sábado, 31 de outubro de 2009

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A máquina do tempo: pequeno anúncio de um jornal maluco
Emanoel Barreto

Alugo máquina do tempo, empresto arado para revolver o passado, tenho portas que trancam corruptos e ajudo a fechar pactos com anjos. Também ajudo a construir túneis para fugir da solidão e refaço vidas passadas, para que você se torne rei ou rainha. Desfaço quebrantos de tristeza, alargo os caminhos da coragem e fecho seu corpo contra melancolia e situações sorumbáticas. Faço doação de rastros de estrelas e tenho o melhor absinto. Resultado garantido ou seu dinheiro de volta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A mulher-objeto
Emanoel Barreto

O recente episódio de uma jovem estudante de turismo da Uniban, uma universidade de São Paulo, que causou literalmente furor entre colegas que a agrediram por usar um microvestido, representa à exaustão a figura da mulher-objeto, papel que ela assumiu, creio, após sentir-se com o direito de viver de pleno suas fantasias. Esqueceu, porém, que vive no mundo social e foi brutalmente punida com vaias e agressões físicas.

Não há na minha visão qualquer laivo de moralismo. Não. Entendo que o que a jovem fez foi cumprir exatamente com os parâmetros da indústria da moda, que encaminha corações e mentes juvenis ao uso de determinado tipo de roupa como imperativo de beleza e elegância, um estilo de vida.

Deu no que deu. Mas, observemos: a multidão de rapazes e moças que a apedrejava socialmente era composta, certamente, pelos mesmos jovens que se curvam aos modismos, gostos e ademanes do que seja a moda atual.

A indústria da moda convenceu a uma certa parcela da população que ser jovem é comprar determinado tipo de vestimenta que, por sua vez, corresponde a um certo tipo de comportamento - arrojado, não reverencial a padrões tidos como "ultrapassados".

Todavia, quando a coisa se desloca das revistas de moda e das passarelas para cair no mundo do cotidiano, o olhar muda. As pessoas, as mesmas pessoas que aplaudem a mundanidade do vestir, desde que esse vestir esteja apenas nas revistas ou passarelas, armam-se de seus conceitos "arcaicos" e agridem aquela que performatizou à plenitude o suposto arrojo e autoridade sobre como vestir - ou desvestir - o próprio corpo.

A frivolidade da moda, capitaneada por todo um sistema de manipulação mental, resulta assim em situações como as vividas pela jovem, criando-se a seguinte situação paradoxal: a ela faltou bom senso; aos agressores, respeito.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Foto: http://images.google.com/imgres?
O idioma das mãos
Emanoel Barreto

As mãos? Sim, as mãos gritam em seu silêncio de gestos.
E dizem abraços que nunca receberam.
As mãos? Sim, as mão falam todos os idiomas da angústia,
quando são mãos desvalidas.
E depois, cansadas de não ser nunca entendidas,
recolhem-se às furnas e aos becos.
E, à noite, calam na boca dos famintos
o gemido torto dos que têm fome e sede de justiça.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Foto:http://www.andaluciaimagen.com/Frutos-ainda-vida--alegria_106976.jpg
Uma cara de alegria
Emanoel Barreto

O mundo estava feio, mais ainda havia coragem para lutar. As cores estavam escuras, mas persistia no íntimo da força a disposição de não se curvar. As nuvens, carregadas, pareciam anunciar tempestades. Mas, nas mãos que se davam, se escondia um sorriso de alegria. A alegria de ter coragem para lutar. E essa chama iluminava o caminho.

domingo, 25 de outubro de 2009

A sodoma da brutalidade
Emanoel Barreto
Faz muito tempo que não vou ao Rio. Hoje, prefiro não ir. O volume de informações que provêm de lá ou a respeito de lá, criaram em meu imaginário a visão de uma cidade que se debate entre o terror e a imperiosa necessidade de conviver com o terror.

É o resultado histórico de uma perversa concentração da riqueza nacional, que facilitou a proliferação das favelas e de seres brutais que convivem com os cidadãos de bem que dali não podem sair. "Dali", quero dizer, das favelas.

O Rio de Janeiro transformou-se numa terrífica sodoma da brutalidade. E seus gritos são o hino do mais bárbaro banquete de balas regadas a muito sangue.