de que, na verdade, vivemos imersos em sonhos, acordados ou dormindo: a ilusão da existência está desfocada e nos cerca de convicções que se revelam disformes e ambíguas; a realidade é uma mistura de manchas e labirintos, onde as verdades se esvaem.

E eu, mim e você caminhamos nos sonhos e no cinema e nos perdemos em tudo o que acreditamos, quando a realidade se desmancha em lufada de vento.

É tarde. Já vamos dormir. Achamos que caímos num desvão ilusivo e esse texto escapou de nossas mãos sem querer. Desculpe-nos.

terça-feira, 10 de março de 2026

 

A verdade que ilude

os ignorantes

Por Emanoel Barreto

 

A ignorância é um bem precioso nas mãos dos poderosos. Com ela se fabricam mentes toscas, ideias são plantadas como ervas daninhas, pessoas caminham para o abismo ao som de cânticos e louvores ao deus da estupidez.

A ignorância vale muito, e o pior é que o ignorante, pela sua própria situação, não se descobre enquanto tal, uma vez que lhe disseram que uma certa mentira é verdade e o ignorante acreditou – pelo fato mesmo de que não tem condições de descobrir a contraface do erro que lhe foi ensinado.

Desta forma, liberdade, justiça, democracia, direitos e respeito somente o são segundo uma fórmula que passa de geração em geração, levando poderosos sempre no mesmo andor, enquanto o ignorante lhes dá suporte e os leva sobre os ombros, acreditando estar certo, já que está  misturado, dissolvido em uma sopa de crenças e certezas. A ilusão de que ser serviçal ao poder garante estabilidade e paz, domina os tontos e todos vão, à noite, dormir em paz.

segunda-feira, 9 de março de 2026

 A mulher triste e

coisas de horror profundo

Por Emanoel Barreto

 

Estávamos nos anos 70. Era noite. A sessão do cine Nordeste havia terminado. Entramos no carro minha mulher e eu. Saí dirigindo como que sem destino.  “Vamos passear por aí”, disse – até que, não sei por que, tomei a direção da fortaleza dos Reis Magos – a cidade já se embrulhando em seu sono, as ruas noturnas que não faziam medo, o rádio tocando alguma coisa, o carro em velocidade baixa. Tudo ia bem.

Afinal chegamos ao forte. A praia onde está plantado, completamente diferente de hoje, parecia ser algum ponto fora de Natal, ainda meio selvagem e deserta àquela hora. Ao fundo a imponente fortaleza e seus fantasmas portugueses, quem sabe esperando ataques de indígenas ou de tropas de holandesas, num combate de velhas almas armadas de arcabuzes barulhentos e canhões enferrujados.  A lua entrava como parte do cenário de algum filme noir. No mais, silêncio.

O carro foi se aproximando de um clube que havia por lá; a construção, às escuras, era como se fosse algo de há muito abandonado. A única luz vinha da luminária de um poste onde divisei cena que poderia muito bem compor o texto de um livro de realismo fantástico: bem perto do poste havia um carrinho de cachorro-quente e refrigerante.

O vendedor era um senhor já idoso, vestindo uniforme de uma empresa. O carrinho era de chamar a atenção: nada desses feitos em casa: eram geringonças de flandre com duas rodonas de bicicleta e pneus carecas; não, nada disso. O carrinho era pintado em vermelho, demonstrava ser feito em material de primeira e, detalhe: nele havia, preso a uma de suas laterais, um candeeiro daqueles que a gente acendia e ele reluzia igual a uma lâmpada fluorescente. Caso fosse preciso a engenhosa coisa supriria a escuridão.

Pregunta-se sobre aquela situação: como aquele homem chegou àquelas lonjuras, superando a distância certamente existente entre a empresa dona do carrinho e a areia da praia do Forte? Qual clientela ele poderia esperar em naquele local ermo? Por que alguém faria tal investimento? Por que um empresário pagaria a um funcionário para ficar ali, à noite, num lugar deserto? Senti que vivia um instante torto, como se fosse alguém caminhando no  interior de uma paisagem surrealista. Pacífica loucura. Momento diferenciado. Coisa esquisita sem ser malfazeja.

Eu ainda estava sob os efeitos daquela situação inusitada quando vi algo que rompeu o instante insolitamente onírico: uma cena triste, tristíssima, cortou a esquisita beleza daquele momento em que eu e minha mulher bebíamos Coca e comíamos cachorro-quente. Seguinte: ao fundo, divisei, caminhando pela areia, uma mulher que andava para lá e para cá, passos tardos, cabeça baixa, afundada certamente em pensamentos terríveis e crivada de sofrimentos de masmorra.

Fiquei paralisado e observei: ela ia para um lado em linha reta, andava uns dez metros, virava e, logo após, voltava, seguindo as pegadas que deixava na areia. Percebia-se seu sofrimento e solidão. Emanava de si uma dor profunda e de sua alma espumava uma sincera infelicidade, acompanhada de angústia confessional que demonstrava todo o seu sofrimento.

Parecia estar vazia de tudo o que significa estar vivo e, mais que isso, expunha estar despojada do que seja se desejar viver. Havia ali um ser humano que se desfazia em sombras e silêncios de catástrofe. Ela estava em momenmto de horror, perdida em seus próprios arrabaldes. Desorientada de si. Alguém que queria se morrer. Um pedaço de nada. Algo ou alguém havia destruído a mulher, arruinado a pessoa que habitava aquele corpo. Recusei-me a entendê-la como coitada. Ela resplandecia de pungência. Assumira por completo a queda.

Fiquei parado um bom tempo observando aquele tormentoso martírio até que não deu mais: parei de olhar a cena desalentadora paguei a conta e saí, deixando para trás o velho, seu carrinho vermelho e aquela sereia devastada. O carro partiu para casa em marcha lenta: ao dormir sonhei coisas de horror profundo.

domingo, 8 de março de 2026

 A vida acaba,

a palavra fica

  Por Emanoel Barreto

A última vez que publiquei aqui foi dia 17 de outubro de 2024. Ainda assim, verifiquei hoje, um público fiel mantém vigilância diária nesta página, numa espécie, creio, de visitação arqueológica, buscando talvez as matérias mais antigas como novidades: afinal o que ainda não se viu mesmo velho é fato novo.

Às vezes digo a mim mesmo: quando se nasce com a inquietação da palavra há de se cumpri-la à luz da vela de uma vida que se esvai enquanto você escreve, redige, fala consigo mesmo, se perde no labirinto da sua própria imaginação, caminho que nunca acaba. No fim a vida acaba, a palavra fica.

E por que parei de escrever? Não sei. Digamos que as palavras que estavam escondidas em minhas mãos se esvaíram a cada texto, até que se extinguiram. Só pode ser isso. Consultei um amigo, que é cientista e louco e ele me assegurou: quem gosta de redigir tem sim um estoque de palavras e o excesso de uso as consome temporariamente. Depois quem se extingue é você e então suas palavras ficam órfãs, à procura de outras mãos onde possam se sentir acolhidas. E, acolhidas, começam uma nova ciranda –  e assim sucessivamente.

Então, hoje, veio-me a vontade de escrever e descobri que as palavras voltaram. Regressei ao teclado do piano do computador e compus esse pequeno solo, todo cifrado nos sons silenciosos do texto.

Obrigado, espero voltar amanhã.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

 Desejo da matar: 

o plano sinistro

para um dia de ira

 Por Emanoel Barreto

Nos idos de 1974 eu era repórter da editoria de polícia do Diário de Natal. Uma tarde apareceu por lá um homem que se identificou como funcionário da Secretaria de Segurança: queria informar a respeito de um enfrentamento que pretendia ter com um colega de trabalho: situação a ser resolvida a tiros, assunto de inimizade terrível e ódio sincero.

Não quis falar a respeito do motivo para o surgimento de tamanha raiva. Queria mesmo era descrever como se daria o confronto, coisa que sua mente perturbada queria consumar a qualquer custo, mesmo que, em meio aos balaços, ele viesse a morrer. O sujeito tinha olhos negros e um bigode que cobria fartamente o lábio superior. As mãos fortes pareciam dispostas a se destruir mutuamente, tal a forma como se apresentavam: crispadas e quase pingando o fel da sanha que animava o tal sujeito.

Eu perguntando a respeito do intento, ele falando, eu anotando. Indaguei sem interrogação: “Quer dizer que o senhor pretende atacar seu colega...” Ele disse “sim” e acrescentou, colocando o cotovelo sobre o birô e fechando a mão direita como se fosse dar um murro que teria a força estúpida de um coice: “Sim, e pretendo atacá-lo de forma definitiva.”

Quando eu quis saber o que seria exatamente essa forma definitiva claro que já imaginava a resposta. Ele foi objetivo ao dizer que o homem alvo de tamanha raiva, gana a furor não escaparia. Morte certa seria o fim daquela jornada insana.

À medida que detalhava seu plano ia ficando mais e mais excitado em seus intentos molestos. Gesticulava e falava alto, chamando atenção. E olhe que ele estava numa redação, ambiente que naquele tempo era muito barulhento, com o entra e sai de repórteres e fotógrafos, máquinas metralhando textos e preenchendo laudas e laudas.

Disse em seguida: “Terei comigo uma pistola muito boa, um revólver calibre 38 e outra arma de fogo: pesada, para bater e machucar.” Ainda hoje, sempre que lembro desse assunto, me pergunto por que ele iria manusear uma arma de fogo para “bater e machucar” em vez de usá-la para disparo. Talvez quisesse iniciar o combate corpo a corpo para depois dar início ao tiroteio. Perguntei e a resposta foi essa: “Depende do momento.”

Quando quis saber onde se daria o confronto foi taxativo: “Será na rua, em frente à Secretaria de Segurança.” O plano era simples: esperar que o inimigo chegasse à Secretaria – que na época funcionava onde fora a Faculdade de Direito, na Ribeira –, defrontá-lo e partir para a agressão. Olhou para mim e disse, olho no olho:

“Espero liquidar o assunto em menos de cinco minutos. Quero despachar o sujeito – cujo nome não revelou de jeito nenhum –, mas quero evitar atingir algum passante, embora isso seja sempre uma possibilidade..”

Quando seria o confronto? “Não sei. Talvez amanhã, quando a edição dessa entrevista estiver na rua.”

Não quis dizer mais nada. Agradeceu e saiu pelas portas de vaivém da redação, típicas de um saloon de filme de caubói. Portas bem apropriadas para receber o assunto que acabava de ser tratado.

Ainda sob o impacto daquela loucura e como eu era muito novo em jornal, coisa se três ou quatro meses, dirigi-me a colegas mais experientes e contei o que havia acontecido: quase me disseram em coro: “Você está doido? Isso é um duelo. O jornal não pode noticiar a programação de um crime. Deixe isso pra lá.”

Como sequer havia começado a redigir a matéria engavetei na memória aquele assunto e somente hoje estou falando dele. Detalhe: dia seguinte eu estava esperando que a qualquer momento chegasse a notícia do embate em frente à Secretaria. Eu teria que ir direto para lá, para saber detalhes. Até hoje não ouvi falar a respeito...

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

 “Quem vai me

 pagar a cobra?”

 

Por Emanoel Barreto

A morte de Seu João Vilaça chocou a todos quantos o conheciam. Homem bom, sertanejo de têmpera de aço, tinha, por trás da cara amarrada, um grande coração, jamais negando uma ajuda a quem quer que fosse. Assim, familiares e amigos estranharam muito quando fora atacado e morto por um bandido. O agressor chegou e, sem palavra, disparou a arma uma, duas, três vezes. Seu Vilaça caiu pronto.

Homem querido, o velório recebeu muitas presenças. Todos lamentavam a morte: “Era um velho duro”, disse um amigo. “Se não fosse isso, ainda iria viver muitos anos”, completou uma senhora. As pessoas lamentavam o ocorrido e enfatizavam: mas como isso poderia ter acontecido? Não houvera discussão, briga, desentendimento algum. Nem mesmo uma tentativa de assalto.

A família lamentava a frieza como o crime fora cometido, o que aumentava a revolta e a dor. Ninguém encontrava explicação e havia mesmo quem pensasse em reunir um grupo de amigos para encontrar e justiçar o matador. “Não se pode aceitar uma coisa dessas. A violência chegou a limites do insuportável para os cidadãos de bem”, reprovava um velho amigo de Seu Vilaça.

Como, por que o bandido tomara tal atitude frente a um homem velho, indefeso, incapaz de agredir alguém? Nisso entra na casa um estranho. Esgueirando-se por entre as pessoas o homem pediu licença a Genebaldo, um amigo do morto, e disse que precisava urgente falar com alguém da família, alguém muito próximo, de preferência filho ou até mesmo a viúva.

Insistia: era assunto importante e somente com uma pessoa assim poderia conversar. O velho tinha prole numerosa. Genebaldo ficou assim..., olhou para um lado, para o outro e afinal seus olhos encontraram a figura de Arminda, a filha mais velha de Vilaça, e que estava em melhores condições emocionais frente à tragédia.

Ela conduziu o estranho à cozinha e dele ouviu a seguinte história: Seu Vilaça sempre havia devotado grande ódio a bandidos. Desde os bandidos convencionais, digamos assim, até aqueles de colarinho branco. “Sei disso”, admitiu Arminda. “E daí?” Daí, prosseguiu o homem, que Seu Vilaça havia encontrado um modo engenhoso de matar bandidos, sem que ninguém desconfiasse.

“Como assim?” Ora, muito simples: toda semana o estranho, que morava numa cidadezinha do interior, capturava uma cobra que era levada a Seu Vilaça. Ele recebia, pagava e colocava o bicho numa valise bem trancada. Tinha preferência por cascavéis (“Adoro o barulhinho assassino do maracá”), o homem fez questão de detalhar essa fala, assumindo ares de grande conhecedor do velho e suas ações de justiçamento.


“E para que ele queria essas cobras?”, quis saber Arminda. Claríssimo estava, salientou o sujeito: para matar bandidos. Seu Vilaça ia ao Centro da cidade com a valise na mão, encaminhando-se a locais onde notoriamente agiam ladrões especializados em furtar bolsas, pastas, carteiras. Ele se enfiava no meio da multidão, procurando atrair a atenção dos bandidos.

Logo, logo, um deles se atirava sobre o velho e roubava a mala. É claro que, na confusão, na correria, o bicho ficava assanhado e, pouco depois, quando o ladrão abria a valise, a cobra pá!, tacava-lhe a mordida fatal. "E olhe que ele havia matado muitos, muitos desse jeito, viu? Pelo menos uns vinte."

“Então...”, balbuciou Arminda....então, esclareceu o homem, Vilaça fora morto por vingança. “Vingança?, balbuciou a mulher. Sim. Claro. Os marginais terminaram percebendo que estavam sendo vítimas de uma armadilha e abriram fogo.

E afinal, frente a uma Arminda paralisada de susto e dor, o homem arremeteu seu bote: “Sim, minha senhora, foi uma vingança. E eu não posso ficar no prejuízo. E agora por favor decida: quem vai me pagar a cobra?”

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Frei Damião falava ao povo e a multidão pedia o comunismo

 Por Emanoel Barreto

 Creio que foi no ano da graça de 1980 que tive a oportunidade de entrevistar a venerável figura de Frei Damião, o santo do sertão, amado do povo, protegido de Deus e de Nossa Senhora, vindo da distante cidade de Bozzano, Itália, para cuidar do rebanho de sertanejos, preservar a fé e encaminhar as almas todas para o Céu.

Fui à cidade de Ceará Mirim, pouco mais de 40 minutos de Natal, onde ele se encontrava. Encontrei-o na igreja matriz. Abençoado templo povoado por imagens de santos e de anjos, querubins e serafins. A pequena e cândida figura atendia em confissão a enorme fila de mulheres cobertas por véus e envoltas em doce auréola de rezadeiras, como só as existem no Nordeste. Mulheres suadas de fé.

E eu fiquei olhando para elas. Atentei para suas bocas que fervilhavam baixinho rezas velhas, mistérios sussurrados em uma língua estranha que jamais consegui apreender desde quando, ainda menino, olhava minhas tias fervorosas diante de uma vela e de uma imagem de Nossa Senhora. Deviam ser coisas muito altas, evoladas da inefável religião dos bons, áugúrios de uma vida melhor depois da morte, quem sabe o repouso calmo no regaço da Virgem.

Preste atenção na boca de uma velha rezadeira: é ali que mora a alma, tenho certeza. A minha mente de repórter, todavia, estava preocupada com algo mais urgente e menos devoto: o tempo. Eu tinha hora para voltar à Tribuna do Norte e fazer o meu texto.

Com alguma insistência junto a um auxiliar do beato consegui parar a confissão e ele me atendeu. Confesso, sem trocadilho algum, que nem mesmo sei o que perguntei. Mas, o que mais valia era relatar o encontro dulcíssimo do pastor com o seu rebanho, captar o ambiente angélico, a doçura do olhar do Frei, seus conselhos e penitências passadas àquelas pessoas sacras e pias.

Saí, confesso novamente, com a alma cheia de alguma candura - certamente meu coração de repórter, feio e mau, tocado pelos instantes miríficos. Assim, de volta à redação, encontro com outra figura humana portentosa: Dorian Jorge Freire, diretor de Redação. Católico, minúsculo de tamanho, mas enorme em sabedoria e humanismo.

Terminado o meu texto, Dorian, que também tinha grande espírito de humor, contou-me o seguinte: 

Certa vez, Barreto, Frei Damião estava com suas missões pelos sertões distantes. Fazia sua costumeira pregação contra o pecado, a devassidão e o adultério. Defendia o sacramento do matrimônio e dizia que, sem ser casado, o casal era "como o cachorro e a cachorra, o touro e a vaca." . Advertia também a todos contra o perigo do comunismo vermelho e ateu.

E dizia: "O comunismo é pecado grande, pecado mortal. O comunismo é a besta-fera que vem para desafiar o Evangelho. O comunismo é o perigo até mesmo para as mocinhas." O povo olhava e ouvia tudo, pasmo, temeroso, pronto para fugir, caso o comunismo chegasse a qualquer instante.

  Parecia até que o comunismo estava por ali, pronto para desferir seu bote. Afinal, Frei Damião fez sua última invectica contra o comunismo periculoso e bradou ao povo sertanejo, como se fora um novo Conselheiro: "E então, quereis o comunismo?, e o contrito povo, procissão desvelada e crente, respondeu piedosamente, em coro monumental "Quereis!"

 

 

domingo, 29 de setembro de 2024

  De repente a PF baixou no Diário de Natal: os agentes queriam “falar comigo”

Por Emanoel Barreto

O ano era 1985 ou 1986, sei lá. Eu era repórter de política do Diário de Natal. Certo dia, ao entrar na redação vindo da Assembleia Legislativa, fui surpreendido pelo hoje saudoso jornalista Luciano Herbert com a seguinte informação: “Barreto, Albimar – Albimar Furtado, diretor do jornal – me disse que dois agentes da Polícia Federal estiveram na sala dele para saber se você trabalha mesmo aqui. Ele confirmou que você trabalha aqui e os policiais o tranquilizaram dizendo que estava tudo bem, era só para saber se você é mesmo repórter do jornal.” E completou: “Fique tranquilo, não há problema algum...”

A informação me soou no mínimo estranha: dois caras da PF terem o trabalho de ir a um jornal só para informar a um repórter que as coisas estavam bem é meio esquisito, não é?  Pelo menos eu acho. Porque, até onde sei, não é papel da polícia procurar cidadãos, acalmá-los, dizer-lhes que está tudo bem e ir embora. Pelo que sei, polícia quando sai é para investigar ou, na pior das hipóteses, prender...

Diante de tão esquisita situação fui à sala de Albimar. Ele afirmou angelicalmente a mesma coisa que Luciano: “Não, não se preocupe: realmente eles estiveram aqui, falaram comigo, confirmei que você é do jornal, eles disseram que ‘está tudo bem’ e foram embora. Não se preocupe. Eles queriam falar com você, mas como você não estava... Mas eles disseram que está tudo bem, viu?”

Respondi: “Se você está dizendo...” e fui para a Redação preparar minhas matérias. Enquanto isso fiquei pensando: como é que dois experientes jornalistas são tão ingênuos a ponto de não perceber que havia algo a mais no ar, e pelo jeito não eram apenas mosquitos?

Enfim, diante da candura dos meus colegas dei também o caso por encerrado e fui trabalhar. Dias depois, uma surpresa: o mesmo Luciano informou, agora com cara de preocupação: “Barreto, um oficial de justiça veio aqui lhe procurar. Você está sendo processado não sei por qual crime e precisa assinar um documento oficializando que sabe do processo.”

Eu disse “o quê?!!!!” 

E ele: “É verdade.”                                                   

Pensei: “Eu num disse? Não estava tudo bem: Luciano era realmente um ingênuo e Albimar era um doido.” Mas, não sei bem por que não dei muita importância ao fato e fui redigir meus textos. Afinal, eu não havia feito nada de errado e segui em frente. Dois dias depois o oficial de justiça procurou-me novamente, eu não estava e ele se foi. Mais uns três dias e repetiu-se tudo: o sujeito me procurava e eu sempre fora, cumprindo pauta.

Dessa vez, porém, deixou uma ameaça: eu deveria dirigir-me à repartição onde ele trabalhava e assinar o documento de citação. Era isso ou o processo ia correr à minha revelia. Em suma: eu estava lascado.

Então, caiu a ficha. Sabe Kafka? Já leu O processo? Foi assim que me senti: estava sendo processado e não sabia o motivo, igualzinho ao livro. Mas, diante da mudança de quadro peguei o carro e fui procurar o tal funcionário. Encontrei-o, tomei conhecimento do crime pelo qual era acusado, assinei o papel, peguei a minha cópia da citação e fui embora. Sim: e ele ainda me deu um aperto de mão. E disse a frase fatal: “Está tudo bem.” Na verdade, era exatamente o contrário: agora eu era, literalmente, um homem na mira da lei.

E o meu crime: ter publicado uma notinha na coluna Roda Viva, de Cassiano Arruda, que estivera fora alguns dias e eu fora seu interino. A tal nota, minúscula, na parte inferior da coluna, informava a respeito do resultado de uma pesquisa sobre intenção de voto numa cidade do alto-oeste potiguar. Especificamente o crime estava no fato de que a pesquisa não havia sido registrada no Tribunal Regional Eleitoral, o que por lei é obrigatório . Eu não atentei a isso e publiquei.

Alguém, que nunca soube quem foi, havia representado contra mim a partir desse fato. Suspeito que tenha sido algum dos candidatos que ficaram em segundo e terceiro lugares.

A informação sobre a pesquisa me fora passada por Joaquim Pinheiro, um jornalista conhecido meu, mas um tipo com quem não tinha muito contato. Não lembrei de perguntar se o material fora autorizado pela Justiça para publicação, ele não tocou no assunto e deu no que deu: uma mera informação, sem qualquer propósito de beneficiar qualquer lado, estava me levando às barras do tribunal.

Mais uns dias e fui prestar depoimento à Polícia Federal. Cheguei lá e disse: “Boa tarde. Vim aqui para ser interrogado.” O recepcionista, muito atencioso, disse: “Tudo bem. Venha por aqui.” Novamente “tudo bem”. O cara entra numa fria e tudo bem.    

Pensei: por que tudo o que vem para me lascar vem precedido de um “tudo bem”? E caminhei ao lado do rapaz da PF.

Fui levado a uma grande sala, cheia de birôs, onde fui recebido por dois senhores de gravata, as mangas das camisas sociais arregaçadas. Eram dois delegados. Eu supunha que ia ser um interrogatório truculento, cheio de perguntas capciosas, mas não. Foram feitas perguntas objetivas visando saber se eu tinha interesse na eleição de alguém e se era filiado a algum partido político. Tudo nesse tom. Jogo limpo.

Sim, ao chegar já encontrei Albimar me esperando ao lado de um advogado do jornal. Tinham vindo dar-me assistência jurídica e eu nem havia pedido. Claro, o jornal tinha obrigação de me apoiar, mas eu sequer havia pensado nisso, tal a minha confiança de que nada havia feito de errado. Uns 20 anos depois, em cerimônia na UFRN, agradeci publicamente a Albimar pelo gesto. O agradecimento se deu durante o lançamento de um ebook que tratava de perfis biográficos de jornalistas, eu e ele citados no livro.

Bom, passada essa fase da PF viria a etapa em que eu seria inquirido por um juiz e um promotor. E lá fui eu, trazendo o tal colega jornalista como minha testemunha de defesa. Aí, o juiz disse: “Já li muitas das suas matérias, gosto muito das suas crônicas, mas vou ter de processá-lo, certo?”

Respondi solenemente: “Sem problema. Estamos aqui para isso, Excelência.” O magistrado seguiu um roteiro mais ou menos idêntico ao dos delegados da PF. O problema para ele é que praticamente não havia base para a acusação, a não ser a questão de a pesquisa não ter sido registrada. E as perguntas, assim, não me levaram ao canto do ringue, digamos assim.

Explico: eu não morava na cidade onde fora feita a pesquisa, não tinha ali qualquer vínculo político ou familiar, sequer conhecia os candidatos. Na verdade não conhecia ninguém lá e a notinha era graficamente insignificante: tivera uns três centímetros de altura por dois centímetros de largura, publicada no rodapé da coluna. Objetivamente: eu não tinha qualquer interesse no resultado da eleição nem nunca buscaria beneficiar a quem quer que fosse utilizando o jornal onde trabalhava.

Em minha defesa tive o cuidado de apresentar aos autos uma declaração formal do chefe do setor de circulação do jornal atestando quantos exemplares haviam sido vendidos na cidade no dia da publicação da nota: cinco. Miseravelmente cinco exemplares estavam me jogando naquela situação. Uma briga paroquiana e mesquinha tinha virado um imbróglio para mim. Cinco jornais nunca teriam a possibilidade de definir a eleição de ninguém.

O problema, na sequência dos depoimentos, foi quando o colega jornalista foi chamado a depor. O juiz jogou uma isca e ele caiu. Foi feita a seguinte pergunta: “O Sr. acha que o articulista deveria ter publicado essa nota, divulgando uma pesquisa que não tinha registro?”

Em vez de engatar uma resposta que me defendesse, ele agiu como um jogador de várzea: aquele que tem tudo para fazer o gol, a trave está aberta, o goleiro batido, mas, em vez de chutar a bola o sujeito dá um coice no chão.

Sabe o que minha testemunha disse? O seguinte: “É... pela experiência dele, né?...” Ou seja, eu deveria ter tido precaução. Eu pensei, “meu Deus, mas foi esse sujeito quem me passou a informação. Podia ter dito que me conhecia, que era sabedor de que eu jamais iria usar do jornalismo com finalidades escusas.” Mas fez a estupidez, e, por um momento, senti as coisas se complicando. Eu poderia ter revelado que fora ele a pessoa que me dera a informação sobre a tal pesquisa mas preferi aguentar o tranco. 

Eu já estava começando a pensar que ia sair dali algemado e com um saco preto na cabeça, quando o juiz encerrou o interrogatório. O promotor também fez umas perguntas, deu-se por satisfeito e aquela cena terminou. Claro que não saí algemado nem nada - são apenas ilações estilísticas para dar clima ao texto, sabe?

Dias depois saía a sentença: além do  meu advogado até o promotor pedia a minha absolvição. Às vezes comento sobre esse assunto com minha mulher e digo, brincando: “Minha filha, eu espero que os caras da PF não se arrependam de não terem me prendido e reabram o processo. Quem sabe, chega aqui em casa uma dupla de policiais federais procurando por mim, e avisando: 'Ei rapaz, fique tranquilo que a gente veio aqui só pra lhe avisar que está tudo bem...'"

 

sábado, 28 de setembro de 2024

 Às vezes posso conversar com mortos

Por Emanoel Barreto

 Às vezes posso conversar com mortos. São amigos meus, fantasmas cordiais que me chegam, noite alta, ao escritório que tenho em minha casa; assentam-se e ficam a me olhar, cobrando-me recordações - querem saber se não os esqueci. Há pouco chegou-me o Majó Theodorico Bezerra, rajado gato do mato, sertanejo, homem do velho PSD. Perguntou-me do que dele me lembrava.

Contei então que que um dia, sem que percebesse, eu o segui enquanto caminhava a esmo pelo velho Palácio Potengi. Ele, já então sem mandato, a política dobrada para sempre em seu embornal catingueiro, deambulava pelo salão nobre do belo edifício, apoiado em rústico cajado. A seu lado um jovem carrancudo e de aspecto agreste lhe servia de amparo e guia. O Majó balbuciava uma algaravia de sons sem sentido. Perguntei se se lembrava daquilo: fez que sim com a cabeça, um sorriso irônico pintado em sua boca, como que dizendo: fantasmas, ao contrário dos vivos, nunca ficam caducos.

Mas, voltemos ao assunto: eu era repórter político da Tribuna do Norte e o segui naquela caminhada. O ano em que isso aconteceu foi 1994. Ele já estava muito velho. O Imperador do Sertão andava cambaleante. O título de Imperador lhe fora concedido em 1978 pela Rede Globo, entitulando documentário de Eduardo Coutinho. Mas o Imperador não tinha mais aquele pisar rijo, de velho feito de aroeira-do-sertão. 

Ele vagava pelo salão, olhava os lustres, observava o assoalho de madeira nobre. Chegou-se a uma janela e de lá esteve olhando a Ribeira onde vivera encastelado no Grande Hotel, que dirigira há muit'anos, pagando ao Estado uma ninharia de arrendamento. 

 Depois foi a um salão menor, onde um enigmático piano repousava, mudo. Nunca entendi aquele piano no Palácio Potengi. Talvez tocasse, à noite, sonatas para a escuridão do Poder que dormia. O Majó aproximou-se do grande instrumento e percutiu uma de suas teclas. Foi o único som que ouvi daquele instrumento  em todos os anos que cobri política no Estado; a nota soou como um langor monótono, estranhamente longo, tristíssimo. Sonata e despedida do ancião que o tocara. Aquela seria a última visita do velho político  ao Potengi.

Logo depois, apoiando-se em seu acompanhante, caminhou passos tardos até a larga, imponente escada de madeira, forte passarela que dava acesso primeiro andar do Potengi, ninho do Poder no RN. Desceu a escada e perdeu-se para sempre da minha visão. Morreu dia 4 de setembro de 1994. Dois ou três dias depois da crônica que escrevi e publiquei na Tribuna a respeito daquele acontecimento. Título: “O Majó veio ver se o passado estava em dia.”

E hoje, quando a mim chegou, como outros fantasmas, que são mais relembranças que espectros, pude afinal com ele fazer a última entrevista:

- Majó, o que o senhor fazia naquele dia, lá no Palácio?

E ele, com um riso de meia-lua, olhou-me bem nos olhos e respondeu, placidamente:

- Barreto, fui homem que teve de tudo: fui a Paris e lá estive em Pigalle e no Moulin Rouge, andei pela Índia e por outros cantos do mundo. Aqui, fui de tudo: fui Majó e Imperador, mandei e desmandei nas minhas festas na fazenda Irapuru, o povo dançando com a minha banda de música. Irapuru é o pássaro que canta e Tangará, cidade também minha, é o pássaro que dança. Também mandei em Natal e mandei ali, ali mesmo, no Palácio Potengi. Sabe o que eu estava fazendo lá, Barreto? Lá, naquele dia em que você, notando que eu estava caduco, me acompanhou calado?

- Não, Majó - respondi.

- Eu estava procurando o meu passado, Barreto. Um homem tem que ser dono do seu passado. Eu estava olhando ali se o passado tinha parado no tempo. Se não tinham bulido naquelas coisas, naquele salão, naqueles cortinados, nos lustres, naquele piano, na porta que dava para o gabinete do governador. No chiado do chão de madeira. Eu estava vendo, Barreto, se o passado estava em dia, como você disse na crônica.

- E estava, Majó?

Estava, Barreto, estava. O passado estava em dia. Estava tudo no seu lugar. E outra coisa: em política não há gratidão nem reconhecimento. Em política é o acerto, é o acordo, é o dinheiro e o pé ligeiro. Em política, aprenda, o passado sempre está em dia... O passado do político adivinha o seu futuro. O que ele fez é alicerce. É coisa ficada. O que vem depois é só desejo, vontade. Pode ocorrer ou não.”

Deu boa noite e esfumaçou-se no silêncio do meu jardim. Um vento frio invadiu o escritório e me gelou a alma. Fui obrigado a beber uma dose de uísque caubói.