Nuvens e
café com leite
Emanoel Barreto
“Aprendi a delirar aos poucos, por intuição e gosto.”
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Quem me disse isso foi um amigo a quem o vulgo gosta de
chamar de louco. Não o chamam assim por considerá-lo louco na exatidão do termo.
Nada disso. Chamam-no louco por entendê-lo como, digamos assim, discrepante,
estranho, não-alinhado, incomum. Chamam-no de louco pela absoluta e rude
incapacidade de chegar até aonde ele chegou em gesto e poesia.
O meu amigo é pintor e gosta de escrever. Escreve com
pincéis quando lhe dá na telha e pinta com palavras quando assim o entende. É um
homem realizado espiritualmente. E isso lhe dá condições de ser como é.
Meu amigo é um senhor de grandes mestrias. É sensível, requintado,
ético. Bebe licores finos, sabe tocar oboé e cravo. Sua mulher tem o nome de
Charlotte. Disse-me ele que vive cada momento como uma pequena eternidade. Às
vezes gosta de meter-se no ambiente dos comuns para deles ouvir as conversas ásperas
e grosseiras. E, claro, concordar com tudo apenas acenando com a cabeça. Após,
tem ataques de riso que controla à força de tragos de legítimo bourbon.
Meu amigo é intenso e de alguma forma perigoso, pois
desafia o senso comum, a mediocridade, as coisas tidas como algo que deve ser
como é.
Acabou de informar-me que está na Tailândia. Charlote está
encantada – acentuou. Comprou um biplano. Legítimo exemplar de avião do tempo
da Primeira Guerra. Mais uma de suas extravagâncias. Pretende voar para algum
local distante. De lá, prometeu, irá a algum ponto alto. Alto, muito, muito
alto. Bem acima das nuvens...
“E depois?”, perguntei.
Depois, depois não sabe. Mas, parece-me, vai descer,
aterrissar num ponto remoto da África central e encontrar-se com uns sobas. Quer
entender com eles o sentido da vida.
Gostaria de ser como ele.
Somente para saber como é pegar um pedaço de nuvem, misturá-lo
com o ar frio das alturas e mastigar sem pressa aquele manjar inesperado. E saborear,
na imensidão do espaço, nuvem e café com leite...