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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pequeno até fisicamente

A morte do minúsculo Kim Jong-il funcionou para mim como a metáfora viva do poderoso abominável. Pequeno até fisicamente, aquele ser humano encarnava o ridículo trágico do poder; aquele poder que em seu exercício, pela mistificação, permite a transformação do poderoso em mito.
http://www.google.com.br/imgres?q=kim+jong+il+coreia+generais+fotos

Achava esquisito quando aquela figurinha aparecia. Como se fosse um duende amendoado, cercado de generais bem mais velhos que ele, Kim dava adeusinhos a multidões previamente adestradas à sua adoração. Curvados ao peso de uma miríade de medalhas apensas em suas roupas os generais rebrilhavam. O povo aplaudia.

Pelo adestramento, as pessoas pareciam sinceramente ligadas àquele que regia suas vidas, pois o sistema político da Coreia do Norte é de um orwellianismo impressionante, demencial. E o povo era ensinado a amar aquele Grande Irmão.

Nos últimos dias têm passado matérias na TV, como decorrência da morte do ditador. Já observou como marcham as tropas? Ficam entre o ridículo e o grotesto. A marcialidade robotizada lembra-me bonequinhos mecânicos. Para mim isso é a representação de como aquelas mentes funcionam: as coisas são o que o Partido diz que são.

Na verdade quero deplorar o Poder como instância de auto-preservação, posse do poderoso. No Ocidente temos uma manifestação de potestade diversa, mas habilidosa: pelo veio da ideologia vivida sem imposição aparente as pessoas seguem um mesmo caudal e cumprem normas que vão do consumismo à idolatria a um jogador de futebol. E isso é muito político. Quer dizer, de alguma forma, temos os nossos kins...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Folha está promovendo um escarcéu em torno de texto que sequer foi publicado, de autoria de FHC. É o que se chama, em jornalês, de "balão de ensaio", uma coisa de jornal que visa "testar" até que ponto alguém pode medir a importância ou impacto de suas palavras ou atitudes midiáticas. O balão de ensaio surge de algo que em si não tem valor algum ou o tem de forma relativa;  visa atender unicamente o interesse de alguém em torno da promoção de seu nome ou instituição a que seja ligado. No caso, o jornal pretende criar e promover um pesudoacontecimento - o "debate" interno do PSDB - a fim de promover esse partido. Leia a matéria.

Oposição discorda de FHC e defende foco no 'povão'

DE SÃO PAULO
Hoje na Folha Líderes da oposição, entre eles Aécio Neves (PSDB-MG), discordaram ontem do teor do artigo em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propõe que desistam do "povão" para investir na nova classe média, informa reportagem de Catia Seabra, Vera Magalhães e Daniela Lima, publicada na Folha desta quarta-feira (íntegra somente para assinantes do jornal ou do UOL).
Já o ex-governador José Serra fez vários elogios ao texto e disse que este não é o "ponto essencial" do texto. 

Em artigo que será publicado nesta semana e revelado pela Folha, FHC defende uma revisão profunda da estratégia do PSDB e da oposição para voltar ao poder.
O tucano diz que a oposição deveria desistir de conquistar as camadas mais pobres do eleitorado e se conectar com a nova classe média.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011


Ser repórter
Emanoel Barreto

No Dia do Repórter, aos meus alunos, dedico. E àqueles que sabiam e me ensinaram.


Se repórter é estar desconfiado. Sempre.
E desse sempre não ser nunca omisso.  

É ser gravemente humano perante a desumanidade lancinante.

É dar tudo por uma matéria que o dono do jornal, ele sabe, vai cortar. Mas faz.

É correr riscos. É investigar sem poder prender o bandido de colarinho branco.

É ser lúcido. Jamais pensar em ser herói, porque notícia também é um negócio, é lucro. Mas também não pode ser covarde. Porque o salário do medo é a vergonha mais íntima.

Ser repórter é ser o sábio do improviso, aquele saber de um segundo. E por isso mesmo deve ser comedido, porque há sempre uma descoberta a mais.

Ser repórter só sabe quem é repórter.
E por mais que eu diga aqui o que é ser repórter, 
somente um repórter saberá o que é ser repórter.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Minha entrevista com um mortuário

Certa vez fui pautado para entrevistar um senhor aposentado. Homem de idade já antiga, que vivia agora um tempo apascentado e gordo, untado de régios benefícios. Nada de extraordinário lhe acontecera para a tal entrevista, mas jornal tem disso: se alguém é amigo do dono pode sempre contar com um repórter para contar não-sei-o-quê.


Ele queria falar de si. Era seu aniversário. Fui. Encarei assim: é um apenas personagem, um personagem da notícia. Um ser passante como aragem numa tarde sem data. Isso facilitou a aceitação da matéria porque, em vez de perguntar sobre sua vida reta, monótona, ausente de imprevistos, desafios ou perigos por mínimos que fossem, eu trataria daquele drama inexistente: uma vida plana e sem planos, ajustada milimetricamente às recompensas que sempre conseguem aqueles que assim se locupletam.

O homem passara seu tempo todo sob o pálio de políticos e mandões, galgara postos de ociosidade em repartições públicas, enfeixara gratificações e incorporara até mesmo as horas-extras de sua inutilidade ao salário, e eis que então vivia à plena o retorno monetário de sua inapetência ao esforço, qualquer que seja ele.

Da matéria que fiz nada me lembro nem me esforço. Não vale a pena. Mas guardei, sim, guardei, o ambiente, a sala, o espaço de vivência daquele ser cevado a dinheiro que jamais havia merecido. Vivia em sua alargada casa em companhia apenas da mulher, uma senhora ampla, pesada, estofada por suas carnes velhas e gordurosas. Bondosa, inteligente como um nabo, farta como uma almofada, ela vivia na igreja a rezar e a organizar o pão-dos-pobres.

Ele, muito branco, movia-se com a agilidade de um leão-marinho. A boca mole parecia apenas dizer "plof" e nada mais. Encontrei-o na sala e ali fui recebdo. Era um ambiente amplo como as léguas, decorado por quadros religiosos; ícones de santos saltanto por todos os lados, aquela sala respirava um ar de coisa pesada, amolecida, adormecida com o peso dos anos.


Havia também retratos de família. Fotos antigas, imagens sérias que pareciam me fitar o tempo podo. Fotos de família: já reparou que, nesses santuários a que chamamos sala de estar, as fotos têm autoridade, têm aura, poder e uma espécie de força que reclama do visitante respeito e reverência? Foram pessoas sem maior expressão, mas, num lar, assumem a pose e a postura de um doge, gozando da fama inexpressiva de terem feito parte da família e ocuparem espaço naquele território.


As cadeiras, enormes, espaldar alto, algumas velhíssimas, a enorme mesa de centro recoberta de estatuazinhas, cortinas pesadas, embebidas de uma espécie de mau gosto casto e respeitável, o chão atapetado de um tapete pomposo, certamente reino bondoso para milhões de ácaros, assim era a sala.

Ali, tudo sabia a coisas de antanho, a um passado lustroso, brunido como um corrimão ensebado. Era uma espécie de decadência retumbante, mansamente densa e fartamente espalhada, penetrando à mais mínima reentrância ou ranhura. Ali havia um peso ocioso de gente que nada havia produzido, um cotidiano gratificante de mesmice parva e promissora de que tudo continuaria arfando como um grande corpo que dorme seu ronco de preguiça.


A sala era um mausoléu diariamente preservado pelas vidas múmicas que a habitavam cuidadosamente. A iluminação baça, quase esfumaçada, era como uma névoa de luz fosca, benvinda e parte daquele ambiente que não chegava a ser sinistro, mas meramente decadente e refestelado em sua suntuosidade de letargo.

A entrevista demorou, o homem queria contar toda a sua vida, heroicizar seus feitos amanuenses, engrandecer decisões de carimbo, destacar o plural do paletó aposto ao espaldar de sua cadeira de chefe. Suportei o quanto pude os seus dizeres, mas com ele não falava. Na verdade eu entrevistava aquela sala, aquela toca fornida de conquistas sem merecimento.


Consegui afinal terminar a entrevista. O carro do jornal viria me pegar. Não era sem tempo: aos poucos, eu fora dominado por um processo de sufocação, um calor enervante e grosso como uma tora de queijo gorduroso. Era insuportável viver mais um minuto aquela sala pegajosa. Assim, quando a boca mole ditou seu último plof, senti-me aliviado.

De repente, o carro do jornal buzinava à porta. Saltei o mais rápido que pude da cadeira, atirei-me à rua, precipitei-me à luz gloriosa do sol e agradeci por haver escapado daquele mortuário da usura.