Até em fila tem ladrão;
ladrão de lugar
![]() |
Irmãos Metralha, personagens de Walt Disney |
Somos um povo lamentável. É verdade;
é triste, mas é verdade. Somos uma sociedade onde um certo caldo de cultura
apregoa como válido e aceitável - mais que isso, necessário e urgente -, levar
vantagem, explorar, tirar partido e proveito de qualquer situação: vale até
mesmo tomar lugar em fila. Além de, claro, ocupar vaga de idoso e deficiente físico
em estacionamento.
Levar papel off set para casa?
Coisa mais normal. Afinal, repartição pública é para isso mesmo: serve para
funcionário espertalhão não precisar ter despesa quando for imprimir os
trabalhos escolares do filhinho no computador.
E o filhinho, por sua vez, copiou
e colou todo o texto a ser impresso, não é mesmo? Supercomum, normalíssimo.
O incrível é a falta de respeito,
a assunção pública do papel de safado, como pude bem perceber. Veja só: certo dia
enquanto aguardava atendimento médico em consulta de rotina levantei-me e fui
até o televisor da sala de espera. O aparelho estava com o volume muito alto.
Levantei-me da cadeira e fui abaixar o som da TV. Para guardar meu lugar, deixei, sobre a cadeira onde estivera sentado, um envelope contendo resultados de exames
que tinha levado para apresentar ao médico. Demorei uns dois minutos e, ao voltar, os
papéis haviam desaparecido. Estranhei, parei um instante e os descobri ao lado
de uma mulher: a matreira havia, na maior cara de pau, se apoderado dos envelopes,
jogando-os em seguida sobre outra cadeira a fim de dar o lugar a um sujeito, que
era seu pai ou algo que o valha.
Como sei há muito tempo que com
gente safada é preciso ser enérgico, não esperei duas vezes: peguei os papéis e,
ante a surpresa do elemento que se preparava para sentar retomei o meu lugar. Sentei-me
junto à tipa, que ficou de cabeça baixa.
Pouco depois chegou um colega
jornalista que começou a conversar comigo. O assunto foi corrupção: aproveitei
para manifestar o quando são lamentáveis as pessoas que se aproveitam do momento
para tirar vantagem e que roubam até lugar.
Falei alto o suficiente para que
a mulher ouvisse. Ela nada disse, manteve a cabeça baixa e encerrou-se aí o incidente.
Mas ficou-me aquele sentimento de
indignação ante a indignidade. E veio-me à cabeça um questionamento que sempre
me acode quando vejo pessoas safadas, tão safadas que se sujam por muito pouco. Penso assim: se
roubam até lugar em fila imagine o que não fazem por dinheiro...