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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Frei Damião falava ao povo e a multidão pedia o comunismo

 Por Emanoel Barreto

 Creio que foi no ano da graça de 1980 que tive a oportunidade de entrevistar a venerável figura de Frei Damião, o santo do sertão, amado do povo, protegido de Deus e de Nossa Senhora, vindo da distante cidade de Bozzano, Itália, para cuidar do rebanho de sertanejos, preservar a fé e encaminhar as almas todas para o Céu.

Fui à cidade de Ceará Mirim, pouco mais de 40 minutos de Natal, onde ele se encontrava. Encontrei-o na igreja matriz. Abençoado templo povoado por imagens de santos e de anjos, querubins e serafins. A pequena e cândida figura atendia em confissão a enorme fila de mulheres cobertas por véus e envoltas em doce auréola de rezadeiras, como só as existem no Nordeste. Mulheres suadas de fé.

E eu fiquei olhando para elas. Atentei para suas bocas que fervilhavam baixinho rezas velhas, mistérios sussurrados em uma língua estranha que jamais consegui apreender desde quando, ainda menino, olhava minhas tias fervorosas diante de uma vela e de uma imagem de Nossa Senhora. Deviam ser coisas muito altas, evoladas da inefável religião dos bons, áugúrios de uma vida melhor depois da morte, quem sabe o repouso calmo no regaço da Virgem.

Preste atenção na boca de uma velha rezadeira: é ali que mora a alma, tenho certeza. A minha mente de repórter, todavia, estava preocupada com algo mais urgente e menos devoto: o tempo. Eu tinha hora para voltar à Tribuna do Norte e fazer o meu texto.

Com alguma insistência junto a um auxiliar do beato consegui parar a confissão e ele me atendeu. Confesso, sem trocadilho algum, que nem mesmo sei o que perguntei. Mas, o que mais valia era relatar o encontro dulcíssimo do pastor com o seu rebanho, captar o ambiente angélico, a doçura do olhar do Frei, seus conselhos e penitências passadas àquelas pessoas sacras e pias.

Saí, confesso novamente, com a alma cheia de alguma candura - certamente meu coração de repórter, feio e mau, tocado pelos instantes miríficos. Assim, de volta à redação, encontro com outra figura humana portentosa: Dorian Jorge Freire, diretor de Redação. Católico, minúsculo de tamanho, mas enorme em sabedoria e humanismo.

Terminado o meu texto, Dorian, que também tinha grande espírito de humor, contou-me o seguinte: 

Certa vez, Barreto, Frei Damião estava com suas missões pelos sertões distantes. Fazia sua costumeira pregação contra o pecado, a devassidão e o adultério. Defendia o sacramento do matrimônio e dizia que, sem ser casado, o casal era "como o cachorro e a cachorra, o touro e a vaca." . Advertia também a todos contra o perigo do comunismo vermelho e ateu.

E dizia: "O comunismo é pecado grande, pecado mortal. O comunismo é a besta-fera que vem para desafiar o Evangelho. O comunismo é o perigo até mesmo para as mocinhas." O povo olhava e ouvia tudo, pasmo, temeroso, pronto para fugir, caso o comunismo chegasse a qualquer instante.

  Parecia até que o comunismo estava por ali, pronto para desferir seu bote. Afinal, Frei Damião fez sua última invectica contra o comunismo periculoso e bradou ao povo sertanejo, como se fora um novo Conselheiro: "E então, quereis o comunismo?, e o contrito povo, procissão desvelada e crente, respondeu piedosamente, em coro monumental "Quereis!"

 

 

segunda-feira, 6 de março de 2023

 Cascudo delirava e dizia: “Você é um dos engenheiros mais jovens?”

Por Emanoel Barreto

Quando a Tribuna do Norte passou a offset, a 13 de outubro de 1979, a direção do Segundo Caderno ficou comigo, chefiando uma equipe que tinha entre seus talentos o colunista Franklin Jorge e uma jovem aluna de jornalismo, Christiana Coeli, filha da poeta e jornalista Miriam Coeli e do jornalista Celso da Silveira. Quer dizer, a menina tinha a quem puxar. Porém, se faltava experiência, sobravam empenho e vontade de fazer jornal.

O caderno era dedicado a cultura e serviço, e funcionava como uma redação à parte: tinha repórteres, fotógrafo e um bamba na ilustração, o cartunista Aucides, que também diagramava. Contava ainda com a presença de um articulista especializado em música popular brasileira, de nome pomposo e grandiloquente: Odosvaldo Portugal Neiva. Tinha vindo não sei de onde e fora contratado pelo jornal. Produzia enxurradas de textos que chegavam a ocupar quase uma página.

Pois bem, certo dia Christiana foi pautada para fazer uma entrevista com o mestre Luís da Câmara Cascudo sobre algum tema de cultura popular. Pois bem: ela saiu e voltou. Como uma flecha.

Fiquei surpreso com a rapidez, mas ela me explicou por que a matéria não havia dado certo: “Barreto, não deu para entrevistar o professor porque ele estava com uma dor de cabeça fortíssima, estava tonto e mal se aguentava em pé.”

Foi o suficiente para disparar em mim o alerta vermelho. Eu respondi: “Christiana, uma dor de cabeça desse tipo, em mim, preocupa a minha família e talvez algumas pessoas amigas. Só isso. Mas uma dor de cabeça dessas em Cascudo, com ele não podendo nem ao menos ficar de pé, preocupa o Estado inteiro ou quase isso."
 
Ato contínuo, segui com um fotógrafo para o estacionamento do jornal em busca de um carro. Não havia carro. Chamei uns táxis, ninguém parou. Então, saí correndo da Tribuna até a casa do professor; o fotógrafo, esbaforido, correndo atrás. Quem conhece Natal sabe que a casa onde morava Cascudo fica razoavelmente próxima à Tribuna do Norte, na Ribeira. Mas, ir até lá, correndo, já são outros quinhentos.

Bom, mas cheguei à casa do mestre. Fui atendido por Dona Dahlia, sua mulher, que me disse: “Barreto, venha cá, depressa. Me ajude a cuidar de Cascudo, que ele não está bem."

Mandei que o fotógrafo esperasse fora da casa e fui com ela ao quarto onde o professor estava. Fiz isso a fim de respeitar sua privacidade. Eu não queria um drama sensacional. Somente chamaria o fotógrafo caso o bom senso assim o indicasse, e sob permissão de Dona Dahlia.

Quando entrei no quarto onde ele estava vi a seguinte cena: Cascudo estava de pijama, deitado numa cama imensa, os olhos semicerrados; delirava. Dona Dahlia estava quase em pânico. Parecia não haver mais ninguém em casa. Ela lamentava o calor. Temia que isso fosse deixá-lo ainda pior. Disse-me: “Segure a cabeça dele enquanto dou os comprimidos.” Levantei a cabeça do professor e esperei que ela trouxesse os medicamentos.

Ele não me reconheceu e disse: “Quem é você? Você é um dos mais jovens, não é? É um dos engenheiros?”

A pergunta deu-me a dimensão exata da situação. Senti que tinha de agir com muita prudência pois ali, mesmo sendo um jornalista era também uma pessoa que estava ajudando a prestar socorro a ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. Sintetizando: era preciso um respeito sagrado.

Mas, respondendo à pergunta dele, eu disse: “Sim professor, eu sou um dos mais jovens. Sou um dos engenheiros. Vim aqui para ajudar.”

Ele continuou a dizer, agora baixinho, coisas que eu não compreendia. Observei os esforços dedicados de Dona Dahlia nos cuidados com o marido. Ela trouxe enormes, redondos e vermelhos comprimidos que ele engolia um a um, deitado. Creio que o total foi de quatro comprimidos. A água era servida por ela num copo grande.

Ele tomou a medicação, fez mais alguns comentários sem sentido e reclinou a cabeça, dormindo em seguida. Ao mesmo tempo em que ajudava no atendimento eu anotava mentalmente os nomes dos comprimidos, observando os rótulos das caixas onde estavam os frascos. Como fiz uma espécie de jornalismo participante, ou seja, integrei a cena do começo ao fim, tinha plenas condições de relatar o fato.

Dona Dahlia me agradeceu, eu dei uma última olhada no mestre e saí do quarto. Perguntei a ela pelo menos três vezes se poderia publicar a matéria e ela disse que sim. Voltei ao jornal sem uma foto e sem qualquer anotação, mas com a notícia toda na cabeça. 

O assunto era sério e devia ser tratado com grande contenção no texto. Fiz uma matéria seca, direta, de forma a não passar ao leitor a impressão de que Cascudo estava à beira da morte e entreguei o texto à editoria de Geral, pois, como era uma notícia do cotidiano, não era tema do Segundo Caderno. 

 
Horas depois, todavia, a família de Cascudo recuava e chegava à direção do jornal um pedido para nada fosse publicado; disso fui informado. O texto foi sobrestado e perdeu-se o registro a quente daquele momento intenso. Detalhe: o texto tinha apenas meia lauda. Não alardeava nenhuma doença terrível, não apregoava nenhum infortúnio, nem mencionava os detalhes que conto agora...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Como a ditadura vigiava a Cooperativa dos Jornalistas de Natal

Por Emanoel Barreto

A Fundação da Coojornat, Cooperativa dos Jornalistas de Natal-Coojornat, aconteceu dia 1º de outubro de 1977. Para os jovens que a haviam criado - com o incentivo do cartunista Henfil, então morando em Natal -, era uma conquista. Uma fresta na luta contra a ditadura. Dermi Azevedo era o presidente, Arlindo de Melo Freire vice, e eu secretário – Dermi e Arlindo hoje são saudade.

Dias depois da fundação, uma desagradável surpresa: uma desagradável surpresa pelo menos para mim. Veja só: nós havíamos alugado uma casa na Rua São Tomé, Cidade Alta, em frente ao Senac. Ali seria a sede da Coojornat. Num sábado, poucas semanas após a autorização para funcionamento, fazíamos uma espécie de inauguração festiva, um congraçamento. Cheguei por lá mais ou menos às três da tarde; da rua ouvi música. Som muito alto. Estranhei, porque não tínhamos contratado qualquer serviço de som, muito menos com aquela potência toda.

Parei o carro a uns 20 metros da Cooperativa, pensando: "Quem diabo contratou esse som?", e continuei andando. Quando cheguei em frente ao Senac, descobri: a música vinha de lá mesmo, do Senac, que promovia alguma festividade. Superada a pequena dúvida entrei na sede da Coojornat e fiquei por lá, conversando com um e com outro. Nisso, entram dois sujeitos que se dirigiram a mim e se "identificaram": um era "jornalista", o outro "bancário".

Estranhei a visita por um motivo simples: o que um bancário teria de interesse numa cooperativa de jornalistas?  E o "bancário" era o que mais perguntava. Expliquei que eu era o secretário da Cooperativa e falei do projeto como um todo. Então, o que se dizia jornalista quis saber se eu tinha o estatuto da Coojornat. Respondi que sim, mas o documento estava em minha casa. Rápido, ele perguntou: "Posso passar lá, para ver os estatutos?", eu respondi que sim, dei o endereço e marquei para que ele fosse à noite me procurar.

Os tipos agradeceram e foram embora. Minutos depois chega Dermi Azevedo e eu lhe  conto o caso, já sentindo que boa coisa aquela visita não fora . Dermi disse: "Barreto, você ficou doido? Isso é o SNI, Barreto."
Respondi: "Dermi, eu sei, rapaz. Mas, quem não deve não teme. Os caras vão lá em casa lá pelas sete da noite.Vamos ver no que vai dar."

E Dermi: "Então, tome cuidado". E cuidado foi o que não deixei de tomar. Avisei a um cunhado que morava vizinho e mim.  À minha mulher, grávida de nossa segunda filha alertei que iríamos receber um mau elemento. Feito isso, começou a espera. Meu cunhado ficou na sala da casa dele aguardando para intervir se fosse preciso, enquanto minha mulher estava trancada num quarto.

Devo dizer: não sei se a pouca idade - eu tinha 26 anos - ou a convicção de que nada fazíamos de errado, mas o fato é que a palavra medo sequer me passou pela cabeça. Havia, claro, a certeza de que alguém muito mal-intencionado viria, mas o enfrentamento não me causou qualquer abalo. Estava precavido, intimidado não. 

Pouco depois das sete o sujeito chegou. Subiu os degraus da entrada da minha casa e eu o recebi. "Boa noite, boa noite. Vamos sentar", foi o diálogo inicial. O elemento sentou-se a meu lado e aí começou um ridículo interrogatório travestido de conversa. O treinamento do agente, um reles espião de baixíssima categoria, era básico. Limitava-se fazer perguntas que tentavam induzir-me a dar respostas de contestação à ditadura, como se fosse ele um jornalista insatisfeito com o regime, em confidência com um colega.

Exemplo: "A Cooperativa trabalha para quem?
Resposta: "Somos uma entidade, uma cooperativa de mão-de-obra intelectual. Prestaremos serviços de assessoria de imprensa e teremos um jornal próprio."
"Vão trabalhar também para o governo?"

Ao que eu disse: "Se formos contratados, por exemplo, por uma Secretaria de Estado para fazer assessoria de imprensa, consultoria ou um jornal, sim."
E ele: "Mas, aí, vocês vão perder a independência."

Eu disse: "A finalidade da cooperativa não se resume ao jornal próprio. Queremos ampliar o espaço de trabalho da categoria, entende? E saiba que isso não vai interferir em nossa independência."

E a conversa seguiu nesse tom. Eu sabia que tinha de dar respostas exatamente opostas ao que ele esperava de mim. Ou seja: se concordasse com tudo o que ele dissesse contra o governo daria ao agente munição para fazer relatório dizendo que a Coojornat era mesmo uma célula comunista perigosíssima. E nesse conto de vigário eu não iria cair. Então, dava respostas as mais cândidas possíveis. 

Percebendo que a tática investigativa tosca não estava dando certo - a abordagem pura e simples da atuação da Cooperativa -, ele partiu para o ataque direto: começou a falar mal do ditador Ernesto Geisel. Para o investigador, era a última cartada. O agora ou nunca. Fechei-me em retranca e em nenhum momento concordei com o que ele dizia. Afinal o homem desfechou um golpe fendente: "Esse presidente é um safado."

Não sei de onde tirei um argumento inesperado, mas sei que que desarmou o sujeito: "Acho que não. Pelo que soube, ele já foi secretário da Segurança no Rio Grande do Norte - e disse lá um ano qualquer - e, nessa época, um rapaz foi preso sob acusação de ser comunista. Depois, descobriram que o cara não era comunista coisa nenhuma e ele, Geisel, foi pessoalmente libertar o prisioneiro." 

Mesmo assim o investigador não se deu por vencido: Disse: "É, mas tem uns assessores escrotos..." O "assessor escroto", para o agente, era o ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki que já admitira a possibiolidade, mesmo que longínque de privatizar a Petrobras. O investigador disse isso com todas da letras: "Ele quer entregar a Petrobras." Aí eu comecei a ficar irritado com o nível sórdido da investigação e fui claro com o tipo: "Colega, você tem aí algum documento que prove que você é jornalista? Como você sabe em nossa profissão tem muito picareta, e dessa gente não gosto."

Ele respondeu: "Claro". E escandiu a palavra: "Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaro!" E então, na sequência da resposta, cometeu o erro que o desmascarou por completo. Disse: "É bom você me pedir o documento, amigo. Em nossa profissão tem muita infiltração. Nunca se sabe, né?"

Explicando: picareta, em jornalismo, é aquele cara que vive de expedientes, ganha propinas,  faz louvações, essas coisas. Infiltração, algo bem diferente. Infiltrado dizia-se de pessoa de esquerda que atuava em qualquer ambiente visando difundir a ideologia socialista, os famosos agitadores

Em seguida ele, pelo excesso de documentos que me apresentou, provou o que não era. Puxou do bolso uns dez documentos que o diziam jornalista: desde uma fajuta carteira de sindicato até uma autorização para cobrir visita presidencial à Paraíba, estado de onde se dizia originário. Mostrou também carteira de radialista, noticiarista de não-sei-de-onde, repórter de jornal-fulano-de-tal; isso, aquilo, aquilo outro. 

Pronto: para mim, estava desmontada a farsa. Mas ele insistia: "Você me disse que tem os estatutos da cooperativa, não foi?

Eu disse: "Foi." E completei: "Por sinal, é idêntico ao da Coojornal, do Rio Grande do Sul, com pequeníssimas modificações, relativas à realidade local."
Qual não foi minha surpresa quando ele disse: "Ah, mas se é assim, não quero." Respondi: "O quê? Não quer?", perguntei, já começando a me exaltar. "Não quer, por quê?"

Ele respondeu: "Porque os estatutos da Coojornal nós - veja bem - nós já temos..."
Eu disse: "Mas eu insisto."

Saí um instante da sala, e voltei com um calhamaço na mão. Mantive-me de pé, deixando claro que ele tinha de sair de minha casa. "Pronto", eu disse. E continuei: "Está tudo aqui. O amigo veio buscar, o amigo vai levar."

E quase atirei a papelada em cima dele. Acho que, naquele instante, o agente viu que tinha perdido o seu tempo: não iria levar nenhum relatório espetacular a seus maiores, nem  jactar-se de haver descoberto um terrível complô comunista em Natal. 

Entreguei os papéis e mantive-me de pé; grosseiramente de pé. O sujeito, sentado e perplexo. Afinal levantou-se, pôs o documento debaixo do braço e pediu desculpas pelo tempo que me havia 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A visita de um molusco, na verdade um deputado



Uma estranha realidade

Cansado de notar que o que chamamos de realidade reserva-nos unicamente a sazonal repetição de fatos como eleições, quando os discursos anunciam que o Paraíso está próximo, narro aqui a visita que ontem recebi do Sr. Ornitorrinco, notável e sábia criatura que teve a generosidade de chegar-se a minha oficina tipográfica. 
Segundo me disse, estou sob séria ameaça de ser preso devido a atividades de subversão e atos conspiratórios. Estranhei, pois não sou dado a conluios ou conchavos de qualquer natureza nem atento contra a lei ou contra a ordem.
Mas, para não cansar meu ocasional leitor digo que após horas de edificante e elucidativa conversa aquele bom homem retirou-se, não sem antes advertir-me novamente de que poderia ser preso a qualquer momento. 
Após sua saída voltei a trabalhar com meus tipos, compondo este coranto, quando ouço poderosas, raivosas batidas à porta.
Corri a atender àquela confusão e eis que entram uns dez escaravelhos, todos homens de má catadura e péssimos modos, que em poucos minutos me manietaram e me puseram a ferros, levando-me em seguida a uma masmorra. 
Naquele miserável ambiente estavam recolhidos outros homens, todos acusados de sedição e ódio, motim e outras desobediências.
Nenhum de nós entendeu nada daquelas acusações, a não ser quando a figura alta de um magistrado nos apareceu. Era ele um macaco-prego e se dizia de ascendência alemã, coisa muito comum a tais símios. Explicou que todos estávamos ali - sendo aquele tempo o ano de 1795 -, sob suspeição de haver inventado o computador e o telefone, a energia elétrica e outras cousas malsinadas como o automóvel e a bomba atômica.
Todos os que estavam ali recolhidos dissemos que se travava da mais pura inverdade, uma vez que tais e perigosas maravilhas somente seriam criadas muitos anos depois, conforme explicamos. Então, para minha surpresa, eis que chega o Sr. Ornitorrinco.
Tão logo adentrou àquele lúgubre ambiente apresentou-se como espião e mostrou fotografias da minha oficina, fotografias tomadas à sorrelfa, onde eu era visto preparando uma bomba atômica. E todos os demais infelizes também eram vistos em seu ambiente de trabalho criando engenhos danosos e coisas terrificantes; as fotos eram a prova maior. 
Sob o choque das fotografias ficamos perplexos uma vez que aquelas imagens eram inverídicas; sendo, claro, fruto de algum truque que desconhecíamos uma vez que sequer sabíamos da existência da arte fotográfica, que sequer fora inventada.
Em desespero pedimos para confabular, o que nos foi permitido, surgindo assim a nossa defesa: 1) nada daquilo existia; portanto, não poderíamos ser autores de tais e perigosos portentos; 2) sendo assim, deveríamos ser soltos imediatamente. 
O Sr. Ornitorrinco e o macaco-prego, homens tinhosos, rebateram. Comprovando o que diziam abriram as portas da masmorra e nos atiraram em meio ao mundo.
E o que vimos foi o que o leitor também vê: o descalabro, a loucura das ruas, o computador onde você lê este coranto. Atônitos, recuamos, voltando à masmorra. E agora, o que fazer? Não criamos nada disso mas tudo o que não criamos está aqui. Até que ponto essa irrealidade vai nos assediar?
 Sem resposta, atiramo-nos masmorra adentro. Após muito correr chegamos a uma porta. Saímos. O futuro e todo o seu horror haviam ficado para trás.
Voltei à minha tipografia a fim de terminar este texto. Mas, para meu desespero, eis que está à minha porta um novo e estranho personagem: eis que um grande, gigantesco molusco se apresenta, diz que é deputado e temo que traga algo terrível em suas palavras.



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Homenagem a Arlindo de Melo Freire

“Agora és filho de Natal”

--- Walter Medeiros* 
 
Um homem capaz de acompanhar, sem beber, um amigo que bebe de bar em bar, e depois, pacientemente, deixá-lo em casa; que se compara a um grão de areia, para tentar mostrar que não seria tão importante; mas capaz de lutar lutas difíceis e perigosas, na busca de ideais libertários; e de construir uma obra social do tamanho de um sindicato de trabalhadores ou de uma cooperativa aglutinadora de homens e mulheres batalhadores. Assim é Arlindo Freire, jornalista, sociólogo e historiador.
Foto: Elias Medeiros

Aos 77 anos, o nono filho de Antônio Freire e Francisca Freire, nascido em Pendências quando ainda era distrito de Macau, mais precisamente na localidade de Bamburral, recebeu nesta terça-feira – 29.05.2012 – o honroso e merecido título de Cidadão Natalense. Por iniciativa do vereador e Presidente da Câmara Municipal de Natal - CMN, o também jornalista Edivan Martins, subscrito ainda pelo vereador George Câmara.

A sessão foi um belo momento, histórico e memorável para a CMN, por muitos motivos, a partir da presença de amigos e familiares que prestigiaram o homenageado. Some-se a isto o discurso primoroso e competente do vereador Edivan Martins, que contou de forma emocionante a vida de Arlindo, destacando que ele “herdou dos pais os valores da decência”. Lembrando lema da Juventude Operária Católica – JOC segundo o qual “Se tiverdes fé irás à conquista do mundo”, Edivan anunciou solenemente: “Agora és filho de Natal”, observando que no dia em que não puder ir ao seu berço natural tocar nas folhas da carnaubeira, terá bem perto flores nativas de Natal, a Xanana.

O exemplo de filho que Arlindo transmitia para seus familiares era aquele jornalista que durante cerca de 50 anos todo final de tarde passava na casa dos seus pais, para deixar um exemplar do jornal em que trabalhava - “O Estado de S. Paulo”. Foi fundador da Associação dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte, transformada em Sindicato em julho de 1979.

Na sua visível humildade, Arlindo de Melo Freire afirma que nunca pensou que o presidente da Câmara Municipal fosse se preocupar com alguém como ele, que não se considerava tão merecedor. Mas contou em seguida momentos e fatos importantes da sua trajetória, falando inclusive sobre o tempo em que teve negado até o direito de falar. Lembrou inclusive do seu irmão, Aldo de Melo Freire, que foi perseguido pela repressão e findou se exilando na França, aonde veio a morrer.

Seu discurso sintetizou a vida no tempo em que os jornalistas do Rio Grande do Norte trabalhavam para fundar sua entidade de classe: “anos de insegurança, agonia, medo e pavor”. Em seguida mostrou sua verve visionária, para propor algo que está no ar, mas que talvez imperceptível, apesar dos dois mil cata-ventos monumentais que resultarão do processamento da energia eólica: a construção de algum monumento aos ventos junto às dunas, para mostrar ao mundo mais essa particularidade de Natal, uma espécie de Terra dos Ventos.
*Jornalista


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Jornalismo de excelência ou jornal não é guardião da honra de ninguém

O caso dos precatórios no Tribunal de Justiça, exposto a plena carga pela imprensa, reconfirma o papel do jornal como instituição essencial à democracia e à transparência do funcionamento dos Poderes. Até onde me informa o bom senso, tem sido de importância capital a presença dos jornais para que o assunto, ganhando espaço e força nas manchetes, ênfase e saliência na opinião pública, venha a ser apurado às últimas consequências.

O que a imprensa tem noticiado revela como a máquina burocrática do Tribunal de Justiça tinha falhas que permitiam a prática do desvio de dinheiro público. Por essas brechas, segundo se diz, atuavam os acusados. Os jornais mostram isso com notável precisão: os arranjos, o processo de fraude, a manipulação de documentos que, aparentemente cumprindo os trâmites exigidos, sugeriam legalidade ao gesto peculatário. 

Lembro palavras de Luís Maria Alves, o velho comandante do Diário de Natal: "Jornal não é guardião da honra de ninguém." Queria com isso dizer que o jornalismo se atém aos fatos e simplesmente os reproduz à luz do que constatou e apurou; sendo assim, cada um que zelasse pela sua reputação, pois aos jornais caberia denunciá-lo em caso de abuso qualquer que fosse. 

Claro, tal consigna está alicerçada na visão de objetividade, com todos os questionamentos que a envolvem, uma vez que um mesmo fato pode ser apresentado de variadas formas. Questão acadêmica à parte, o caso do TJ está sendo apresentado de forma objetiva. Não há como recusar que algo aconteceu, e isso obriga a Justiça e se fazer dentro da própria Justiça.

Os jornais estão cumprindo com rigor e isenção o dever de informar. Apuração é feita e pode ser percebida fartamente na forma como o noticiário é apresentado: matérias longas,detalhadas, divididas em retrancas - retrancas são matérias complementares - explicando como tudo se passou.

É importantíssima a ação dos jornais em casos como esse, quando já existe neste país uma sociedade civil atenta e indignada. Jornalismo é uma parte desse processo a que se chama sociedade civil, esse espaço social, público, onde se confrontam ideias e se propugna pela moralidade, combatendo-se, por isso mesmo, ideias e comportamentos em campo contrário. 

Silenciar, em tais circunstâncias, significa ser caviloso e alcoviteiro da indecência; cometer por omissão apoio ao esgarçamento da rede ética que deve servir de liame à vida na polis. Frente e isso, o jornal é a praça social para onde converge o olhar da cidadania, imerso o próprio jornal no mundo que noticia. Age, assim, em processo de representação do teatro do mundo ao mesmo tempo em que participa da tragédia histórica desse mesmo mundo. A notícia como meta-acontecimento. 

Pode-se compreender o que digo com um exemplo simples: é do senso comum dizer "deu no jornal". Ou seja: está nas ruas, é parte do rumor social. Com isso o jornal se torna uma espécie de entidade, um sujeito que, em sua virtualidade de sujeito, está para o cidadão como se fora outro cidadão. O noticiado passa a ser uma nova notícia, pulsante como o antigo grito dos gazeteiros: "Olha o jornal!"

Chamo a isso, a esse capacidade de noticiar e representar o mundo, de eficácia editorial, ou seja: potencialidade de influir junto à sociedade, fazer valer sua informação e sua opinião. Assim, se tal opinião e informação estão em sintonia fina com o que deseja a sociedade, cujos valores éticos e morais devem ter acolhida nas folhas, encontramos aí a repercussão, encontramos assim a eficácia editorial manifesta na perplexidade e, desta, na indignação das ruas.

Os valores pétreos da sociedade preexistem ao noticiário, são seus referentes. Quando atacados merecem o petardo das manchetes. A imprensa tem o dever da verdade. Não vou entrar aqui no debate do que seja esse conceito, filosoficamente. Quero dizer verdade na acepção de relato que coincide com o objeto que foi relatado, suas características, causas e consequências. E sou levado a supor, pelo que li, que as coisas estão sendo contadas conforme ocorreram.

Os jornais estão corretos em seu trabalho. É preciso levar adiante a luta. As pessoas acusadas, se confirmada a sua culpa, seriam responsáveis por crime de grande perversidade. De alguma forma o dinheiro desviado para uso suntuário faltará numa escolinha de bairro, na segurança pública, numa casa de parto, num grande hospital público, na conservação de estradas e outros bens públicos. De forma também perversa, tal prática enuncia a cultura da corrupção como naturalizada na máquina pública, quase uma praxe. Desta forma, será preciso ir a fundo nesse abismo. Sem medo de se ferir.

*  Minhas congratulações a Anderson Barbosa, do Novo Jornal, Isaac Lira, Marco Carvalho e Ricardo Araújo, da Tribuna do Norte, e Allan Darlyson e Paulo de Sousa, do Diário de Natal.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

É livre, mas não é independente...

A pressão que o governo americano exerce sobre a internet como espaço libertário, e a eficácia com que essa pressão é exercida, vide o episódio Sopa, põem por terra a suposição de que esse campo seja livre, aberto, anárquico. Pode até ser em essência, intenção e prática. Todavia, algo não pode ser deixado de lado: pode até ser libertária, aberta, anárquica, mas a internet não é independente. Não é como um jornal impresso, que, a rigor, somente deixará de circular por falência, alguma forma pontual de censura como foi o caso do Estadão, ou ascenso de ditadura, algo bastante improvável. 

Quanto à internet, todos nós, usuários, somos sim dependentes de um sistema cujo controle, em última instância, está sob mãos que podem nos calar, e o que é pior: com inteiro amparo legal, por mais que essa legalidade tenha um profundo conteúdo antidemocrático. Lei é lei. A internet é controlada na China, em Cuba, Coreia do Norte e Mianmar, por exemplo. 

Certo que ali temos sistemas onde não há liberdade. Como é certo também que os poderes da democracia formal também são, para uso das elites, assemelhados aos poderes ditatoriais: quando o sistema de comunicação começa a se tornar liberto demais, quando prejudica interesses das grandes corporações, vem uma legislação que protege tais interesses e torna a liberdade na rede equiparada ao crime. É essa farsa, é essa atitude tático-jurídica que põe fim ou pelo menos mitiga a força do seu grande, massivo número de participantes.

Sabemos todos que os jornais impressos também são controlados por grandes corporações, mas, historicamente, foram os jornais que, quando da vigência de ditaduras, se voltaram contra estas, mesmo que as tenham apoiado em seu nascedouro. O Brasil que o diga. Não faço a defesa desse tipo de democracia, mas entendo que ela se torna terreno próprio às conquistas de sociedade civil, ocupação de espaços, avanço em direção a uma sociedade que busca justiça social. 


Suponho, desta forma, que o afã com que alguns  anteveem o fim do impresso, com um certo cântico alegre e juvenil, colocando o impresso como artefato jurássico, não analisam o perigo que é termos apenas a grande rede de computadores como forma e meio de comunicação, seja de massa ou interpessoal. Sei do fenômeno de mercado que cerca o impresso, sei de sua queda de vendas, sei dos que racionalmente estimam seu fim para dentro de mais alguns poucos anos. 

Sei também que a história não se escreve em linha reta. Fora assim, os romanos ainda estariam dominando o mundo, já que a reprodução do seu poder se daria naturalmente, a par do desenvolvimento tecnológico especialmente no plano bélico, o que lhes garantiria a força e o domínio. Domínio gerando mais domínio, estagnação dos dominados gerando mais estagnação. Não foi assim, como vimos. 

Como os donos de jornais também são em grande medida donos de sistemas de comunicação na net, veja-se o Grupo Folha, estimo que haja intenção de agregar a força de um e outro sistemas, consolidando assim seu poderio. Claro que isso pode não acontecer, a partir mesmo do meu argumento de que a história não se escreve em linha reta. Quanto ao fim ou não do impresso estamos todos no terreno das especulações.Vejamos o que vai acontecer.

Mas, voltando à questão central deste artigo, meu temor é que havendo o fim do impresso fiquemos sob o guante do Grande Irmão, dominador de toda a malha comunicativa, estabelecendo de forma planetária o totalitarismo de uma corporação ou de corporação de corporações aliada aos Estados, uma vez que os Estados são colonizados pelo interesse privado. Isso, esse domínio, se fará sem resistência? Creio que não, coletivos como o Anonymous são um demonstrativo disso. 

Seria importante a existência do impresso, como seria importante sua convergência com a net, que, aí sim, funcionaria como espaço privilegiado à sua crítica, denúncia e acusação de erros perpetrados pelos donos dos jornalões. 


Enfim, apresento este artigo ensaístico como forma de expor  perplexidade ante um grande século que ainda está ensaiando seus passos na história.