sábado, 20 de dezembro de 2008



Era maconha? Tudo bem: é coisa de jovem...
Emanoel Barreto

É isso aí, bicho - Quando adolescente, Barack Obama usava drogas. Maconha e cocaína eram, vejamos, amigas suas. Ao que parece, nada de vício; o uso seria, digamos, recreativo. Nesta foto, feita por uma amiga sua, Lisa Jack, hoje psicóloga, ele porta o que aparentemente seria um cigarro de maconha.

As coisas de jornal que andei vendo pela internet contam que as fotos foram guardadas por ela desde então. Durante a campanha, Jack redobrou os cuidados para que as fotos não viessem a cair em mãos adversárias.

É aí que quero chegar. À concepção de notícia. Agora, as fotos são souvenirs, lembranças de uma juventude arrabatada, curiosa, quem sabe angustiada, às vezes, incerta, desafiante, transgressora. Somente isso. E por que as fotos são jrnalisticamente inofensivas?
Pelo fato simples de que Obama transformou-se em figura de mídia, é querido do mundo, é presidente eleito dos Estados Unidos. É carismático e representa no imaginário de milhões a possibilidade de ver no grande país do norte surgir algo que possa ser considerado como mais humanizado, menos bélico e explorador.
Se as fotos tivessem sido usadas durante a campanha, seria o contrário: ele seria apontado como alguém que fora desmascarado, flagrado num passado marginal, criminoso até. Obama, o farsante. E mais: se ele, mesmo presidente eleito, não tivesse uma imagem pública tão positiva, as fotos ainda fariam grande estrago seu capital político.
É fácil notar como os fatos, dependendo das circunstâncias, podem tomar esse ou aquele rumo. Nosso valores podem dar a um acontecimento uma visão boa ou má, dependendo de como forem conectados a outros acontecimentos. Bafejado pela fortuna, Obama pode olhar para essas fotos como lembrança de que apenas estava sendo jovem. Em caso contrário, ele as veria como um baú de lembranças a ser escondidas.
ZOORÓSCOPO
Golfinho - São boas as previsões para você, que é golfiniana ou golfiniano. Terá sempre bons amigos, dará e receberá abraços, apoio e, se preciso, amparo. São pessoas de personalidade fulgurante, sempre dispostas a participar. Gostam do sol, são arrojados, encorajadores. Em caso de dificuldade, conseguem lutar e vencer, encontrando sempre, mesmo em meio aos vendavais, a certeza de que podem transformá-los e uma grande onda para o mais belo surf. É bom gente assim, não é?
Uma saudade a mais

Amigo, poeta a jornalista, Walter Medeiros vez por outra me envia seus textos, belos, como o que se lê a seguir:

Uma saudade e mais

A jornalista e professora Nadja Lyra, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Santa Catarina, localizada no conjunto que tem este mesmo nome, convidou-me para proferir a Aula da Saudade dos alunos do 5º ano e sugeriu que falasse sobre “Saudade”. Que coisa! Passei uma semana refletindo sobre esse tema tão fascinante, a partir de experiências próprias e versos dos poetas e músicos que tanto mexem com o nosso coração.

De cara fui logo aos anos 50, quando aprendia a ler no Grupo Escolar Professor Demócrito Gracindo (homenagem ao pai de Paulo Gracindo) em Mata Grande, cidade do alto sertão de Alagoas aonde meu pai foi parar matando mosquito da dengue, após passar pela guerra sem matar nenhum alemão. Depois que aprendi a juntar as letras e sílabas, era belo entender o que estava escrito no pára-choque branco do caminhão de Nezinho, meu vizinho: “A saudade me fez voltar”. Ficava imaginando a saudade que le sentia a cada viagem que fazia com aquelas cargas altas de antigamente.

Em seguida, veio à mente uns versos que não poderia deixar de citar na aula: “Itabira é apenas uma fotografia na parede / mas como dói!”, escritos por Drummond no seu poema “Confidências de Itabirano”. E o significado da palavra – substantivo feminino abstrato - segundo Aurélio: “Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.”

Aí veio mais uma coisa interessante para aumentar a saudade, que tanto espaço ocupa nesse mundo: ela tem um dia para ser lembrada e comemorada. O Dia da Saudade – 30 de janeiro. Para lembrar que essa palavra não tem similar em nenhuma outra língua e que espanhóis, ingleses, franceses, alemães e outros tentam expressar o sentimento de falta com frases inteiras, tipo “ich vermisse dish” (alemães).

Aquela platéia me reconduzia mesmo era à minha sala de aula, onde Professora Josefina Canuto me ensinava e, depois, no Externato Saturnino – já em Natal, a professora Maria das Neves trazia novidades. Coincidentemente a professora de uma das turmas se chama Neves. Impossível não lembrar de Ataulfo Alves, exclamando: “Que saudade da professorinha / que me ensinou o be-a-bá!”.

Para falar de saudade não poderia deixar de citar o Fado – gênero que tanto me toca e que tocou até Roberto Carlos, ao cantar Coimbra: “Aprende-se a dizer saudade”. Fernando Pessoa, em texto saudoso: “Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: quem são aquelas pessoas? Diremos... Que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!” E é claro que citei Casimiro de Abreu , cujos poemas eu os tinha decorados, e que versificou sua saudade da infância: "Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!".
Agora estou, sem dúvida, com uma saudade a mais.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A festa de Ali Babá; a farra dos 40 ladrões
Emanoel Barreto

O Projeto Ali Babá - A Câmara dos Deputados barrou o projeto que aumenta o número de vereadores dos atuais 51.924 para 57.267 em todo o território nacional. A alegação é que isso implicaria em aumento de despesas para os municípios, o que é uma aterradora verdade para a pobre cidadania brasileira.

As coisas de jornal que andei lendo na Folha e Estadão indicam que, agora, senadores e deputados estudam como farão para abrir novas vagas nos legislativos municipais, sem que isso represente ônus para o contribuinte.

Sinceramente, minha matemática ou até mesmo aritmética é rudimentar, é do tempo do ábaco, imagine. Assim, não sei dar resposta a tal pergunta, questão de alta indagação: como atulhar as Câmaras Municipais, sem que isso resulte em despesa?
Na verdade, a pergunta seria outra. A pergunta é a seguinte: para que mais vereadores? Para quê? Precisamos tanto assim de novos cérebros privilegiados, pessoas da mais alta compostura moral e estatura intelectual para decidir os destinos dos nossos burgos? Que assuntos de tamanha complexidade estão postos, para que se chamem novos sábios, demiurgos, estrategos e adivinhos do bem-comum?

Não, não. Não precisamos de mais gente na rinha política. Precisamos, isso sim, de seriedade, ética, sentido histórico da missão política. O que está posto, pelos farristas do Senado e da Câmara, é o chamamento de mais gente para esbulhar os dinheiros públicos. Uma gentalha que vai pilhar verbas que deveriam ser empregadas para aquele homem, honrado e pobre, lá nos arrabaldades da vida, que tanto precisa de um posto de saúde funcionando, escola decente para os filhos, moradia digna...

Essa proposta, esse trambolho, é o tipo da coisa a que podemos chamar de Projeto Ali Babá. Quando for aprovado, virão os quarenta ladrões, em busca dos trinta dinheiros.
* Quando eu era criança, a Rádio Rural de Natal tinha aos domingos um programa infantil. Sempre, sempre, eles colocavam um disco que que se contava a história de Ali Babá. Os quarenta ladrões cantavam bem assim: "Nós somos ao todo quarenta/Quarenta famosos ladrões/Roubar o ouro não compensa/Nós só queremos milhões."

ZOORÓSCOPO

VERME - É o zoosigno de todos os deputados e senadores que vão aprovar o Projeto Ali Babá. Todos os nascidos sob tal casa astral nasceram sem escrúpulos, não temem enterrar as mãos nos mais sórdidos esgotos da podridão moral e, o que é pior, serão sempre bafejados pela fortuna. Ditarão as leis e serão sagrados aos mais altos postos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

"Quem é aquele rapaz? Será um africano?" *
Emanoel Barreto

Lembranças - Sertão central do Rio Grande do Norte. 1961. Encantado com a paisagem eriçada e rude, eu seguia montado no passo tardo de um cavalo manso, escolhido com cuidado pelo velho Patrocínio, tio da Minha Mãe. Ele não queria que o sobrinho praciano sofresse os percalços de montar um cavalo de vaqueiro. Chamou-me e disse: "Pode montar sem medo. Esse é Soberano. Vai para onde você mandar."

E lá fui eu, percorrendo os caminhinhos, sendas abertas a facão no meio da caatinga. Coisa de quatro da tarde. O vento era só pra dizer que tinha. O vento do sertão anda abraçado com o calor, para quem não sabe. Eu me sentia um verdadeiro caubói. Durango Kid. E imaginava, em meio aos galhos secos, espinhos e cro'as de frade, cardeiros e macambiras, existirem bandidos à espreita, prontos para ser acertados pelos meus tiros de infância.

Soberano andou, andou e, lá adiante, vi uma figura que vinha em minha direção. Era um velho. Negro, alto, o cabelo branquinho, a barba também. Lembrava a visão clássica do Pai Tomás. Puxei as rédeas de Soberano, quando o homem fez sinal como a mão. Queria que eu parasse. Aproximou-se e perguntou: "O minino é arguma coisa de Seu Patrocínio?" Respondi que sim. Ele disse: "Vim aqui pra falá cum ele, um negoço de umas vaca qui quero vendê."

Eu apontei, lá na poeira da distância, o rumo da casa-grande. E ele: "Então, vô pra lá."

E eu: "Vamo, que eu vou com o senhor." E saímos. Soberano mais parecia uma muralha, perto do cavalinho dele. No caminho, contou-me coisas de suas viagens, do tempo em que vivia longe daquelas terras.

Contou, como quem conta uma epopéia, um épico, uma canção de gesta. Os olhos da minha emoção estavam arregalados, pasmos com a vida daquele sertanejo. Por um momento, quase vi a meu lado Amadis de Gaula ou o próprio Aquiles, quem sabe Orlando Furioso. Aquele homem era feito de todas as lendas que povoavam meu imaginário infantil.

E ao final, já chegando à casa de Tio Patrocínio, ele revelou: "Minino, um dia ainda vô m'embora. Vou viajá, andá pelo mundo de novo. E aí, quando eu vortá, acho qui as pessoa vai perguntá: 'Quem é esse rapaz? Será um africano?'"

Aquela conversa, aquela figura, hoje fazem parte de lembranças que ficam guardadas em meio a memórias antigas, escondidas todas em alguma caverna de Polifemo, território traçado no mapa mais meu.

E hoje, às vezes me pergunto: "E se um dia eu viajar? Também quero viajar. Vou viajar. E espero que quando eu voltar as pessoas perguntem: quem será aquele rapaz? Será um africano?
*O homem da foto é incrivelmente parecido com o personagem desta crônica.

ZOORÓSCOPO

HIENA - Boas previsões para você, hiniana ou hieniano, pelo menos na fortuna. Ganhará rios de dinheiro, não será punido e poderá, sempre, se apresentar como pessoa respeitável. No amor, entretanto, as coisas não irão tão bem. Pelo seu caráter truculento e egoísta, somente poderá fazer par com os de Barata ou Tubarão. Mas, aí, ambos sairão perdendo, pois um tentará engolir o outro. No mais, vá em frente, que a estrada é larga e o caminho é bom.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O chope, o champanhe e o que virá
Emanoel Barreto

É isso, é isso aí - Vida velha, tempo besta. Natal, alegria cronometrada no tempo do ano, é festa sazonal. Obrigatório ser feliz. Depois réveillon, para lavar com champanhe as tristezas passadas e estimular na imaginação que o Bem virá no próximo ano, montado no cavalo branco da esperança.

Esperança, não. Expectativa. O que há em nós, em todos nós, é expectativa; seja aquela incerteza quanto àquilo que virá a nos assediar, ou vontade de que o ano tenha momentos de cristal. Dúvida. O ritual de finalização do ano é um grande ato coletivo em torno de uma pergunta: o que virá?

Sei que esta crônica nasceu antes do tempo. Deveria ter sido escrita dia 31. Mas é que hoje ouvi, num shopping, uma conversa entre dois senhores. Elegantes, mais de sessenta anos, bebiam chope. Um deles virou-se para o outro e disse, colocando a mão em seu ombro: "Amigo, esse negócio de festa de final de ano é sempre a mesma coisa. A gente se alegra de véspera. Depois, é rezar, para ver se a alegria se lembra de ficar."

ZOORÓSCOPO

Zebra - Zoosigno típico dos indecisos, dos tímidos, dos que não sabem escolher qual o caminho. Mas também é encontrado entre os falsos, disfarçados, hipócritas e vendilhões da honestidade. Como são indefinidos, podem meter-se em qualquer ambiente e tirar partido, querendo levar vantagem em tudo. As previsões para 2009 são as piores possíveis: se os tímidos não tomarem um rumo, se os espertinhos não se emendarem, podem dar de cara com alguém de Coruja. Aos primeiros, punirá com sua exclusão da vida competitiva, pois não têm coragem de lutar; aos segundos, dará a punição que suas patifarias exigem. É o que afirmam os grandes áugures da zooroscopia.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


O velho Marx ainda tem razão
Emanoel Barreto

Grita a Crise, louca, venenosa.
Grita e diz não saber porque
seu dinheiro se foi e a conta é alta.

Grita e se diz vítima fatal, injustiçada,
de todos a quem, tanto, já prejudicou.
O Mercado, pai amado e louco,
bebeu demais, gastou, se embriagou.

E agora, ao berros, desesperado,
pede à filha amparo, um abraço, um teto.
Sabe que errou, jogou, irresponsável...

Sabe que não sabe tudo.
E que, no fundo, bem no fundo,
o velho Marx ainda tem razão.

ZOORÓSCOPO

Garça - Eis que encontramos o zoosigno dos calmos, serenos, bem resolvidos. Sua placidez muitas vezes é confundida com desconcentração ou até mesmo fraqueza. Ledo, grande engano.
Os de Garça sabem, sempre, o momento exato de levantar o vôo. E os laços e teias ficam para trás, embaixo e esquecidos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

É dinheiro do povo? Então, mete bala!
Emanoel Barreto

Dá para acreditar? - O UOL, do Grupo Folha, diz: O Ministério da Defesa prevê investir R$ 1,27 bilhão na realização de uma olimpíada militar. Os chamados Jogos Mundiais Militares, que ocorrem a cada quatro anos, terão a quinta edição em 2011, no Rio de Janeiro. As provas serão realizadas nos estádios e ginásios do Pan-2007, como o parque aquático, o velódromo, o centro de tiro e o Maracanãzinho. Essa economia de infra-estrutura, no entanto, não evitará que o orçamento projetado pelo governo alcance a cifra bilionária.O evento, que o Brasil sedia pela primeira vez, custará mais que a conclusão do programa nuclear da Marinha (R$ 1,04 bilhão), considerado estratégico para colocar o país no seleto grupo dos que dominam o ciclo do combustível nuclear. Ainda para efeito de comparação, o valor da olimpíada da caserna é três vezes o que o Brasil já pôs na missão de paz no Haiti em quatro anos (R$ 431 milhões) e um quarto do pacote de reaparelhamento da Força Aérea, o FX2, estimado em R$ 4,5 bi.

Vamos gastar, vamos gastar
No mínimo lamentável a iniciativa do Governo. Ou muito me engano, ou há gente no país precisando de mais escolas, hospitais, polícia e as próprias Forças Armadas mais bem remuneradas e preparadas, universidades federais com mais verbas, e por aí vai. Um acontecimento bilionário como esse é, no mínimo, um tiro no pé. E tiro de canhão.

ZOORÓSCOPO

MOSQUITO - Incômodos, renitentes, ferinos, os mosquitianos sentem-se muito felizes em fazer a pequena pirraça do dia-a-dia, o inferno medíocre da difamação menor, o prejudicar alguém até mesmo tomando-lhe o lugar na fila. Previsões: como trabalham sempre na arraia-miúda, serão sempre facilmente destrutíveis por alguém com mais força e valor moral. E depois de desmoralizados, serão permanentemente excluídos e vistos como lamentáveis.