sábado, 19 de setembro de 2009

"Eu sou um homem de bem"
Emanoel Barreto

Quando a Tribuna passou para offset, Redação dirigida pelo gênio impulsivo, criador e instigador de Miranda Sá, velho homem de luta, eu seu aprendíz ainda hoje, fiz uma matéria com mendigos. A pauta que discutimos tinha a seguinte meta: estabelecer se a mendicância era um legado de miséria de geração em geração. Ou por outra: o que leva alguém a ser mendigo, se não fosse assim.

E atirei-me a andar pelas ruas. Da Ribeira e do Centro. Das Rocas, Quintas, Alecrim, Guarapes... Um depoimento impressionou-me especialmente: um pedinde que encontrei sentado, recostado a um muro sujo numa daquelas constrções velhíssimas da Ribeira.

Vestido de forma deplorável, roupas em trapos, sapatos rasgados, tinha a seu lado um saco enorme e, é forçoso dizer, imundo. O chapéu à cabeça era uma massa informe. Fiz como sempre faço quando preciso entrevistar pessoas em situação marginal: agi como ele e sentei-me a seu lado.

Ele estranhou, mas demonstrou logo a seguir entusiasmo, quando percebeu-se ao lado de um jornalista. Afinal, estar com um repórter significa entrevista, valorização de quem vai ser entrevistado, esse é o senso comum até mesmo entre os homens reduzidos a andrajos.
Conversamos bastante, até que veio a pergunta: "O senhor é mendigo desde quando? Seu pai também era mendigo?" Nesse momento o indigente revelou sua alma cheia de dignidade e respeito próprio. Para mim, algo realmente inesperado, vindo de alguém com nenhuma instrução: "Eu num um mendigo. Peço irmola mas num mendigo. Eu num róbo. Eu um home de bem."

* Miranda foi elogioso comigo. Publicou a matéria sob o título "Levantada a sociologia do mendigo".
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Para pensar: "Apenas duas coisas no universo são infinitas: o próprio universo e a ignorância dos homens" - Albert Einstein
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Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=Vm4LoTmsSh8 - Bruce Springsteen, em Blowin in the wind.

ZOORÓSCOPO

BOI - Eis um zoosigno dos que se resignam ou se tornam indiferentyes: por temperamento no primeiro caso, por escolha no seguinte. O boiano é forte, tem corpo enorme, capaz dos maiores esforços como se fosse esforço nenhum. O resignado sofre o peso da dominação a que escolheu se submeter. O outro, só olha o mundo. E continua. Numa espécie de cinismo sonolento.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

E partiu a voz lindíssima
Emanoel Barreto

Acabo de ler na Folha Ilustrada que morreu anteontem Mary Travers, do magnífico trio Peter, Paul and Mary. Estava com 72 anos e tinha leucemia. Era intensamente linda quando jovem. Cabelos reluzentemente louros e voz prateada de agudos leves. Eles, o trio, eram simplesmente intensos, na calma grandiosidade de suas vozes doces. A eles, uma dose de uísque. A você, o endereço, no Youtube, de "500 miles": http://www.youtube.com/watch?v=xbg2wkVDWTs
Um violão de ouro, ou a vida triste de um pobre cantor
Emanoel Barreto

Ontem, fiquei de falar um pouco sobre a Confeitaria Delícia. Aos sábados, muitas vezes fui lá. Tomar cerveja, conversar e apreciar um mural feito por Newton Navarro. Às vezes sozinho, muitas outras em companhia de um tarimbado e duro editor de polícia, amigo que conhecera ainda muito jovem, nos anos 1960.

O jornalista policial era um tipo amargo, tinha umas tiradas cruéis e pessimistas sobre a vida. No fundo, ele tinha alguma razão. Eu mesmo começara minha carreira pelas delegacias e celas que recolhem do submundo ao cércere aqueles que a sociedade a ali os destinou. O meu amigo costumava dizer: "Estou morto por antecipação. " E lá vinha com citações de Sartre e contava casos terríveis da miséria humana com que convivia. Coisas que eu também conhecia. Ossos do ofício...

Então, um certo começo de tarde sábado, nos entra pela porta da Delícia um violonista, boêmio e cantor de solidões e desesperos. Como a confirmar o pessimismo do amigo, sacou do violão canções tristíssimas, valsinhas dolorosas. Depois, passou aos sambas clássicos e cantou:

Sei que amanhãQuando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho
A mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

A composição é de Nelson Cavaquinho e Nelson de Brito. A parte que se identificava com o violonista era exatamente a que diz "Se alguém quiser fazer por mim/Que faça agora." E por quê? Por um motivo simples: o artista perambulante se dizia primo do governador do estado. Que, lamentava, o teria esquecido por completo, deslumbrado com o poder.

Daí a sua mágoa, a sua dor: não ser lembrado. O músico cantou e cantou mais e a tarde se encaminhou para o seu fim. O cantor levantou-se, pegou o violão e saiu por aí, trocando pernas. Era como uma solenidade decadente ver aquele homem talentoso, anuviado pelo álcool, nutrir em sua alma tanta angústia.

Levantamo-nos também, eu e o amigo e saímos. À porta do bar, ele não deixou escapar a oportunidade: "Tá vendo, Barreto? Assim é a vida. Estamos todos mortos por antecipação. E depois, de nada adiantará um violão de ouro."
Não tive como não concordar...
ZOORÓSCOPO

NAMBU - Os nambuínos são pessoas desorientadas, saltitantes, dão a nítida impressão de que estão perdidas. São aquelas que nunca fazem nada direito; ou se fazem, não completam o serviço. Você já deve ter convivido com alguém do tipo. Mas, às vezes, Nambu quer ter o destino de quem nasce em Águia e quer voar. Salta, bate as asas, voa, voa baixo mas voa e é só. Depois, o fracasso e a frustração.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

"Muito prazer, eu sou uma puta"
Emanoel Barreto

Hoje, conversei com meus alunos-colegas de jornalismo impresso sobre uma crônica que publiquei aqui, há tempos. "Helenita, Helenita", era o título. Como a crônica do cego de ontem, também se passava na Ribeira, velha estação rodoviária.

Ali vi e vivi muitos momentos com as gentes e a vida. O tempo e seus descaminhos. Agora, lembro-me de outro caso. Uma situação tão inesperada como a do cego e da louca que chamava por Helenita, sua amiga invisível. Chovia um pouco. O relógio pendendo já para a meia-noite.

Uns poucos desocupados andavam a esmo. Uma mulher, meio bêbada, aproximou-se de mim sem que eu a visse. Meus olhos estavam ocupados com as páginas da Folha de S. Paulo, único interesse para um repórter já cansado de mais de dez horas de trabalho. No jornal onde eu trabalhava, a Tribuna do Norte, as coisas ficavam muito centralizadas em mim e eu acabava assim: na Ribeira, esperando um ônibus, altas horas.

Fazia por gosto, pois deixava o carro em casa. Pois bem: a mulher chegou, puxou o jornal das minhas mãos. E da sua boca bêbada disse: "Muito prazer, eu sou uma puta." Repórter é um bicho que com o tempo fica amestrado pelo mundo. E aprende a não se surpreender. Minha reação foi a mais natural possível: "Muito prazer, dona puta."

Esse diálogo surreal terminou logo. E aí eu fui surpreendido. A mulher... agradeceu: "Muito obrigado. Até hoje, ninguém tinha me chamado de dona. Se sou dona, sou mulher de respeito." Soltou o jornal em minhas mãos e saiu dizendo alto: "Eu sou uma puta. E se sou uma puta, sou uma mulher de respeito."

Abraçou-se com um tipo malandro que ia passando, seu conhecido certamente, e perdeu-se lá para os lados da Confeitaria Delícia, um lugar de que falarei amanhã.

ZOORÓSCOPO

PATO - Quem é desse zoosigno, prepare-se: os patianos são pessoas bondosas, pessoas de bons gestois. São os que os pilantras de todos os níveis chamam de otário. Os de Tubarão e de Percevejo adoram explorar. São, os patianos, geralmente encarregados dos pequenos ofícios, trabalhadores e prestativos. Não é incomum que colegas e chefes tirem deles o máximo, repassando-lhes tarefas as mais chatas. E ainda são alvo de zombarias. Os de Pato devem procurar homens ou mulheres de Beija-flor ou Formiga. Formarão casal perfeito, pois receberão carinho e apoio. Beija-flor é zoosigno de quem é amoroso e delicado. Formiga é trabalhadora e não explora ninguém.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Brincando com o povo
Emanoel Barreto

Olhando o quadro nacional, às vezes dá para pensar que o povo é apenas uma diversão para os políticos. Brincam de política quando, em campanha, fazem promessas que jamais serão cumpridas. Brincam também quando, candidatos a governador ou prefeito, afirmam claramente que apenas a presença do indivíduo no cargo fará coisas maravilhosas e chegaremos a uma idade fabulosa de feitos e realizações.

Em países de frágil democracia como o nosso, onde a sociedade civil vive uma espécie de inércia, fica assim estabelecida a cultura política personalista e o líder passa a ser fiador do que diz e promete, mesmo que saiba que jamais cumprirá o que for assegurado.

O aparelho estatal fica à disposição do mandante da hora. Ao Estado são agregados parentes, afilhados, apadrinhados e quejandos, tudo para satisfazer aos apetites do grupo no poder. O judiciário, segundo as coisas de jornal da grande imprensa, continua com a prática do nepotismo, o mesmo se dizendo dos dois outros poderes.

Afinal de contas, o povo passa a ser um fantoche que é obrigado a votar de dois em dois anos, sabendo que continuará tudo na mesma. Ou seja: os políticos não são eleitos, eles se fazem eleger, o que é bem diferente.

ZOORÓSCOPO

RINOCERONTE - Rinocerontinianos, acalmem-se, pois o tempo exige cautela e força. Força todo rinocerontiniano tem e muita, mas uma força descontrolada, sem direcionamento. Recomenda-se a homens nascidos sob esse signo casamento com mulheres nascidas em ovelha. Há grande possibilidade de dar certo, uma vez que as ovelhinianas tendem a ser calmas e transmitem esse sentimento. A força bruta se domestica e pode se transformar em grandes realizações.