Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Durante a escuridão da noite

Somos sim a marca magistral de som e luz, silêncio pardo.
Somos sim a curva estreita no longo caminho ao lado do abismo; mas somos também a coragem de superar o abismo e sobre ele nos lançar em voo perfeito, elipse.
http://www.google.com.br/imgres?q=paisagem+azul&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-

Somos não o temor que para, a decisão que estagna, o calafrio. Somos o cala-frio.

Somos, assim, somos. E por sermos, somos somas; somamos o que multiplicamos, dividimos o que tememos e dessa sorte diminuímos o que nos enfraquece.

E então crescemos como o verde que brota no jardim durante a escuridão da noite.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Acabo de chegar da morte

Pois é: acabo de chegar da morte. Vi o corpo de um amigo no calar impenetrável da vida ausente no corpo. Acabo de chegar da morte. A missa as orações, os cânticos; o choro da filha dele, hoje mulher que vi menina ao lado das minhas meninas, filhas do meu amor de pai, tudo isso me emocionou poderosamente. 
http://www.google.com.br/imgres?q=luz&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-

Acabo de chegar da morte. E me pergunto o que é aquele silêncio de vida no corpo calado. 

Acabo de chegar da morte enquanto a chuva cai numa espécie de choro que vem do Alto e nos banha com sua sentença: sois todos homens. E ser homem é já nascer julgado, é ser em si uma prisão, é ser estrangeiro a habitar passos, caminhos desvãos. 

Acabo de chegar da morte. 

Mas o choro da chuva de alguma forma me diz que quem acaba de chegar da morte termina sempre por encontrar motivos para entender que antes da morte, e depois dela, a Vida  é o lume sempre que vem e nos habita.

 Então, se acabo de chegar da morte é porque estou permanentemente envolto em Vida. E o meu amigo de alguma forma está cantando na chuva. Abraço grande, meu amigo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"O delegado sou eu"

Eu o vi duas ou três vezes: bêbado, mirrado, bracinho fino erguido e indicador apontado para o alto, bradando uma inútil advertência: "O delegado sou eu! O delegado sou eu!" Ninguém contestava, até porque nele ninguém prestava atenção, a não ser eu; não sei se perplexo ou estranhamente fascinado com aquela cena que oscilava entre o ridículo e o comovente.

Corriam os anos 60, e da minha casa eu o via seguir ladeira abaixo, Rua Princesa Isabel, centro de Natal. Ele passava na calçada do outro lado da rua e seus gestos hoje me lembram um Carlitos torto e anônimo, um brasileiro pobre que se dizia autoridade.

Não sei mas, na época, bem que eu poderia tê-lo presenteado - meninos, se você não sabe, podem tudo - com uma linda viatura policial que naqueles tempos eram chamadas de "tintureiras", para ele fazer valer sua disposição de Quixote e prender todo mundo. A tintureira seria toda pintada em preto e branco, e Delegado poderia cumprir mandados, fazer flagrantes, capturar os maus. 

E mais: eu poderia pedir ajuda aos meus amigos Zorro e Tonto, Billy the Kid, Kit Karson, Roy Rogers, o Fantasma, Búfalo Bill, Águia Negra, Falcão Negro, Daniel Boone, Dom Chicote, Cavaleiro Negro, Kid Colt e, claro, Jerônimo, Aninha e Moleque Saci. Se a coisa ficasse muito feia poderia chamar o Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda e mais: El Cid, o imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França. Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan também poderiam vir.

Eles eram invencíveis e jamais se negariam a me ajudar e ao Delegado. Eu daria a ele um dos meus revólveres de plástico, quem sabe até mesmo um de metal, o mais bonito, o que disparava espoletas. 

Com essas armas eu mesmo prendi muitos bandidos que habitavam esconderijos que somenete eu conhecia. Eu tinha até uma estrela de xerife, ganha numa promoção da Toddy chamada Patrulheiros Toddy. Eu era um Patrulheiro Toddy e bem poderia ter ajudado ao Delegado. E eu não fiz nada. Não chamei os caubóis meus amigos, nem os grandes espadachins, não lhe dei a tintureira, não lhe dei meu revólver, não saí galopando a seu lado rua abaixo. Nada, nada, nada; somente o vi passar, tão desamparado, maltrapilho e tão bêbado, um pobre brasileiro e se perder na pesada ladeira da Princesa Isabel.
E ele se dizia o delegado. É porque ele só queria respeito. Porque tinha a autoridade de ser povo, pobre e embriagado. 

Depois eu o vi duas ou três vezes. Então, nunca mais reencontrei o Delegado. E acho, somente hoje descobri, que ele também era meu amigo, e tão corajoso e firme como Jerônimo ou Zorro. Afinal, eun e o Delegado vivíamos em mundos paralelos, universos imaginários e queríamos ajudar, prendendo bandidos. Naquele tempo além de querer prender bandidos, eu tinha outra paixão: queria ser arqueólogo, pensava em ir ao Egito e fazer grandes descobertas.  

Hoje penso no meu amigo Delegado, reduzido a uma réstia de lembrança. E agora me vem, não sem um certo temor e uma fisgada de angústia: acho que quando ergo minha voz nestes textos de internet também estou descendo alguma ladeira e grito como o louco sublime: "O delegado sou eu! O delegado sou eu!"


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dando uma mexida neste Coisas... encontrei a crônica que abaixo republico.


http://www.google.com.br/imgres?q=casal+dan%C3%A7ando&hl
Encabulada em dó maior
Emanoel Barreto


Ela chegou. Veio em passos de pantera e de veludo azul.
Atravessou o grande salão e, fazendo isso, a música parou. Atravessou o salão e, fazendo isso, deu-se a descobrir.

Estava ali uma mulher completa, intensa, inteira, farta, doidivanas;
Petulante, sólida, perfeita;
Camarada, amiga, doce solidão a dois;
Feminina, forte, descobridora;
Caminhante, sã, insana primavera;
Distante, pertíssimo, misteriosa, bela;
Felina, feliz, atraente, difícil;
Viajante, indagadora; senhora de respostas, autora de dúvidas.
Um romance inscrito em corpo de mulher.

A festa como que parou, só para vê-la. Dirigiu-se a uma mesa, sentou-se: - Dança? A pergunta havia partido de uma voz masculina em dó maior, grave. - Sim, foi a resposta que ela deu, pondo-se de pé. Com a orquestra o cantor discorria um bolero. Os passos dos casais coleavam em meio ao claro-escuro do salão. Maracas e bongôs pontuavam a música com seu remexido côncavo-convexo.

A voz de dó maior perguntou: - Qual o seu nome? Ela respondeu em surdina: - Encabulada.- Como? - foi a dúvida seguinte, ante a resposta inesperada. - Encabulada - ela disse com um sorriso de meia lua, as costas da mão encostadas na nuca do dó maior.

- Você, encabulada? - o dó maior quis saber, pois, naquela mulher, não havia espaços de silêncio.- Eu não disse que estou encabulada. Eu disse que sou Encabulada. É diferente. Sou diferente de todos e igual a mim mesma. E como não sou resposta, mas proposta, espero sempre as perguntas. As perguntas certas. Daí, porque sou Encabulada. Não vou às pessoas, elas têm que vir até a mim. Dou a impressão de estar retraída, distante do mundo, para que me descubram o caminho. Poucos descobrem... Daí, dou a impressão de estar encabulada. Mas quando alguém me descobre, está com Encabulada. Dá para entender?

O dó maior fez que sim e continuaram a dançar boleros firmes, ajustados, justos, encaixados, mínimas, semínimas, colcheias e acordes. Os violões agudos perfuravam a noite: flores e floretes, enigma de passos.Aí, foi ela quem perguntou: - Seu nome? O dó maior pensou um pouco e respondeu: - Pode me chamar de Colecionador. Sou um colecionador. Um colecionador de situações, as mais inesperadas, estranhas, belas, difíceis, lamentáveis, boas. Situações que às vezes procuro, outras não; um tempo lamento, outro tanto gosto. Como agora, que descobri você, essa mensagem cifrada, num código que ainda desconheço, mas que vou aprender. Ficou encabulada, Encabulada?

Ela voltou com seu sorriso de meia-lua e respondeu: Não. Ela não havia ficado encabulada. Afinal, disse, uma situação se constrói a dois, passo a passo, gesto a gesto, ato a ato, palavra-por-palavra. Até que, como a brisa marinha, se transforme numa lembrança. Mas, isso, já é outra situação...

E, Encabulada e Dó Maior ficaram assim, colecionados de si, pasmos e presos ao bolero que dizia as coisas que todos os boleros dizem. E no depois do tempo, fizeram-se um só, fazendo-se brotar no meio do salão.

sábado, 5 de fevereiro de 2011


A cadeira
(A Moça Sentada) 
Newton Navarro

O alto corpo se curva,
Quebram-se as linhas
E partidas formas lentas
Se debruçam.
Do vivo traço que era
De pé, como haste erguido
Em três planos se dispersa.

Vivos olhos, agudamente,
Percorrem a sala sem lume.

Dois seios pulsam, solenes.
As mãos uma flor seguram
Suspensa sobre o regaço
E o sexo e a flor se ocultam
No sem espaço da curva.

Pernas suspendem ligeiras
Os pés, e as alpercatas
Caem no vazio onde foram
Sólidas raízes do corpo
Que a cadeira despedaça.

E na sombra,
Sem movimento,
Todo o corpo adormecido
Sobre o corpo da cadeira
Mulher de amor ausente
Talha na sombra envolvente
Vivo relevo de carne
Inútil sobre a madeira.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011


Em meio à efusão que espero libertária do Egito olho no computador a viva tragédia, a história em marcha como espetáculo, a história se fazendo em coragem e sangue, a terrível e arrebatadora alegria do lutar.

E é assim, nesta manhã esplendente de sol nordestino e corajoso, Natal debruçada de longe para a África, encontro a poesia do grande Omar Khayam, o mestre que compôs os Rubayat. É ele quem diz: 

                                      " Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida."

Seguem 30 estrofes. 


Os Rubaiyat de Omar Khayyam
versão em português de Afredo Braga

1
 Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
 2
 O que vale mais? Meditar numa taverna,
ou prosternado na mesquita implorar o Céu?
Não sei se temos um Senhor,
nem que destino me reservou.
 3
 Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.
 4
 Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.
  5
 Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.
 6
 Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.
 7
 Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.
 8
 Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.
 9
 Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
 10
 Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.
 11
 É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?
 12
 Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
 13
 Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.
 14
 Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?
 15
 Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as rosas
e ilumina os meigos olhos da minha amada.
Ontem, amanhã... é tão grande o prazer agora.
 16
 Bebo, mas não sei quem te fez, ó grande ânfora;
podes conter três medidas de vinho, mas um dia
a Morte te quebrará. Numa outra hora perguntarei
como foste criada, se foste feliz, ou por que serás pó.
 17
 Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.
 18
 Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo
e esquecer a nossa incurável ignorância.
 19
 Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,
caíste na fogueira da dor; agora és cinzas.
O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda
e a Morte vendeu-a por uma ninharia.
 20
 É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.
 21
 Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.
 22
 Na estação das rosas procuro um campo florido
e sento-me à sombra com uma linda mulher;
não cuido da minha salvação: tomo o vinho
que ela me oferece; senão, o que valeria eu?
 23
 O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
 24
 Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.
 25
 Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?
 26
 Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
 27
 Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde irás depois?
 28
 Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.
 29
 A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou ao nascer;
mais feliz quem não veio ao mundo.
 30
 Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Gilberto Avelino

Diante do Mar
                  
 
É janeiro. O claro 
mês das marés 
de sizígia.  


Ontem,  
a bolandeira circulou 
a lua,  

em sinal da proximidade 
das chuvas.  


Hoje,  
sobre o mar,  
as chuvas 
vieram.  


E os pescadores descansam 
as quilhas. 

— Os peixes 
alumbram-se 
com as águas doces.  


Envolvem o mar 
as escuras sombras 
da noite.  


Contudo,  
em harmonias 
o mar 
tece os fios 
de níveas rendas.  


O farol 
permanece atento,  
indicando 
os rumos.  


E nós — amada 
amiga,  
nos enternecendo 
ao som da onda,   

da onda 
alta,  

com quem dividimos 
a vigília.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

o até na floresta As ave se manifesta
Poetas niversitário,
Patativa do Assaré
                                                      
                                    
                                    Poetas de Cademia,
                                    De rico vocabularo
                                    Cheio de mitologia;
                                    Se a gente canta o que pensa,
                                    Eu quero pedir licença,
                                    Pois mesmo sem português
                                    Neste livrinho apresento
                                    O prazê e o sofrimento
                                    De um poeta camponês.
 

                                    Eu nasci aqui no mato,
                                    Vivi sempre a trabaiá,
                                    Neste meu pobre recato,
                                    Eu não pude estudá.
                                    No verdô de minha idade,
                                    Só tive a felicidade
                                    De dá um pequeno insaio
                                    In dois livro do iscritô,
                                    O famoso professô
                                    Filisberto de Carvaio.
 
                                    No premêro livro havia
                                    Belas figuras na capa,
                                    E no começo se lia:
                                    A pá — O dedo do Papa,
                                    Papa, pia, dedo, dado,
                                    Pua, o pote de melado,
                                    Dá-me o dado, a fera é má
                                    E tantas coisa bonita,
                                    Qui o meu coração parpita
                                    Quando eu pego a rescordá.
 
                                    Foi os livro de valô
                                    Mais maió que vi no mundo,
                                    Apenas daquele autô
                                    Li o premêro e o segundo;
                                    Mas, porém, esta leitura,
                                    Me tirô da treva escura,
                                    Mostrando o caminho certo,
                                    Bastante me protegeu;
                                    Eu juro que Jesus deu
                                    Sarvação a Filisberto.
 
                                    Depois que os dois livro eu li,
                                    Fiquei me sintindo bem,
                                    E ôtras coisinha aprendi
                                    Sem tê lição de ninguém.
                                    Na minha pobre linguage,
                                    A minha lira servage
                                    Canto o que minha arma sente
                                    E o meu coração incerra,
                                    As coisa de minha terra
                                    E a vida de minha gente.
 
                                    Poeta niversitaro,
                                    Poeta de cademia,
                                    De rico vocabularo
                                    Cheio de mitologia,
                                    Tarvez este meu livrinho
                                    Não vá recebê carinho,
                                    Nem lugio e nem istima,
                                    Mas garanto sê fié
                                    E não istruí papé
                                    Com poesia sem rima.
 
                                    Cheio de rima e sintindo
                                    Quero iscrevê meu volume,
                                    Pra não ficá parecido
                                    Com a fulô sem perfume;
                                    A poesia sem rima,
                                    Bastante me disanima
                                    E alegria não me dá;
                                    Não tem sabô a leitura,
                                    Parece uma noite iscura
                                    Sem istrela e sem luá.
 
                                    Se um dotô me perguntá
                                    Se o verso sem rima presta,
                                    Calado eu não vou ficá,
                                    A minha resposta é esta:
                                    — Sem a rima, a poesia
                                    Perde arguma simpatia
                                    E uma parte do primô;
                                    Não merece munta parma,
                                    É como o corpo sem arma
                                    E o coração sem amô.
 
                                    Meu caro amigo poeta,
                                    Qui faz poesia branca,
                                    Não me chame de pateta
                                    Por esta opinião franca.
                                    Nasci entre a natureza,
                                    Sempre adorando as beleza
                                    Das obra do Criadô,
                                    Uvindo o vento na serva
                                    E vendo no campo a reva
                                    Pintadinha de fulô.
 
                                    Sou um caboco rocêro,
                                    Sem letra e sem istrução;
                                    O meu verso tem o chêro
                                    Da poêra do sertão;
                                    Vivo nesta solidade
                                    Bem destante da cidade
                                    Onde a ciença guverna.
                                    Tudo meu é naturá,
                                    Não sou capaz de gostá
                                    Da poesia moderna.
 
                                    Dêste jeito Deus me quis
                                    E assim eu me sinto bem;
                                    Me considero feliz
                                    Sem nunca invejá quem tem
                                    Profundo conhecimento.
                                    Ou ligêro como o vento
                                    Ou divagá como a lêsma,
                                    Tudo sofre a mesma prova,
                                    Vai batê na fria cova;
                                    Esta vida é sempre a mesma.  



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A crônica que não escrevi ou de como conversar com a Morte
Emanoel Barreto

A crônica que não escrevi ficou embaralhada em meio aos papéis, letras, palavras, arquivos desarrumados que se acumulam em minhas mãos e por algum motivo não conseguem fluir pelos toques no teclado, seja da antiga máquina, seja do computador, essa pequena, ladina, vaidosa e irascível fera, pequinês zanho que às vezes me aborrece com seus truques de não obedecer.

A crônica que não escrevi transformou-se na crônica-que-não-escrevi porque está se ajuntando letra a letra na tipografia das mãos à procura de um instante-gutemberg. A crônica-que-não-escrevi é um momento manso, calmo como chuva que passou, pingo a pingo na goteira de meus dedos de caranguejo.

A crônica-que-não-escrevi é sábia, entende a espera, a maturação da Vida, porque sabe que as grandes coisas somente são feitas nos instantes finais - senão todas, pelo menos algumas delas. A crônica-que-não-escrevi talvez somente chegue quando eu estiver muito, muito, muito velho - se tiver tempo para envelhecer mais do que sou. Talvez somente se aproxime quanto eu estiver vendo fantasmas, conversando com espectros e chame a Morte de amiga e lhe dê o braço para caminharmos falado das coisas de Júpiter. Ela me explicando como me mover no Hades, a moeda no bolso para pagar Caronte.

A crônica-que-não-escrevi talvez somente fique pronta quando este velho estiver vestindo a armadura pesada de gladiador, pesada demais para um velho, mas necessária para quem vai à liça, empunhando o gládio e entrando na arena radiosa de sol de luz enlouquecida, os olhos cegos de tanta beleza solar, pronto para o último combate. E direi então à minha crônica: "Avante Amiga, honra e força!" E partiremos, eu e a minha crônica, para o espaço largo da arena e então faremos a saudação protocolar, soturna e grandiosa de todo gladiador: "Ave César, os que vão morrer de saúdam".

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O silêncio estudado em laboratório

À minha frente, o microscópio me diz: 


Silente, ouves o silêncio.
Se lente, vês o silêncio.

Se mente, pensas o silêncio.
Semente, cresces o silêncio.

Resultado em tubo de ensaio: somente as sementes são mentes caladas.

E isso não quer dizer absolutamente nada. 
Aritmética do trabalho ou teorema social tosco
Emanoel Barreto

O trabalho enobrece o homem.
O trabalho enobrece o homem?

O trabalho enriquece o homem.
O trabalho enriquece o homem?

O trabalho engrandece o homem.
O trabalho engrandece o homem?

Respostas parciais:
O trabalho embrutece o homem.
O trabalho empobrece o homem.
O trabalho enlouquece o homem.

Respostas finais:
O trabalho enobrece um homem. E só um.
O trabalho enriquece um homem. Um único homem.
O trabalho engrandece um homem. E apenas um homem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Poço
Pablo Neruda

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.