segunda-feira, 16 de outubro de 2023

 Jornalista faz BO e vai processar

agressor que defendeu seu assassinato

Por Emanoel Barreto

 O jornalista Bruno Barreto registrou boletim de ocorrência em delegacia denunciando um homem identificado como Rodolfo Rummenigge, que em gravação de áudio diz, com voz notavelmente colérica, que o profissional deveria ser alvejado com tiros na testa e cabeça e ser estuprado por um jumento.

A agressão verbal deu-se pelo fato de que Barreto publicou comentário a respeito de ideias homofóbicas, enfatizando que tais induzem pessoas de orientação sexual não-binária a buscar a cura gay. Lembrou caso recente, quando a influenciadora social bolsonarista Karol Eller suicidou-se após tentar a cura gay.

A atitude destemperada de Rummenigge foi denunciada à polícia, devendo agora o jornalista mover processo contra o agressor, que o apontou também como defensor do Hamas, grupo terroristas islâmico atualmente em guerra com o estado de Israel. Bruno jamais redigiu uma linha a favor dos terroristas.

No áudio percebe-se um indivíduo totalmente descontrolado e grandemente raivoso. Pessoas como o agressor, que é bolsonarista, com visão de mundo centrada em padrões opinativos que se apoiam na violência em vez do debate de ideias, precisam ser denunciadas.

Tipos assim em nada contribuem ao processo democrático e somente trazem ao temário social um discurso de ódio, cujas ameaças se apoiam em compreensões que respaldam uma sociedade antidemocrática e silenciadora dos que buscam consolidar a democracia. Não se pode aceitar que o medo ocupe o lugar da racionalidade, nem que as sombras ocupem o lugar da luz.

domingo, 15 de outubro de 2023

 Jornalista vai divulgar áudio em

que é ameaçado de morte 

 

Por Emanoel Barreto

Após tomar conhecimento de áudio que registra uma voz masculina desejando sua morte à bala, o jornalista Bruno Barreto, meu sobrinho, vai reunir-se amanhã com seus advogados para estudar as providências a serem tomadas. Amanhã o áudio será tornado público.

Bruno, que atua em Mossoró, dirige o Blog do Barreto e participa do Foro de  Moscow, no You Tube, trabalha um jornalismo assertivo e decididamente a favor da democracia. Isso tem  incomodado setores da direita naquela cidade, que têm tido, digamos, reações ásperas.

Antes ele já tivera invadida sua conta no WhatsApp por hacker que buscava, ao reter o controle da conta, calar a sua voz. O jornalista reverteu o quadro e retomou a conta. Como se vê, ele tem motivos para acreditar que sua presença na cena jornalística local tem surtido efeito, uma vez que seu discurso pró-democracia mantém acuados tipos que atuam nas sombras.

O direito de informar, a liberdade de imprensa, dizem respeito ao direito da sociedade de ser bem-informada, tomar conhecimento das vozes que discordam de manifestações ideológicas reacionárias, maniqueístas e opressivas – que buscam um status quo voltado para o atraso e o silêncio sucumbente.

Da minha parte manifesto total apoio à sua luta e contribuirei de forma decidida a favor de que continue com sua presença atuante e firme. Se está incomodando é porque está desmascarando o atraso, o retrocesso. É preciso seguir em frente. E isso será feito.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Israel e o massacre dos indefesos

Emanoel Barreto.

 

Com as bênçãos das maiores potências do planeta o Estado de Israel está perpetrando uma carnificina contra o povo palestino em represália a ataque dos terroristas do grupo Hamas. Confinadas em Gaza, na verdade um campo de concentração a céu aberto, mais de dois milhões de pessoas estão à mercê dos ataques dos israelenses.

Bombardeios diários estão pouco a pouco reduzindo a escombros a cidade de Gaza e vitimando a sua população. Ao que se percebe Israel vem cumprindo um atroz e implacável plano de matança: não importa a situação indefesa das vítimas: é preciso matá-las em quantidade. Não se deve levar em consideração seu sofrimento; atacando indiscriminadamente a força bruta busca dissuadir a ação dos terroristas como efeito colateral. Paremos por aqui ou essa comparação seria quilométrica.

Para completar, hoje à tarde (13/10) as vítimas receberam uma ordem: todas devem se dirigir para o sul da faixa de Gaza, pois neste sábado as tropas de infantaria e os carros de combate chegam para tomar tudo. O aviso tem o mesmo efeito de um “depois não diga que não avisei.” Certamente os soldados invasores esperam defrontar-se com os terroristas entrincheirados nos destroços da cidade. 

A retirada rumo ao sul busca evitar que a TV do mundo mostre a soldadesca eliminanto indiscriminadamente velho e jovens, mulheres e homens, crianças e e doentes. É mais um cuidado com o discurso das armas. É preciso exterminar, mas com a discrição possível frente à realidade instalada.

Gaza é um território cercado por uma muralha construída pelos  israelenses e mede 365 quilômetros quadrados. A área equivale a um quarto da cidade de São Paulo e abriga cerca de 2,3 milhões de pessoas.

O conflito entre israelenses e palestinos é antigo, surgiu a 14 de maio de 1948, quando foi criado o Estado de Israel, logo envolvido em lutas com os países árabes. A questão da disputa atual diz respeito aos confrontos israelo-palestinos, ambos reivindicando existência e posse territorial. 

A solução seria a convivência entre dois Estados independentes, em relação civilizada. Não se justifica o terrorismo, mas também não se pode aceitar o massacre de pessoas vulneráveis, em ações que já se transformaram em expressão de ódio, eminentemente busca de sangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 8 de julho de 2023

 "Cidadões, vocês me ajudem..."

 Por Emanoel Barreto

O cego pegou de sua sanfona e começou um cantar tão triste. O rouco instrumento, tão velho e tão puído parecia sentir tanto o cantor e sua lástima que guinchava surrados sons como um alarma bruto e sofrido. A alma da sanfona, enferrujada em tantas latumias grunhia alto o que se passava no âmago de sua vida de instrumento humilde e troncho.

 O cego, óculos escuros, como convém a todo cego, parecia ver dentro de si a escuridão que os óculos lhe impingiam. Mas não já tinha ele a sua própria escuridão? Por que os óculos? Para escurecer dos outros que era cego? 

É que os cegos - por algum estranho motivo - procuram esconder com escuridão a escuridão em que tanto já vivem. São coisas, coisas humanas e bem nossas.

 Eu observava esse cego quase todos os dias, enquanto esperava o ônibus na rodoviária velha, na Ribeira, parte antiga de Natal. Muitas vezes fiz isso de propósito: deixava o carro em casa para estar em contato com as coisas do povo, os pequenos dramas do cotidiano, o espetáculo de que eu participava quando corria para a portinha apertada do coletivo, na tentativa de não perder a vez. Essas minúsculas tragédias sempre repicam em minhas lembranças.

 Pois bem: o cego parou sua canção e cessou o urro da sanfona e disse em voz alta: "Cidadões, vocês me ajudem. Quem puder que me ajude. Perdi a vista, cidadões, e hoje me vejo nessas condições. Se os cidadões puderem... que me ajudem..."

 Assisti a essa cena muitas e muitas vezes. E muitos cidadões, condoídos e emocionados, reunidos na minúscula solenidade da esmola contribuíam com o óbolo precioso e pobre ao pobre que lhes estendia a mão.

 Hoje lembrei-me do cego. Que como pobre ficava ali a cumprir a sina dos pobres que é o ato displicente de ser esquecidos. E às vezes - só às vezes -, virar lembrança passageira como passageiros éramos nós na rodoviária: o cego, eu e os todos que estavam por lá. De alguma maneira cegos todos nós.

 Passamos por lá, o cego e eu. Passamos na cegueira da vida o cego e eu. Assim, chego a uma conclusão: "Cidadões, eu também sou cego. Minha rodoviária é este espaço, minha sanfona são essas letras. Mas, escuto algo; sim, sim, eu ouço música: será que você não está também tocando uma sanfona na sua rodoviária? Parece que sim, parece que sim..."

 

 

 

quarta-feira, 28 de junho de 2023

 

               A louca falava só, e dizia:

“Helenita, Helenita, calaboca Helenita...”

 Por Emanoel Barreto

Havia na rodoviária velha da Ribeira uma pobre louca que falava sozinha. Falava com seres invisíveis, pessoas que habitavam seu mundo, seu único, inacessível e paralelo mundo. Eu a observava, mas nunca consegui saber seu nome, enquanto, à noite, às vezes altas horas da noite, depois do expediente no jornal, esperava o ônibus para ir para casa.

Sozinha, sentada em um banco, cercada de pacotes mal-arrumados, falava, falava muito, gesticulava, discutia, irritava-se, reclamava, pedia, e, creio, era até atendida pelos seus amigos invisíveis. Sim, pois, de vez em quando, se abria em sorrisos da mais esmerada simplicidade. Certamente agradecia o que havia pedido.

E eu ali, lendo algum jornal, mas com um olho naquela cena. A estranha, inesperada personagem, em pleno devaneio de vida, esquecida ao mundo, entretida em si mesma, pobre imagem de uma vida aparentemente em vão. Eu disse aparentemente em vão. Quem sabe...

E vinha o frio da noite, aquela brisa da Ribeira, brisa fugitiva do Potengi, trazendo em seu corpo de nada o cheiro do mar, mar e vida, maresia, mar-Ribeira. Passavam vultos escusos, caminheiros da noite, uma ou outra radiopatrulha, vagabundos sonolentos, bêbados equilibristas. E eu um pouco de tudo isso.


E ela falando, sozinha. Falando, falando, coitada: feliz. Calada para o mundo, alerta para si. E uma de suas amigas mais amigas, íntima, conciliatória e cúmplice era uma certa Helenita. 

Sim, Helenita. Helenita, a invisível, a impalpável, mas, viva; viva sim, para a louca, presente em sua presença.

E ela dizia: “Se acalma, Helenita. Deixa de coisa, mulher. Deixa de dizer besteira... Helenitaaaaaa....” E, gesto brusco de mão morena, dava um tapão no ombro intangível da mulher. E ria, ria, gargalhava quando a outra parecia revidar, ali, na penumbra encardida da rodoviária velha. Ali, naquele ponto de encontro das gentes noturnas.

Depois de muito tempo de espera lá vinha o ônibus que eu esperava: pesadão, cansado, velho, luzes fracas, salão de luz mortiça, passageiros tombando de sono, cabeças balouçantes, corpos vivos pendentes de cansaço. Eu entrava no sacolejo do veículo lerdo e lá me ia, deixando para trás Helenita e a louca.

Às vezes meu instinto de repórter me chama a voltar à Ribeira para ver se ainda as encontro: Helenita e a louca. Helenita eu já conheço. Sei que é estabanada, brincalhona, faceira, gosta de falar besteira não é mesmo? 

Mas, se Helenita eu já conheço, nada soube da louca. E hoje, fosse possível voltar, gostaria de saber o que ela teria a dizer sobre o mundo de agora, muito mais estranho, ameaçador, cheio de ódio e feras humanas. Suspeito, sim, suspeito, que ela ia preferir o mundo de Helenita...

terça-feira, 27 de junho de 2023

 Feitiçaria no Beco da Mucura

Por Emanoel Barreto

Todos os meninos da rua onde eu morava recebiam das mães este conselho: “Não chegue nem perto do Beco da Mucura.” E nada mais se dizia a respeito do motivo da ordem, que nos chegava envolta em brumas e mistérios. Era como se nos avisassem que naquele local morava o perigo, que é amigo do medo, que é irmão gêmeo da tragédia e da dor.

Um menino me disse uma vez que um seu colega havia se metido a ir ao beco e jamais havia voltado. Até fora visto uma vez depois de muito tempo, mas já não era mais o mesmo: tinha cara de cachorro e havia atacado um senhor que ia passando.

E todos nós, unidos pelo medo, nunca nos atrevíamos a ir ao beco. Até que um dia uma velha, de aspecto de bruxa e muito feia, vestida em farrapos e encurvada, chamou-me a atenção. Num repente, resolvi segui-la. “Será que mora no Beco da Mucura?” – morava.   

Ela segurava um saco feito de tecido grosseiro. Dentro dele uma coisa viva se agitava de forma intensa e sem parar. Imaginei que seria o filhote de um monstro, quem sabe um pequeno lobisomem.

E contra todos os conselhos, o bom senso e até mesmo o temor que me invadia segui a velha. Ela caminhava entre a multidão das calçadas, e eu atrás. Afinal chegamos ao beco. Tinha aspecto sombrio, era estreito, comprido e as casas pareciam se apoiar umas nas outras para não cair. Era tudo tão ameaçador, as pessoas pareciam tão monstruosas, que tive a sensação perfeita de que estava dominado por um frio inexplicável e que quase me paralisava.

O beco fazia ziguezagues e depois de abria em muitas vielas acanhadas. Somente então percebi: estava perdido, andara tanto que não tinha noção de como sair, fugir seria o termo certo, daquela situação.

Mas continuei seguindo a velha, que afinal chegou à sua casa. Feita em madeira e taipa, folhas de zinco e papelão era na verdade um refúgio, um buraco de morar. Percebi, olhando por uma janela lateral: ali se amontoavam a velha e umas cinco ou seis crianças molambentas.

Quando ela entrou ergueu o saco numa espécie de gesto triunfal e as crianças gritaram “êêêêêêêêê!!!!!”, festejando aquela chegada. Depois disso o que vi e vou contar aconteceu muito depressa: a velha meteu a mão dentro do saco e dali retirou um gato que miava enlouquecidamente. A velha bateu mão de uma faca que estava sobre uma mesa, decapitou o animal, tirou as vísceras, esfolou a pobre vítima e jogou o bicho direto numa panela que pôs a ferver.

Eu estava petrificado. De repente ela virou-se para mim e disse: “Eu sabia de você o tempo todo. Era isso o que você queria saber, não era? O mistério do Beco da Mucura? Pois já sabe, rapazinho: o mistério daqui é fome. É servido?”

Disse isso, chamou as crianças e todos partiram para cima de mim. Nem é preciso dizer que fugi correndo como um louco. Depois de horas de desespero em vielas, becos e enganchos de todos os tipos vi-me afinal fora do Beco da Mucura. Afinal cheguei a minha casa.

Dia seguinte contei aos meus amigos a história toda, e disse: “A feitiçaria da Mucura é fome.” E, ainda hoje, em todo o Brasil, é assim: nossa feitiçaria é a fome.

 

 

sábado, 24 de junho de 2023

 “Trouxe a muriçoca?”

 A triste sina de um brasileiro infeliz

Por Emanoel Barreto

 

Era uma vez Brasileiro. Quando foi um dia, Brasileiro, sem saber como, estava numa fila enorme. Perguntava a um e a outro por que estava ali. E a resposta era sempre a mesma: "Não sei. Também estou nessa fila e não sei o motivo." 

 Nisso, chegou um funcionário. No peito, um crachá que informava qual o órgão público onde trabalhava: Instituto das Instituições Instituídas para Instituir novas Instituições e Cobrança de Taxas e Emolumentos, Tributos, Contribuições de Melhoria, Propinas e Etc...".

 Brasileiro dirigiu-se a ele: "Senhor, posso saber o que faço nesta fila?"

O funcionário respondeu: "Não sei. Trabalho aqui mas nem mesmo eu sei o que faço aqui. O senhor vai ter que pegar uma ficha para se informar. Vá até aquele guichê, para receber a sua ficha."

Brasileiro: "Obrigado."

 Foi ao guichê e afinal foi atendido.

"Ficha?", disse o funcionário.

"Ficha", respondeu Brasileiro. 

 Então, o funcionário perguntou: "Trouxe a muriçoca?"

Brasileiro quase cai para trás e quis saber: "Muriçoca? Pra que muriçoca?"

 A resposta: "Aqui só tira ficha quem traz uma muriçoca. Se não trouxe vá para aquela fila. Lá, eles dão fichas que dão direito a uma muriçoca. Você vai ao Criatório Nacional de Muriçocas, apresenta a ficha, eles lhe dão a muriçoca, você volta aqui, pega nova ficha para eu atendê-lo novamente, eu lhe dou uma ficha e depois você vai para outra fila. Será atendido por outro funcionário e ele vai informar porque você está na fila."

 Brasileiro dirigiu-se à fila para pegar a ficha de atendimento no Criatório Nacional de Muriçocas. Depois de muito esperar recebeu a ficha de número 900.000.000.000.890.000.789.982.000.000.000.777.663.000.444. 000.767.980.765.000.000.123.456.789.3334-687.987.987.095.876.456

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 Quando Brasileiro viu a numeração sentiu que estava numa enrascada. Não tinha a menor ideia do motivo pelo qual estava ali, ninguém sabia informar nada e ele ainda tinha que pegar fichas e mais fichas para ter direito a novas fichas.

 Diante de tal a lamentável situação resolveu sair e ir para casa. Quando um guarda notou que ele estava saindo, disse: "Vai sair?" 

 Brasileiro respondeu: "Vou, não aguento mais ficar aqui e vou embora."

 O guarda foi curto e grosso: "Pode não. Bateu aqui dentro só sai depois de ser atendido. Isso aqui é o Brasil, rapaz! Tá pensando o quê? Volte já para a fila, para pegar a ficha da muriçoca."

 Brasileiro argumentou: "Mas, quando eu vou ser atendido? Já viu o número da minha ficha?" E mostrou o papel com o absurdo número ao guarda.

 O sujeito fez uma cara de espanto: "Óóóóóóóóó." Então, chamou Brasileiro a um canto e disse: "Negócio seguinte. Eu posso dar um jeitinho..."

 "Pode?", perguntou Brasileiro quase feliz.

"Posso", garantiu o outro. "Mas precisa rolar uma merreca. Sacomé, né?"

"Seicomé", disse Brasileiro. "E quanté?" 

 Era pouco, garantiu o guarda. Por um salário-mínimo ele daria a Brasileiro uma muriçoca e ele poderia afinal saber porque estava ali – depois de cumpridas outras formalidades por acaso existentes, claro. 

 O guarda facilitou: aceitava cheque. Brasileiro nem pensou duas vezes: passou um cheque sem fundos ao guarda. Poucos minutos depois estava com uma linda muriçoca num belo e transparente frasco. O guarda era contrabandista de muriçocas.

 Em seguida Brasileiro encaminhou-se ao funcionário encarregado de receber as muriçocas. Chegando lá o homem disse: "Adianta não. Tá faltando um carimbo que eles põem na asa direita da muriçoca atestando a procedência. Além disso, tá faltando duas meias, um pedaço de pneu de caminhão e três palitos de fósforo, para fazer juntada ao processo."

 Brasileiro deu um grito de desespero e quis fugir para outro país. Vizinho àquela repartição havia outro país. Parece que eram os Estados Unidos. "Opa! Vou para os Estados Unidos e lá eu me faço!"

 Mas, quando Brasileiro já ia pulando a cerca o mesmo guarda da muriçoca pulou em cima dele e disse. "Epa! Teje preso. Pra fugir também tem que pegar ficha! Somente foge daqui depois que os home derem ficha..."

 Brasileiro então, implorou: "Não aguento mais fichas. Posso ao menos me suicidar?"

 O guarda: "Tá difícil. O país é pobre e só tem um revólver público para suicídios. E mesmo assim tá faltando bala. Pegue aquela fila ali e..."

 Brasileiro nem esperou: caiu seco ali mesmo, mas não foi enterrado porque não tinha tirado ficha para a morte... A família entrou com um processo pedindo direito a enterro, mas os juízes estão em greve...

  ---Falando nisso... você tirou ficha para ler este texto?

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ZOORÓSCOPO

Traíra - Quem está sob a regência de traíra tem por vocação natural a traição e o descaminho. Cuidado quem estiver mantendo romance com um trairiano ou trairiana. Especialmente se esse alguém for do signo de Minhoca. Minhoca é isca e sempre acaba devorada...

 

 

 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

 Quem é imputável? 

 Por Emanoel Barreto

 Era uma vez a Câmara dos Deputados num país distante. Quando foi um dia, à falta de ter o que fazer, um deputado fez um pronunciamento de alta indagação e disse: “Precisamos saber se as putas são imputáveis ou inimputáveis.”

 Aí todos os deputados e deputadas disseram: “Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....” e ficaram encantados com tal sabedoria. 

 Em seguida um deles disse que seria preciso instalar uma CPI para apurar tal situação e convocaram todas as putas do país para que informassem se seriam imputáveis ou inimputáveis.

 E vieram todas e foram instaladas nos mais caros hotéis. Dentre elas foi escolhida a mais famosa e bela. Ao ser indagada se era imputável ou inimputável não soube responder, pelo simples fato de que jamais tinha ouvido tais palavras. E, disse, quem não sabe o que uma coisa é não pode ser o que essa coisa seja.

 Um dos deputados contestou: “Não é pelo fato de que a senhora não saiba que matar alguém é crime que, matando alguém, deixe de ser punida. Assim, queremos saber se a senhora e suas semelhantes são imputáveis ou inimputáveis. Isso é importantíssimo para os destinos da nação.”

 A puta, mesmo sem saber a resposta, propôs o seguinte: “Vamos promover uma grande festa no plenário da Câmara. Quero bebidas finíssimas, salgadinhos especiais. Quero que todas as minhas colegas venham para cá que todos os membros da Câmara participem enlouquecidamente de tudo.”

 E vieram bebidas e comida à larga. E houve grande festim. A festa durou uma semana. Ao final de tudo, as putas reuniram-se e voltaram com a resposta à CPI, indagadas que tinham sido se eram imputáveis ou inimputáveis.

 Disseram as moças: “Senhores e senhoras, continuamos sem saber o que seja um imputável ou um inimputável. Mas de uma coisa temos certeza: vocês todos são uns grandes filhos da puta. E tenho dito.”

 O plenário foi imediatamente esvaziado. Era melhor não insistir no assunto.

 

 

quarta-feira, 21 de junho de 2023

Ganhou o emprego e depois morreu 

Por Emanoel Barreto

O homem, velho e com ar de desespero, entrou na redação da Tribuna do Norte, onde eu trabalhava, coisa de nove da manhã, com um pedido triste: precisava de um emprego agora que se havia aposentado. Precisava desesperadamente suplementar a renda da família. 

 Na verdade, eu jamais vira aquele homem, mas ele me buscou com grande desenvoltura. Desenvoltura que depois compreendi era apenas expressão e resultado do desespero de alguém angustiado com o pagamento insignificante a que estava acorrentado, agora que estava fora do mercado de trabalho.

 

Ele me disse seu nome, revelou saber que eu era jornalista e informou que era gráfico: estava em fim de carreira e fora aposentado quando trabalhava n'A República, o jornal do governo do estado. Pedia que eu tentasse algo para ele em alguma gráfica ou, quem sabe, num dos jornais de Natal. Eu disse que iria tentar, que faria todo o possível.

O homem, baixinho, agradeceu-me muito. Não percebi no prolongado aperto de mão da despedida um outro pedido: silencioso e angustiado aquele apelo não era um pedido de emprego, mas o grito de um desiludido, alguém perdido, um homem que só tinha passado. 

Conforme o prometido passei a disparar telefonemas e torto e a direito, mas a resposta era inevitavelmente a mesma: não. Ninguém tinha emprego, ninguém precisava de um novo funcionário em gráfica ou jornais. Já estava quase desistindo, quando afinal um sim: naquela gráfica precisavam de alguém experiente. 

Estava garantido o emprego daquele inesperado visitante. Isso se deu uns dez dias depois de sua vinda. Quando bati o telefone no gancho, depois de agradecer pelo emprego conseguido, bati também o olho na página policial da Tribuna, e ali estava: o homem tinha se suicidado dia anterior, tinha se afogado no mar, no grande mar da Via Costeira. 

Descendo de um ônibus, diziam as testemunhas, ele seguiu direto para a água e começou a entrar. Não atendeu a gritos ou pedidos para que voltasse. Afundou, e somente dias depois o corpo foi encontrado. 

Fiquei olhando o jornal como quem estivesse vendo um filme, um videoteipe delirante de tragédia. Era como se ele tivesse saído dali há pouco. Um minuto e pronto: logo depois, morto; encharcado da angústia de estar vivo e sentir-se amortecendo. Ausente de um emprego que complementasse a aposentadoria de celetista.

Fechei o jornal. E na minha imaginação, olhando fixamente a figura inexistente e morta parada em frente a mim, eu disse: "Mas rapaz, eu não lhe disse que ia arranjar o seu emprego?"

 

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Fantasmas no Beco da Quarentena

Por Emanoel Barreto


Não lembro bem o ano, mas foi na década de 1980 que resolvi participar de um concurso de reportagens sobre a Ribeira, o velho bairro boêmio de Natal. O concurso era promovido pelo Setrans, o Sindicato dos Transportes Urbanos de Passageiros.

Eu era editor de Cidades do Diário de Natal. Arrastado pela saudade dos tempos de reportagem resolvi que aquela era uma boa oportunidade de reviver meus tempos de repórter. Especialmente os tempos de repórter policial, em 1974. Afinal fora ali, na Ribeira, que fizera as minhas primeiras matérias entrevistando delegados, agentes de polícia e bandidos, sendo estes "homens da pior espécie", como se dizia.

A Ribeira, de alguma forma, remonta à minha memória como uma senda no tempo, levando-me a ambientes fumageiros, mesas de bar barra-pesada, meia-luz, bas-fond; ambientes que a gente, na reportagem policial, tem de enfrentar – ou melhor, viver.

Pois bem: resolvi fazer a reportagem exatamente à noite, quando a Ribeira é mais Ribeira. Acompanhou-me Moraes Neto, fotógrafo pé-quente. Isso basta para defini-lo. Marcamos para iniciar os trabalhos nas imediações do Bar das Bandeiras. Ali, expostas nas paredes altas, bandeiras de muitos países deixadas como lembrança, marcos de aventuras dos navegantes; presentes de marinheiros de todo o mundo elas justificavam o nome do bar.

Eu e Morais saímos do Diário às oito da noite e mergulhamos em direção à Ribeira, que em tempos outros, lá pelos anos 1960, era chamada de Cidade Baixa por oposição ao centro, a Cidade Alta. Cada um foi no seu carro. Estacionamos perto do bar, que fica na zona portuária. Descemos e ficamos observando o ambiente: marinheiros filipinos acocorados fumavam, diziam coisas ininteligíveis e nos olhavam com justificada estranheza: um cara com um bloco de papel nas mãos e outro com uma tremenda Nikon ao peito. Creio que se sentiam, digamos assim, investigados.

Deixamos os filipinos de lado e eu disse a Morais: "Vamos". O vamos queria dizer vamos ao bar. E fomos. Não éramos exatamente desconhecidos por lá. Éramos na verdade muito bem conhecidos. E recebidos. É que turmas de jornalistas, empresários, boêmios, poetas, pintores, escritores, artistas frequentavam o Bandeiras especialmente nas tardes de sábado. Mas, à noite, a coisa era diferente: ao escurecer a fauna era bem outra: putas, marinheiros, estivadores, pescadores... Era, aí sim, a Ribeira; representada pela sua mais autêntica realidade. A alegria bruta de sua essência popular, o vulgo reluzindo, solenemente exposto.  

E foi isso, essa mudança, o que nos recebeu. Percebi que as coisas haviam literalmente mudado do dia para a noite quando alguém, uma voz de mulher, a dona do bar, avisou aos tipos ali presentes: "Lá vem o triste". O "triste" era eu. Sinceramente, não entendi aquelas palavras até que me aproximei. Ainda abri um sorriso, mas, grosseira, ela disse: ‘O que vocês estão fazendo aqui? Não podem fotografar. Aqui estão mulheres, até mesmo mulheres casadas que vêm fazer a vida. Os maridos não sabem. Pode dar problema, entende?’”

Senti o peso da situação. Ela estava agressiva, completamente ao contrário de quando nos recebia nas tardes de sábado. Em tais momentos éramos gente falando de política, arte, cultura, pápápá e lero-lero. Ninguém era de briga, confusão ou barraco.

 Mas, naquele momento, não: um estivador empertigou-se, uma mulher fuzilou-me com olhar de onça, um bêbado levantou-se e encostou-se no balcão, outro mostrou-se ameaçador. O zum-zum-zum se espalhava pelo enorme salão. Todos estavam literalmente putos conosco.

Era como se milhares de olhos, olhos enraivecidos, estivessem a nos fitar. Então, percebi: éramos uma ameaça, uma ameaça à barulhenta tranquilidade daquele ambiente onde reinavam as leis e as ordens de Baco, a feroz felicidade do beber cachaça à larga, pegar uma rapariga pela cintura, gritar rudemente pedindo "mais uma", e se esperava a próxima cerveja gelada.

Expliquei que não havíamos fotografado nada nem ninguém. A gente estava ali somente para sentir a noite da Ribeira e eu escrever minha reportagem sem citar o nome de qualquer pessoa. E nenhuma das damas seria fotografada. A dona do bar acalmou-se e eu, aproveitando a deixa, disse a Moraes: "Vamo simbora daqui! Agora!"

Saímos. E ouvi quando ela disse: "Ainda bem, ele saiu." Vale dizer: eu, o "triste", tinha tirado o time.

Voltemos à Ribeira. Moraes e eu, dois perdidos na noite, saímos andando. Fomos até uma delegacia. Falei com o agente responsável – o delegado não estava – e pedi para entrevistar alguns presos. O policial foi legal e deixou. Um forte cheiro de sujeira ampliava a sensação de coisa marginal, ambiente de rejeitados, decadência, asco.

Suportei o odor que já conhecia de outros tempos, quando me iniciativa no jornalismo e encaminhei-me à carceragem. Se você nunca entrou numa delegacia não tem ideia de como é: gente dormindo no chão frio e sujo, gente assujeitada, fedida, infecta. É barra. Era como nos velhos tempos de repórter policial. Nada havia mudado.

Sentei-me no chão perto da grade de um dos cárceres e puxei conversa com um sujeito. Ele estava só de calção – prisioneiros homens ficam só de calção ou cueca – é para impedir que alguém tente se suicidar com alguma peça de roupa. Pelo menos era o procedimento em 74 nas delegacias. Hoje, não sei.

Voltando: sentado, tentei falar com o cara que estava preso. Disse que estava fazendo uma reportagem sobre a Ribeira e blábláblá.

E então enfrentei outra dificuldade: por causa do meu bigode – e isso sempre acontecia quando eu falava com bandidos ou outros elementos presos –  o sujeito disse, na lata: “Você tem cara de ser cana. Cara de canoa. Não vou falar. Esse bigode mostra que você é da polícia. Quer me afundar ainda mais. É rabo de foguete. Muito maior do que a merda em que já tô metido.”

Parei. Pensei depressa e expliquei que não era nada daquilo, que eu não era um canoa, que não tava numa de lascar ele ainda mais. O indivíduo terminou aceitando meu papo e falou que estava preso depois de dar uma surra na mulher e tinha sido capturado. Uma história bem típica do povão, coisa cotidiana do noticiário policial. 

Naquele instante dei um salto no tempo e voltei a 1974, quando entrei no jornalismo, ombro a ombro com Pepe dos Santos e Alexis Gurgel, dois monstros do noticiário de polícia em Natal. Duas grandes figuras que já se foram: irrepetíveis e insuperáveis. Segurei a onda com o desordeiro preso, falei com outros sujeitos e saí. Nem lembro se Moraes fotografou. Só sei que deu para sentir a barra do quanto sofre o pobre, o sujeito comum, suas necessidades, sua lamentável e sórdida existência.

Saindo da delegacia começamos a andar pelo bairro. As horas se passavam, e eu e Moraes percorrendo as ruas escuras, os bares escusos, as casas de luz vermelha, o silêncio das ruas desertas, a semiobscuridade daquele bairro de cachaça e bebedeira, tão humano e tão verdadeiro, perigoso e bêbado.

Hoje vejo que foi coisa de louco. Moraes com uma câmera caríssima. Eu com minha vontade de repórter, eu com minha curiosidade humana. Nós com nossas vidas expostas a agressões, perigos, assaltos. Nós, com uma espécie de ingenuidade tão jornalística e tão poética, nos colocando à disposição de malandros e marginais, somente para fazer uma boa matéria. Nossas famílias em casa talvez temendo pelo pior... Por que éramos tão loucos? Ainda hoje não sei a resposta, mesmo depois de tantos anos...

Mas, continuemos: caminhando, chegamos às imediações do Beco da Quarentena que já foi um sórdido ambiente de prostituição, da mais baixa raparigagem já praticada em Natal. Ali era o seguinte: cubículos, lado a lado, numa calçada e na notra, eram os apartamentos onde as mulheres recebiam seus, vejamos, clientes. O sujeito entrava e a porta era fechada atrás de si. 

Paramos. Moraes começou a estourar flashes no casario que ladeia o Beco. Então, fiz algo que até hoje me arrepia e me interroga: entrei no beco. Por que fiz isso? Não sei. Ali não havia nada de valor jornalístico. Só escuridão. Densa e temível. Mas só sei que empurrei o pé e meti-me no beco.

Caminhei alguns metros com minhas botas ressoando no silêncio escuro da rua. De repente ouço sons. Zoada de luta. Eram barulhos surdos, como se muitos indivíduos trocassem socos.

Gente se esmurrando no tórax. Bum-bum-bum! Tum-tum-tum! Era como se alguém recebesse um murro e fosse atirado contra uma porta. Uma intensa pancadaria como se fosse dentro dos quartinhos das putas. As batidas nas portas também eram medonhas. Era como se o suposto esmurrado fosse atirado brutalmente contra a madeira. Fui dominado por um terror súbito e inexplicável, algo tão terrível como jamais sentira, como se uma força maligna estivesse se acercando de mim. O terror aumentava à medida que me aprofundada no beco. Os cabelos eriçados e eu andando como que em câmera lenta.  

O que sentia era como se algo, alguma entidade de descomunal e de intenso poder estivesse naquele lugar e me deixasse completamente gelado.

Saí do beco e, ato contínuo, entrei de novo. Ouvi os mesmos barulhos e tive e mesma e medonha sensação. Devo dizer: foi demolidor, aterrorizante. Repeti a experiência umas duas vezes, com o mesmo e brutal efeito. Afinal, desisti. Não dava para continuar vivendo aquilo.

Algo, porém, chamou-me a atenção. Fora do beco desaparecia completamente o terror. Eu ficava absolutamente normal, tranquilo. Chamei Moraes, não lhe contei nada e andamos a esmo mais um tempo. Afinal, coisa de duas da manhã, demos a missão por encerrada. Fomos para nossos carros.

Nos despedimos com um abraço. Semanas depois a comissão julgadora do prêmio atribuiu-me o primeiro lugar. Valera a pena todo o esforço, o terror, a escuridão.

Muitos anos depois passei pelo Beco da Quarentena. Era dia e entrei. Percorri-o de ponta a ponta. As portas haviam sido substituídas por tijolos. Era uma manhã de sol e o beco até parecia sorrir. Jamais compreendi tudo o que ali vivenciei.

E hoje, batucando este texto me pergunto: valeu a pena? E me respondo: valeu. Mas espero nunca mais repetir.

 

domingo, 18 de junho de 2023

 O vendedor de cárceres

Por Emanoel Barreto

O vendedor de cárceres se diz patriota, defende a família e a religião. Sabe marchar, canta hinos e brada "selva!”; é treinado em estupidez, firme no que diz e afiadíssimo em sua malsinada intenção de arrebanhar tolos e incautos, ingênuos e simplórios, broncos e brutamontes que fizeram algum curso superior, além de pobres que querem ser ricos – e ricos que querem que haja pobres que querem ser ricos.

O vendedor de cárceres consegue atrair a si as opiniões e os anseios apressados dos que pensam em soluções de penúltima hora para problemas que já duram séculos.

Ele, esse tipo de comerciante, chega gritando e avisa que se aproxima o fim do mundo e que é muito perigoso estar fora da prisão. E garante que com o povo à mercê de um certo perigo – ele inventará um perigo qualquer, um inimigo a ser destruído – todos devem embrenhar-se no cárcere e ali permanecer a salvo.

“O cárcere é também um abrigo”, eis o seu lema. Seus seguidores ficam de tal forma seduzidos que passam a acreditar em tal chamamento, sinceramente pensam em atirar-se à cadeia e efetivamente procuram as prisões e a suposta proteção dos muros altos.

E quando muitos pensam em conjunto a mesma coisa vemos que a prisão, o muro, a masmorra, a corrente, o elo, a algema e todos os instrumentos de sujeição e curvatura passam a ser a ser algo normal e necessário porque tornou-se coisa comum. E tudo o que é comum é tido como normal, mesmo que se saiba que não é por ser comum que deva ser normal.

O vendedor de cárceres é um monstro que a muitos convence de que a sua monstruosidade é desejável e visa o bem geral da nação. O vendedor de cárceres deseja que todos sejam moradores da cafua, e nos cafundós do sofrimento sintam-se como príncipes e acreditem: “Sofremos, mas estamos livres de todo o mal.”

É que no desespero o povo aceita de bom grado o domínio dos insensatos e dos mal-intencionados e estes, por sua vez, entregam as gentes à reclusão sinistra e ao calabouço sombrio, úmido e frio das desgraças da História. 

A grande fila dos prisioneiros segue entoando hinos e gritos, ameaçando o inimigo que sequer conhecem – e busca então o uso dos grilhões e das correntes.

É muito fácil vender cárceres ao povo. Os algozes convocam à detenção como quem convida a um baile suntuoso. E todos vão; em nome da família, a favor da bondade, em respeito à moral e à religião. E as pessoas passam a habitar as fronteiras trevosas da prisão que pensam haver escolhido porque lhes foi dito que a haviam escolhido.

Os vendedores de cárceres estão aí. Muitos são os que proveem a massa com cadeias e nacos de pão dormido. E os analfabetos políticos, hipnotizados e bobos, ainda dizem “obrigado, muito obrigado.”

Os carcereiros ateiam fogo e dizem que é para iluminar a noite, promovem a desordem e garantem que é para que todos entendam que estando presos terão garantido abrigo e ordem em suas vidas. E isso soa como verdade, coisa boa e necessário, pois a prisão também acolhe. 

Então, quando vir um tipo desses, resista. Para tanto, basta que lhe dê as costas e caminhe para bem distante. A Liberdade mora muito além da compreensão dos vendedores de cárceres. É por isso que eles comemoram a prisão. E deles sempre há um maioral, um boçal, um manco glorioso.

Mas também é verdade que quando não são ouvidos e louvados eles se esfumaçam e se perdem no desdém da História, não valem sequer uma vírgula.