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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Hoje tá muito hoje ou uma tenda em cada estrela

Ando sem tempo para escrever. Tenho esperado as chuvas que não chegam. Mas sempre tenho uma grande alegria quando meu neto me informa: "Vovô, hoje tá muito hoje."

http://es.dreamstime.com/
Sim, meu filho, graças a Deus hoje tá muito hoje e espero que permaneça assim por muito, muito tempo. É preciso que hoje continue muito hoje. Não sei bem porque, mas creio que é importante que hoje esteja muito hoje. 

Estarmos muito hoje talvez signifique que as chuvas nordestinas virão, mesmo que meio atrasadas, só para festejar o hoje muito hoje; estar muito hoje certamente quer dizer que todos os males, projetos e planos dos indignos e quejandos serão levados pela chuva às bocas de lobo do chão do tempo e lá se perderão para sempre; estar muito hoje certamente significa que o olhar faiscante de beleza do meu neto será para mim um luzeiro a dizer  que é preciso embarcar com ele em seus navios e em seus carros e partir para novas aventuras e dizer como o velho Antero: "A galope, a galope, ó fantasia! Plantemos uma tenda em cada estrela."

quarta-feira, 14 de março de 2012

Acabou de chegar uma chuva de sertão: a bença, minha vozinha

Acabou de chegar uma chuva de sertão. Chuva grande, poderosa. Chuva do tempo velho, quando o sertão era terra de bicho brabo: onça esturrando alto no meio da noite densa. Chuva antiga, muito antiga, tempo em que as mulheres da casa usavam cabelo alto, arrumado num totó. Chuva boa, criadeira, plantadeira de chão, trabalhadeira da terra. De enxada e brotação. 
Arte do livro Asa Branca feita com nanquim e guache - Maurício Pereira

Não sei porquê, mas essa chuva me trouxe essa lembrança de tempo que não vivi. Dá-me a impressão, essa chuva, de uma alegre chegada de avós que moravam nos escondidos da serra, apeando na capital. E de lá me contando muito do trovão explodindo a noite, o corisco vigoroso fatiando o ar na foice, na foice da luz do céu. 

E na noite a cruviana, o frio largo do sertão, faz o homem se arranchar bem firme em cima da sela, puxar a veste de couro e esporear o cavalo em direção da morada. 

Sua bença, minha chuva, chuva velha que me manda, menino que inda sou, sair do meio do paito mode num pegar um difruço. Sua bença, chuva antiga. Sua bença, chuva antiga.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Chuva menina na manhã nascente

Fui acordado por uma chuva menina que resolveu não sei porquê brincar nos telhados de Natal de manhãzinha. Pedi que ela ficasse o dia inteiro e me contasse coisas de nuvens, de pássaros e das travessuras que faz escondendo e atrapalhando o sol quando ele quer enfeitar as praias e as mulheres bonitas, os barcos e as ondas.


http://www.google.com.br/imgres?q=chuva&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-
Mas ela disse que não, que tinha de passar lá do outro lado do Atlântico: compromisso com uma linda praia d´África, onde elefantes e leões às vezes aparecem e se metem na água com estardalhaço.

De lá, linha reta à Europa. Passar em Portugal, ouvir um fado, girar até Londres se misturar com o fog e depois lavar a imponência do Coliseu, Roma. Em seguida... bom , disse que não sabia. Mas ia dar uma volta ao mundo, com certeza, penetrando na escuridão temerária da jângal indiana; tigres, já pensou?


No fim a chuva partiu, mas garantiu-me: qualquer dia volta bem cedo e vem molhar minha grama. Deixou-me uma gota de luz de presente e uma imagem de esplendor no ar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

 A chuva em Natal

A chuva em Natal trocou a luz tropical da cidade por um cinza calmo, um silêncio salpicado pelo tamboril dos pingos e muitas vezes uma cachoeira que despeja litros de barulho no telhado. A chuva em Natal trouxe o inverno do sertão às ruas. A chuva em Natal trouxe a este meu início de férias a vontade de um bom livro e um pouco de descanso. A chuva em Natal aguou o meu jardim. A chuva em Natal vai fazer-me parar um pouco e ter tempo para escrever, mesmo que só um pouco.

sábado, 21 de maio de 2011

Lalo de Almeida/Folhapress
Vida de povo, vida de gado

Leio na Folha e logo abaixo comento: Em um abrigo de ônibus da avenida Padre Pereira de Andrade, em Alto de Pinheiros (zona oeste de SP), garranchos coloridos formam um painel de pichações. Na av. professor Fonseca Rodrigues, perto da praça Panamericana, o spray deixa um palavrão e a reivindicação: "Passe livre aos estudantes".
A situação de abandono e depredação dos cerca de 7.000 abrigos de ônibus com cobertura da capital foi constatada pela Folha em 20 pontos diferentes, nas zonas oeste, sul e central. 

O sentimento comum entre os usuários ouvidos é de resignação. "É comum tomar chuva debaixo do abrigo, mas a gente nem repara, porque já estamos acostumados", diz a doméstica Simone Molica, 42, que estava na avenida Jabaquara. 


"Onde há abrigos, estão mal conservados, falta limpeza, pintura e arrumar as coberturas, que muitas vezes estão quebradas", diz a professora Rosa Maia, 37, que esperava um ônibus na av. Brigadeiro Luís Antônio."Às vezes todas as telhas estão quebradas", diz o aposentado Eliakim Bezerra, 69, na rua Fagundes Filho, na Saúde (zona sul). O ponto ficou cerca de seis meses com o teto arrebentado e foi consertado há um mês. 

Em toda a cidade, há cerca de 19 mil pontos de ônibus --63% deles não têm cobertura. Apenas 4.000 possuem assentos, que são colocados preferencialmente perto de hospitais, escolas e asilos.
............. 
Elegia do povo só


Sina ou sorte perigosa, eis a visão do povo: 
largado à própria sorte, cabisbaixo e perdedor. 
Acostumado com o medo, se abriga sempre ao léu.
Depois, triste e decaído,
caminha ao seu próprio fim


Nos arrabaldes da vida, se perde onde puder.
Se puder, pede ajuda, que de ninguém não terá.
E tendo o que não é ter
Sabe que jamais terá o que o seria o tal ter. 


O povo é um bicho manso,
perdido num campo grande.
É gado que come a fome
E da fome enche a barriga.

Depois nem berrar não pode
Que disso desaprendeu.
E calado segue o passo
Até se tornar jamais.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Chuva três dias sem parar
 
Agrada-me a chuva. Percalços à parte,
o tamboril da água em gotas sobre o telhado, 
os vidros embaçados da casa ou do carro, 
os passos apressados em meio à torrente que cai,
o recolhimento das pessoas, disso eu gosto.
Agrada-me a chuva. 
Tomara que chova três dias sem parar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Chuvinha boa, deixe meu neto olhar você
Emanoel Barreto

Chuvinha bonita e brincalhona molha as ruas e chãos de Natal. Uma chuva menina, que brinca de água e se espalha e molha as plantinhas pequenas e árvores grandes, árvores jovens ou árvores já avós, presença silenciosa a observar a passagem das horas e dos homens.

Chuvinha boa, fique mais um pouco, deixe meu neto olhar você, deixe eu olhar meu neto olhando você. Deixe eu inventar de ser menino e ele inventar que você está aprendendo a escrever o inverno de que o sertão gosta tanto gosta.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Tribuna tem mais fotos da chuva que atormentou a cidade

Tribuna do Norte (o jornal não creditou a foto)
Maria Luiza Machado Dantas - Tribuna do Norte  
   

Trecho da integração próximo à BR-101 está interditado FOTO: Emanuel Amaral
Alguns motoristas que tentaram passar pela água tiveram problemas nos carros FOTO: Emanuel Amaral
Chuva forma cratera na avenida Mór Gouveia FOTO: Isaac Lira

Uma noite de tormenta

 Deu na Tribuna:

Trecho da BR 101 desaba por causa da chuva


As chuvas que caem desde a madrugada desta segunda-feira (24) fizeram com que um trecho da BR 101, no bairro de Emaús, desabasse, deixando uma cratera enorme na via. A área, no sentido Parnamirim - Natal, já foi interditada pela Polícia Rodoviária Federal e os reparos já estão sendo providenciados.

Júnior SantosTrecho da BR 101 cedeu por causa da chuvaTrecho da BR 101 cedeu por causa da chuva
O problema fez com que duas faixas da pista fossem interditadas e, como os apenas uma faixa está disponível, o engarrafamento no local é grande. Para evitar transtornos, as autoridades recomendam que os motoristas escolham caminhos alternativos como os que passam por Macaíba e Nova Parnamirim.

Júnior SantosO problema fez com que duas faixas da BR 101 fossem interditadasO problema fez com que duas faixas da BR 101 fossem interditadas

De acordo com informações do Inspetor Roberto Cabral, a PRF tomou conhecimento do desabamento por volta das 2h de hoje. Segundo ele, a crateria teria sido resultado da erosão causada pelo rio Pitimbu, que passa logo abaixo do trecho danificado.

Neste momento, técnicos do Dnit e do Exército já estudam uma saída para recuperar a via.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A floresta, a chuva, os bichos todos. Mistério

E então caiu uma grande e boa chuva. Uma chuva forte e protetora como uma grande mãe elefante que acarinhasse em seus costados de animal de tamanho himalaico um tesouro desajeitado e que lhe fosse  poderosamente dependente: sua cria de tromba ainda sem controle. 

Aquela chuva aninhou suas águas frias e lisas no copado das árvores e desceu até os instantes mais secretos da terra, daí escorrendo barulhando até um rio corpulento cujas águas atravessavam as léguas da floresta de um ponto a outro. Floresta habitada por animais diversos, récua que vivia sua inocência bruta de bichos sem história e tempo.

Floresta que escondia no seu ponto mais azul, verde e central seres elementais, assombrações, duendes que não assombravam a ninguém porque jamais havia neles sido depositado olhar de homem, mulher, dono ou Rei; floresta que deveria ter permanecido floresta abraçada pelo laço protetor da chuva antediluviana. 

Floresta, floresta, floresta. 
Chuva, chuva, chuva,chuva.

Silêncio.  A vida se faz escondida aos olhos de ninguém.

domingo, 12 de dezembro de 2010

As nuvens que não querem virar chuva
Emanoel Barreto


dias um grupo de nuvens sisudas postou-se sobre Natal. A alguns podem parecer turronas, apreciadoras do devaneio que é  bem próprio das nuvens sisudas: derramar um aguaceiro, atrapalhar o dia a dia e, tragédia, acabar com um programado, radiante e cervejeiro fim de semana.

Elas têm surgido com seu mau-humor plúvio, anunciam chuva, mas, depois de algum tempo, às vezes pouquíssimo tempo, retiram-se e dão lugar a nuvens-meninas, nuvens que brincam no céu de carneirinho, transformam-se em caras enormes, rostos de duendes, montanhas, paisagens distantes e fictícias, fictícias mas muito belas.

Devo dizer que gosto das nuvens-meninas, mas não deixo de apreciar as nuvens-velhas, aquelas que sabem que é preciso chover. São nuvens-avós e precisam orientar as nuvens jovens quanto à sua carreira e missão: provocar a queda de milhões de gotas, todas ao mesmo tempo, todas vivas e saltitantes, minúsculos grãos de água em busca de molhar o mundo e todos os seus tolos mistérios.

Hoje, agora mesmo, enquanto dedilho essas letras, as nuvens-avós apareceram. Deixaram uma pequena marca de água pingada no chão e se foram. Paciência. Espero que, sábias, entendam que precisam chover. 

Imagem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://api.ning.com/files/CS3kmWwt-GuwIrKk9tx52LVGjGo5K2spZzvj5HHdC3l*Wt1SOuNpB7qjnfoIieO5W5NXRlUjCCBTD4m-VI8pUi*9KNpTotpF/nuvens.jpg&imgrefurl=http://sombrasbrancas.blogspot.com/2009/10/porque-nao-vejo-mais-as-figuras-nas.html&usg=__smDXpP8Ckkt3-7fysusbRcrCmgs=&h=308&w=410&sz=33&hl=pt-br&start=20&sig2=2cUcMPFE4PJcG1tgzgAewQ&zoom=1&tbnid=glLjRakJk1VaSM:&tbnh=116&tbnw=154&ei=pP8ETYa-KcWAlAeI47DICQ&prev=/images%3Fq%3Dnuvens%26um%3D1%26hl%3Dpt-br%26safe%3Doff%26client%3Dfirefox-a%26sa%3DN%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26biw%3D1024%26bih%3D407%26tbs%3Disch:10%2C768&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=434&oei=nP8ETYaFEIOglAfUqc3bCQ&esq=3&page=3&ndsp=10&ved=1t:429,r:6,s:20&tx=50&ty=19&biw=1024&bih=407

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Estou em Bogotá: muito frio e chove
Emanoel Barreto

Estou em Bogotá, bela e de povo atencioso. As montanhas cercam a cidade, encobertas por densas névoas. Faz muito frio e chove um pouco. Para mim, com meu olhar trópico-brasileiro, é estranho ver tantas pessoas encasacadas e isso mui elegantemente. A mim parece que estão todos fantasiados e prontos a participar de uma super-produção existencial. Como também não posso escapar ao frio também me fantasiei.

Estou sem tempo de atualizar Coisas de Jornal como queria. As atividades na Universidad Javeriana tomam todo o meu tempo. Assim, vou postando alguma coisa quando posso.

Amanhã apresentarei meu trabalho no Grupo de Trabalho "Estudios de Periodismo". É uma abordagem a respeito do olhar do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson e intitula-se "A fotografia como paixão em Cartier-Bresson.

Paixão no sentido de dedicação intensa a algo, disposição de cumprir com um propósito histórico: no jornalismo, revelar o mundo e todos os seus matizes de insanidade e de beleza.

Se ainda não leu, bem abaixo deste post há um resumo do meu trabalho.
Volto. Mais tarde ou amanhã.

domingo, 18 de julho de 2010

Três perdidos  numa noite suja
Emanoel Barreto

Uma noite, um início de noite. Chovia a cântaros. Eu saí, a pé, da Tribuna do Norte. Na Ribeira, onde fica o jornal - nessa época, lá pelo ano 1978 - o bairro ficava totalmente alagado em dia ou noite de chuva mais forte, chuva que mereça o nome de chuva, tempestade, borrasca.

Saindo do jornal meti o pé na inundação. A água, mesmo na calçada, já cobria os pés. À medida que avançava a água ficava mais profunda. Caminhei meio encurvado, olhando apenas para o próximo passo e seguir.

Mais adiante ficava - fica - a antiga estação rodoviária. Até lá, água muita. Quando me aproximava, ensopado, cansado de mais de dez horas de trabalho - em jornal se trabalha, amigo - da rodoviária, encontro cena que jamais se me apagou do registro da memória: um menino, de uns dez anos - feio magro, somente de calção, chorava em meio à chuva.

Tão pobre, tão feio, tão desamparado, ele gritava gritos de desespero: "Mamãe, mamãe. Mamãe, venha me buscar". Era uma cena chocante: em meio ao desastre de água que se derramava um ser humano indefeso e em crise berrava pela ovelha-mãe que - pensava, queria, pedia, o viria salvar.

Ele estava no meio dia rua, desesperado. As trevas, e a água que vinha dos céus, o atormentavam em bem próprio e unicamente seu, desespero. Fiquei, parei em meio ao caos, pensando em ajudá-lo.

Nisso, chega uma mulher, cambaleando. Ela estava bêbada. Brandiu maldições, exigiu desculpas a Deus e arrastou o menino pelo braço. Urrava algo que não entendi. Urrava, urrava. Em seguida, o puxou para uma ruela escura. Prossegui, like a rolling stone. Eu também precisava me salvar.

E aqueles dois miseráveis, pingos de gente infame e sem importância, se perderam para sempre do meu olhar.
Depois, caminhei... E a chuva me chicoteou. Até chegar em casa...

quarta-feira, 7 de julho de 2010


 O DIÁRIO DE BICALHO
Amável Diário,

Descobri hoje de manhã que sou um homem sem sombra. Minha sombra fugiu de mim, entende? Ao fazer a caminhada diária notei algo estranho: era a ausência da sombra. Como sei que fisicamente sou um corpo opaco e que todo corpo opaco submetido à luz produz aquilo a que chamamos de sombra, tomei-me de cuidados.

Um amigo já me havia falado nisso, garantindo que sua sombra havia fugido. Para ele, a explicação era que a tal sombra era preguiçosa e não gostava das ferozes caminhadas que ele faz todos os dias.

Considerei aquilo algo natural: afinal, as sombras, como qualquer ser vivente, têm o direito de se recusar a trabalhos forçados. Mas, no meu caso não. A minha sombra, e isso ela já havia demonstrado em seguidas discussões comigo, queria me assassinar. Para tanto, havia fugido a fim de preparar seus planos.

Convicto do perigo, acautelei-me. Olhando para todos os lados percebi movimentos escusos: era a sombra Amigo Diário. Movia-se com velocidade incrível. Saltava sobre árvores, carros, corria pela pista onde eu fazia a caminhada. Chegava até às nuvens, vertiginosa e cruel.

Então, após dar um salto de mais de dez metros de altura, precipitou-se sobre mim e parecia brandir agudo e pavoroso punhal.

Rápido como meu lúdico, quero dizer lúcido pensamento, atirei-me sob a copa de uma árvore e escapei ao atroz e belicoso golpe. A arma ficou cravada no tronco e, enquanto ela tentava recuperá-la, fugi.

Entrei no meu carro e acelerei em direção à minha casa. Inútil, a sombra corria ao lado e sorria. Enfrentando o trânsito, que apesar da hora já era intenso, cheguei. Chovia. Somente então percebi que, todo esse tempo, eu estava sob um temporal. Desde quando caminhava.

Mas, chegando à minha casa, divisei a figura macabra da minha sogra à porta. Parecia me esperar, a fim de, ali mesmo, me eliminar friamente. Tinha à mão um estranho objeto negro. Mais perto percebi que era um guarda-chuva. Sem dúvida se preparava para cravá-lo em meu coração. Dizem que sogras são exímias no uso de guarda-chuvas como armas.

No carro também havia um guarda-chuva. Empunhei-o e preparei-me para o combate mortal. Avancei em riste, prestes ao embate. Se morresse, teria fim glorioso, combatendo aquele sinistro dragão.

Ele me disse: "Meu filho, você nessa chuva toda...", querendo me enganar. Notei que preprarava-se para desfechar-me notável golpe no crânio e assumi posição de defesa. Minha mulher veio em socorro da virago e dizia também: "Querido, você, todo molhado, vai se resfriar..." e percebi que tinha nas mãos uma toalha, certamente para me enforcar.

Nisso, uma réstia de sol me iluminou e vi novamente a minha sombra. A chuva tinha cessado, o sol brilhava e ela tinha voltado. Entrei em casa desesperado, mas agora com a minha sombra que, em caso de urgência, poderia me ajudar no combate.

Ensopado, dei o primeiro espirro. Minha mulher chegou com um chazinho e me disse: "Beba isso, amor, vai melhorar."

Bebi, mas, por precaução, para não ser envenenado, cuspi tudo. Agora estou aqui, gripado. Minha mulher, ao meu lado, diz que está cuidando de mim. Acredito não. Quando eu dormir tenho certeza de que serei assassinado.

Deste seu amigo,
Bicalho