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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Chuva menina na manhã nascente

Fui acordado por uma chuva menina que resolveu não sei porquê brincar nos telhados de Natal de manhãzinha. Pedi que ela ficasse o dia inteiro e me contasse coisas de nuvens, de pássaros e das travessuras que faz escondendo e atrapalhando o sol quando ele quer enfeitar as praias e as mulheres bonitas, os barcos e as ondas.


http://www.google.com.br/imgres?q=chuva&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-
Mas ela disse que não, que tinha de passar lá do outro lado do Atlântico: compromisso com uma linda praia d´África, onde elefantes e leões às vezes aparecem e se metem na água com estardalhaço.

De lá, linha reta à Europa. Passar em Portugal, ouvir um fado, girar até Londres se misturar com o fog e depois lavar a imponência do Coliseu, Roma. Em seguida... bom , disse que não sabia. Mas ia dar uma volta ao mundo, com certeza, penetrando na escuridão temerária da jângal indiana; tigres, já pensou?


No fim a chuva partiu, mas garantiu-me: qualquer dia volta bem cedo e vem molhar minha grama. Deixou-me uma gota de luz de presente e uma imagem de esplendor no ar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A cidade e o rio: poema visual de João Maria Alves


O olhar do mestre alteou-se até não sei aonde e lá de cima viu Natal, a torre da igreja velha, os telhados rebatendo em barro a luz do sol. Ao fundo o Potengi e os matos e umas casas escondidas nos meios dos matos e uns navios descansando - uns escorados nos outros. Natal.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A cidade, cidadão, são as pessoas

Ontem houve um minúscula mobilização contra o aumento das passagens de ônibus. Isso se deve a uma coisa chamada indiferença: ausência de conscientização quanto à cidadania explorada. O indiferente coonesta sua própria exploração seja porque se acostumou com a canga que já não lhe pesa tanto, seja porque delega aos Poderes a resolução de seus problemas. E os Poderes, como se sabe, estão apodrecidos e letárgicos, seus inquilinos distantes e impregnados, embebidos, untados de preguiça física e moral para o exercício de ação em prol da cidade. Cidade, aqui, em seu sentido de polis, de comunhão de intenções e propósitos.

A cidade, meus amigos, são as pessoas, a relação invisível que as une, o Conselho, o coletivo. Quando não há essa união não há a cidade. Consequentemente, não há cidadania. E assim, que falem o silêncio e os que se arrogam, pela concessão que o silêncio lhes dá, de ser portadores da voz que se calou.

E como a voz se calou tudo já está dito, consagrado e sagrado à condição de coisa feita, acabada e perfeita. Vivemos o melhor dos mundos. Na Foto do Portal Nominuto, de autoria de César Augusto, alguns dos poucos manifestantes. 

Sim, pelo que vi passando nas imediações do Midway, havia, além dessa minúscula manifestação, a presença do Poder. O Poder compareceu, não se omitiu por completo. Havia policiais militares pesadamente armados e um enorme rotweiller...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=20204364&postID=4381591832936888379
Dilma toma chá, um índio vem da costa e Marina troca natureza pela Natura
Emanoel Barreto

A história republicana brasileira tem na sua vida partidária uma das mais sólidas manifestações de que tipo de democracia é por aqui perpetrada: as elites, aqui compreendendo-se o termo em sentido o mais largo possível, sempre se conluiam a fim de manter, mesmo que em processo de mutação, um determinado status quo. Aliás, a mutação, o rearranjo de forças é que garante a sustentação do establishment.

Pego três exemplos recentíssimos, fortes, ainda bem vivos e pulsantes:

1) O PSDB, que nas aparências formava um ser político monólito ao DEM, de repente apareceu com um candidato a vice em chapa puro-sangue. De repente as aparências ruíram e os demos entraram em ação. Resultado: o senador Ávaro Dias, ungido de última hora à condição de missionário ao lado de Serra é retirado do proscênio para ceder lugar a um político de nome esquisitíssimo: Índio da Costa, ilustre desconhecido de tamoios e tupiniquins, caetés e tupis. Agora chega para tocar a inúbia.

Resumo da ópera: de repente, não mais que de repente, surge um bravo guerreiro para trazer paz à maloca. E os demos e tucanos forçam a aparência de que tudo está, sempre esteve, em ordem e que todos são, realmente, homens e mulheres que se confiam mutuamente. Não são.

2) A senadora Marina Silva, campeã da causa verde, respeitada pela sociedade civil de todo o mundo, quem diria, caiu nas malhas da grande empresa, aliando-se ao dono da Natura. Esqueceu a floresta pelas cosmética indicação do magnata Guilherme Leal. Nada mais desleal para quem nela confiava.

3) Quanto a Dilma, um registro da Folha é bastante explícito para mostrar a quantas anda a coerência partidária. Reuniu-se anteontem com um grupo de socialites, a fina flor da burguesia de São Paulo, atendendo a convite do empresário Abílio Diniz, dono da rede Pão de Açúcar.

Ou seja: passou uma boa parte daquela tarde tricotanto com mulheres riquissímas e estúpidas. Ou seja: em processo de rendição aos que têm poder. Diz a Folha que todas saíram do encontro "encantadas" com a candidata - mas votando em Serra. Fica a pergunta: o que é isso, companheira?

O que pretendo dizer com tudo isso? Não, não estou pregando a revolução, o grito às armas contra o capital e seus efeitos colaterais perversos. Nada disso. Apenas enfatizo a velha e conhecida cantilena dos políticos, que se apresentam como salvadores da pátria etcétera e tal.

Alguém pode argumentar que se trata de "pragmatismo", guerra de posição, ocupação de espaços em favor de causa maior. Pode até ser, mesmo que seja só um pouco - pelo menos no caso de Marina e Dilma.

Mas é também, é como é, a avoenga e poderosa reprodução do poderio das elites - Marina e Dilma são uma forma desse elitismo, elite no sentido de pertencimento ao Poder - na perpetuação de um determinado quadro da política brasileira que não visa reformas essenciais na estrutura, na conjuntura e na superestrutura.

Não há uma reforma da forma mentis, do pensar dos políticos e dos seus intentos. Afinal, desde a ágora, o discurso, a sedução do outro, a argumentação, a retórica, têm definido os rumos da Cidade. Dizer, não quer dizer fazer.

E pior, nem todos os mares nos levam a Ítaca.