sábado, 24 de julho de 2010

A tragédia em Getúlio Vargas

Getúlio, Getúlio, Getúlio...
Emanoel Barreto

Estou relendo Getúlio, do jornalista Juremir Machado. Num extraordinário, estupendo trabalho de recopilação daquela quadra da história brasileira, ele nos leva num mergulho virtual aos últimos dias do caudilho.

As pessoas são personagens. Personagens históricos da tragédia deste país à beira-mar plantado. Misturando registros objetivos a licenças poéticas, vai desde o salão onde Getúlio comandou a última reunião do seu ministério aos ambientes boêmios do Rio, narra - com travessão - diálogos entre Jango e o filho do Presidente, Lutero; deambula pelas ligações do governo com o fascismo e o nazismo, evidencia o tropel de realizações getulistas em meio à brutalidade que perpetrou como ditador.

Trata-se de obra intensa. A miséria do Poder exposta a sangue pulsado. O drama humano, a queda, a débâcle que somos. Os homens se remexendo para permanecer mandando, escumando o ódio, a necessidade de permanecer... a necessidade de...

A releitura só fez fortalecer em mim a descrença em ídolos, em pessoas que se apresentam como salvadoras. A tragédia histórica do homem buscando encontrar soluções místicas ou quase isso em pessoas, em programas partidários, discursos inflamados, o povo como ator patético, coadjuvante.

Vale a pena ler ou reler Getúlio. De qualquer maneira, no Brasil o voto é obrigatório...

Peter Paul and Mary, 500 Miles



Peter, Paul and Mary: magníficos
 em singeleza candente e orvalhada.

Ray Conniff-La Mer

O DIÁRIO DE BICALHO O DIÁRIO DE BICALHO O DIÁRIO DE BICALHO

Os seios, lindos. E todos querendo seu leite... hmmmmmm...

Honrado Diário,

Como tenho dito a você, estou de posse de diploma de Cenaculador e tenho ido ao Cenáculo: cenacular. Até hoje ninguém desconfiou de que o documento é falso. Mas..., para o ambiente, isso não faz muita diferença. Assim, ontem, amigo Diário, em uma de minhas visitas, digamos assim, vivi momentos absolutamente, como direi?, inesperados.

Aos fatos: chegando ao Cenáculo dirigi-me ao grande plenário onde alguns Cenaculadores dormitavam como velhos crocodilos e outros faziam pronunciamentos, é, pronunciamentos, que diziam ser importantíssimos. Terminada a sessão, dirigia-me ao carro quando fui abordado por uma bela e delicada jovem:

- Cenaculador - disse-me ela, tomando-me pelo braço. - Gostaria de dessendentar-se?

Atônito não só pelo toque feminino, ao mesmo tempo agradável e docemente agressivo, vi-me ante pergunta que, em absoluto, entendi: - Dessedentar-me? Como assim, dessedentar-me?

- Sim, Cenaculador: dessedentar-se. Matar a sede calma e deliciosamente em câmara secreta. Beber algo suculento, tranquilizador; descansar da faina pesada dessa sessão. Vamos?

Como era agradável a pressão daquela mãozinha forte, convincente. Enevoado pelo perfume da jovem, fui. Entramos em elevador que nos levou ao mais alto pavimento do Cenáculo. Lá, ela conduziu-me a uma antecâmara, à qual cheguei após cruzar porta monumental, feita em legítimo cedro libanês. Entrando, notei atmosfera onde imperava a molícia, um certo clima de espojamento, devo dizer.

Cenaculadores andavam somente de roupão, como se estivessem numa sauna. Sequer tinham o trabalho de fechar o indumento, mostrando-se frontalmente por inteiro. Como não gosto desse tipo de ambiente fiz menção de sair, fugir quero dizer.

A mãozinha firme dominou-me. - Agora, Cenaculator, o senhor vai até uma daquelas cabines e veste o seu roupão. Vá que eu espero aqui.

Reunindo não toda a minha coragem, que é pouca e mesmo toda reunida é quase nada, mas movido por curiosidade, devo admitir, pegajosa, fui. Troquei de roupa, vesti o chambre, mas tive o cuidado de fechá-lo. Em seguida me voltei à jovem.

- Muito bem. Vamos até a câmara - sorriu ela.

Entrando lá, meti-me em cena que deixou-me estarrecido, cena primorosamente bizarra. Nas paredes havia círculos de onde saíam seios, úberes de mulher quero dizer. De todo os tipos: enormes, médios, pequeninos, morenos, brancos, negros, nisseis, bronzeados. Peitos duros e peitos flácidos. Peitos de mulher com enormes auréolas, grandes auréolas do tamanho de rosetas de esporas chilenas ou mamilos lindamente mínimos.

- O que é isso pelo amor de Deus?!!! - quis saber. - Estou em alguma casa de tolerância?!!!
- Está, Cenaculador. Aqui é uma grande Casa de Tolerância. Aqui tudo se aceita e tudo, tudo, se faz.

Nem bem estava refeito do susto quando percebi: cada par de seios brotava de dentro de um nicho suavemente tapetado de forma que o sujeito se aconchegava ali, espolinhando-se. E sugava, sugava com fome despudorada.

Os Cenaculadores estavam sendo aleitados. Aleitados, Caríssimo Diário! Aleitados! Alguns, lombos espostos sem qualquer preocupação, exibiam os espinhaços gordurosos, gordos como os de um barrão. E fungavam solertemente. Alguns até metiam o dedo mindinho no canto da boca ao mesmo tempo em que chupavam. E o leite escorria solto. Todos de olhos fechados. Resfolegavam.

- Mas, pelo amor de Deus, o que é isso?!!! - insisti. - Isso aqui é a Cons...
- Sim, Cenaculador, isso aqui é a Conspiração. Não era isso o que o senhor queria dizer? E mais: sabe o que são esses peitos lindos? São as tetas, Cenaculador, as tetas do Estado! E eles não querem largar...

Gelei, Amigo Diário. Ela sabia, ela sabia!, que eu estava no Cenáculo para investigar a Conspiração. A Conspiração do Governo, dos políticos e dos maiorais para dominar os Homens Bons, dos quais eu faço parte. Por sorte, não vi ali a minha sogra... Mas então, calmamente, a moça me conduziu a um dos nichos.

- Pode aproveitar - insinuou ela. - Aproveite as tetas do Estado e exerça o seu mandato e, mais que isso, entre de vez na Conspiração (Continua).
...
PS: Se você não acompanha a saga deste personagem talvez seja necessário ler as edições anteriores, onde se define o perfil de Bicalho, o Paranóico, e sua luta contra a Conspiração.

Nem Diógenes, o filósofo cínico, faria melhor. (Charge do Laerte, Folha)

A política como espetáculo - a política como espetáculo - a política como espetáculo

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Os que vão morrer te saúdam
Emanoel Barreto

A manchete da Folha é "Serra e Dilma mantêm empate a 25 dias da TV". Podemos encontrar aí dois aspectos: o que se diz e o que se comunica. O que se diz é o que você leu aí, o texto em sua expressão textual.  O que se comunica, ou seja, o sentido que subjaz, é aquele que o jornal deixa perceber, aquilo que surge por implicação, aquilo que fica sugerido.

Mais claramente: a Folha afirma nas entrelinhas - e não há nisso qualquer intenção manipuladora, suponho - que a eleição presidencial precisará passar ao plano do espetáculo televisivo para que, a partir disso, comece a se delinear mais vigorosamente a tendência dos eleitorados. Explico, com relação ao uso de "eleitorados": como vivemos numa sociedade de classes presumo que haja vários eleitorados - com expectativas bem diversas, atinentes a cada classe.

Voltando ao assunto principal: tendência significa "propensão a", relativamente manifesta em comportamentos individuais ou coletivos. Tendência a ser mensurada, no caso, pelas pesquisas como parte do espetáculo. Tendência de aceitação ou refugo a alguém ou a alguma ideia. Tendência como algo volúvel, coletivamente gasoso, mutante ao sabor de fatos novos.

A manchete é preocupante não pelo fato mesmo do seu enunciado, mas pelo indício que aponta: o espetáculo como elemento potencialmente capaz de formular rumos para a história.
E isso em função de que o público será apenas público, não manifestação de cidadãos, atitude crítica frente aos discursos dos atores políticos - ator, aqui, não em sua acepção sociológica, mas ator no sentido teatral mesmo.

Aí surge algo perigoso, uma indagação: ganhará mais votos aquele que tiver o melhor programa de governo, ou aquele que, pela bruxaria dos marqueteiros, venha a ser melhor empacotado?

O exemplo historicamente mais recente é Obama. Que saiu de uma literal posição de anonimato para se alçar à presidência do mais poderoso império do mundo. E tudo, aparentemente, pela manipulação de um slogan ("Yes, we can." - "Sim, nós podemos.") cuja simplicidade o transformou em uma espécie de aforismo midiático e convenceu a maioria dos americanos a se sentir uma espécie de "nós", uma congregação de eleitores, uma confraria cívica oposta à era Bush.

Detalhe: o "nós" incluía o próprio Obama, aplainado ao senso comum, equiparado ao homem americano médio e assim "um deles", "um igual". Obama, o homem comum, Obama um guy, Obama o cara; portanto confiável e guardião de esperanças e desvelos, jovem patriarca do resgate do sonho americano.

Eleito, já não goza do mesmo prestígio. A condição humana falível, flutuante, aí sim igual à do comum dos mortais da grande nação do Norte surgiu, e o slogan começa a embolorar.

O espetáculo sempre fez parte do jogo político. Na ágora ateniense, nos desfiles das legiões romanas representando o poderio nacional, no pão e circo das arenas de gladiadores, no "Alemanha acima de tudo" hitlerista, no "trabalhadores do Brasil" de Getúlio, nos descamisados de Perón e Evita. Pronto. É isso.

Enfim, vamos aos espetáculos da TV para saber quem vai ganhar a eleição. No fim será mesmo o povo quem vai repetir a soturna saudação dos gladiadores: "Ave César: os que vão morrer te saúdam". O que quero dizer com isso? Simples: não há soluções mágicas para problemas que estão no plano do histórico. A realidade do povo não será mudada pela simples ascenção de Dilma ou Serra, mas pelos atos e gestos históricos que perpetrarão ao assumir.

Da minha parte assistirei ao espetáculo. Depois virá a tragédia cotidiana. Quando for votar rememore a história e recorde quem, realmente, teve coragem de sofrer pelo Brasil.

PS: Atenção. Mesmo empacotados os dois candidatos têm essência e consistência. A vida não é uma farsa, pelo menos não completamente. E a dor, a fome, a insegurança não se esgotam em seu simples sentido substantivo. São sentidas e, o que é pior, vividas. Não se prenda ao espetáculo, lembre quem participou da dor.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Política e desinformação

A comunicação como arena trágica
Emanoel Barreto

A charge da Folha revela como a desinformação pode ser programada e induzida pela informação. Ou seja: informação manipulada para surtir efeito contrário ao que inicialmente seria um efeito informativo. A desinformação está voltada para ocultar determinado aspecto da realidade; no caso o político corrupto que se utiliza de outdoor para se passar por bonzinho. As feições icônicas indiciam a essência corrupta do político representado na charge.

Publicidade é ação informativa, diz que algo ou alguém existe e o faz de maneira sedutora ao receptor da mensagem. Aí o ponto nevrálgico pois, quanto menor seja o nível de esclarecimento de um determinado público, maior a possibilidade de ser apanhado pelo anúncio, especialmente quando o anúncio tem conteúdo de propaganda.

A desinformação tem sido utilizada desde as mais antigas épocas. Generais e políticos já a utilizavam a fim de desorientar e assim melhor dominar povos ou plateias. Hoje, com os modernos métodos de comunicação de massa, sofisticados, persuasivos, a desinformação é elemento essencial ao processo informativo no cotidiano. Na política então...

A charge é cáustica, significa uma tragédia; melhor, duas: a da degradação da ética nos valores políticos e a desventura das classes subalternizadas. A charge é um lamento de Diógenes, o filósofo cínico que andava ao meio-dia com uma tocha acesa à procura de um homem de bem.

Mas revela, de alguma forma, a visão preconceituosa do chargista com o Nordeste. Alguém não identificou ali, nos "analfabetos", a prefiguração clássica do nordestino? Uma mulher de trouxa na cabeça, um pobre-diabo com uma enxada, o menino sobre a cangalha do burro?

Claro, são "nordestinos". Analfabetos os há em todo o país. Nisso somos bastante democráticos. Nossa miséria, a miséria brasileira, é um estado social, encontra-se em qualquer região. Por que em vez dos "nordestinos" não se colocou o político observando uma favela carioca, algum esconso de S. Paulo, Florianópolis ou Porto Alegre?

Não, não. Tinha de ser um nordestino...

De um certo modo o bem-intencionado chargista da Folha também cometeu desinformação...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O amigo invisível e uma enigmática viagem pelos ventos

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O senhor dos ventos
Emanoel Barreto

Tenho um amigo que, diz-me, é senhor dos ventos; ou melhor, amigo deles. Com eles dialoga, discursa, debate, briga até. Para em seguida fazer as pazes e viajar. Sim, ele viaja, garantiu-me. Deitado nos ventos, sem qualquer perigo de cair. Mesmo nas alturas mais deslumbrantes vai, flutuando em paz.

A tal dom alia outra maravilha: torna-se como o vento fluido e invisível. Assim, quando aragem mansa, invade ambientes ocultos, é voyeur de casais intensos, mulheres em pelo, cenas de famílias em aniversário de 15 anos, solidões de desesperados, delírios de loucos e de mandatários em sede de poder.

Sim, ele ouve tudo, vê tudo.

Dia desses saí com ele. "Posso?", perguntei. "Posso" no sentido inglês de "May". E ele respondeu: "Yes, quer dizer sim". E convocando um vento forte, mas não um simum, um siroco, um mistral, tornado, ciclone, tufão ou furacão, fomos calmamente, sem temor de provocar os desmandos que tais ventos determinam.

Evocou vento poderoso o suficiente para nos elevar e voar. Invisíveis, e impregnados ao ar em movimento, subimos. Fomos tão algo que a Terra ficou lá embaixo, azul e linda, como dissera Gagarin.

Depois, descemos. O que vi, nessa passagem, foram as plagas terríveis e mais belas da condição humana. Praias sensacionais, vigorosas paisagens, coisas das mais belas.

Passamos também pela miséria de Benares, os esconsos de Tegucigalpa, a miséria terrível dos subúrbios de Bogotá, a perversa vida nas favelas do Rio, os soluços ignaros dos moradores dos esgotos de Bali, ruelas de toda a Ásia, becos de toda a Europa, etc..., etc..., etc...

Vi-me invadido por uma sensação que oscilava entre alegre e pesarosa. O homem, o pobre homem em seu dilema. O homem como situação coadjuvante do seu próprio drama.

Voltamos tarde da noite.
Agradeci.

Quando já saía, voltei-me para perguntar quando iríamos viajar de novo.
O canto mais limpo. Ele tinha desaparecido.

The young lady sings Tom Jobim

Ela é isso, uma beleza imensa
Emanoel Barreto

Voz doce e forte, modulações perfeitas, vocabulário cenográfico intenso, discurso de paixão e ternura. Assim pode ser definida a candura-young, poética e intensa de Liz Rosa. Quando menina gostava de cantar comigo: eu pegava o violão e ela, talento que começava a fulgir, cantava Paz do meu amor, de Luiz Vieira.

Para mim, instantes de alegria, convívio bom, mágico e meio alumbrado de ouvir em minha sobrinha algo raro, muito raro em uma criança: o talento ainda em forma de orvalho. Pensava porém que era apenas um insight, um lampejo infante, uma pequena maravilha a ser guardada para os saraus da família, escondida dos olhares do público.

Enganei-me. A menina Liz Rosa cresceu. Hoje é uma jovem mulher, decidida e bela. Tem arrojo, confia na poética que a domina. Persevera, enfrenta, luta. Busca seu espaço e leva a sua voz, sua postura de palco, seu talento desenvolto a outros olhares que não os da família, a outros públicos que não os nossos.

Então, fica combinado assim: hoje, às oito e meia da noite, no Veleiros Restaurante, Avenida Roberto Freire, nos encontramos lá para ver e ouvir; acima de tudo sentir, o talento dessa menina que cantava comigo canções de roda e a música intensa de Luiz Vieira.
E que, ainda hoje, ainda me diz: "A bença, tio?"

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O DIÁRIO DE BICALHO O DIÁRIO DE BICALHO O DIÁRIO DE BICALHO


Digníssimo Diário,

Nos últimos registros que fiz informei que, temo, minha sogra tenha entrado para a política. Essa ideia me veio depois que vim do Cenáculo, onde estivera, disfarçado de Cenaculador. E aprendi como os Cenaculadores se portam.

Hoje, tive a confirmação. Pelo menos em parte.Cautelosamente, obvservei-a ao telefone. Falava baixo. Inaudível, não consegui ouvir o que dizia. Ela anotava algo em um papel. Mas cometeu um erro: terminada a conversa deixou a folha ao lado do telefone e foi para a cozinha. Certamente para preparar alguma poção sinistra a fim de me vitimar.

Sabe o que é uma poção? Veja só que que malsã beberagem. Diz o dizionário: "poção é um
hidrólio que contém medicamento dissolvido ou em suspensão, para ser administrado por via oral."

Gelei: só pela descrição dá para ver como se trata de cruel e infame venefício.
 Logo depois, ela veio com um copo. Disse: "Genro é o filho que a gente ganha de presente. Meu filho, você precisa de alimentar. Beba aqui este copinho". Aceitei, e logo que deu as costas derramei todo o conteúdo letal pela janela.

Mas, vamos ao que interessa: peguei o papel deixado por ela e lá estava escrito "vida pregressa". Pronto. Descobri a trama. Vida pregressa, amigo! Vida pregressa! A expressão tem claríssimas conotações policiais e confirma minha suspeita de que ela, se não é secretamente da política, faz parte da Conspiração capitaneada pelo Governo para capturar a eliminar os Homens Bons, de que faço parte.

Logo depois ela voltou. Estivera na minha biblioteca, mexendo nos meus livros, bem vi. O que ela queria lá? Será que tinha ido levar aos meus adorados livros alguma terrível peste de traças e mofos dos mais variados gêneros, para levá-los à ruína, devorados por tais e tamanhos insetos? Sim. Insetos, amigo, insetos.

Inseto, para mim, é uma palavra cabal. Tudo o que não presta deve ser considerado inseto, esteja certo. Vejo insetos por toda parte e os combato com fragor. Ontem mesmo tentei matar um rato que me ameçava. Um rato, amigo, é um dos piores e mais malignos insetos. Vendo um, pau nele.

Mas, que faço?, digressões não são o meu forte. Assim, serei também inseticida com a digressão. Pois bem: ela veio da biblioteca, pegou o telefone e ligou para a casa do meu irmão. Foi atendida pelo neto, menino em quem vejo esperteza já sinistra alojada em tão infante alma.

Ela dizia que pelo que tinha visto nos livros, a expressão "vida pregressa" engloba tudo o de mais relevante que uma pessoa já fez. De ruim. E que a expressão, destarte, é largamente utilizada em inquéritos policiais. 

Notando que eu me aproximava, desconversou ao telefone e disse: "Estou ajudando o menino num trabalho da escola. É um exercício sobre o uso de expressões. Acho que coisa de Direito, advogado, juiz, essas coisas...".  E saiu.

Cheguei à mais triste conclusão. Minha sogra e o filho do meu irmão são da polícia, fazem parte da Conspiração contra os Homens Bons e eu sou um deles. Vou ligar agora mesmo para Dona Zulma, da Augusta e Responsável Ordem dos Homens Bons, Frequentadores de Porões e pedir que acione a Diretoria de Álibis.

Com uma família assim todos precisamos de um álibi. Até porque meu irmão e seu filho estão estacionando o carro à minha porta. Devem trazer algemas e varapaus, capuzes e garrotes, além de outros traquitanas e badulaques.

Adeus, amigo Diário. Adeus, vou fugir agora mesmo e pegar meu álibi.
Saudações e reverências,
Se viver, voltaremos a nos encontrar.
Bicalho

Navio negreiro navio negreiro navio negreiro navio negreiro

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'Stamos em pleno mar ou o Brasil é um Pélago profundo

Diz a Foha: A brasileira Geisa Arcanjo, 18, é a nova campeã mundial do arremesso do peso juvenil. Ela ganhou a medalha de ouro na última terça-feira, na final da prova no Campeonato Mundial Juvenil, em Moncton, no Canadá.
......

SINCERAMENTE, DISSO disso já sabia. Por acaso não somos um povo habituado a atirar para a frente o peso mensal das dívidas que o salário não consegue pagar; não somos nós um povo que na verdade não arremessa pesos, mas suporta fardos; não somos nós uma espécie de raça estranha, exóticos sociais a olhos estrangeiros; e, aparentados de Sísifo, empurramos montanha acima, com o peito, enorme rochedo para vê-lo desabar aos abismos, descemos até lá e empurramos de volta a pedra? Somos.

Ufa! Até ao parágrafo acima foi difícil empurrar sua construção. Ufa!, de novo.

Somos uma espécie de povo-módico. Baratinho a políticos, maiorais, ricaços, capatazes, poderosos de todo o gênero, sabidões e outros quejandos.

Somos um povo, sim, de atiradores de pesos, agrilhoado às filas pedintes de fichas, suplicantes de um atendimento médico que nunca chega, de uma escola que mal e mal funciona, de uma segurança que nos atemoriza, de um amanhã que pode preludiar tragédia.

Eia! Vamos mais e mais atirar pesos ao longe. E comemorar vitórias de manchete. Na realidade sabemos que tais aclamações são sagrações passageiras, destinadas a embrulhar peixe no mercadinho da esquina. Eia!
'Stamos em pleno mar...

PS: O Brasil é um Pélago profundo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os alienígenas estão chegando?

http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/07/19/e190717420.asp
Deu no JB:

CHINA - Após um objeto voador não identificado (ovni) fechar um aeroporto e causar o desvio de alguns voos no último dia 9, outro objeto voador foi visto na China na última quinta-feira. Segundo a CNN, o jornal The Shangai Daily afirma que o caso ocorreu em Chongqing e testemunhas disseram ter visto "objetos parecidos com lanternas que formavam um diamante" e que pairou sobre um parque durante cerca de uma hora.


"Após pairar por uma hora, a coisa começou a voar alto e finalmente saiu da vista", disse uma testemunha ao jornal chinês. Segundo a CNN, relatos de ovnis são comuns ao redor do planeta, mas um pouco raros na China.



No último dia 9, um objeto voador não identificado (ovni) cruzou os céus de Hangzhou, capital da província chinesa de Zhejiang, na China, assustou moradores e fechou o aeroporto e as autoridades do país ainda não explicaram o que era o estranho objeto. Segundo a ABC News, um representante da Administração da Aviação Civil da China, que não foi identificado pela reportagem, disse que o caso está sendo investigado, mas não deu maiores detalhes.


O China Daily afirmou na ocasião que o governo sabia o que era o objeto, mas não poderia divulgar sua origem por haver uma "conexão militar". Contudo, segundo a agência Xinhua, Wang Jian, chefe do controle de tráfego na região, disse que não havia nenhuma conclusão sobre o caso.


Segundo o britânico Daily Mail, especialistas afirmam que a luz vista em Hangzhou foi causada por destroços de um míssil americano. De acordo com a reportagem, testemunhas ficaram assustadas e reportaram terem visto uma bola de fogo no céu parecida com um cometa. Muitos moradores tiraram fotos do ovni. Segundo a imprensa local, um comunicado das autoridades chinesas era esperado para o dia 9, mas nada foi reportado.

Índio da Costa quer apito

http://olharesdispersos.files.wordpress.com/2010/06/indio5mini-copia.jpg
Declarações amalucadas e a falta de caciques na taba do PSDB
Emanoel Barreto

As declarações de Índio da Costa, ligando o PT "ao narcotráfico e à guerrilha" exibem um candidato despreparado, um tolo, um exímio, parvo praticante do que se chama baixa política. Aquela, do disse-me-disse, do chafurdo, sabe?

Como existe potencialmente a possibilidade de ele um dia assumir a presidência da República, enésima possibilidade, mas existe, imagine um homem desses assumindo o que já se chamou "a mais alta magistratura da nação".

A candidatura de Índio é infausta até mesmo na forma como se deu: ao assustadiço, em meio a uma espécie de treme-treme partidário, meio que de improviso. Meio não, de improviso, ajustando bricolagem política entre PSDB e Democratas.

E escolheu-se, dos democratas, uma personagem do baixo clero já que ninguém de peso no partido, nenhum cacique, assumiu o risco de trocar reeleição tranquila à Câmara ou Senado, por uma experiência de ensaio e erro ao lado de Serra.

E Índio desceu, mas não de uma estrela colorida, brilhante, mas de uma maloca onde, parece, algum pajé não conhece bem as feitiçarias disso que se chama política.

E enquanto a campanha começa a tomar silhueta pratica-se a baixa política, desviando-se o debate em torno de ideias em favor de declarações amalucadas.

Pelo visto, Índio da Costa quer apito. E se não der, pau vai comer?

domingo, 18 de julho de 2010

Três perdidos  numa noite suja
Emanoel Barreto

Uma noite, um início de noite. Chovia a cântaros. Eu saí, a pé, da Tribuna do Norte. Na Ribeira, onde fica o jornal - nessa época, lá pelo ano 1978 - o bairro ficava totalmente alagado em dia ou noite de chuva mais forte, chuva que mereça o nome de chuva, tempestade, borrasca.

Saindo do jornal meti o pé na inundação. A água, mesmo na calçada, já cobria os pés. À medida que avançava a água ficava mais profunda. Caminhei meio encurvado, olhando apenas para o próximo passo e seguir.

Mais adiante ficava - fica - a antiga estação rodoviária. Até lá, água muita. Quando me aproximava, ensopado, cansado de mais de dez horas de trabalho - em jornal se trabalha, amigo - da rodoviária, encontro cena que jamais se me apagou do registro da memória: um menino, de uns dez anos - feio magro, somente de calção, chorava em meio à chuva.

Tão pobre, tão feio, tão desamparado, ele gritava gritos de desespero: "Mamãe, mamãe. Mamãe, venha me buscar". Era uma cena chocante: em meio ao desastre de água que se derramava um ser humano indefeso e em crise berrava pela ovelha-mãe que - pensava, queria, pedia, o viria salvar.

Ele estava no meio dia rua, desesperado. As trevas, e a água que vinha dos céus, o atormentavam em bem próprio e unicamente seu, desespero. Fiquei, parei em meio ao caos, pensando em ajudá-lo.

Nisso, chega uma mulher, cambaleando. Ela estava bêbada. Brandiu maldições, exigiu desculpas a Deus e arrastou o menino pelo braço. Urrava algo que não entendi. Urrava, urrava. Em seguida, o puxou para uma ruela escura. Prossegui, like a rolling stone. Eu também precisava me salvar.

E aqueles dois miseráveis, pingos de gente infame e sem importância, se perderam para sempre do meu olhar.
Depois, caminhei... E a chuva me chicoteou. Até chegar em casa...