De como
os jornais não noticiaram a morte de Fidel Castro

Dei uma geral nos grandes jornais
do mundo; nem mesmo o New York Times disse nada. Não sei se por motivos ideológicos
ou limitações próprias do meio. Talvez as duas coisas. No Brasil, todos os
grandes jornais passaram batido.
O único jornal a abordar o fato
foi o chileno El Mercurio. Pelo menos que eu tenha visto na internet. Com grande destaque na primeira página a chamada ocupou todo
o espaço superior com texto e fotos de Fidel e seu irmão e sucessor Raúl Castro.
Este é um comentário, um registro para dizer o quanto o impresso necessita se reciclar e
lutar para manter-se como elemento essencial no processo informativo.
Para tanto não pode
falhar em momentos cruciais da história como falhou agora. É preciso haver o
esforço. Somente isso justifica sua presença.
O jornal impresso tem a condição
documental que a TV e as redes sociais não abrigam. Assim, entendo que se o
jornal não mais abarca os fatos perde-se a sua finalidade. O tempo midiático de
hoje é bem diverso de há cinquenta anos. Então havia a justificação tecnológica para o atraso numa notícia.
Hoje não. Com firmeza editorial o jornal pode sim acompanhar os fatos. e trazê-los a público.
Desta forma, urge a mobilização,
o esforço. O trabalho para inserir-se no instante de mídia hoje vivido.
Não se justifica um jornal deixar
pura e simplesmente de fazer um registro de tamanha importância. Rodar um
segundo clichê, mesmo que com reduzida tiragem, seria importante. Não só para o
jornal enquanto documento, mas, especialmente, para os leitores que o teriam
nessa conta: um testemunhal, um testamento informativo, um documento, um marco.
Mais que isso, um aliado atento e vigilante. Agregando-se a isso o poderio gráfico editorial, o tratamento que uma grande equipe de impresso pode dar a um fato de dimensões formidáveis.
Mas, ao que parece, o impresso
começa a desistir. Assim, ou dá início a alguma forma de jornalismo mais
analítico-interpretativo ou não se justificará do ponto de vista de velocidade
midiática a sua existência.
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Charles Tasnadi (AP) |
Fidel, o tempo e a luta
A morte de Fidel é parte do período
histórico que marca o esmaecimento do sonho cubano de uma sociedade socialista.
A figura icônica do líder era sua expressão máxima.
A respeito do falecimento disse seu irmão Raúl Castro, segundo a edição
online do El País: “Com profunda dor compareço aqui para informar ao nosso
povo, aos amigos da nossa América e do mundo que hoje, 25 de novembro de 2016,
às 10h29 da noite [1h29 de sábado, pelo horário de Brasília] faleceu o
comandante em chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz.”
Não se pode questionar o fato de
que Cuba vive uma ditadura que se iniciou sob os princípios marxistas clássicos de
ditadura do proletariado. E ditaduras não são boas. Mas julgo que também não se
pode negar que aquela pequena ilha teve bravura suficiente para enfrentar os
Estados Unidos, o grande inimigo que nas suas imediações ainda a ameaça sufocar
com um ominoso embargo econômico.
Sem esquecer o ódio antigo, remanescente àquele dia 1º de janeiro de 1959, quando Fidel arrasou com o domínio de Fulgêncio Batista. E esse ódio explodiu com o ataque
à Baía dos Porcos em 17 de abril de 1961 redundando num grotesco fracasso dos Estados
Unidos, que armou cubanos dissidentes do regime cubano para tentar derrotar a
ilha e fazê-la voltar ao seu controle.
Fidel liderou pessoalmente a resistência
e venceu: 176 agressores morreram, mais de 300 ficaram feridos e 50
resultaram incapacitados para toda a vida.
A presença do líder se avulta,
inegavelmente, como estátua colossal a se opor ao imperialismo americano. Como
todos os grandes estadistas reunia em si as controvérsias, paradoxos,
perplexidades, paixões e dilemas tão típicos da condição humana. E tudo isso
elevado a grande potência.
Será preciso a passagem do tempo
histórico, que é lento e profundo, para que se analise com vagar e acurácia a
figura que acaba de partir. Ao que tudo indica os EUA começarão a influir
novamente sobre os destinos de Cuba, e uma democracia ao estilo típico será
implantada paulatinamente.
Espero que daqui a cinquenta anos
não se venha a lamentar que apenas se trocou um tipo de sociedade autoritária por
outra, que sutilmente induz o cidadão a se achar somente consumidor e leva o trabalhador a acreditar, ingenuamente, que está num plano mais elevado e acolhedor: não é mais trabalhador – é “colaborador”,
é “associado” da loja em que trabalha.
E tem gente que acredita.