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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Entrevista feita por mim em 1985, com a ajuda do Professor Deífilo Gurgel

"Vou entrando neste ornó"


O que é isso, Sr. Sarnoff?
Que bruxaria é essa?”
(Assis Chateaubriand vendo, nos EUA, experiências de TV em cores, anos 50)

Uma velha empregada dos meus idos de menino costumava me cantar uma canção folclórica, com os seguintes e estranhos versos:

Vou entrando neste ornó
Não venho fazer mal
 

Venho arregatar a meu filho
Que está preso neste ornó...
 

Meu filho é moura, 'stá batizado
Já 'stá na lei da cristiandade... (bis)

E repetia aquela esquisita música: que o filho do personagem era “moura”, “estava batizado” e, santamente, “na lei da cristiandade”. O que queriam dizer aqueles versos? Qual seu sentido? A poética, eminentemente despojada, escovada de qualquer enfeite estético convencional, sequer tinha rimas. Mas, se eu conseguisse cifrar musicalmente essa letra e você soubesse ler pauta musical, veria como havia força, raiz, virtuose telúrica naquela exótica composição. Uma cantilena, uma oração. 

Pois bem, jamais esqueci aquela música, apesar de sequer imaginar qual o seu verdadeiro sentido.

Mas, veja só como são as coisas: certa feita fui, na companhia do folclorista Deífilo Gurgel a um bairro popular, na periferia, para entrevistar Zé Relampo, artista genial que, se vivo ainda for, dá espetáculos maravilhosos com bonecos de joão-redondo. Era o ano de 1975. A entrevista era para o Módulo III, um caderno especial, dominical, que então o Poti, edição dominical do Diário de Natal, publicava.

Antes de chegarmos à casa de Relampo, me vem à memória a velha canção folclórica, coisa do Amazonas ou arredores e vi que ali poderia estar a solução: Deífilo, como estudioso do assunto, poderia ser o decifrador daquele antigo  mistério de um menino que, agora jornalista, já pouco acreditava em lendas e dava passos rápidos para duvidar de tudo.

Cantei a Deífilo a canção - que ele jamais tinha ouvido - ele a achou interessante e, num minuto - para você ver o que é tratar de um assunto com um especialista - ele decifrou o mistério.

Explicou: aquilo era um romance, um tipo de literatura oral. E mais: “ornó”, era uma corruptela de “nau”, as naus portuguesas, que cruzavam os mares, dominando o mundo. “Arregatar”, nada mais era do que “resgatar”, salvar, livrar quem estivesse preso. E “moura”, era nada mais nada menos que “mouro”, o árabe, o infiel, que dominava a Terra Santa.


Daí, o motivo da composição: se o filho do cantor era “moura, mas já estava batizado”, não, realmente não, jamais poderia ficar preso no “ornó”, uma vez que já estava convertido aos princípios da Igreja. Faz sentido, faz sentido... Faz sentido, mas demonstra uma relação de dominação cultural, imposição de poderio injusto. No fundo, a canção revela uma perda de identidade, em função da força vinda de fora e que nos leva sempre a um ornó que não desejamos.

Para mim, foi como um achado, uma alegria, um reencontro e um estímulo a fazer com o meu maior entusiasmo de foca a matéria com Zé Relampo. E ainda hoje, em horas vazias, às vezes quando teclo estes textos noturnamente para enviar ao Coisas de Jornal, pareço ouvir:
Vou entrando neste ornó, não venho fazer mal...


E eu, que continuo moura, sinto-me ausente do meu ornó, naequela simples e esquecida canção vinda dos moradores do Norte. Mas espero, algum dia, ser arregatado deste ornó...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A base de pesquisa Comunicação, Cultura e Mídia fará amanhã o laçamento de e-book com estudos sobre o tema. Participo com o artigo "A Folha de S. Paulo, o Grande Irmão e as Diretas Já", onde analiso como o jornalão dos Frias se tornou hegemônico. Segue o convite para o lançamento.

Convidamos a tod@s para o lançamento do livro 'Comunicação, Linguagem e Inovações Midiáticas' que será realizado nesta quinta-feira, 1º de dezembro, às 17 horas no auditório do Laboratório de Comunicação da UFRN. A publicação, organizada pelos professores Adriano Lopes Gomes e José Zilmar Alves da Costa, reúne artigos de pesquisadores do Grupo de Pesquisa Comunicação, Cultura e Mídia (COMÍDIA).

A obra, editada pela Editora da UFRN, será lançada no formato de e-book e já está disponível para download em www.comidiaufrn.blogspot.com

A reconfiguração da comunicação midiática na esfera pública contemporânea vem promovendo uma série de transformações sociais que, de igual modo, possibilita novas reflexões sobre a cultura, a economia, a política e a organização da vida cotidiana. Reconhecer esse novo cenário implica problematizar questões que envolvem os sujeitos e suas relações com o meio. Tal situação particulariza uma realidade que necessita ser investigada sob diversos aspectos em cujo contexto estão os mecanismos de interação entre os atores sociais e a mídia, do ponto de vista da produção de sentido e das práticas sociais. 

Foi pensando assim que a base de pesquisa Comunicação, Cultura e Mídia gerou vários temas epistemológicos para compreender este novo fenômeno social, reunidos em três eixos: a comunicação, a linguagem e as inovações midiáticas.

Esta é a segunda publicação do nosso grupo, porém com a perspectiva que, inclusive, norteia o presente trabalho: um livro eletrônico, que possibilitará o maior acesso aos artigos que aqui estão elencados, na perspectiva da democracia do conhecimento. O livro reúne trabalhos de professores-pesquisadores e alunos de pós-graduação em níveis de mestrado e doutorado, os quais se utilizam dos estudos culturais, da economia política da mídia, da etnometodologia e da análise do discurso como métodos de investigação.

A COMÍDIA funciona desde 2003 e tem como principal compromisso desenvolver estudos e pesquisas sobre a comunicação midiática e suas interfaces com a cultura, cujos frutos se refletem em suas várias iniciativas de natureza científica, tais como: realização de seminários, conferências, colóquios, fomento à iniciação científica, produção de artigos e publicação de livros.
Acreditamos que estamos cumprindo o nosso papel de pesquisadores, com vistas ao engajamento do grupo à comunidade científica.

Adriano Lopes Gomes e José Zilmar Alves da Costa, organizadores

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

De Pé No Chão Também Se Aprende A Ler

De pé no chão também se aprende a ler

"De pé no chão também se aprende a ler', monumental campanha empreendida em Natal pelo prefeito Djalma Maranhão nos inícios dos anos 1960 é um marco de comprometimento com o que seja cidadania e senso de responsabilidade. Neste filme que peguei no Youtube um registro histórico daquele momento.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Recebo e divulgo:

IFRN no Festival MPBeco 2011

Alunos de Produção Cultural ganham experiência profissional através de
grandes eventos e festivais da cidade

Estudantes do curso de Produção Cultural do IFRN Cidade Alta foram
escalados pelos produtores do Festival de Música MPBeco, Júlio Pimenta e
Dorian Lima, para colaborar com a produção do festival. A resposta foi positiva
e através de um sorteio, oito estudantes foram escolhidos para auxiliar na
produção.

Segundo Júlio Pimenta, as atividades irão se concentrar mais nos dias do
evento, quando os produtores terão que recepcionar os artistas, organizar a
sequência das apresentações do palco, esclarecer eventuais dúvidas do
público, estar a postos para qualquer imprevisto e realizar a contagem dos
votos populares.

Vários encontros foram realizados para discutir algumas propostas sugeridas
pelos estudantes como a divulgação em tempo real do evento através das
redes sociais e transmissão dos shows via Twitcam – meio gratuito que vem
sendo muito utilizado por profissionais de diversas áreas para transmitir ao vivo
shows, palestras, oficinas, entre outros.

Parceria similar foi firmada durante a última edição do Circuito Cultural Ribeira,
que acontece no primeiro domingo de cada mês. Para o Circuito os estudantes
foram divididos em equipes de divulgação, produção executiva, redes sociais e
comunicação com o setor público. O resultado foi positivo e vem gerando bons
frutos.

FESTIVAL MPBECO
A 6ª edição do Festival de Música do Beco da Lama acontecerá nos dias 01,
08 e 15 de outubro de 2011. O MPBeco, como também é conhecido, é um dos
maiores festivais competitivos de música do RN. Em 2011, distribuirá R$15 mil
em prêmios, contemplando composições, compositores, músicos e intérpretes.
Acompanhe as notícias do festival através do site www.festivalmpbeco.com.br

sábado, 9 de julho de 2011

Leio na Tribuna esta notícia lamentável. Abaixo, comento.

Apenas três grupos podem garantir ida ao Festival em SP

A edição deste ano do maior evento brasileiro sobre folclore e cultura popular, realizado há 47 anos na cidade de Olímpia interior de São Paulo, presta homenagem aos grupos potiguares, mas os oito grupos do RN convidados para o Festival de Folclore ainda não garantiram presença por falta de apoio para custear o transporte. O símbolo oficial do evento em 2011 será o galinho branco, que representa o folclore e o artesanato Norte-riograndense, e o grupo que ilustra o cartaz oficial é o Pastoril Dona Joaquina, de São Gonçalo do Amarante, que ainda não sabe como chegará até o Sudeste.
DivulgaçãoEm reunião com Mestre Dedé e Aldair, prefeito Jaime Calado garante R$ 6 mil para gruposEm reunião com Mestre Dedé e Aldair, prefeito Jaime Calado garante R$ 6 mil para grupos

Os três grupos mais próximos de carimbar os passaportes para São Paulo receberam ajuda de custo do Sesc Catanduva (SP), no valor de R$ 19 mil, mas o recurso é insuficiente para cobrir as despesas com passagens aéreas e transporte terrestre - entre Campinas e Olímpia - do Boi Calemba Pintadinho, também de SGA; e dos Caboclos e o Rei do Congo, ambos do município de Major Sales, e o jeito foi procurar ajuda da prefeitura de São Gonçalo do Amarante para tentar reverter a situação.

"Estivemos reunidos na manhã desta sexta-feira com o prefeito Jaime Calado, de SGA, e conseguimos mais seis mil reais de apoio e figurino novo", comemora Lenilton Teixeira, um dos representantes do Boi que acompanhou o encontro. "Agora vamos procurar a Fundação José Augusto para ver se completamos esse dinheiro", disse. Para tudo sair nos conformes, o grupo precisa de, no mínimo, mais seis mil.

"As famílias são humildes e estão se preparando há meses para o Festival. Tem gente deixando de comprar a mistura do almoço para comprar roupa de frio. Será muito injusto se não conseguirmos ir", afirmou Cleber Teixeira, 32, brincante do Boi. "Até ontem (quinta-feira), antes dessa reunião aqui na prefeitura, estava dando a viagem como perdida. Mas ainda não podemos comemorar", frisou.

A previsão é que a caravana para Olímpia seja formada por 280 pessoas, de 22 municípios, levando na bagagem a culinária, o artesanato e as principais manifestações populares.

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Os políticos, quando se fazem eleger, impõem-se a esse coletivo a quem chamamos povo. Mas o fazem sob o alarde de grandes campanhas publicitárias, ações de marketing voltados às agendas positivas, discursos de glória e autoexaltação: são bondosos e atendem ao que lhes pedem os sofredores de filas e outros males que o Estado brasileiro sabe criar como ninguém. O exemplo é essa malsinada Copa do Mundo, que vai sugar bilhões de reais de políticas sociais em favor dos cofres da Fifa e empreiteiras quejandas. O dinheiro da Copa de alguma forma está faltando a esses grupos culturais.

Essas pessoas, que mantêm vivas tradições, são grupos de resistência cultural. Deveriam ser estimulados. Ao contrário, parecem estar pedindo esmola, um favorzinho, percebe? Assim, vão de porta em porta, sem saber o que lhes acontecerá. Mas, o povo foi treinado para isso mesmo: seguir de porta em porta, sem saber o que lhe acontecerá. É triste, mas é a verdade.


domingo, 2 de janeiro de 2011

sábado, 18 de dezembro de 2010

Recebo e divulgo release do Clowns de Shakespeare

Lançamento do livro "Contos do Mar"

Finalizando as atividades deste ano, lançaremos nesta próxima segunda-feira (20), às 18h, o livro Contos do Mar, última atividade do projeto Teatro a Bordo, que trouxe alunos da rede pública estadual de ensino para o Barracão Clowns para assistir o espetáculo O Capitão e a Sereia e, em seguida, participarem do concurso de contos sobre o mar. Agora, os onze contos selecionados pela Profa Dra Marly Amarilha serão publicados em livro, a ser lançado neste evento. O lançamento  acontece na Potylivros da Salgado Filho (ao lado do Natal Shopping), com sessão de autógrafos dos autores participantes. O projeto Teatro a Bordo tem o patrocínio da Cosern e da Lei Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura.
Sai resultado do Programa BNB de Cultura 2011!
Foi anunciada a relação dos projetos selecionados pelo Programa BNB de Cultura 2011 - Parceria BNDES, um dos mais importantes programas de fomento à cultura do país, que viabiliza a realização de projetos de toda a região Nordeste, além do norte de Minas e Espírito Santo, sem o uso de qualquer tipo de isenção fiscal. Tivemos a alegria de sermos contemplados com a segunda etapa do projeto Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste, que envolve a publicação de livros e o lançamento do portal teatronordeste, com todos os dados levantados na pesquisa. Compartilhamos essa alegria com nossos amigos do Coletivo Alfenim, A Outra Cia. de Teatro, Arlindo Bezerra, O Pessoal do Tarará, Giovanna Araújo, Joana Gajuru, ATA, Bagana, Piollin, Arlequim, Galpão das Artes e todos os demais selecionados! O resultado completo pode ser conferido clicando aqui.

Curtinhas
Foi lançado o livro Arte y oficio del director teatral en América Latina: Bolívia, Brasil y Ecuador, de autoria do pesquisador argentino Gustavo Geirola, que traz entrevistas com encenadores como Amir Haddad, Cibele Forjaz, Marco Antonio Rodrigues, Sérgio de CarvalhoVerônica FabriniCésar Brie, Aristides Vargas Jorge Mateus e o diretor artístico dos Clowns, Fernando Yamamoto.

- Nesta terça (21), às 19h, na Trattoria Bella Napoli, o poeta Carlos Gurgel fará noite de autógrafos de lançamento do seu projeto Dramática Gramática, que inclui um livro, CD, DVD, camiseta e pôster. A noite contará com a participação dos atores dos Clowns César Ferrario e Titina Medeiros, que vão fazer leitura das poesias.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Follow Secreto: siga essa boa ideia. Recebi a informação e divulgo na íntegra. (EB)

Encontro Cultural dos Followers



O Follow Secreto está longe de ser apenas mais um encontro promovido através do Twitter.

É a oportunidade de nos reunirmos com amigos, com pessoas que nunca se viram, mas que se “seguem”, de trocar informações, discutir sobre essa ferramenta, o Twitter, que a cada dia ganha mais espaço e visibilidade, atenção da mídia, enfim... Mas o mais importante nesse evento é a confraternização de uma idéia: a leitura.


A organização do encontro é das comunicadoras Leide Franco (@LeideFranco) e de Bruna Markes (@_markes). A reunião dos Twitteiros está marcada para o dia 15 de janeiro (sábado), às 20h, no auditório da Livraria Siciliano do Shopping Midway Mall.

Na ocasião, cada participante levará um livro para presentear alguém, a intenção é que seja o mais secreto possível, pois cada um só ficará sabendo a quem vai dar o livro lá na hora. Iremos dividir os participantes em grupos, possivelmente os Followers e Followings em comum.


O tema central desse Encontro Cultural vai além do simples ato de receber, ler e guardar o livro na estante. Pensamos que conhecimento deve ser repassado, transferido, daí a idéia já usada em outros lugares chamada “Esqueça um Livro”, ou seja, depois de lido, o ganhador do livro vai “esquecê-lo” em algum lugar movimentado, mas antes terá que descrever, como se fosse uma dedicatória, a forma que aquele livro chegou às suas mãos, pedindo pra que a pessoa que o encontrar, depois de ler também, continue a dedicatória e “esqueça” o livro em alguma parte, fazendo assim uma corrente da leitura, dessa forma, pessoas que nunca tiveram a chance de comprar um livro ou quem nunca gostou de ler, tenha a oportunidade de fazê-lo, através dessa iniciativa.


Além disso, estamos pedindo aos participantes que levem um livro “usado” para que possamos fazer doações a bibliotecas públicas.


Cordialmente,

Equipe Follow Secreto


Contatos pelo e-mail: followsecreto@gmail.com

Twitter: www.twitter.com/followsecreto

http://www.followsecreto.blogspot.com/

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Políticas culturais nos Governos FHC e Lula
 Antonio Canelas

O segundo turno das eleições presidenciais de 2010 nos convida a uma reflexão acerca das políticas culturais inscritas nos projetos políticos em confronto. Mais que um mero embate entre as personalidades de Dilma e de Serra, como muitos querem fazer crer, importa entender que a efetiva disputa eleitoral acontece entre projetos políticos distintos que se expressam nestas candidaturas.

Para as pessoas interessadas em cultura, cabe analisar como estas forças políticas tratam a cultura. Tal compreensão implica, por exemplo, na análise comparativa das políticas culturais desenvolvidas pelos governos no plano federal: PSDB (1995-2002) e PT (2003-2010).

O Governo FHC teve um único Ministro da Cultura: Francisco Weffort. A atuação prioritária do Ministério da Cultura esteve voltada para desentravar e ampliar o funcionamento das leis de incentivo no país. Não por acaso a cartilha Cultura é um Bom Negócio se tornou um documento emblemático da atuação deste governo no campo da cultura. A efetiva ampliação do funcionamento das leis de incentivo foi conseguida, em especial, através da orientação do governo para as empresas estatais investirem no campo cultural.

Além de estimular a aplicação e ampliação da lógica das leis de incentivo, o ministério desenvolveu alguns projetos como o Monumenta, voltado para a área de patrimônio físico, mas realizado institucionalmente fora do IPHAN, e o programa de expansão do número de bibliotecas no Brasil, visando dotar todos os municípios de, pelo menos, uma biblioteca, meta não realizada apesar do esforço desenvolvido. Também a área de patrimônio imaterial foi contemplada, através da criação de legislação específica neste setor. Mas estas e outras iniciativas não se pretendiam como contraposições à prioridade conferida às leis de incentivo. Elas atuavam de modo complementar à opção política tomada.  

Esta política de priorizar as leis de incentivo inibiu, em boa medida, a deliberação do governo sobre os projetos culturais e, por conseguinte, sobre políticas culturais, pois a decisão efetiva sobre a cultura a ser estimulada foi transferida para as empresas, conforme previsto na modalidade de leis de incentivo vigente no Brasil. A escolha se mostrava sintonizada com a conjuntura nacional e internacional de fortalecimento do papel do mercado e inibição da atuação do estado. O orçamento do Ministério no final do período é de 0,14% do orçamento nacional.

O Ministério da Cultura no governo Lula foi ocupado por Gilberto Gil (2003-2008) e Juca Ferreira (2008-2010). Tais ministros assumiram posição contrária ao predomínio das leis de incentivo, ainda que projeto neste sentido só tenha sido enviado ao Congresso em 2010. Eles defenderam desde o início a necessidade de retomar o papel ativo do estado na formulação e no desenvolvimento de políticas culturais.

A construção de políticas de cultura foi realizada com a participação da sociedade por meio de seminários, câmaras temáticas e encontros, como as duas Conferências Nacionais de Cultura de 2005 e 2010. Uma maior institucionalidade para o campo cultural foi buscada através do desenvolvimento do Sistema Nacional de Cultura (SNC), que pretende articular a federação, os estados e os municípios, e do Plano Nacional de Cultura (PNC), conformado em interação com o Congresso Nacional, além da criação de novas instituições culturais, como o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), e novos órgãos como a Diretoria de Relações Internacionais do Ministério da Cultura.

Diversos projetos foram implantados e alguns ganharam grande projeção como: Pontos de Cultura, por certo uma das atividades de maior repercussão nacional e internacional do Ministério, e DOC-TV, que envolve televisões públicas de todo Brasil e o Ministério da Cultura para a produção e divulgação de documentários e que, dado o sucesso, já teve várias versões, inclusive internacionais, como as latino-americanas e para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

As políticas para a diversidade cultural assumiram lugar relevante no governo Lula. No debate internacional sobre a diversidade cultural promovido pela UNESCO para construir a Declaração (2001) e a Convenção (2005), o Brasil teve inicialmente uma posição bastante ambígua. Mas tal postura foi radicalmente modificada com o novo governo. O Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, em conjunto, atuam vivamente em prol das normas internacionais de defesa da diversidade cultural. No plano interno, o Ministério da Cultura criou a Secretaria da Identidade e da Diversidade Culturais (SID) para implantar políticas e dar visibilidades aos documentos internacionais.  Na busca de empreender políticas para a diversidade, a SID, pela primeira vez na história brasileira, desenvolveu uma política cultural para os povos originários, algo que nunca tinha ocorrido no país.

A política cultural diferenciada implicou também em um aumento substancial do orçamento do Ministério, que se aproximou de 1% do orçamento nacional. O orçamento reforçado possibilitou ampliar o Fundo Nacional de Cultura, permitindo contemplar uma maior diversidade de expressões e regiões culturais. A articulação entre diversos ministérios, inspirado no PAC, viabilizou o Programa Mais Cultura, que ampliou os recursos para a cultura, com destaque, para as áreas mais carentes e de maior vulnerabilidade social.     
        
Esta breve exposição das atividades culturais desenvolvidas nos governos do PSDB e do PT aponta nitidamente para dois projetos culturais bem distintos: um que deprime as políticas culturais do estado nacional e deixa a cultura ser regulada prioritariamente pelo mercado e outro que constrói políticas culturais públicas, através do diálogo entre estado e sociedade, visando preservar e promover a diversidade cultural brasileira. A comunidade cultural está convocada democraticamente a fazer sua escolha entre estes dois projetos expressos nas candidaturas de Dilma e de Serra.