sábado, 23 de janeiro de 2010


Silêncio intenso. É Você.
Emanoel Barreto

A Mulher é Ela que me chega
no momento de combate terno
e intenso.

Que se imerge em coisas
que só Nós podemos entender.

Faquinha: o menino que nos faz ter medo
Emanoel Barreto

A charge do Glauco, na Folha Ilustrada, não é humor. Não, não é. A charge jamais foi humor. É editorial, é ponto de vista. Tanto mais crítica quanto mais crítica seja a situação sócio-política sobre a qual se remete. Se o leitor quiser aceitar, chega ao lamento.

A rigor Faquinha é uma vítima. Cumpre, no universo delimitado pelos quadrinhos, sua sina de ser brasileiro, pobre, nascido em metrópole que tem na exclusão seu ponto máximo e seu fulcro. Perdão pelo "fulcro". Parece coisa de processo, coisa de linguagem de advogado. Mas foi o que me ocorreu.

Mas, vendo bem, acho que acertei. Faquinha é um "criminoso", é um "menor". Está envolvido pela malha da "justiça".

E "menor" é o termo jurídico-assistencialista com que se define a condição da criança desassistida, filha de família humilhada, faminta, desfeita, onde o álcool e outras drogas são o cotidiano.

Tecnicamente, o nome do personagem é perfeito. "Faquinha". Sugere agressividade, mesmo que agressividade pequenina, mas, mesmo assim, agressividade, fervor ferino de quem, de alguma forma se percebendo excluído - pela fome que sente, por não ter nada -, parte para a agressão.

Faquinha é esse brasileirinho malvado, dependende de valores desvirtuados, viciado em roubar, furtar, ofender, ferir, bater. Desrespeitar a lei e atacar até mesmo outros inocentes: o trabalhador, o assalariado, a pessoa de classe média.  É esse o seu mundo, como é esse o mundo de muitos outros faquinhas.

Esse é o Brasil. Que vivemos e sentimos. Quer dizer: nem todos. Os acima-da-lei estão impunes, empunhando seus mandatos e seu dinheiro. E o que falta nas famílias pobres garante que teremos, não sei por quanto tempo, muitos e outros "Faquinhas."

Triste, né?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010




Thiago Felipe
Terrível mundo blue
Emanoel Barreto

Não há justiça ou bem ou lado bom.
Não é justo alguém ter direito a tudo. De ser dono de
uma empresa de aviação e o outro não ter
direito a comer um pão.

Não já grandeza em saquear o inferno.
E trazer ao mundo tão torpe festim.

A loucura chegou há tempos velhos
e as lágrimas log se fizeram foices - ferinas, firmes e ferozes.

O massacre dos inocentes é coisa do comum,
mas não é por ser comum que deve ser normal.

E não há normalidade quando o gesto humano
é só intensa besta
que transforma a tola humanidade
no esgarçado sudário que vestimos.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



João Miguel Junior/Tv Globo
A urina da bela
Emanoel Barreto

A Folha Online registra: a atriz Alinne Moraes, 28,está internada no Rio, na clínica São Vicente, na zona sul da cidade. O hospital informa que ela está com infecção renal e não há previsão de alta.


Alinne é protagonista da novela "Viver a Vida", da Globo. Ela interpreta a modelo Luciana, que ficou tetraplégica após um acidente de ônibus.

Ontem, a atriz se sentiu mal durante as gravações da novela. Ela foi atendida no Projac, o estúdio da Globo, e terminou de fazer suas cenas.

Já em casa, Alinne continuou sentindo dores e procurou a clínica, segundo sua assessoria de imprensa. A atriz fez alguns exames, que constataram a infecção renal, e continua internada por precaução.

De acordo com a Central Globo de Comunicação, Manoel Carlos, autor de "Viver a Vida", vai fazer com que a personagem Luciana sofra de infecção urinária para que a atriz possa ficar o tempo necessário afastada das gravações.
.....
O sistema de mídia, desde que constituiu-se como tal, sempre elevou aos níveis do Olimpo pessoas, especialmente artistas, como se diferentes fossem do comum dos mortais. Isso porque é lucrativo ter pessoas icônicas povoando o imaginário coletivo bom para o sistema. Dá lucro.

Com isso, fica sugerido que são pessoas especiais, até que a morte, ou doenças, os apresentam em toda a sua fragilidade. O que, aliás, é o comum na espécie humana, claro. Quando isso acontece, a doença também é apresentada como algo extraordinário, já que atingiu uma pessoa extraordinária.

Infecções urinárias acontecem todos os dias. Nem por isso os comuns, os cotidianos são alvo de atenção midiática. É que o sistema funciona de forma perversa e ganha até mesmo quando seus ícones, sucumbindo à condição humana, se mostram falíveis e fracos. Sua dor é compartilhada socialmente e gera expectativas: "Quando ficará curado?"

A farsa da mídia continua a lucrar, mesmo em nosso vale de lágrimas.









 Luiz Lhacer
Deixo com você este poema de Pablo Neruda. (EB)

Angela Adonica


Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.


Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.


http://www.agenciabrasil.gov.br/media/imagens/2007/08/01/1400AC0090.jpg
O jeitinho de Gabeira
Emanoel Barreto

Transcrevo texto do Blog do Fernando Rodrigues, comprovando o que é a lamentável cena política brasileira, um caldo de cultura que chega ao nível do sórdido. Nas palavras do jornalista encontro a incoerência do deputado verde Fernando Gabeira, que se apresenta à cena política como vestal. Você lê. Abaixo, eu comento. Veja só:

PSOL desiste de Marina e lança candidato próprio

O PSOL abandonou oficialmente a pré-candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência. A decisão foi anunciada hoje (21.jan.2010) pelo Secretário Geral do partido, Afrânio Boppré, após reunião da direção do PSOL em Brasília.

De acordo com Boppré, o principal motivo para o racha foi a declaração do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) que em 12.jan.2010 disse que poderia se candidatar ao governo do Rio por uma aliança PV-PSDB. A aproximação de Gabeira com PSDB e DEM no Rio motivou o PSOL a desistir da aliança nacional e abandonar a pré-candidatura de Marina Silva.

Abandonadas as negociações com o PV, uma corrente do partido, da qual fazem parte a ex-senadora Heloísa Helena e a deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS), lançou o nome de Martiniano Cavalcanti, presidente do PSOL em Goiás, como pré-candidato à presidência.


Martiniano disputará a indicação do partido com outros dois pré-candidatos, o ex-deputados Babá e Plínio Arruda Sampaio. A candidatura oficial será lançada na convenção nacional do PSOL no dia 11 de abril, no Rio. A expectativa é de que o peso de Heloísa Helena garanta a indicação de Martiniano Calvanti como candidato oficial do PSOL.
.......
Gabeira pratica com desenvoltura o jeitinho brasileiro. É um ex-guerrilheiro agora amaciado, que pratica a diplomacia político-partidária para garantir-se em cena. Pessoas mudam, é claro. Amaduretem, o que é bom. Perdem o sectarismo e passam ao exercício de outros tipos de comportamentos, na vida pessoal e na política, o que pode ser bom.

Mas, praticar um tipo de discurso para o público da TV Câmara e outro nos escaninhos do Poder, é prova  de hipocrisia. Pior que isso, é constatação de que está plenamente inserido no processo político brasileiro, que tem na pequena política, na baixa política, aquela dos corredores e cochicos, acertos e manobras, sua essência e, por isso mesmo, falta de credibilidade.

O pior é que essa cordialidade, essa falta de limites para se chegar aonde se deseja, é algo comum na sociedade brasileira. E, enquanto formos assim, teremos políticos assim.

E o PSOL

O Partido Socialismo e Liberdade não poderia ficar de fora desta análise. representaria no processo a faceta política coerente com seus princípios. São radicais os seus membros. Radicais no sentido de presos às suas raízes e delas não abrindo mão.

Até o momento, o PSOL não constitui uma perspectiva de poder. Nem o será, mesmo a prazo longo, uma vez que seu discurso não encontra eco no social, mesmo que represente os reais interesses desse social.

Sua pragmática está voltada para uma visão de confronto de classes, ou seja, um impasse histórico a ser resolvido conflituosamente. Respeito a integridade de pessoas como a ex-senadora Heloísa Helena. Mas, mudanças pela via do conflito aberto já demonstraram historicamente que não garantem ao povo sua condição de ator protagonista, resultando apenas em ditaduras.


A mentira e a verdade na fotografia
A falsificação do presente
Emanoel Barreto

A foto acima, de autoria do espanhol José Luiz Rodriguez, vencedora prêmio Wildlife Photographer of the Year, foi desclassificada após especialistas constarem que se tratava de animal treinado, habitante de um zooólogico.

Antes da descoberta fora tida como de extraordinária perícia técnica do fotógrafo. Diz a Folha Online, citando declaração de especalista à BBC Brasil, quando a manobra do autor da foto ainda era desconhecida: "A foto, escolhida entre mais de 43 mil concorrentes, foi descrita por um dos juízes como sendo uma imagem que "fala por si mesma - milhares de anos de história estão congelados neste momento executado com maestria. Esta é uma fotografia mais tecnicamente complexa de se conseguir do que alguém possa imaginar".

A falsificação da realidade na fotografia, seja pelo enquadramento, pelo uso de recursos de manobras laboratoriais na manipulações de filmes ou com o photoshop, é uma forma de fraude do real a partir mesmo de uma antiga afirmativa: "Uma foto diz mais que mil palavras."

Afinal, a foto "mostra" o real visível e isso seria suficiente para a sua credibilidade. O ditador Stalin "retirava" de fotos aliados ou subordinados caídos em desgraça, quando a pessoa, na verdade, havia sido riscada do mapa político da União Soviética por morte ou confinamento num gulag. Se não estava na foto não estava no mundo.

A falsificação do presente atende a muitos propósitos e isso interessa, e muito, a todos os que se aproveitam de alguma forma de poder para manipular os demais.

O poder de alguém de mostrar o mundo, figurando-o a seu bel prazer, é algo perigoso porque dá a esse alguém a possibilidade de fragmentar o mundo, dizendo porém que o mundo inteiro está nessa foto.

A representação real do presente




Aqui, na foto de João Maria Alves, demonstração perfeita de captação do momento preciso. Trata-se de composição, verdadeiro texto significando um dado de mundo. Trata-se de momento poético-político, porque mostra o humano, em sua consciência de ser diminuto e perplexo com as dores do mundo, buscando, pelo divino, a purgação de suas angústias sociais.

A mão humana clama o que a mão política, invisível e fria, não atende.

Democracia e neurose obsessiva

Olgária Mattos

Treanscrevo artigo da professora Olgária. Uma reflexão em profundidade sobre o momento que vivemos e sua dimensão midiática e política. (EB)

A idéia de “processo civilizatório” diz respeito ao abrandamento dos costumes e, no Ocidente, surge na oposição gregos e bárbaros. Na tragédia Medéia, de Eurípedes, a oposição entre o grego Jasão e a bárbara Medéia se faz entre o logos ou a palavra racional e o mito ou o irracional.


Irracional são os ritos religiosos com derramamento de sangue humano e, também, o uso do assassinato para decidir conflitos. Assim, quando Aquiles, na Ilíada, quer se vingar do comandante da Guerra de Tróia Agamêmnon - que se apoderou de sua companheira e escrava Briseida - não o mata, mas pronuncia palavras de cólera. O rei ilustre substituía à violência a palavra que se encontra, por isso, na origem da própria civilização.

Civilização e vida civil referem-se ao convívio entre indivíduos, às formas de organização política na polis e, na democracia, à “comunidade dos iguais”. Esta baseava-se em práticas de atenção ao Outro, de estima, respeito e consideração de que nasceram os escritos sobre as “maneiras”, a delicadeza e a graça, como parte da democracia ateniense. Não que os gregos desconhecessem as guerras com outros povos, a guerra civil e o horror dos campos de batalha, mas a política, a filosofia e a tragédia foram construídas por eles como um esforço - nada fácil - e uma barreira contra a violência.

As modalidades de convívio político são tão mais bem sucedidas quanto seus representantes são legais e legítimos. Por isso, na democracia,a noção de autoridade significa mais do que força e poder pois comporta apego aos senhores legítimos e à liberdade. O governante nada faz sem consultar toda a cidade. Não lhe dá ordens, mas pede seu apoio e todos o concedem: artesãos, mercadores, guerreiros, com dedicação alegre e completa. Este remanescente “cavalheiresco” na democracia representativa fazia o servidor igual ao mestre por uma fidelidade voluntária.


A democracia de massa contemporânea é o lugar de uma metamorfose antropológica em que a democracia, onde ela existe, é dominada pelo capitalismo e pela ciência, pelo mercado e pelo especialista que não se ocupa de questões éticas, ambos, mercado e ciência, sucedendo ao declínio da autoridade no mundo contemporâneo. Assim, se Berlusconi se apresenta, na Itália, como um empresário midiático, ele é o “homem sem qualidades”, nada há nele de “ exemplar”, a não ser seu prestígio com as mulheres, sua vida de prazeres e divertimentos. O espectador, como o espetáculo, se apóia em pulsões imediatas, em “estado bruto”, segundo um consumo fugaz e ilusório.

Neste espetáculo total, carregado de informação e comunicação, cada qual seleciona o que lhe apraz, escuta o que lhe convém e acredita no que bem entende. Alimentado pela ideologia do consumo - de bens e de alegrias -,e entretido com seus gadgets,o espectador político é acalentado pela promessa de bem-estar permanente difundida por um “tirano racional”, prestidigitador que promove a beleza,o dinamismo e o sucesso. Diante disso, a angústia do perdedor só pode aumentar e eclode na agressão ao rosto do Presidente italiano.

Na democracia moderna o governante se constrói como alguém que é próximo das massas, como “seu igual e irmão”. Por isso adota a informalidade em palavras e gestos e a promove, operando no espaço público como modelo de pensamento e de ação.

Na neurose obsessiva da igualdade abstrata, não é mais possível diferenciar valores. Dos estudantes que utilizam roupas de festa para ir à escola ao professor autorizado a usar bermudas e havaianas na sala-de-aula, do espancador que atacou com um taco de beisebol a cabeça de um cliente de livraria ao agressor de Berlusconi, das investidas a bengaladas de que foi vítima o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula às pedradas contra o governador Mário Covas nos anos 1990, revela-se que a democracia moderna é “passagem ao ato” e desrecalque generalizado.

Com o fim do simbólico - cuja expressão foi a autoridade do governante, do professor, dos pais, do médico, do sacerdote, as práticas de contenção da agressividade e da violência cedem ao linchamento - físico ou moral - por parte daqueles que decidem, em seu pequeno e frágil ego, eliminar o concorrente idealizado pelo capitalismo consumista e seu tédio espetacular.
(A autora é filósofa e professora titular da USP)



http://jacacarambola.files.wordpress.com/2008/02/300_tv2.jpg
Informação é poder
Emanoel Barreto

A coluna Panorama Político, assinada pela jornalista Ana Ruth Dantas, na Tribuna do Norte, informa:

 A capital do Oeste ganhará um canal de TV aberta. O processo de concorrência já foi deflagrado.


Estão disputando a concessão 12 grupos, sendo dois potiguares, o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado (marido da senadora Rosalba Ciarlini) e o ex-deputado federal Laíre Rosado (marido da deputada federal Sandra Rosado).

O assunto é notícia hoje na coluna de César Santos, do jornal De Fato. Veja a nota:


Concorrência…

Das 24 propostas iniciais para um canal de televisão aberta em Mossoró, apenas 12 continuam no páreo. A outra metade foi eliminada nas duas primeiras etapas, entre elas a TV Princesa do Vale, projetada pelo reitor Milton Marques. A última etapa da licitação está prevista para o mês de março, quando serão abertos os envelopes com as propostas econômicas.

acirrada

Das 12 habilitadas, apenas três são do Rio Grande do Norte: Costa Branca, do grupo InterTV; TV Potiguar, do ex-deputado Carlos Augusto e do empresário Elviro Rebouças; e a TV Resistência, do ex-deputado Laíre Rosado, representado pelo professor Pedro Almeida. As outras nove são de todo o país.
....
Os registros jornalísticos confirmam o aforismo de que informação é poder. Não é à toa que os ex-deputados Laíre e Carlos Augosto Rosado estão na disputa. Representantes de um grupo político-familiar que desmembrou-se em processo de guerra intestina, buscam agregar capital midiático que facilitaria enormemente sua capacidade proselitista naquela região do Estado.

Oficialmente, atores políticos não podem deter controle de empresas de comunicação no segmento TV e rádio. Oficialmente. Na prática, todos sabemos que no Brasil há, por trás de todo sistema de comunicação, interesses políticos bastante ponderáveis.

E mesmo quando TV, rádio e jornal não estão sob controle direto de políticos com ou sem mandato, têm ligações orgânicas com o sistema de mídia. A Rede Globo que o diga. É o Sistema Globo, em seu todo, um poderoso organismo atuante na sociedade civil, mesmo não tendo entre seus diretores alguém com assento em qualquer parlamento.

A concentração de mídia nas mãos de políticos é histórica e traz, não tenha dúvida, perigosas consequências à democracia, uma vez que as vozes dos segmentos despossuídos não se fazem ouvir em sua cotidianidade editorial. A disputa em Mossoró é apenas mais um passo na reprodução desse sistema.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Voltarei a atualizar o Coisas de Jornal nesta quinta. Estou impossibilitado de postar fotos.
Emanoel Barreto

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


O olhar, aquele instante...
Emanoel Barreto

E então aquele olhar chegou e trouxe todos os azuis. E ninguém imaginava que pudesse haver tantos azuis.







Carolyn Cole / Los Angeles Times
Clausewitz vive
Emanoel Barreto

A tragédia do Haiti, passado o impacto inicial e suas consequências mais terríveis, tenderá a ingressar na cotidianidade da vida como coisa consumada. Seja para seus cidadãos, seja para os países que estão se propondo a, no momento, socorrê-los. O grande problema, a sombria indagação é: até quando permanecerá essa ajuda? Até que dia os países centrais contiribuirão para o refazimento daquele povo como sociedade política e quais os interesses que dirigirão sua presença ali.


Uma análise superficial permite uma constatação: com a tragédia, os Estados Unidos, de forma unilateral, assumiram o controle do aeroporto da capital, deixando claro, para quem puder entender, que sua presença ali esconde algo mais que o de simples ajuda humanitéria.


A ação americana cumpre papel tático. Não é preciso ser Clausewitz para perceber isso. A ocupação do aeroporto, sem qualquer consulta à presidência do país e às nações integrantes da Minustah, demonstra à larga o que afirmo. Por que os americanos não se juntaram ao esforço humanitário propriamente dito, optando por deter o controle aeroportuário? Resposta: pelo fato simples de que, com isso, eles detêm literalmente, manu militari, o poder de controlar esse aspecto vital.


A presença americana não se fez a partir da chegada das tropas da Minustah, já que o gigante do norte supunha que a situação do povo haitiano, com toda a sua cruel realidade histórica, seria mantida em fogo brando. Todavia, com o desastre, e com o desmantelamento do já enfraquecido Estado haitiano, os países componentes da Minustah passariam a assumir presença hegemônica, já que em sequência trata-se não apenas de socorrer pessoas desvalidas, mas trabalhar para a reconstrução de uma sociedade e de um Estado.


Obama, desta forma, agiu rápido, determinando a suas tropas essa invasão em nome de um socorro humanitário, quando, na verdade, estas atuam na preservação da presença americana no Caribe. O quadro permite a suposição de que os Estados Unidos vieram para ficar, tendo a seu favor a desculpa da "ajuda humanitária". Com isso, preservam sua situação hegemônica e colocam na manga uma carta preciosa em seu baralho de política externa para a bacia do Caribe. Clausewitz vive.



O olhar do mestre
Na foto de João Maria Alves, o Johnguardacosta no Twitter, o olhar treinado de um mestre, pintor de cenas da vida. Como um impressionista ajusta lentes e olhar e dá forma pulsante ao cotidiano que nos cerca.

Pensando em voz alta


http://www.blogzinho.com/img_post/semsaida_www.blogzinho.com.jpg
Faça tudo, não faça nada. Não pense, não tente endender. Os sinais estão todos fechados. A vida parou num carrossel estranho ou estrada sem ida ou volta. 



segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


Foto: http://www.latimes.com/news/local/photography/la-fg-haiti-hires-html,0,7123168.htmlstory
A culpa condena
Emanoel Barreto

O olhar jornalístico-fotográfico trabalha o momento preciso, na genial concepção de Henry Cartier Bresson: aquele instante único, fugaz, limitadíssimo, curto e paradoxalmente abrangente, que abarca todo o tempo do mundo.

Na foto de Carolyn Cole, do Los Angeles Times, a demonstração perfeita do que disse o grande mestre equivale a todo um editorial, engloba até mesmo uma tese. Deixo com você a conclusão. Da minha parte, entendi assim: "A culpa condena".

Phil McCarten/Reuters

O "Terceiro Mundo", a fome e o riso sarcástico de um imbecil
Emanoel Barreto

A Folha Online Ilustrada publicou matéria registrando que o comediante Ricky Gervais manifesta visão preconceituosa a respeito do "Terceiro Mundo". Leia abaixo.

Apresentador do Globo de Ouro é criticado por piada sobre "Terceiro Mundo"



ALEX DOBUZINSKIS
da Reuters, em Los Angeles


A NBC viu a sua  transmissão do Globo de Ouro atrair perto de 17 milhões de espectadores no domingo, um salto de 14 por cento em relação a 2009, apesar de uma apresentação criticada de Ricky Gervais.


Gervais, um comediante britânico mais conhecido como co-criador do seriado televisivo "The Office", causou excitação quando foi indicado para apresentar o Globo de Ouro em outubro. Seu humor afiado parecia apropriado para o público do evento.


Mas ele recebeu críticas mistas, com alguns dizendo que suas piadas foram de mau gosto depois do terremoto devastador no Haiti.

A certa altura, Gervais brincou que os habitantes do "Terceiro Mundo" se sentiam melhor quando viam uma estrela de Hollywood, e que uma criança asiática pobre está inclinada a pensar "mamãe!" quando vê fotos da atriz Angelina Jolie, que adotou órfãos do Camboja, Etiópia e Vietnã.

Em resposta, o "Chicago Sun-Times" escreveu: "Dada a tragédia que caiu sobre o Haiti na semana passada, a piada de Gervais sobre Angelina Jolie e crianças do Terceiro Mundo foi uma gafe".
....

Não, não foi uma gafe. Foi manifestação preconcebida, elitista e desrespeitosa aos países pobres. Melhor dizendo, àquela parcela da humanidade que é rotulada pelos países centrais como "Terceiro Mundo". Foi a expressão também de como uma celebridade, inculta e vazia, um tipo que trabalha para a indústria cultural mais inescrupulosa, e se utiliza dessa mesma indústria cultural para destilar um certo e odioso tipo de visão de mundo.

A "gafe" na verdade pode ser considerada ato falho, uma vez que desvelou, a título de blague, a crueldade dos que exploram o "Terceiro Mundo" e lhes impõem pesadas dívidas junto ao FMI, somente para citar um aspecto da questão.

É assim que somos vistos: como "pobres", "negros", "esfomeados". O discurso do comediante mereceria do jornal americano um editorial firme, assertivo, acusador. Seu pronunciamento infamante chocou até mesmo uma parte do público que assistia à sua apresentação.

Sem dúvida, ele confundiu a ficção dos filmes premiados com o Globo de Ouro com a realidade sombria dos povos levados à periferia global por ação dos países ricos. E quiz dar uma risada na cara da Humanidade.

Pensando em voz alta voz alta
 
Foto: http://1.bp.blogspot.com/_AXdBi3uO8dI/SxomkjQWsVI/AAAAAAAAAfM/XnheM9Q6ibI/s320/lingeria3.jpg

As aparências enganam.
As transparências encantam.
O olhar de esguelha não transparece,
mas a alegria do olhar é olhar o que
o que a visão vê e não esquece.
Nem pode...