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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Todos ao Velho Noroeste

Hoje um amigo perguntou-me hoje se eu não gostaria de "ir para o Velho Noroeste". Quis saber qual o motivo de ir a  tal lugar, que logo supus seja coisa muito distante; e ele me respondeu que o Velho Noroeste é a "terra dos bravos" e que lá eu poderia travar lutas renhidas "contra índios e outros seres abomináveis", levando assim uma vida de aventuras, plena de perigos e outras satisfações ameaçadoras.
Disse-lhe que não considero os índios "seres abomináveis" e que também não gosto de me sentir em perigo. Mas ele insistia: o Velho Noroeste está por ser desbravado, sendo eu a pessoa mais indicada para tanto. 

Quis então saber onde fica esse lugar e ele me respondeu "não sei". Então, como queria que eu fosse para um lugar que ele me indicava, mas sequer sabia onde fica? Respondeu que isso também seria responsabilidade minha e que a História me julgaria pelos meus feitos. Já pensou, disse, você ser o descobridor do Velho Noroeste?

Comecei a me preocupar que a coisa era séria quando ele levou-me ao porto e ali me mostrou um grande veleiro, barco de quatro mastros, e me disse: "Eis a sua embarcação." Repeli a ideia, lembrando que não havia aceito descobrir o Velho Noroeste, mas aí já era tarde. Tipos de má catadura me capturaram, enfiaram na minha cabeça um chapéu de capitão - desses de filme de pirata, lembra? - deram-me uma espada à cinta e a nave partiu. 

Nessa brincadeira, já estou navegado há dois meses. Há pouco o gajeiro me informou que viu terras adiante e mandei que para lá rumássemos. Vejo pessoas vestidas de reluzências, há batuques e cantares. E logo o imediato me confirma: estamos no Velho Noroeste. O barco aporta depressa e descemos a caráter: todos vestidos como velhos marinheiros. Somos tomados em braços e abraços e levados a um grande cordão.

Todos pensam que estamos fantasiados e vimos participar da festa aqui chamada Carnaval. Agora que descobri o Velho Noroeste, daqui não mais sairei. Fui escolhido rei desta festa e aqui para sempre ficarei. No meio da bagunça encontro o meu amigo, que me grita: "Eu não disse que você ia gostar do Velho Noroeste?!!!"


sábado, 18 de fevereiro de 2012

Marlene Bergamo/Folhapress
 Suje o povo. E ele ficará feliz

De repente ficou tudo escuro, mas havia festa.
E todos dançavam vestidos de lama.
Houve quem perguntasse onde estavam as luzes e o brilho
que as festas têm.

E então um louco respondeu: no Brasil é assim: as luzes estão
na alma do povo.
E o brilho está na lama reluzente. Quanto mais o sujam, mais o povo fica feliz.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O tempo não destroi aquilo que ele mesmo ajudou a construir.

O rio turbulento é apenas o motivo para que a ponte que o supera seja mais forte e mais bela. 

Feliz natal.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Veja só que festa de arromba

Foto: Aldair Dantes, Tribuna do Norte
Natal em carne-viva na esbórnia do Carnatal

Mesmerizados: o pesadelo vem depois do Carnatal
Enquanto uns poucos se divertem com o Carnatal, Natal está em carne-viva: o Auto do Natal foi suspenso por falta de dinheiro da Prefeitura para custear o evento. Para completar, ouvi na Rádio Universitária FM que o funcionalismo municipal está em pé de greve: não foi pago o décimo-terceiro mês, esse abono providencial que ameniza a vida do trabalhador no fim de ano.

Ao que parece vivemos um sonho louco que lembra aquela tela de Salvador Dali, uma que tem por nome a esquisita palavra "Mesmerizado", isto é: enfeitiçado, hipnotizado.

Retraduzindo para o nosso caso: uma alucinação coletiva em que se comemora de alguma forma a entrada de Natal na fase preparatória da esbórnia da Copa do Mundo, se festeja não-sei-o-quê no Carnatal, digo Carne-Viva, e se escarnece do funcionalismo público que não recebera seu dinheiro até hoje de manhã.

Desassizados e  insensatos de todos os matizes reúnem-se para festejar o descalabro pago com o dinheiro público. Pelo menos 1.200 policiais trabalham no Carne-Viva toda noite. São substituídos dia seguinte. Essa tropa falta nas ruas, becos, esquinas e espeluncas. Falta polícia, falta, falta tudo. E o povo no Carne-Viva tem a pipoca para se enganar: gente empilhada atrás de um trio elétrico. Gente que no Carne-Viva nada mais  que carne-seca.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Réveillon Insônia Bar 2010/2011: venha abrir o Ano Novo conosco

Reservas de mesa: 9609-9201/9990-9451
 
Cardápio de mesa para 4 pessoas - R$ 120,00

Pães e antepastos
1 Tábua de Frios
1 Tábua de Rosbife
1 Camarão Aperitivo
2 Filet Aperitivo
Caldo
1 vinho tinto
8 latas de cerveja Skol
1 Champagne para o momento da virada

Cardápio de mesa para 6 pessoas - R$ 160,00

Pães e antepastos
1 Tábua de Frios
1 Tábua de Rosbife
2 Camarões Aperitivo
3 Filet Aperitivo
Caldo
1 vinho tinto
12 latas de cerveja Skol
2 Champagnes para o momento da virada
 
Para mesas com crianças há possibilidade 
de servir hotdog e refrigerantes 
mediante substituição de produtos 
do pacote, com acerto prévio.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ripa na chulipa! E o povo suava e dançava... Ah! como dançava
Emanoel Barreto

Certa vez, como repórter, eu cobria a inauguração da sede de uma entidade assistencialista. Era um sábado de sol forte. Um sol que, dependendo da situação, poderia ser tido por uns como caliente e estimulante, charmoso, um sol com gosto de Jamaica. Outros, quem sabe, o chamariam de tórrido, ou como já se usou dizer, capaz de provocar um calor senegalês.

E o povo chegando, chegando, chegando, se aglomerando numa grande mancha morena e suarenta. E vieram as tais autoridades civis, militares e eclesiásticas. Os políticos falaram, os grandes empresários jactaram-se do grande serviço prestado à comunidade. Enfim, todos, cada um dos falantes cumpriu o seu papel, enaltecendo o feito, ali mostrado em cal, pedra, cimento armado e sol, mas muito sol.

Onze e meia da manhã e começou a circular cerveja servida em copo de plástico, tira-gostos grosseiros vasculhavam até o céu-da-boca das bocas famintas. Alegria, a malta suava e vibrava. Nisso, uma banda, que naquele tempo era chamada de conjunto musical, ataca seu som vibrante e seco, jogando no ar acordes vulgares.

Um sorriso enorme, um sorriso daqueles do gato risonho de Alice-no-País-das-Maravilhas achegou-se a todas as bocas: as alegres, as desdentadas, as bocas das moças bonitas e pobres. Um sorriso de ocasião, plenamente compatível com tão vulgar acontecimento.

Eu e um colega jornalista estávamos numa espécie de mezanino dali observando a cena, quando ele comentou: “Veja, Barreto, como é fácil ter o povo na mão. Como é fácil espremer alegria dessas pessoas.”

Era já então meio-dia. O sol fez rebrilhar seus melhores e mais fortes raios, inundando aqueles corpos de suor e expandindo, em cada músculo, em cada parte daqueles corpos que dançavam aquela festa na verdade tão rude, um sentimento de satisfação braçal, embora maquiada de bons pensamentos de promoção social.

E aquele povo dançou, ah!, como dançou. Dançou até enxugar de si todo aquele convescote. Feito sob medida para os necessitados de dignidade, mas alimentados a pão e circo.