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segunda-feira, 6 de março de 2023

 Cascudo delirava e dizia: “Você é um dos engenheiros mais jovens?”

Por Emanoel Barreto

Quando a Tribuna do Norte passou a offset, a 13 de outubro de 1979, a direção do Segundo Caderno ficou comigo, chefiando uma equipe que tinha entre seus talentos o colunista Franklin Jorge e uma jovem aluna de jornalismo, Christiana Coeli, filha da poeta e jornalista Miriam Coeli e do jornalista Celso da Silveira. Quer dizer, a menina tinha a quem puxar. Porém, se faltava experiência, sobravam empenho e vontade de fazer jornal.

O caderno era dedicado a cultura e serviço, e funcionava como uma redação à parte: tinha repórteres, fotógrafo e um bamba na ilustração, o cartunista Aucides, que também diagramava. Contava ainda com a presença de um articulista especializado em música popular brasileira, de nome pomposo e grandiloquente: Odosvaldo Portugal Neiva. Tinha vindo não sei de onde e fora contratado pelo jornal. Produzia enxurradas de textos que chegavam a ocupar quase uma página.

Pois bem, certo dia Christiana foi pautada para fazer uma entrevista com o mestre Luís da Câmara Cascudo sobre algum tema de cultura popular. Pois bem: ela saiu e voltou. Como uma flecha.

Fiquei surpreso com a rapidez, mas ela me explicou por que a matéria não havia dado certo: “Barreto, não deu para entrevistar o professor porque ele estava com uma dor de cabeça fortíssima, estava tonto e mal se aguentava em pé.”

Foi o suficiente para disparar em mim o alerta vermelho. Eu respondi: “Christiana, uma dor de cabeça desse tipo, em mim, preocupa a minha família e talvez algumas pessoas amigas. Só isso. Mas uma dor de cabeça dessas em Cascudo, com ele não podendo nem ao menos ficar de pé, preocupa o Estado inteiro ou quase isso."
 
Ato contínuo, segui com um fotógrafo para o estacionamento do jornal em busca de um carro. Não havia carro. Chamei uns táxis, ninguém parou. Então, saí correndo da Tribuna até a casa do professor; o fotógrafo, esbaforido, correndo atrás. Quem conhece Natal sabe que a casa onde morava Cascudo fica razoavelmente próxima à Tribuna do Norte, na Ribeira. Mas, ir até lá, correndo, já são outros quinhentos.

Bom, mas cheguei à casa do mestre. Fui atendido por Dona Dahlia, sua mulher, que me disse: “Barreto, venha cá, depressa. Me ajude a cuidar de Cascudo, que ele não está bem."

Mandei que o fotógrafo esperasse fora da casa e fui com ela ao quarto onde o professor estava. Fiz isso a fim de respeitar sua privacidade. Eu não queria um drama sensacional. Somente chamaria o fotógrafo caso o bom senso assim o indicasse, e sob permissão de Dona Dahlia.

Quando entrei no quarto onde ele estava vi a seguinte cena: Cascudo estava de pijama, deitado numa cama imensa, os olhos semicerrados; delirava. Dona Dahlia estava quase em pânico. Parecia não haver mais ninguém em casa. Ela lamentava o calor. Temia que isso fosse deixá-lo ainda pior. Disse-me: “Segure a cabeça dele enquanto dou os comprimidos.” Levantei a cabeça do professor e esperei que ela trouxesse os medicamentos.

Ele não me reconheceu e disse: “Quem é você? Você é um dos mais jovens, não é? É um dos engenheiros?”

A pergunta deu-me a dimensão exata da situação. Senti que tinha de agir com muita prudência pois ali, mesmo sendo um jornalista era também uma pessoa que estava ajudando a prestar socorro a ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. Sintetizando: era preciso um respeito sagrado.

Mas, respondendo à pergunta dele, eu disse: “Sim professor, eu sou um dos mais jovens. Sou um dos engenheiros. Vim aqui para ajudar.”

Ele continuou a dizer, agora baixinho, coisas que eu não compreendia. Observei os esforços dedicados de Dona Dahlia nos cuidados com o marido. Ela trouxe enormes, redondos e vermelhos comprimidos que ele engolia um a um, deitado. Creio que o total foi de quatro comprimidos. A água era servida por ela num copo grande.

Ele tomou a medicação, fez mais alguns comentários sem sentido e reclinou a cabeça, dormindo em seguida. Ao mesmo tempo em que ajudava no atendimento eu anotava mentalmente os nomes dos comprimidos, observando os rótulos das caixas onde estavam os frascos. Como fiz uma espécie de jornalismo participante, ou seja, integrei a cena do começo ao fim, tinha plenas condições de relatar o fato.

Dona Dahlia me agradeceu, eu dei uma última olhada no mestre e saí do quarto. Perguntei a ela pelo menos três vezes se poderia publicar a matéria e ela disse que sim. Voltei ao jornal sem uma foto e sem qualquer anotação, mas com a notícia toda na cabeça. 

O assunto era sério e devia ser tratado com grande contenção no texto. Fiz uma matéria seca, direta, de forma a não passar ao leitor a impressão de que Cascudo estava à beira da morte e entreguei o texto à editoria de Geral, pois, como era uma notícia do cotidiano, não era tema do Segundo Caderno. 

 
Horas depois, todavia, a família de Cascudo recuava e chegava à direção do jornal um pedido para nada fosse publicado; disso fui informado. O texto foi sobrestado e perdeu-se o registro a quente daquele momento intenso. Detalhe: o texto tinha apenas meia lauda. Não alardeava nenhuma doença terrível, não apregoava nenhum infortúnio, nem mencionava os detalhes que conto agora...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Uma estranha realidade

Cansado de notar que o que chamamos de realidade nos reserva unicamente a sazonal repetição de fatos como as eleições, quando os discursos anunciam que o Paraíso está próximo, narro aqui a visita que recebi ontem de um ornitorrinco, notável e sábia criatura que teve a generosidade de visitar-me em minha oficina tipográfica. 


Segundo me disse, estou sob séria ameaça de ser preso devido a atividades de subversão e atos conspiratórios. Estranhei, pois não sou dado a conluios ou conchavos de qualquer natureza, nem atento contra a lei ou contra a ordem. Mas, para não cansar meu ocasional leitor, digo que após horas de edificante e elucidativa conversa aquele bom homem retirou-se, não sem antes advertir-me de que poderia ser preso a qualquer momento. 

Após sua saída voltei a trabalhar com meus tipos, compondo este coranto, quando ouço poderosas, raivosas batidas à porta. Corri a atender àquela confusão e eis que entram oficina adentro uns dez escaravelhos, todos homens de má catadura e péssimos modos, que em poucos minutos me manietaram e me puseram a ferros, levando-me em seguida a uma masmorra. 

Naquele miserável ambiente estavam recolhidos outros homens, todos acusados de sedição e ódio, motim e outras desobediências. Nenhum de nós entendeu nada daquelas acusações, a não ser quando  a figura alta de um magistrado nos apareceu. Era ele grande, um macaco-prego, e se dizia de ascendência alemã, coisa muito comum a tais símios. Explicou que todos estávamos ali - sendo aquele tempo o ano de 1795 -, sob suspeição de haver inventado o computador e o telefone, a energia elétrica e outras cousas malsinadas como o automóvel e a bomba atômica.

Todos os que estavam recolhidos dissemos que se travava da mais pura inverdade, uma vez que tais e perigosas maravilhas somente seriam criadas muitos anos depois, conforme explicamos. Contrariando as nossas palavras eis que chega o Sr. Ornitorrinco, para minha surpresa. Tão logo adentrou aquele lúgubre ambiente apresentou-se como espião e mostrou fotografias da minha oficina, fotografias tomadas à sorrelfa, onde eu era visto preparando uma bomba atômica. E todos os demais infelizes também eram vistos em seu ambiente de trabalho criando engenhos danosos e coisas terrificantes; as fotos eram a prova maior. 

Sob o choque das fotografias ficamos perplexos, uma vez que aquelas imagens eram inverídicas; sendo, claro, fruto de algum truque que desconhecíamos, uma vez que sequer sabíamos da existência da fotografia, que nem ao menos fora inventada. Em desespero pedimos para confabular, o que nos foi permitido, surgindo assim a nossa defesa: 1) nada daquilo existia; portanto, não poderíamos ser autores de tais e perigosos portentos; 2) sendo assim, deveríamos ser soltos imediatamente. 


O ornitorrinco e o macaco-prego, homens tinhosos, rebateram. Comprovando o que diziam abriram as portas da masmorra e nos atiraram em meio ao mundo. E o que vimos foi o que o leitor também vê: o descalabro, a loucura das ruas, o computador onde você lê este coranto. Atônitos, recuamos, voltando à masmorra. E agora, o que fazer? Não criamos nada disso, mas tudo o que não criamos está aqui. Até que ponto essa irrealidade vai nos assediar?


Sem resposta, corremos masmorra adentro, fugimos. Ao sair, num ponto bem distante, batemos e trancamos a porta. O futuro e todo o seu horror havia ficado para trás. Eu voltei à minha oficina, a fim de terminar este texto. Mas, para meu desespero, eis que está à minha porta um novo e estranho personagem: um grande, gigantesco mosquito se apresenta e temo que traga algo terrível em suas palavras.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Jornalismo de excelência ou jornal não é guardião da honra de ninguém

O caso dos precatórios no Tribunal de Justiça, exposto a plena carga pela imprensa, reconfirma o papel do jornal como instituição essencial à democracia e à transparência do funcionamento dos Poderes. Até onde me informa o bom senso, tem sido de importância capital a presença dos jornais para que o assunto, ganhando espaço e força nas manchetes, ênfase e saliência na opinião pública, venha a ser apurado às últimas consequências.

O que a imprensa tem noticiado revela como a máquina burocrática do Tribunal de Justiça tinha falhas que permitiam a prática do desvio de dinheiro público. Por essas brechas, segundo se diz, atuavam os acusados. Os jornais mostram isso com notável precisão: os arranjos, o processo de fraude, a manipulação de documentos que, aparentemente cumprindo os trâmites exigidos, sugeriam legalidade ao gesto peculatário. 

Lembro palavras de Luís Maria Alves, o velho comandante do Diário de Natal: "Jornal não é guardião da honra de ninguém." Queria com isso dizer que o jornalismo se atém aos fatos e simplesmente os reproduz à luz do que constatou e apurou; sendo assim, cada um que zelasse pela sua reputação, pois aos jornais caberia denunciá-lo em caso de abuso qualquer que fosse. 

Claro, tal consigna está alicerçada na visão de objetividade, com todos os questionamentos que a envolvem, uma vez que um mesmo fato pode ser apresentado de variadas formas. Questão acadêmica à parte, o caso do TJ está sendo apresentado de forma objetiva. Não há como recusar que algo aconteceu, e isso obriga a Justiça e se fazer dentro da própria Justiça.

Os jornais estão cumprindo com rigor e isenção o dever de informar. Apuração é feita e pode ser percebida fartamente na forma como o noticiário é apresentado: matérias longas,detalhadas, divididas em retrancas - retrancas são matérias complementares - explicando como tudo se passou.

É importantíssima a ação dos jornais em casos como esse, quando já existe neste país uma sociedade civil atenta e indignada. Jornalismo é uma parte desse processo a que se chama sociedade civil, esse espaço social, público, onde se confrontam ideias e se propugna pela moralidade, combatendo-se, por isso mesmo, ideias e comportamentos em campo contrário. 

Silenciar, em tais circunstâncias, significa ser caviloso e alcoviteiro da indecência; cometer por omissão apoio ao esgarçamento da rede ética que deve servir de liame à vida na polis. Frente e isso, o jornal é a praça social para onde converge o olhar da cidadania, imerso o próprio jornal no mundo que noticia. Age, assim, em processo de representação do teatro do mundo ao mesmo tempo em que participa da tragédia histórica desse mesmo mundo. A notícia como meta-acontecimento. 

Pode-se compreender o que digo com um exemplo simples: é do senso comum dizer "deu no jornal". Ou seja: está nas ruas, é parte do rumor social. Com isso o jornal se torna uma espécie de entidade, um sujeito que, em sua virtualidade de sujeito, está para o cidadão como se fora outro cidadão. O noticiado passa a ser uma nova notícia, pulsante como o antigo grito dos gazeteiros: "Olha o jornal!"

Chamo a isso, a esse capacidade de noticiar e representar o mundo, de eficácia editorial, ou seja: potencialidade de influir junto à sociedade, fazer valer sua informação e sua opinião. Assim, se tal opinião e informação estão em sintonia fina com o que deseja a sociedade, cujos valores éticos e morais devem ter acolhida nas folhas, encontramos aí a repercussão, encontramos assim a eficácia editorial manifesta na perplexidade e, desta, na indignação das ruas.

Os valores pétreos da sociedade preexistem ao noticiário, são seus referentes. Quando atacados merecem o petardo das manchetes. A imprensa tem o dever da verdade. Não vou entrar aqui no debate do que seja esse conceito, filosoficamente. Quero dizer verdade na acepção de relato que coincide com o objeto que foi relatado, suas características, causas e consequências. E sou levado a supor, pelo que li, que as coisas estão sendo contadas conforme ocorreram.

Os jornais estão corretos em seu trabalho. É preciso levar adiante a luta. As pessoas acusadas, se confirmada a sua culpa, seriam responsáveis por crime de grande perversidade. De alguma forma o dinheiro desviado para uso suntuário faltará numa escolinha de bairro, na segurança pública, numa casa de parto, num grande hospital público, na conservação de estradas e outros bens públicos. De forma também perversa, tal prática enuncia a cultura da corrupção como naturalizada na máquina pública, quase uma praxe. Desta forma, será preciso ir a fundo nesse abismo. Sem medo de se ferir.

*  Minhas congratulações a Anderson Barbosa, do Novo Jornal, Isaac Lira, Marco Carvalho e Ricardo Araújo, da Tribuna do Norte, e Allan Darlyson e Paulo de Sousa, do Diário de Natal.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

É livre, mas não é independente...

A pressão que o governo americano exerce sobre a internet como espaço libertário, e a eficácia com que essa pressão é exercida, vide o episódio Sopa, põem por terra a suposição de que esse campo seja livre, aberto, anárquico. Pode até ser em essência, intenção e prática. Todavia, algo não pode ser deixado de lado: pode até ser libertária, aberta, anárquica, mas a internet não é independente. Não é como um jornal impresso, que, a rigor, somente deixará de circular por falência, alguma forma pontual de censura como foi o caso do Estadão, ou ascenso de ditadura, algo bastante improvável. 

Quanto à internet, todos nós, usuários, somos sim dependentes de um sistema cujo controle, em última instância, está sob mãos que podem nos calar, e o que é pior: com inteiro amparo legal, por mais que essa legalidade tenha um profundo conteúdo antidemocrático. Lei é lei. A internet é controlada na China, em Cuba, Coreia do Norte e Mianmar, por exemplo. 

Certo que ali temos sistemas onde não há liberdade. Como é certo também que os poderes da democracia formal também são, para uso das elites, assemelhados aos poderes ditatoriais: quando o sistema de comunicação começa a se tornar liberto demais, quando prejudica interesses das grandes corporações, vem uma legislação que protege tais interesses e torna a liberdade na rede equiparada ao crime. É essa farsa, é essa atitude tático-jurídica que põe fim ou pelo menos mitiga a força do seu grande, massivo número de participantes.

Sabemos todos que os jornais impressos também são controlados por grandes corporações, mas, historicamente, foram os jornais que, quando da vigência de ditaduras, se voltaram contra estas, mesmo que as tenham apoiado em seu nascedouro. O Brasil que o diga. Não faço a defesa desse tipo de democracia, mas entendo que ela se torna terreno próprio às conquistas de sociedade civil, ocupação de espaços, avanço em direção a uma sociedade que busca justiça social. 


Suponho, desta forma, que o afã com que alguns  anteveem o fim do impresso, com um certo cântico alegre e juvenil, colocando o impresso como artefato jurássico, não analisam o perigo que é termos apenas a grande rede de computadores como forma e meio de comunicação, seja de massa ou interpessoal. Sei do fenômeno de mercado que cerca o impresso, sei de sua queda de vendas, sei dos que racionalmente estimam seu fim para dentro de mais alguns poucos anos. 

Sei também que a história não se escreve em linha reta. Fora assim, os romanos ainda estariam dominando o mundo, já que a reprodução do seu poder se daria naturalmente, a par do desenvolvimento tecnológico especialmente no plano bélico, o que lhes garantiria a força e o domínio. Domínio gerando mais domínio, estagnação dos dominados gerando mais estagnação. Não foi assim, como vimos. 

Como os donos de jornais também são em grande medida donos de sistemas de comunicação na net, veja-se o Grupo Folha, estimo que haja intenção de agregar a força de um e outro sistemas, consolidando assim seu poderio. Claro que isso pode não acontecer, a partir mesmo do meu argumento de que a história não se escreve em linha reta. Quanto ao fim ou não do impresso estamos todos no terreno das especulações.Vejamos o que vai acontecer.

Mas, voltando à questão central deste artigo, meu temor é que havendo o fim do impresso fiquemos sob o guante do Grande Irmão, dominador de toda a malha comunicativa, estabelecendo de forma planetária o totalitarismo de uma corporação ou de corporação de corporações aliada aos Estados, uma vez que os Estados são colonizados pelo interesse privado. Isso, esse domínio, se fará sem resistência? Creio que não, coletivos como o Anonymous são um demonstrativo disso. 

Seria importante a existência do impresso, como seria importante sua convergência com a net, que, aí sim, funcionaria como espaço privilegiado à sua crítica, denúncia e acusação de erros perpetrados pelos donos dos jornalões. 


Enfim, apresento este artigo ensaístico como forma de expor  perplexidade ante um grande século que ainda está ensaiando seus passos na história.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Uma velha tipografia, uma história... Com este texto despeço-me de 2011



A história do Grão-Louco do Almofariz
Emanoel Barreto

Nobre Senhor,
Sede bem-vindo.

Não sei o que vos trouxe aqui ou se precisais de meus simples labores, visto que os tempos são outros e ambientes como este estão em desuso ou simplesmente desapareceram. O ambiente modesto onde estais , devo informar, é uma tipografia; como já disse, superada e antiga. Era a acá mesmo que tínheis vindo?

Ao que vejo, sim: era acá mesmo que tínheis vido. Entrai, pois. Sou, de profissão, tipógrafo. Aqui ainda trabalho com papel feito de trapos, sendo este o melhor que existe; digo de passagem e com certo afã. Esta profissão se me foi herdada d'um velho monge, que há muito morreu, e em seu monastério mantinha uma prensa d'onde tudo aprendi .

Mas, vinde, vinde. Vede os meus tesouros. Desculpai, a iluminação é baça; é que ainda uso velas, velas de sebo, pois este ambiente é antigo e assim o exige. É que os meus fantasmas, nobres impressores, seres pertinentes, jamais aceitaram que assim não o fosse.

Mas, eis os meus tesouros: as minhas caixas, aprumadas no cavalete. Caixa alta e caixa baixa e seus respectivos caixotins. Letras maíusculas, caixa alta; minúsculas, caixa baixa. Letras lapidadas pelos melhores artesãos de França. Letras das mais diversas e trabalhadas famílias tipográficas. Ricas, belas, expressivas. Muitas deles imprimiram Hugo, Balzac e Zola, tenho certeza. Quanta honra senhor, quanta honra, não é mesmo?

Mas, quereis algo? Alguma impressão a essa hora? Não? Apenas conhecer o que faço e como vivo? Dir-vos-ei: moro aqui, aqui vivo, aqui trabalho. Ali, minha enxerga, donde me alcanço estirado, altas horas da noite. Mais adiante, um velho e pequeno fogão. Ao lado da cama é onde guardo os meus andrajos.

E o que imprimo? Tolices, senhor, tolices. Como em tempos quase já imemoriais lanço ao papel corantos, avisos, gazetas. Neles conto histórias fabulosas: o dragão que surgiu do mar e devorou toda uma aldeia pesqueira; flamejante mulhar que voa em vassoura e atormenta alguma vila perdida em confins, batalhas de grandes cavaleiros, histórias de damas tão gentis, versos de menestréis e viandantes, contos para adormecer crianças e coisas de monstros horrendos. De tudo o que o humano engenho inventivo já imaginou aqui nasce na força destas letras.

Se alguém ainda os compra? Não, senhor. Ninguém. Ninguém compra o que escrevo. E assim, depois de andar o dia inteiro sem adquirir sequer um só ceitil, retorno ao meu tugúrio. Antes porém, de voltar, ando por arrabaldes deserdados. Ali encontro quem me leia. Aproximam-se de mim os desprimorosos e os desvalidos, os aleijados, os tronchos, os alienados e os sem-destino, as súcias e os mandriões. Biltres e velhacos são o meu público.

A eles entrego de graça o que escrevo. E formam-se implausíveis clubes de leitura: cada um que queira ler mais alto e com entonações as estórias que redijo. E como em suas vozes noturnas tudo aquilo se torna galante e de bom feitio. Declamam e empostam os dizeres. Acendemos fogueiras, discutimos as lendas e os mitos, acreditamos em tudo o que escrevi e para nós está tudo muito bom; e após todo o falariço nos despedimos com mesuras e até amanhãs.

Volto então feliz e realizado. Chego, abro a forte porta que protege esta cave e então me tranco. Aqui vivo um silêncio antigo, pesado; silêncio que abraça e protege as coisas que ainda vou escrever.

Como?, o senhor quer um texto? Vou já, senhor, já vou compor. Demora um pouco, pois cada letra é retirada ao seu ninho, ao seu caixotim, para vir repousar na rama. Vou escrever-vos uma hstória: a história do Grão-Louco do Almofariz. O que isso quer dizer? Não, não sei: a ideia vai-me brotando aos poucos, ganha vida e dirige meus dedos. Confiai. Ficará boa a história, muito boa. Como disse, demora um pouco. Meus dedos já não têm tanta agilidade. Enquanto trabalho podeis achegar-vos ao catre e dormir. Quando acordardes, estará pronta a história. Boa noite, senhor. Boa noite. Grato por terdes vindo...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Li no Observatório da imprensa

O fim de uma era

Por Leneide Duarte-Plon em 27/12/2011 na edição 674
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Sempre foi e sempre será uma triste tarefa a de noticiar o fim de um jornal. Foi duro para os jornalistas brasileiros verem a lenta decadência do Jornal do Brasil, seu desaparecimento na versão impressa, assim como foi penoso este mês para os jornalistas franceses verem chegar ao fim o France-Soir depois de 67 anos presente no panorama midiático francês.

Libérationdeu capa e a matéria principal de quatro páginas com a história do legendário France-Soir, além de uma análise da situação atual da imprensa francesa e das perspectivas futuras. No editorial assinado, Nicolas Demorand, diretor de Libération, escreveu que “o jornalismo da imprensa escrita é um esporte de combate” parafraseando o documentário sobre Pierre Bourdieu, A sociologia é um esporte de combate, de Pierre Carles. Como o brasileiro, o jornal francês vai manter sua versão online. Na França, France-Soir é o primeiro jornal impresso a parar de circular mantendo a versão online.

France-Soirfora comprado pelo milionário russo Alexandre Pougatchev, de 23 anos, em 2009, por 65 milhões de euros. O pai do jovem é um oligarca próximo de Vladimir Putin e já comprara o gigante da alimentação de luxo francês Hédiard. Mas tendo acumulado um prejuízo em 2010 de 31 milhões de euros, Pougatchev resolveu parar de perder dinheiro com a crescente perda de publicidade e de leitores. A equipe de 130 jornalistas que fazia o jornal impresso foi reduzida a 32 profissionais e o jornal passou a ter apenas uma versão online.

O fim da imprensa como a conhecemos
Criado em 1944 por Robert Salmon e Philippe Viannay, France-Soir é o diário que se originou do jornal clandestino da resistência contra os nazistas, Défense de la France, também fundado pelos dois jornalistas. Na época áurea de Pierre Lazareff, que comprara o jornal de seus fundadores, o jornal chegou a vender 1 milhão de exemplares diários.

O sociólogo Jean-Marie Charon, especialista da mídia, estima que essa tendência de passar do impresso ao web vai continuar na França. Os jornais La Tribune e L’Humanité podem seguir o mesmo caminho de France-Soir e passar a circular unicamente online. Nos Estados Unidos, onde a tendência ao fechamento dos jornais impressos é crescente, a imprensa diária já suprimiu 10 mil empregos desde 2007. Segundo o jornal Le Parisien, outro diário que migra lentamente para a internet, dois terços dos franceses se informa hoje pela internet.

Jean-Marie Charon arrisca uma profecia de especialista. Segundo ele, os cotidianos vão cada vez mais migrar para a internet. Alguns jornais manterão uma versão impressa apenas alguns dias da semana; outros, apenas um dia por semana. Ligados dia e noite no smartphone, no rádio e na TV, os leitores não têm mais tempo de ler um jornal impresso todo dia. E as novas gerações não formaram o hábito da relação sensorial, indispensável para alguns, do leitor com o papel do jornal.

Sem dúvida, o desaparecimento de uma geração que ainda compra ou assina um ou mais jornais diários marcará o fim da imprensa como nós a conhecemos.
***
[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Algumas histórias estranhas: coisas de jornal ( 2 )

O visitante noturno disse: "Eles estão me perseguindo"

Redação da Tribuna do Norte, Natal, uma noite em 1982, precisamente 21h30. Lembro, pois olhei o relógio logo depois da saída do visitante noturno e do seu intrigante relato. Começou assim: eu estava já com umas quatorze horas de trabalho  -- começado às sete da manhã quando fizera a pauta, seguindo o restante do expediente em preparar o segundo caderno até a hora do almoço. Depois, a partir de uma da tarde eu havia reiniciado, cuidando do funcionamento da redação até a hora em que o homem entrou sem ser anunciado. 


Na redação ninguém além de mim e da diagramadora Tânia, competente profissional que sempre encontrava uma boa solução gráfica e estética para o noticiário da página 5. Até mesmo Moacir Oliveira, o velho Moaça, diagramador-chefe, já não estava.


Eu saí um instante do aquário onde ficava a sala de diagramação quando vi a figura sentada a um birô. Peguei uma matéria em cima da minha mesa. Nisso, ele se dirigiu a mim. Veio direto como lâmina de florete: "Sou um perseguido político." E detalhou: trabalhava numa TV pública onde comia o pão que o diabo amassou nas mãos de pessoas ligadas ao sistema. Já havia sido transferido diversas vezes até vir para Natal, onde estava na TV Universitária. Mas, garantiu, sentia-se perseguido pelos agentes da ditadura.


Pedi licença um minuto. Estava em fase final do fechamento, já com algum atraso. Eu lhe pediu mais uns quinze minutos, que o atenderia. Atenderia, diga-se, à base de muita boa vontade, pois pendulava entre o cansaço mais pesado e o sono certeiro. Bom, mas passaram-se os quinze minutos. Só que, quando olhei pelo vidro do aquário para a redação, o canto mais limpo. 


O homem cabisbaixo, de voz vestida de angústia havia desaparecido. Tão silenciosamente como havia chegado tinha saído. Isso deu-me uma sensação ruim. Um rápido e intenso processo de culpa: como eu tinha feito aquilo? E se aquele homem morresse em alguma esquina da tortura ou prisão? Por que não o havia atendido imediatamente? Essas perguntas foram o meu tribunal e a minha sentença durante vários dias.


Hoje, passados esses anos todos, veio-me à memória aquele estranho noturno: não deu-me qualquer detalhe das perseguições sofridas em Natal ou de quem as perpetrava. Só que agora questiono: seria verdade mesmo o que dissera? Ou seria aquilo produto de alguma mente transversa em busca de notoriedade num jornal de oposição?


Não tenho a resposta. Mas de uma coisa tenho certeza: a figura que se apresentou a mim naquela noite tinha algo de muito pesado sobre os ombros: ou realmente a perseguição dos esbirros ou a ponderosa noite de sua crença de estar sob perseguição, o que vem a ser a mesma coisa.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Vejo no Observatório da Imprensa e compartilho.

O Estadão vai à guerra

Por Luciano Martins Costa em 21/09/2011 na edição 66
Comentário para o programa radiofônico do OI, 21/9/2011
Sob um silêncio constrangedor de seus pares, o Estadão prossegue em rota de colisão com o Judiciário. Depois de duas reportagens claramente indignadas contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça que anulou provas obtidas através de telefonemas gravados, no processo que envolve o empresário Fernando Sarney, o jornal paulista volta, sozinho, ao campo de batalha para expor o que pode ser um esquema de tráfico de influência na Justiça.

Nesta quarta-feira, 21, reportagem que ocupa a manchete do jornal informa que, para anular as provas contra o filho do senador José Sarney, a 6ª Turma do STJ bateu recordes de eficiência e celeridade.

O ponto central da reportagem leva a conclusões perigosas. Ao observar que, ao contrário de outros processos, o STF funcionou como uma instituição extremamente rápida e eficiente, o Estadão está afirmando, sem meias palavras, que os desembargadores demonstraram um empenho muito maior em livrar Fernando Sarney do que é o comum de sua rotina.
No caso Satiagraha, a anulação de provas levou um ano e oito meses e o relator estudou o processo por dois meses antes de apresentar seu parecer. No processo gerado pela chamada Operação Castelo de Areia, a anulação das provas demorou 2 anos e a relatoria demorou oito meses. Para chegar à conclusão de que as provas contra o filho de Sarney não são válidas, a Justiça levou apenas nove meses, o processo foi relatado em seis dias e dois juizes foram convocados para completar o quórum.

A reportagem informa ainda que um dos juizes convocados para completar a votação teve sua aprovação no Senado Federal acelerada pelo próprio presidente da Casa, José Sarney. Fontes consultadas pelo jornal indicam que o procedimento do STF não é comum.

Além disso, o Estadão afirma que a decisão de anular as provas contra Fernando Sarney foi tomada sem levar em conta um parecer do Ministério Público Federal e decisões de juizes de primeira instância, que haviam aceitado como prova o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – que viu indícios de crime em três movimentações financeiras, no total de R$ 2 milhões, feitas pelo empresário e sua mulher.

O Estadão decidiu, claramente, abrir guerra contra certos setores do Judiciário. Os outros jornais fingem que não aconteceu nada.
***

domingo, 11 de setembro de 2011

De como o 11 de setembro estava previsto desde 1799

http://www.blogger.com/blogger.g?blogID
Estava eu ocupado, e mui, em trabalhos tipográficos, quando se me apresentam à casa onde moro dois elegantes cidadãos: um elegante e bem postado orangotanto, fidalgo, logo o vi, e um sisudo grou, tambem ele homem de grandes ascendências e preclaros ancestrais. Trabalhava eu na preparação de éditos me encomendados por monarca de ilha distante e ignota, senhor de selvas e ondas de mar turquesa. Como sabeis, sou tipógrafo. Arte que aprendi com o Mestre de Mogúncia, idos de 1450.



Queria tal graúdo personagem comunicar a seus súditos que ninguém deveria ler os tais éditos, uma vez que tratavam das terríveis coisas do mundo como guerras, pestilências, corrupção dos costumes e outras debacles, a fim de que aquele honesto e ingênuo povo não se abalançasse a buscar tais e tremendos sucessos. Naquela ilha imperavam a mansidão e a concórdia e assim, queria o monarca, tudo deveria permanecer. 

Devo dizer que neste momento encontro-me em pleno ano de 1799, quase adentrando, como se nota, o Século XIX. Devo dizer que espero mui desse século, cujos albores, parece, encaminharão a humanidade a patamar mais elevado. Mas, voltemos aos dois senhores. Parei o trabalho e fui atendê-los.

Após as apresentações de praxe disseram a que tinham vindo: queriam que eu preparasse jornal - um jornal mágico logo descobri - onde se publicariam todos os infortúnios do mundo. Tudo o que fosse se tornar fato e realidade. Se isso fosse feito, asseguraram-me, e o jornal destruído em fogo de fogueira feita com madeira do monte Olimpo todos os males seriam retirados da Terra, e o século vindouro e todos os demais seriam plenos de idades fabulosas, eras magníficas e grandes ocorrências, chegando a humanidade a seu destino e fado: de bem viver feliz, até até. O jornal purgaria por antecipação os males que viriam a se pôr.

Disse-lhes que era apenas um gráfico, um dono de tipografia, não tendo acesso aos dons de Merlin. Não, rebateram, eu não precisaria prever a vida do mundo. Apenas anotar e fazer publicar em jornal tudo o que me dissesse bela e dramática pitonisa a quem fizeram chamar - e  logo adentrou à minha casa, envolta em volutas espessas, enignática dama. Fiz-lhe profunda reverência, a mulher entrou em transe a logo passou a prever o que iria o mundo viver e sofrer a partir do Século vindouro e daí em diante. 

Ao iniciar-se meu trabalho os grandes senhores retiraram-se, não sem antes me advertir: ninguém, ninguém poderia ler o jornal, que seria levado à fogueira olimpiana isento de olhar de homem. Assenti com a cabeça e eles saíram. A tudo o que a mulher dizia, minha mão, trêmula, anotava. Eram horrores demais, temores demais, cataclismas intensos, tragédias incontáveis, explosões e armas inacreditáveis. Datas e líderes explodiam às palavras da vidente. 


Percebi que minha missão era também algo terrível: tinha ali, literalmente, os destinos do mundo, da vida, de tudo. Caso aquela missão tivesse bons frutos um simples tipógrafo gutemberguiano mudaria a repetiviva estrada da história: guerras e horrores liderados por loucos crentes em sua própria loucura, aqui e no ignoto Oriente.
http://www.google.com.br/imgres?q=11+de+setembro&hl=pt-BR&safe


A mulher não parava de prognosticar, vaticinar, profetizar e adivinhar, até que o mundo chegou a final de Apocalipse, com o acionamento de arma tão tremenda que é difícil crer que algo assim possa ser criado pela mente humana e usada por mão carrasca. Após terminar, três dias depois os seu trabalhos, exausta e branca, a pitonisa foi levada por um cortejo de aias que a amparavam, desaparecendo e meio a brumas.


Mal parei: refiz-me também da minha luta e corri à oficina, onde tipos preciosos, manejados por Gutemberg em pessoa me esperavam para o próximo passo. Trabalhei sozinho durante dias. Dispensara todos os auxiliares: o jornal não podia ser lido. Ao fim e ao cabo de toda a travessia mandei que mordomo fosse convidar os dois senhores - o jornal estava pronto.


Impresso em papel de grande qualidade, ilustrado com imagens desenhadas à perfeição e textos de grande poder narrativo e descritivo, aquela obra era algo preciosíssimo. Lacrei-a em enorme envelope, entregando-a absolutamente fechada ao grou e ao orangotango. Não nos falamos. Ato contínuo, dirigiram-se eles a um outeiro onde já estava pronta a fogueira do Olimpo. Vetustos e sérios seguiram em sua carruagem. Nunca mais os vi.


Passou-se o tempo e, de lá para acá, vi, li e escrevi a respeito de grandes males e enormes ocorrências e dores profundas. Duas Grandes Guerras, revoluções e destroços. Duas bombas atômicas. Tudo isso fora previsto pela pitonisa. Minha compreensão terminou por ensinar-me algo que recusava a acreditar: algo havia dado errado com os respeitáveis grou e orangotango. Algum miserável acontecimento os havia colhido, impedindo que o mundo seja hoje um local digno e aprazível.


A minha suspeita de que algo ocorrera àqueles dois senhores foi confirmada: os honoráveis homens voltaram à minha casa e, como naquele dia distante, estava eu na oficina. 
Foram trazidos à minha presença e contaram, olhos injetados de angústia: o jornal fora lido! Lido minutos antes de ser levado à fogueira. 


Como assim?, quis saber. Muito simples: para ser queimado o jornal teve que ser retirado do envelope. Nesse instante o lacaio que o levava às mãos dos seus mestres pousou os olhos na manchete, caindo fulminado por um colapso, tão horrenda era a notícia. Outros acorreram a ele e entraram em pânico. Enlouquecidos, puseram-se a correr gritando ao mundo o que aconteceria. Formou-se multidão e o jornal foi lido a todos, que se puseram a gritar. Em meio a isso acusaram o grou e o orangotango de feitiçaria e atos cabalísticos. Eles conseguiram fugir e ao longe viram acesa a fogueira e queimado o jornal, mas era tarde: o mundo continuaria a trilhar sua senda enternamente - até que venha o último artefato.


PS: os dignos senhores ainda estão em minha casa. De repente pediram que eu ligue a televisão. Hoje é 11 de setembro.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Explode o temor da crise

Deu na Folha:

Os mercados tiveram ontem o dia mais nervoso desde a crise financeira de 2008 e elevaram o receio de que a economia mundial entre em novo período de recessão.
As Bolsas caíram na Ásia, na Europa e nas Américas -a de SP teve um dos piores desempenhos no mundo, perdendo 5,7%.

O dia começou com ação do Japão para desvalorizar o iene, para onde investidores preocupados vinham fugindo.

A decisão do Banco Central Europeu de comprar títulos de países em crise, deixando claro que a situação no continente ainda é grave, aumentou o pânico. Investidores se desfizeram de ações e buscaram proteção no Tesouro americano, apesar da crise dos EUA. O retorno sobre os papéis despencou.

Para tentar reanimar a economia, voltou a ser cogitada nova rodada de compra de títulos pelo governo americano.
...........

Os anúncios de crises são sempre assim: o "mercado" está "estressado", em "pânico" e os "investidores" estão temerosos. O que não se diz é que são essas mesmas pessoas quem provoca a debacle, o caos. Querem lucro a qualquer preço, passam por cima de princípios éticos e morais os mais comizinhos e afinal, quando instauram a bagaceira, dizem que há uma crise. E lá  vem o Estado, com recursos da sociedade, salvar esses tipos, signatários de uma economia improdutiva e locupletária: a economia financeira. Vamos esperar para ver. No fim, quem trabalha paga o pato: inocentes, como a criança na foto da primeira página.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Não sou exatamente um admirador da linha editorial da Folha mas esse editorial abaixo vale a pena ler.


A sete chaves

Numa vitória do Estado contra a sociedade, Planalto ensaia recuo na promessa de dar acesso a papéis sigilosos após um máximo de 50 anos

Sob argumentos nada claros, o governo federal indica ter voltado atrás na promessa de empenhar-se pelo fim do sigilo eterno nos documentos oficiais do país.

Pela lei atual, os papéis de teor considerado "ultrassecreto" ficam 30 anos inacessíveis ao público, e esse prazo pode ser renovado indefinidamente. A Câmara dos Deputados decidiu, no ano passado, diminuir para 25 anos o tempo do sigilo, autorizando sua renovação por uma vez apenas.
Mesmo levando em conta a eventual gravidade das informações contidas em papéis do tipo, um total de 50 anos para sua divulgação não parece imprudente.
O projeto da Câmara foi encaminhado ao Senado Federal; a presidente Dilma Rousseff comprometera-se a apoiar sua votação tal como o texto se encontrava.
Recuou, entretanto. Ontem, a nova ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, acrescentou a isso a disposição do governo de manter a renovação do prazo do sigilo por tantas vezes quanto se considerar necessário.
Impede-se, assim, o acesso a informações que, em última análise, não são propriedade do governo, mas de toda a sociedade.
Vieram de dois antigos governantes, segundo se noticia, gestões para manter indefinidamente a guarda dos segredos de Estado. Os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor, hoje senadores, respectivamente, pelo PMDB do Amapá e pelo PTB de Alagoas, manifestaram suas preocupações.
Considerando-se as datas em que ocuparam a Presidência da República, ambos estariam preservados de divulgações inconvenientes por um bom tempo.
Estaria então sendo avaliado, pela ótica dos ex-presidentes, o perigo da divulgação de fatos ainda mais remotos? Quais?

Eis o mistério. Fala-se em acordos celebrados há mais de um século, relativos às fronteiras do país. À medida que se aponta para assuntos desse tipo, contudo, o segredo se torna paradoxal: vêm a público os seus motivos (ou pretextos), mas não seus termos.

Só resta a impressão de que algo -não se sabe o quê, e talvez qualquer outra coisa também- deve ficar escondido. O sigilo justifica o sigilo, eternamente.

Compreende-se a necessidade de cautela. Mas é comum, nas relações entre Estado e sociedade, que o argumento termine levando a abusos muito além dos supostos motivos que a originaram.

Como que movido pela própria natureza, o Estado resiste ao julgamento da opinião pública, mesmo em assuntos recobertos pela pátina do tempo. Pela intensidade da reação, contudo, pode-se inferir o quanto de democracia, ou de autoritarismo, há em seus atos.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Na Folha, o último texto de Moacir Scliar.

MOACYR SCLIAR

Lágrimas e testosterona


Cada vez que ele queria repreendê-la, ela começava a chorar. E aí, pronto: ele simplesmente derretia

Atenção, mulheres, está demonstrado pela ciência: chorar é golpe baixo. As lágrimas femininas liberam substâncias, descobriram os cientistas, que abaixam na hora o nível de testosterona do homem que estiver por perto, deixando o sujeito menos agressivo.
Os cientistas queriam ter certeza de que isso acontece em função de alguma molécula liberada -e não, digamos, pela cara de sofrimento feminina, com sua reputação de derrubar até o mais insensível dos durões. Por isso, evitaram que os homens pudessem ver as mulheres chorando. Os cientistas molharam pequenos pedaços de papel em lágrimas de mulher e deixaram que fossem cheirados pelos homens.
O contato com as lágrimas fez a concentração da testosterona deles cair quase 15%, em certo sentido deixando-os menos machões.

Ciência, 7 de janeiro de 2011

ELE VIVIA FURIOSO com a mulher. Por, achava ele, boas razões. Ela era relaxada com a casa, deixava faltar comida na geladeira, não cuidava bem das crianças, gastava demais. Cada vez, porém, que queria repreendê-la por uma dessas coisas, ela começava a chorar. E aí, pronto: ele simplesmente perdia o ânimo, derretia. Acabava desistindo da briga, o que o deixava furioso: afinal, se ele não chamasse a mulher à razão, quem o faria? Mais que isso, não entendia o seu próprio comportamento. Considerava-se um cara durão, detestava gente chorona.
Por que o pranto da mulher o comovia tanto? E comovia-o à distância, inclusive. Muitas vezes ela se trancava no quarto para chorar sozinha, longe dele. E mesmo assim ele se comovia de uma maneira absurda.
Foi então que leu sobre a relação entre lágrimas de mulher e a testosterona, o hormônio masculino. Foi uma verdadeira revelação. Finalmente tinha uma explicação lógica, científica, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas diminuíam a testosterona em seu organismo, privando-o da natural agressividade do sexo masculino, transformando-o num cordeirinho.
Uma ideia lhe ocorreu: e se tomasse injeções de testosterona? Era o que o seu irmão mais velho fazia, mas por carência do hormônio.
Com ele conseguiu duas ampolas do hormônio. Seu plano era muito simples: fazer a injeção, esperar alguns dias para que o nível da substância aumentasse em seu organismo e então chamar a esposa à razão.
Decidido, foi à farmácia e pediu ao encarregado que lhe aplicasse a testosterona, mentindo que depois traria a receita. Enquanto isso era feito, ele, de repente, caiu no choro, um choro tão convulso que o homem se assustou: alguma coisa estava acontecendo?
É que eu tenho medo de injeção, ele disse, entre soluços. Pediu desculpas e saiu precipitadamente. Estava voltando para casa. Para a esposa e suas lágrimas.

MOACYR SCLIAR (1937 - 2011)
Moacyr Scliar, que morreu ontem, à 1h, aos 73 anos, escrevia nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.
É a última coluna do médico e escritor publicada neste espaço.
Este texto, inédito, foi enviado pelo escritor ao jornal no dia 11 de janeiro, antes de sofrer um AVC (acidente vascular cerebral), no dia 17 do mês passado.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Não sei porquê, mas esses jornais japoneses me parecem meio confusos...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Feliz, ferozmente feliz

Uma noite, saindo do jornal
passei por uma rua escura deserta e lá vi um homem.
Na verdade um bêbado.

Gritava verdades, verdades boas,
que a humanidade não merece.


Anunciava fantasmas e gritos.

Ele me pareceu irreparavalmente feliz.
Ferozmente feliz.
Imperdoavelmente feliz na companhia de sua garrafa.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O jornalista Bruno Barreto registrou em sua coluna no Mossoroense:

O jornalista e professor Emanoel Barreto está encampando com alunos da UFRN a campanha “Queremos um Jornal”. Para que estudantes da UFRN tenham um jornal laboratório diário. A iniciativa conta com apoio de nomes nacionais da academia na área de comunicação como o professor Alfredo Vizeu.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A federação Nacional dos Jornalistas toma posição contra no golpe midiático. Abaixo, manifesto dos profissionais:

Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação


O conceito de golpe midiático ganhou notoriedade nos últimos dias. O debate é

público e parte da constatação de que setores da imprensa passaram a atuar de

maneira a privilegiar uma candidatura em detrimento de outra. É legítimo - e

desejável – que as direções das empresas jornalísticas explicitem suas opções

políticas, partidárias e eleitorais. O que é inaceitável é que o façam também fora


dos espaços editoriais. Distorcer, selecionar, divulgar opiniões como se fossem fatos não é exercer o jornalismo, mas, sim, manipular o noticiário cotidiano segundoresses outros que não os de informar com veracidade.


Se esses recursos são usados para influenciar ou determinar o resultado de uma
eleição configura-se golpe com o objetivo de interferir na vontade popular. Não se
trata aqui do uso da força, mas sim de técnicas de manipulação da
opinião pública. Neste contexto, o uso do conceito “golpe midiático” é
perfeitamente compreensível.


Este estado de coisas só acontece porque os jornalistas perderam força e importância

no processo de elaboração da informação no interior das empresas. Cada vez menos

jornalistas detêm o poder da informação que será fornecida à opinião pública. Ela
passa por uma triagem prévia já no seu processo de edição e aqueles que descumprem a
dita orientação editorial são penalizados. Também nunca conseguem atingir cargos de

direção que, agora, são ocupados por executivos que atendem aos interesses de

comitês, bancos associados, acionistas etc.


Esse estado de coisas não apenas abre espaço para que a mídia atenda a interesses
outros que não o do cidadão, como também avilta a profissão de jornalista, precariza

condições de trabalho e achata salários. A consequência mais trágica disso é a

necessidade de se adaptar ao “esquema da empresa” para garantir o emprego, mesmo em detrimento dos valores mais caros.


Para avançar nessa discussão é necessário estabelecer a premissa de que informar a
população sobre os desmandos do governo (qualquer deles) é dever da imprensa.

Orquestrar campanhas pró ou contra candidatos é abuso de poder. A linha divisória

entre esses campos é tênue e cabe ao jornalista, respeitando o profissionalismo e a

ética, estabelecer o limite tendo em conta o que é de interesse público.


Não podemos incorrer no erro de instaurar na cobertura de fatos políticos os erros
cometidos em outras áreas, ou seja, o pré-julgamento (que dispensa provas, pois o

suspeito está condenado previamente) e o jornalismo espetáculo (que expõe situações

de maneira emocional para provocar reações extremadas).


A ideia de debater e protestar contra esse estado de coisas resultou na realização
do ato em defesa da democracia e contra o golpismo

midiático realizado no auditório do Sindicato dos Jornalistas. A proposta surgiu em

conversa entre blogueiros, foi assumida pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa
Barão de Itararé, que procurou o Sindicato dos Jornalistas e este aceitou sediar o
evento.

A sociedade sabe que o local ideal para este debate é o Sindicato dos Jornalistas.

Não apenas porque os jornalistas são parte importante nesse processo, mas,

principalmente, pela tradição da entidade em ser um espaço democrático aberto às

diversas manifestações públicas e de interesse social.


O que está em discussão são duas concepções opostas, uma que considera a informação
um bem privado, passível de uso conforme interesses pessoais, e outra que entende a
ação como direito social, portanto, regulado por um “contrato social”,
exatamente como acontece com a saúde ou a educação.

Ter direito de resposta, garantir espaço para que o contraditório apareça,  impedir o monopólio da mídia, tornar transparente os mecanismos de outorga das
empresas de rádio e TV, destinar parte da verba oficial para pequenos veículos,
criar a rede pública de comunicação, regulamentar as profissões envolvidas com a

mídia, não são atos de censura, são movimentos em defesa da liberdade de expressão

e cidadania!


O grupo dos liberais quer, a qualquer custo, impedir que o conceito de direito
social seja estendido à informação. A confusão feita entre liberdade de opinião, de

imprensa, de informação, de profissão e o conceito de censura e de controle público

é intencional. Essa confusão é visível na argumentação utilizada pelo Ministro

Gilmar Mendes para acabar com a necessidade do diploma de jornalismo. O objetivo é

impedir que as ideias por trás das palavras sejam claramente entendidas pelo cidadão

e, assim, interditar qualquer reivindicação popular nesse campo.

A liberdade de imprensa é o principal instrumento do jornalista profissional. Não é propriedade dos proprietários
dos de comunicação. O verdadeiro ato em favor da liberdade de imprensa é
feito em defesa do jornalista e, por consequência, diminui o poder da empresa. O

problema é que, a exemplo do que escreveu George Orwell no livro 1984 quando criou

a novilíngua (que pretendia reduzir o vocabulário, eliminar sinônimos e fundir

palavras para diminuir a capacidade de pensamento), o conceito de liberdade de

imprensa foi virado pelo avesso e, uma vez apropriado pela empresa de comunicação,
passou a diminuir o papel do jornalista obrigando-o a se submeter às engrenagens do
poder empresarial. Não é por acaso que existe a frase, ao mesmo tempo trágica e

engraçada, de que apenas existe “liberdade de empresa”.

Não é por acaso que o debate sobre liberdade de imprensa e democratização da mídia

está presente na campanha eleitoral deste ano. Não é uma briga entre partidos ou

candidatos, é uma questão bastante difundida na sociedade e que exige
posicionamento público das autoridades. A Associação Nacional de Jornais - ANJ
está preparando um código de autoregulamentação para a imprensa que vem,

exatamente, no sentido de fazer algo para impedir que o Estado ou a sociedade

organizada o faça. Lembremos das palavras do escritor Giuseppe Tomasi di

Lampedusa, em O Leopardo, “mudar para continuar igual”.


O debate público precisa ser aprofundado e ele não será feito com preconceitos
ideológicos, mas, sim, a partir de análise apurada da realidade e das necessidades

da democracia que, entendemos, não se concretiza sem o chamado “contrato social” que

regra a atividade humana, impedindo que os mais fortes destruam os mais fracos.


Estamos clamando pela verdadeira liberdade de imprensa, pela ética profissional e

pelo direito do cidadão de informar e ser informado!


Brasília, 25 de setembro de 2010
Federação Nacional dos Jornalistas