E aí a moça
do TRE me perguntou:
“O senhor
sabe assinar?”
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E ali estava eu: cumprindo com o
dever de fazer meu registro biométrico eleitoral, curvando-me à obrigação de
votar. Eu tinha vindo contra a vontade: voto deveria ser um direito; não uma
obrigação, uma servidão, uma espécie de débito com a autoproclamada Justiça Eleitoral.
Mas, afinal e lamentavelmente eu
estava lá: em meio a pessoas calorentas, afogueadas, quase desesperadas para
registrar numa maquininha reluzente suas impressões digitais.
Era grande o falariço: “Essa fila
não anda?”, “já começaram a atender?”, “aquele homem está passando na frente
das pessoas?”, era o que mais se ouvia. Respirei fundo. Mais que isso: respirei
pausadamente, tentei desligar-me daquela pobre, inútil e passageira indignação
e concentrei-me na espera.
E o fiz da seguinte maneira:
fiquei sentado como se a espera não existisse; ciente de que tudo ali era
passageiro e breve, uma espécie de infrutífera tardança. Calma, rapaz; calma.
Fiquei assim: desligado, olhar
perdido, pensamentos amorfos. Não valia a pena mesmo a mais mínima irritação, a
mais ínfima raiva. Algum tempo depois fui chamado. Pensei comigo: “Viu como foi
bom? Nem deu para notar a demora.”
Dirigi-me a um guichê. A moça do
atendimento era simpática, atenciosa. Desculpou-se por não estar usando luvas plásticas
para manusear meus dedos durante a coleta das impressões digitais: “Eu devia
estar usando. Mas minhas unhas são grandes, né? E eu tenho alergia a essas
luvas...”
Respondi que tinha problema não. E
ela perguntou: “O senhor ainda vota?”
Sou um velho a macambúzio lobisomem.
Tão macambúzio que certamente a minha presença chamara a atenção da jovem. E, daí
a supor que seria eu alguém livre da canga do voto fora um passo. Perfeitamente
compreensível.
“Sim, ainda voto”, lamentei.
Então, ela pegou minha mão
direita e anunciou: “Vamos ver se o senhor ainda tem impressões digitais.”
Ato contínuo pegou a mão direita,
pressionou meus dedos um a um sobre a maquininha; fez o mesmo com a mão esquerda,
e constatou-se: eu tinha! Eu tinha impressões digitais! Já pensou? Meus
surrados dedos ainda preservavam o condão de deixar marcas no mundo.
Ela disse: “Ótimo!”
E eu: “Ótimo!”
Depois, a foto: “Eu vou ajeitar a
máquina”, informou. “Fique pronto, bem ajustado que eu aviso quando vou tirar a
foto.”
Fiquei parado como um
prisioneiro, daqueles que vão ser identificados para a ficha policial. Durou
pouco tempo, mas deu a impressão de terem se passado uns sete séculos. Mas então
ela, pá!, fez a foto.
E veio a pergunta final: peremptória,
augusta, definitiva: “O senhor sabe assinar?” – o leitor, pessoa bondosa, que
talvez acompanhe este coranto eletrônico com alguma regularidade, sabe que sei
ler e escrever. Com dificuldade, mas conheço tais pobres e humildes ofícios.
Mas a moça do TRE, que nunca
havia me visto, não tinha qualquer razão para supor que sei redigir meu nome.
Felicíssimo por saber ler e escrever
festejei: “Sim, sei assinar. Com alguma dificuldade, mas sei, sim, assinar."
Ela deu-me uma dessas tábuas eletrônicas,
semelhante a um tablet. Mandou que assinasse meu nome. E então no quadro
luminoso registrei-me em letras e horrendos garranchos perante a Justiça Eleitoral. E estava
tudo terminado. Alívio.
“Pronto! Estou livre!”, gritei
dentro de mim.
Ela sorriu. Eu agradeci, e não sei
de onde me veio a extravagante vontade de saber: “Será que dava para eu
assinar de novo? Só para melhorar a letra, sabe?”
Ela respondeu: solícita, imperial,
sorridente e definitiva: “Não. Se assinar de novo vai ficar muito pior...”