De cousas altas
e grandemente indomáveis
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Ontem
estiveram em minha tipografia e me convidaram a participar de cousas altas e
grandemente indomáveis. Quis saber o que são cousas altas e grandemente
indomáveis, mas me disseram que não sabiam. Por isso mesmo, insistiram, era
necessário a minha participação, pois, sendo ignorantes eu e eles, as cousas
seriam como deveriam ser: altas e grandemente indomáveis, somente realizáveis por
pessoas que não sabem para o que trabalham nem o que estão fazendo.
Partimos
imediatamente em um bergantim, que, como todo bergantim, era embarcação esguia,
tinha dois mastros e velas latinas, ou seja: triangulares. Embarcação rápida e
forte.
Após
dias e dias de mar aberto, tempestades, calmarias e um início de motim controlado
à custa de rum para acalmar os espíritos, chegamos a Isla Mar. Lá aportando,
fomos contratados como derrubadores de muros. Trabalho em ação contrária à dos
construtores de muros.
Toda
uma nação, destarte, era empregada em tais serviços: uns desfaziam o que os
outros erguiam, perfuravam, cavavam ou desenvolviam. Afinal, após anos e anos
de trabalho intenso, toda a Isla Mar estava destruída, tal a
eficácia dos construtores e destruidores.
Isto
posto, os governantes reuniram-se em monumental conciliábulo e decidiram: o
país havia sido destruído pelo povo e assim todo o povo seria levado a países
remotos e pouco recomendáveis,
considerando-se aquilo ato de salvação nacional dada a incompetência do povo
ao qual havíamos, eu e meus loucos comparsas, sido anexados.
Assim
sendo, e como parte integrante do povo, fomos mandados, como
punição, a um país ignoto. Quis a sorte que voltássemos à nossa terra. Aqui chegando deparamo-nos
com governantes que, a exemplo de Isla Mar, também estão a desenvolver cousas altas e grandemente indomáveis.
Dizem
que tudo chegará a bom termo e já me chamam a integrar o batalhão de derrubadores
de árvores e outros vegetais. Devo sair bem depressa, pois a turma da demolição
de casas já está destruindo as paredes da minha morada, enquanto outros, ato contínuo, cavam em seu lugar um grande buraco.
O objetivo, se afirma, é chegar ao centro da Terra onde esperam encontrar grandes tesouros.