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Emanoel Barreto
Quando a Tribuna passou para offset, Redação dirigida pelo gênio impulsivo, criador e instigador de Miranda Sá, velho homem de luta, eu seu aprendíz ainda hoje, fiz uma matéria com mendigos. A pauta que discutimos tinha a seguinte meta: estabelecer se a mendicância era um legado de miséria de geração em geração. Ou por outra: o que leva alguém a ser mendigo, se não fosse assim.
E atirei-me a andar pelas ruas. Da Ribeira e do Centro. Das Rocas, Quintas, Alecrim, Guarapes... Um depoimento impressionou-me especialmente: um pedinde que encontrei sentado, recostado a um muro sujo numa daquelas constrções velhíssimas da Ribeira.
Vestido de forma deplorável, roupas em trapos, sapatos rasgados, tinha a seu lado um saco enorme e, é forçoso dizer, imundo. O chapéu à cabeça era uma massa informe. Fiz como sempre faço quando preciso entrevistar pessoas em situação marginal: agi como ele e sentei-me a seu lado.
Ele estranhou, mas demonstrou logo a seguir entusiasmo, quando percebeu-se ao lado de um jornalista. Afinal, estar com um repórter significa entrevista, valorização de quem vai ser entrevistado, esse é o senso comum até mesmo entre os homens reduzidos a andrajos.
Conversamos bastante, até que veio a pergunta: "O senhor é mendigo desde quando? Seu pai também era mendigo?" Nesse momento o indigente revelou sua alma cheia de dignidade e respeito próprio. Para mim, algo realmente inesperado, vindo de alguém com nenhuma instrução: "Eu num sô um mendigo. Peço irmola mas num sô mendigo. Eu num róbo. Eu sô um home de bem."
* Miranda foi elogioso comigo. Publicou a matéria sob o título "Levantada a sociologia do mendigo".
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Para pensar: "Apenas duas coisas no universo são infinitas: o próprio universo e a ignorância dos homens" - Albert Einstein
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ZOORÓSCOPO
BOI - Eis um zoosigno dos que se resignam ou se tornam indiferentyes: por temperamento no primeiro caso, por escolha no seguinte. O boiano é forte, tem corpo enorme, capaz dos maiores esforços como se fosse esforço nenhum. O resignado sofre o peso da dominação a que escolheu se submeter. O outro, só olha o mundo. E continua. Numa espécie de cinismo sonolento.