sábado, 14 de abril de 2012

Acabou-se o tempo e todos se tornaram imortais

E como o tempo havia passado não havia mais tempo. Explico melhor: por haver-se passado o tempo não mais existia - da mesma forma como uma pessoa que morre não existe mais. 
http://www.simplesmentebeijaflor.com/o_tempo.html

E assim, acabado o tempo, não havendo mais começo, meio e fim, todos tornaram-se imortais. E o tempo somente era uma lembrança. E como lembranças não têm consequências tudo passou a se repetir. 

E assim, por não terem mais o tempo, as pessoas ficaram sem tempo para existir e, do mesmo jeito de quando havia tempo, todos morreram e acabou-se a história.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Genial Jean Galvão na Folha

Leio e compartilho

A imprensa e Paulo Freire    

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_imprensa_e_paulo_freire

Por Alfredo Vizeu 
em 04/08/2009 na edição nº 549
 
O jornalismo tem muito a aprender com Paulo Freire, tanto no que diz respeito à compreensão do mundo, bem como no processo de produção da notícia. A investigação é da essência do jornalismo porque diminui a possibilidade do erro e do equívoco. Caso isso ocorra, ainda dentro das práticas jornalísticas, faz-se necessário retificar a informação publicada que se revela inexata. No entanto, uma das tarefas centrais do rigor do método, do conhecimento do jornalismo, é evitar a ambigüidade na informação. Outro aspecto importante no atual processo de produção da notícia é estar sob a ditadura da audiência, da concorrência, a pressa que pode tornar mais precária a qualidade da informação noticiosa.
 
Por isso, apropriando-me dos ensinamentos de Paulo Freire, é importante nas práticas sociais do jornalismo ir além da mera captação dos fatos, buscando não só a interdependência entre eles, mas também o que há entre as parcialidades constitutivas da totalidade de cada um. Nesse sentido, o jornalismo necessita estabelecer uma vigilância constante sobre a sua própria atividade.
Ainda dentro da perspectiva de Freire, consideramos que a comparação que o autor faz entre a ingenuidade e a criticidade pode contribuir para entendermos o conhecimento do jornalismo – que trata dos acontecimentos do mundo, dos diversos saberes, dos campos da experiência e do cotidiano. O autor esclarece que não há diferença e nem distância entre a ingenuidade e a criticidade. Para Freire, entre o saber da pura experiência e dos procedimentos metodicamente rigorosos ocorre uma superação.
 
Abrir a "alma" da cultura
Freire argumenta que não acontece uma ruptura porque a curiosidade ingênua, sem deixar de ser curiosidade, continuando a ser curiosidade, se criticiza. Continuando a explicação, diz que ao criticizar-se, tornando-se curiosidade epistemológica, metodicamente "rigorizando-se" na sua aproximação ao objeto, conota seus achados de maior exatidão. A curiosidade metodicamente rigorosa do método cognoscível se torna curiosidade epistemológica, mudando de qualidade, mas não na essência.
 
É dentro desse quadro que opera o conhecimento do jornalismo. Na produção da notícia, o jornalista trabalha constantemente dentro dessa perspectiva de superação. Não é permitido ao jornalista que seja ingênuo na cobertura dos fatos. A tomada de consciência é o ponto de partida da sua atividade. Como é possível dar conta da cobertura dos acontecimentos, da mediação entre eles e a sociedade, se antes de construir a informação não conheço o objeto? É tomando consciência dele que me dou conta do objeto, que é conhecido por mim.
 
A eficácia da atividade jornalística e o conhecimento do jornalismo estão intimamente ligados ao que Freire colocava como a capacidade de abrir a "alma" da cultura, de aprender a racionalidade da experiência por meio de caminhos múltiplos, deixando-se "molhar, ensopar" das águas culturais e históricas dos indivíduos envolvidos na experiência. É dimensão crítica do conhecimento jornalístico, num imbricamento entre teoria e prática.
 
Utopia de um compromisso histórico
 
Por fim, não custa lembrar que esses ensinamentos a partir da leitura da obra de Paulo Freire têm como preocupação mostrar que o jornalista que seja tentado a abrir mão do rigor do método esquece o respeito ao outro, vítima, testemunha, parente, espezinha o respeito que deve a si mesmo: não é mais que um instrumento – um meio! – da informação.
É ainda o mestre Freire quem ensina. E isso é básico para o jornalismo. O trabalho humanizante não poderá ser outro senão o trabalho de desmistificação. Por isso, a conscientização é o olhar mais crítico possível da realidade, que a "desvela" para conhecê-la e para conhecer os mitos que enganam e que ajudam a manter a realidade da estrutura dominante.
 
É o dever do jornalismo a busca da verdade e a ética como singularidade. Uma utopia a ser perseguida diariamente. Um jornalismo de frontes levantadas. Dentro desse contexto, concluo com Paulo Freire: "...o utópico não é o irrealizável; a utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar a estrutura desumanizante e anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão, a utopia é também um compromisso histórico." O jornalismo é utopia realizável de um compromisso histórico com a verdade, a ética, a liberdade e a democracia.

Recebo e divulgo



Sebo online promove encontro no Parque das Dunas

O “Sebo Desapego” reúne no próximo dia 14 (sábado) seus participantes para confraternizar leituras no Parque das Dunas, às 16h. O sebo é um grupo online do Facebook, que com menos de vinte dias no ar, já conta com mais de 2.600 pessoas compartilhando literaturas. Lá é possível buscar, comprar e trocar livros, revistas, CDs, DVDs e vinis.

As Redes Sociais vêm deixando o trivial de lado e inovando frequentemente, prova disso é o sucesso do “Sebo Desapego”, no qual pessoas de diferentes idades e diferentes gostos de leitura divulgam materiais que estavam guardados em suas estantes, praticando o desapego. Compartilhamento é a palavra-chave da era digital e da conectividade, pensando nisso, e reforçando o lado social das mídias sociais, o Sebo Desapego promove o I Encontro dos Desapegados, uma ocasião para aproximar as pessoas e incentivar a leitura.

Além da parte cultural do evento, que também vai contar com sorteio de livros, na oportunidade será organizado um piquenique com a contribuição dos participantes. Diversão, cultura e literatura andando de mãos juntas no on e offline.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

O gol do centrefó

De repente veio a lembrança do Colégio São João. O colégio e seus dois campos de futebol. Anos 60. O colégio era uma lembrança grande, larga como o passado. O primeiro campo, verdadeiro forno com seu chão de areia calcinada, servia para partidas improvisadas. O outro campo, não: gramado, com medidas oficiais, era usado para prélios renhidos, jogadores com posições definidas. Os professores eram os técnicos. 

Era o tempo de Pelé, Vavá, Zagalo, Garrincha, Gilmar, Djalma Santos, Didi, Nilton Santos. O Brasil bicampeão. Goleiros eram chamados de goalkeeper, valendo também guarda-valas, mas também se aceitava dizer arqueiros. 

O menino tinha uma decisão: entrar para o time da classe e disputar o campeonato do colégio. Munido de uma vontade secreta e firme começou a treinar. Depois de muito esforço, foi aceito no time. E mais: ia ser o “centrefó”. Quando o professor anunciou sua posição no time, ele quase caiu. Já pensou? Ele ia ser o centrefó. Era o máximo. A palavra inglesa center for ward, absolutamente impronunciável para aqueles meninos dos anos 60, acabou virando isso mesmo, centrefó. Ele jamais imaginaria que, anos depois, todos estariam chamando centrefó de... centro-avante.

E ele ia ser o centrefó. A posição na equipe, vista como algo quase heróico, o jogador avançado que rompia defesas com seus dribles mágicos, era o sonho afinal realizado. Chegou em casa, contou aos pais, riu e, na rua, com os colegas, gritou: – Eu sou o centrefó! Eu sou o centrefó! Era o sonho calçando chuteiras. Sentiu-se completo. A vitória antecipada. O gol, guardado na gaveta das vontades, afinal iria brotar dos seus pés.

Veio então o jogo. Antes de entrar para a equipe principal, ele somente havia jogado no campo de areia. Era o que os meninos chamavam de futebol de poeira. Ali, ninguém tinha posição definida, os pés afundavam e cada chute levantava uma nuvem, daí o nome futebol de poeira. Detalhe: naquele campinho de areia, ele jamais havia marcado o “seu gol.” Mas agora, não: faria muitos gols, e gols de classe, gols marcados num campo de verdade.

O juiz apitou. Na tela das lembranças a partida foi lembrada quadro a quadro. Os lances duros, as jogadas corajosas, até mesmo aquela bicicleta que quase vira um gol. Tudo, tudo foi devidamente revisto com os olhar retrasado da saudade. Seu time ganhou. Cinco a um. Mas não deu para ele fazer o “seu gol”. Nem naquele jogo, nem nos outros. Jogava bem, mas não conseguiu o gol.

A vida escorreu sob os seus pés, acabou o ano, acabou-se o tempo de colégio, tudo passou. O colégio São João virou aquela lembrança travada na alma. Um dia, tomou uma decisão: aquele gol não podia ser apenas uma vontade com sabor de derrota, um passe malfeito num jogo que, dentro dele, nunca tinha fim. Então, num final de tarde, entrou numa loja de material esportivo, comprou a melhor bola e dirigiu-se ao colégio.

Ali, todos estranharam ao ver aquele senhor de paletó e gravata, cabelos grisalhos, entrando colégio adentro, segurando uma bola. Ele escolhera o momento de maior movimentação no colégio. Era final de aula. Centenas de meninos deixavam as salas em meio a gritos de estopim.

Ele cruzou a curiosidade geral como um tiro de meta e dirigiu-se ao campo. Todos o acompanharam. Mais e mais gente o seguia. Ele passou pelo campo de futebol de poeira, já seguido por uma multidão. Pronto. Chegou ao campo gramado.

Dirigiu-se à marca do pênalti e ajeitou a bola. Os meninos ficaram ao redor, deixando a trave ao fundo. Ele estava em meio a um largo círculo de expectativa. Estranhamente todos perceberam que viviam ali um momento especial e intenso. O rigor na face severa daquele homem, a luz do crepúsculo, a seriedade de cada gesto seu, tudo dava à cena uma composição litúrgica, ritual. Todos respiravam compassadamente; ninguém entendia nada, mas havia respeito em todos os olhares.

Ele afastou-se da bola, esperou um pouco e correu. O chute bateu na bola com força, uma força de raiva alegre e solene. A bola partiu. Como se fosse em câmera lenta, foi bem no ângulo direito. Balançou a rede e desceu, belíssima, até se esconder lá no fundo.

Ele saltou e deu um soco no ar. Nesse instante, uma fagulha de emoção. Todos os meninos gritaram: – Gooooooooool! – e se abraçaram. Em silêncio, tal como chegara, ele retirou-se. Deixou a bola lá no cantinho da rede. Ao sair, ouvia aplausos, aplausos antigos, ecos que somente agora chegavam, tão tarde, depois de tanto tempo...

Nunca mais foi visto no Colégio São João; mas agora ele era realmente, o centrefó.

terça-feira, 10 de abril de 2012

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PECADORES - ABEPEC
NOTA OFICIAL DE FUNDAÇÃO

Ficam por meio desta convocados a se filiar a esta augusta e responsável entidade todos os pecadores deste País a fim de que possam gozar dos direitos e prerrogativas atinentes à condição de pecador e assemelhados. Todo bom pecador deverá filiar-se à Associação, passando a ter os seguintes direitos:

1) Será reconhecido e louvado em praça pública;

2) Quanto mais pecar, maior será o reconhecimento;

3) Será estabelecido o Mercado Nacional e Internacional do Pecado, com preço e cotação na Bolsa;

4) O pecador poderá negociar seus pecados ou fazer a sua acumulação;

5) A acumulação de pecados, morto o pecador, será revertida em benefício dos seus familiares;

6) Em função dos direitos e aquisições acima, todo pecador terá direito a pagar dízimo.

7) O pecador poderá pagar seu dízimo até mesmo na hora da morte; 

8) Em caso de pagamento nas condições acima, incidirá imposto de transmissão de pecados;

9) Para efeito de associação na Abepec haverá a condição de assmelhados - como mencionado acima -, devendo em tal caso ser reconhecidos como pecadores todos os que se encontram nas seguintes categorias: corruptos, usurpadores, salafrários, fraudadores e quejandos.

10) A Abepec faz saber que serão instaurados cursos rápidos de treinamento em pecados por pensamentos, palavras ou obras. Acreditamos que, frente à grande ocorrência de pecadores, esta entidade terá um largo papel a cumprir.

11) Informamos que se algum não-pecador se inscerver nesta Associação será severamente punido por fraude e falsidade ideológica.


domingo, 8 de abril de 2012

É natural ser político e ser ladrão

Os sucessivos escândalos envolvendo personalidades da vida pública nacional, a incessante repetição de atos de imoralidade administrativa ocupando as manchetes, terminou por imbricar no senso comum que fazer política no Brasil é tão-somente uma troca de acusações entre homens e mulheres e que, culpados todos, já que os acusadores de hoje amanhã serão os réus, o que se passa é apenas um racha, um desentendimento entre vilões, parceiros e pares de sua própria indignidade.
http://tamancolargo.blogspot.com.br/2012/02/politicos-esposas-e-amantes.html


Isso, é claro, não é de hoje. O último escândalo será sempre e apenas o mais recente; outro virá sucedê-lo. A história é pródiga em denúncias de corrupção. Sua prática foi naturalizada e  suas diversas formas de manifestação passam a ser tidas como sendo a essência mesma da política. 

Ou seja: para o chamado homem comum a compreensão que resta é a de que fazer política não é tratar das coisas importantes, essenciais para o provimento do social; para ele, fazer política é apenas a gestão de um conluio, a organização de quadrilheiros que, sob o manto dos mandatos, roubam o mais que podem. 

Obviamente o senso comum espera que o político "trabalhe", realize, administre, legisle bem e dignamente. A questão é que o inverso tornou-se a realidade - a realidade coditiana e contundente das manchetes -, e a prevalência dos atos de bigamia entre o público e o privado, tornando dúbia a relação do político com seus atos de pessoa e ator social, termina por formular a convicção de que fazer política é roubar o mais que puder e, se possível, sair-se bem, jamais ser pego.