sábado, 6 de outubro de 2012

O Colégio da Conceição vai fechar

Meu amigo, estou começando a ficar com medo: acabou-se o Diário de Natal, fechou o Bar de Lourival, o Machadão foi demolido, a Árvore da Cidade foi cortada há tempos, o viaduto do Baldo pode cair a qualquer momento, tem lixo pra todo lado, Ponta Negra afundou e agora vem a notícia de que o Colégio da Conceição vai falir. Quando o Colégio da Conceição diz que vai fechar é porque as coisas não andam boas.


Natal, parece, está se desmanchando. Natal, sem dúvida, está perdendo referentes históricos.

Só falta o seguinte: derrubar a casa de Câmara Cascudo e vender o Forte dos Reis Magos sob alegação de que é muito velho. Quando isso acontecer é melhor fugir. Nada poderá nos salvar e teremos o mais horrendo dos fins; cachorros começarão a miar, gatos a latir e canários vão virar aves de rapina.

Oremos, que isso só pode ser coisa de mau olhado.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Deu na Folha e compartilho com você

O dia que abalou a cultura pop

Há exatos 50 anos,em 5 de outubro de 1962, James Bond ganhava os cinemas e "Love Me Do", primeiro single dos Beatles, chegava às paradas de sucessos 

THALES DE MENEZES
EDITOR-ASSISTENTE DA “ILUSTRADA”


Em 1962, enquanto Estados Unidos e União Soviética brigavam pela conquista da Lua, os britânicos tratavam de conquistar a Terra. Pelo menos a parte dela que ficou conhecida como "cultura pop".
As armas dos súditos da rainha eram o agente James Bond, com armas de verdade e licença para matar, e os Beatles, com guitarras no lugar de metralhadoras.

No dia 5 de outubro daquele ano, 12 cinemas londrinos começaram a exibir "007 Contra o Satânico Dr. No", primeira aventura na tela grande de James Bond -em 1954, o livro "Cassino Royale" ganhara versão de uma hora para a TV inglesa, com Barry Nelson no papel do agente.
"Dr. No" encheu as salas. Ian Fleming tinha lançado dez romances com o herói desde 1953, um fenômeno de vendas. A certeza do sucesso era tanta que o produtor Albert R. Broccoli concebia uma franquia com cinco filmes.

Isso impediu que Gregory Peck assumisse o papel, por recusar um contrato longo. Roger Moore, galã da época, quase herdou a vaga, mas, considerado jovem demais, deu a chance a Sean Connery.
Moore foi protagonizar uma série de TV de espionagem, "O Santo", que curiosamente estreou em 4 de outubro, um dia antes de "Dr. No". Moore substituiria Connery como Bond a partir de 1973.

NOVIDADE NA PARADA

Lançado no mesmo dia do filme de Bond, o primeiro compacto dos Beatles, "Love Me Do", chegou ao 17º posto da parada inglesa. Na frieza dos números, não parece tão sensacional assim. Mas era uma tremenda novidade entre as músicas que dominavam as mais tocadas.
A mensagem de amor direta na letra e a frase de gaita tocada por John Lennon na abertura da música, um convite ao assobio, fisgaram os ouvintes. "Love Me Do" preparou o terreno para que, seis meses depois, o primeiro LP dos Beatles, "Please Please Me", alcançasse o topo das paradas britânicas.
Relançada em 1964 nos Estados Unidos, "Love Me Do" entrou direto em primeiro lugar entre os singles mais vendidos, destino de praticamente todos os singles posteriores dos Beatles.
O mesmo se deu com James Bond. Todos os filmes produzidos nos anos 1960 lideraram a bilheteria mundial.

BIQUÍNI HISTÓRICO

Se a gaita de Lennon é a marca de "Love Me Do", as cenas na praia formaram a imagem icônica de "Dr. No". Difícil esquecer James Bond saindo da água com a roupa de borracha de mergulhador e, ao tirá-la, exibir um smoking impecável, nem um pouco amarrotado.
Também na praia surgia a suíça Ursula Andress com um biquíni que entrou para a história. Belíssima, mas sofrível a ponto de ter suas falas no filme dubladas pela alemã Nikki van der Zyl, ela iniciou a linhagem das "Bond girls". Às vezes mocinhas, às vezes vilãs, eram sempre estonteantes.

O apelo sexual também é um laço entre Bond e os Beatles. Seu sucesso ilimitado com as mulheres foi peça fundamental na construção da revolução comportamental que se seguiu.
Enquanto os Beatles eram literalmente perseguidos pelas fãs nas ruas, Bond não deixava uma mulher passar a alguns metros de distância sem levá-la para a cama -vale também sofá, banco de carro, bote salva-vidas, submarino ou nave espacial.

A música, o cinema e a vida mudaram depois de 5 de outubro de 1962. Beatles e James Bond foram pioneiros de um estrelato global. Se hoje Madonna ou Lady Gaga são conhecidas na Albânia e na Malásia, é porque trilham o caminho pavimentado por 007 e pelos reis do iê-iê-iê.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De como passar no jornal e ser chamado a um inferno de água


A cobertura da enchente em S. Gonçalo, feita em lombo de cavalo. Eu sou o terceiro, da esquerda para a direita

A enchente que quase vira um rio de sangue

A história que vou contar aconteceu num dia qualquer de junho de 1976. Eu trabalhava na Tribuna do Norte e nesse dia, sem motivo algum, uma vez que minha pauta sempre era para a tarde, saí de casa e fui até a redação. Péssima ideia. Primeiro, porque chovia muito; segundo porque aquilo que seria uma passadinha rápida no jornal transformou-se numa cobertura exaustiva que quase acabou em cena de sangue num bar em São Gonçalo do Amarante.

Foi assim: logo que cheguei à redação, encharcado até à alma, encontrei Agnelo Alves, jornalista e um dos donos da Tribuna, procurando um repórter para ir a São Gonçalo. A chuva estava provocando uma arraso na cidade, especialmente na periferia. Não deu outra: na hora fui escalado para cobrir o assunto. Quem pedia a cobertura era um aliado dos Alves, opositor do prefeito de então.

Em minha companhia iria um fotógrafo conhecido como Anjinho. Seu nome era Antenor, Antenor não sei o quê, já que nunca lhe soube o sobrenome. Mas soube, muitíssimos anos após, que morrera, pobre e sofrido. Anjinho, como Ferdinando, aquele personagem dos quadrinhos, era enorme. Como o personagem tinha físico maciço, era de uma doçura sem limite, ou seja: era grande , poderoso e inofensivo. Inofensivo como um boi manso.

 Não era fotógrafo de campo. Trabalhava no laboratório, revelando e copiando as fotos. Não tinha – como Iremar Araújo, o Bárbaro a que me refiro em texto que você pode ler logo abaixo deste –, o fogo, a chama, o pipoco do profissional de talento. Anjinho era um Hércules atencioso, Iremar um capetinha de pouco mais de metro e meio de altura.
Pois bem: entramos no carro do tal aliado de Agnelo e partimos. Sequer tive tempo de telefonar para casa, avisando que como sempre não teria hora de voltar.

Chegando a São Gonçalo encontramos a cidade mergulhada. Demos uma geral no centro e nos bairros e em seguida fomos aos distritos, literalmente uma banheira. Pior: um grande atoleiro. Pois foi com esse atoleiro monumental que o carro 
teve de se haver até chegarmos às margens de um rio que aterrorizava os ribeirinhos.

A primeira cena foi desoladora: um casebre inclinado sobre a margem dava a impressão de desabar a qualquer momento. A água era torrente. O dono daquela lamentável habitação era desespero puro. Aproximei-me dele, apresentei-me e dei de cara com a mais inusitada resposta à minha pergunta. Eu queria saber quando a água começara a invadir a sua casa e ele disse no ato:
– Só respondo se você me garantir a construção de uma casa nova. Garante?

Ora, aquela pobre alma certamente não sabia que um repórter jamais poderia assumir aquele compromisso. Primeiro, porque o salário não dava; segundo, porque, sei lá porquê, só sei que não dava para fazer aquela promessa. Insisti com a pergunta e ele respondeu da mesma forma. Então entendi tudo: eu estava na companhia de um político. E como na visão de pobre político sempre é um tipo que promete coisas em troca de votos, deve ter pensado que eu queria extorquir seu voto como geralmente fazem os políticos.

Assim chegamos a um pequeno impasse. Usando de toda persuasão possível expliquei que aquilo era uma entrevista e que a denúncia da sua situação poderia provocar, da parte da prefeitura de São Gonçalo, alguma assistência. 

– Pior não pode ficar – argumentei. Ele então aceitou e contou sua tragédia. Pobre só conta tragédia. A chuva começara perto da meia-noite e fora engrossando até chegar àquele ponto: o rio cheio de barreira a barreira e a casa quase caindo, tal a força do aguaceiro.
Relatada a situação partimos para outro local. Aí a coisa estava realmente feia: as pessoas estavam ilhadas. Quer dizer: em situação bem pior que o pobre da casa quase caída. Aquele ainda poderia pedir algum tipo de ajuda, buscar abrigo ou receber comida; os que estavam ilhados viviam situação mais deplorável sem ter como escapar ou receber ajuda. 

O carro seguiu patinando na lama até chegarmos a outro impasse: dali para a frente o carro não ia. Era lama demais, água demais. Era entrar e atolar. Entrar e atolar, não: entrar e afundar. Então, não se sabe de onde, apareceu alguém com uns cavalos.
– Vamos? Vamos montar? – disse o sujeito que me havia atraído àquele enrascada. Fazer o quê? – respondi: – Vamos, não é? – e fomos. Detalhe: eu montara a cavalo somente uma vez, quando menino, ou seja: não tinha prática para aquelas investidas. Mas, enfim, montei no matungo que me foi destinado e aí começou um martírio. Veja bem: Anjinho fez a foto que você viu aí acima, esporeou sua montada e juntou-se ao grupo. 

Enquanto isso, o miserável animal que me fora destinado começou a fazer das suas: suspeito que aquele bicho tenha sido cavalo de carrossel, pois somente sabia rodar da direita para a esquerda e, quando estimulado por mim na tentativa de acompanhar a cavalgada, fazia o inverso. Quer dizer: eu estava metido numa situação dos diabos, pois os demais já de distanciavam. E o sórdido cavalo girando o tempo todo.

Quanto percebi que estava vivendo uma lamentável loucura, algo ridículo ou quase isso, gritei para que me esperassem. Certamente dominados por algum espírito bondoso, todos pararam. Enfim, meu medíocre animal aceitou seguir em linha reta e conseguir juntar-me ao bando. 

Caminhamos com água batendo no peito dos cavalos, fomos a vários locais devastados e prosseguimos adiante. Enfim, a coisa piorou de vez: chegamos a um ponto tão terrível que nem mesmo os cavalos poderiam ultrapassar. Se os cavalos se metessem, a lama, funcionando como terreno movediço ameaçava tragá-los. E a nós também. Certamente iríamos parar no centro da Terra, não tenha dúvida. Do mesmo modo como os cavalos nos tinham sido trazidos, alguém apareceu com um trator. Somente de trator poderíamos chegar adiante.

Seguimos naquela maquina monstruosa até paragens distantes. Pegamos depois umas canoas para ir mais adiante, pois a coisa mais e mais se complicava. Nesse ponto comecei a ficar com medo. Quem remava a canoa onde eu estava era Anjnho, do algo do seu metro e noventa pesando coisa de cem quilos ou mais. Seguinte: quando ele ficava de pé a precária embarcação adernava para um lado e para o outro. Afinal consegui convencê-lo a remar sentado a fim de evitar que a reportagem terminasse como notícia da morte do repórter. 

Agora, veja bem: tínhamos saído de Natal coisa de nove da manhã e já então era coisa de três da tarde. Sem comer e sem beber nada. Sabe o que é nada? Nada? Isso mesmo: nada. Por um momento tive a maldita ideia de pegar água do rio com as mãos e beber. Mas ante o temor de contrair alguma miserável doença e passar o resto dos meus dias largado num hospital me fez afastar-me de tão louco propósito. 

Mas, enfim: depois de muita luta terminou o trabalho de apuração, toda a situação fora registrada e aquela desconjuntada expedição resolveu voltar. Ainda bem. Mais mortos que vivos saímos das canoas, pegamos o trator, voltamos aos cavalos e afinal chegamos ao carro.

Estávamos cobertos de lama. Uma lama barrenta, que aderia às roupas e aos nossos corpos. Do jeito estávamos entramos no carro. Na volta, aos pedaços, paramos num restaurante.  Aí a coisa ficou assumiu aspecto aterrador.

Venha comigo e observe: o restaurante, popular, estava lotado. Entre as mesas inocente menina vendia votos para concurso de rainha do milho. Sabe como é: a menina que vender mais votos ganha o concurso de rainha do milho e dá o dinheiro à escola. Pois bem: depois de vender uns votinhos em varias mesas ela dirigiu-se a um grupo de homens de má aparência. Foi tratada princípio com desdém e depois com grosseria.

Eles não notaram, mas haviam feito muito mal: numa mesa próxima estava o pai da garota. Era um tipo alto, mais alto que Anjinho, mais forte que ele e, ao contrário do meu colega, era um bruto. O sujeito tinha um bigodão preto que descia de um lado ao outro do queixo. Sentado numa cadeira deixava à mostra, na cintura, às costas, o cabo de uma faca de doze polegadas, também conhecida nos ambientes de valentões sertanejos como viana ou santa-maria. Só que aquele tipo de santa, na mão do pai da menina, somente obraria milagres do mal.

 O minotauro percebeu o destrato da criança e ficou eriçado. A mão direita conferiu se a arma estava a postos, agarrou-a. Em seguida minotauro levantou-se e se preparou para avançar contra o grupo. Alguém a seu lado teve o bom-senso de agir rápido e o controlou a custo. A quase briga não passou de um susto.  Ainda bem, a nossa mesa estava a menos de dois metros da confusão. 

A caminho do jornal, o carro zunindo na pista molhada acudiu-me a seguinte ideia: ainda bem que eu estava apenas coberto de lama: como isso só acontece com jornalista, eu tinha ido cobrir uma enchente e podia ter voltado como testemunha de um rio de sangue e feito a reportagem ao vivo do crime. Por mais vermelho que seja, todo crime é sempre em preto e branco.


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A doce vingança de um monstro



A mulher nua e a faca ensanguentada

Pegando gancho no comentário que fiz logo abaixo sobre o fim do Diário de Natal lembro de uma passagem que me marcou. Isso deve ter sido em começos de 1975, quando eu era repórter policial. Foi assim: coisa de uma e meia da tarde toca o telefone. Sozinho na redação atendi. Entra em cena a voz de Domício Ramalho, veterano repórter de polícia então cobrindo crimes na esfera do judiciário. Ele disse:

– Barreto, corra lá nas Rocas que mataram um. Não sei como foi, somente me informaram que mataram um lá nas Rocas. Vá lá e apure.

– Tá ok, vou lá –  respondi.

Ora, Domício era escolado, sabia muito. Na editoria de polícia ele formava dupla imbatível com Pepe dos Santos, o maioral de todos nós, cheio de fontes e informações. Eu era um foca que sequer estudava jornalismo, fazia o curso de direito. Reunindo todas as forças da minha inexperiência chamei um motorista e desci a ladeira, a Kombi do jornal voando. Como fotógrafo tinha comigo Iremar Araújo, o Bárbaro. Tinha pouco mais de metro e meio de altura mas era o cão em matéria de polícia. Costumava dizer:

– O cara pra andar comigo deve ter razão e preconceito. E amarrar as pontas da camisa que é pra não voar.

Expliquei rapidamente o que acontecia, Bárbaro acenou que sim com a cabeça e partimos. Chegando às Rocas, mais exatamente no Canto do Mangue, a Kombi parou. Saltamos e surgiu aí o primeiro desafio do foca: o local do crime estava isolado com cordas. Era passar ou perder a matéria. Inexperiente e ainda por cima tímido como sutiã de freira, de repente fui tomado por um ímpeto de decisão: era fazer ou fazer. 

Se não fizesse, Alexis Gurgel, o jornalista que estava me ensinando as primeiras letras do jornalismo, seria capaz de me matar; isso se não fizesse algo pior, se é que existe algo pior que a morte. Pensando bem existe, pelo menos existia, para mim existia: eram as explosões de raiva de Alexis. Assim, era melhor apurar bem aquela matéria. 

Saindo da Kombi, quase correndo, ergui a corda, passei por baixo e gritei, levantando a mão esquerda, como se ali estivesse uma carteira de jornalista: – Diário de Natal!

Deu certo: minha invisível carteira e o poderoso nome do jornal fizeram um guarda ceder espaço àquele projeto de repórter. Outro soldado fez um gesto e eu ingressei no território do crime. Bárbaro estava parado, tinha sido retido pelos policiais. Em meio àquela inesperada autoridade, berrei: – Entra, Bárbaro! Passa! 

O pingo de gente tomou coragem, enfiou-se por baixo da corda e logo estava a meu lado. Metemos o pé e chegamos ao ponto do crime. Vi ali a mais terrível cena da minha vida: técnicos do Itep pegavam um corpo de mulher e jogavam-no num caixão feito de lata. Seguravam pelos pés e pelas mãos, balançavam para um lado e para o outro para dar impulso, até atirá-lo no sinistro ataúde.

A mulher, de um moreno escuro, cabelos muito negros, estava nua e o corpo jorrava sangue. Nada menos que 75 facadas a haviam abatido. Eu vendo aquilo e fazendo anotações rápidas, a vista esquadrinhando a desgraça. Bárbaro feito um louco fotografando tudo. 

Entramos na casa onde havia sido o crime. Na verdade era um estabelecimento comercial, creio que de venda de pescado. Alguém disse: – Vejam como ficou o banheiro – e imediatamente fomos para lá.

Quando entramos, tudo parecia cenário de filme de terror: o chão lavado de sangue, as paredes recobertas de azulejo estavam literalmente pintadas de vermelho. Marcas de mãos nas paredes davam o indício de como aquele mulher fora morta. 

A tragédia tinha sido assim: a mulher era amante da um bandido conhecido como Mansinho, que cumpria pena na Colônia Penal João Chaves, o Caldeirão do Diabo. Ele tivera permissão para visitá-la e tinha vindo a Natal escoltado por um soldado. Agora, veja só a trama, digna de Nelson Rodrigues: o soldado era também amante da amante de Mansinho. Já sentiu o peso, não?

Pois bem, o bandido, esperto que só ele, fazia de conta que nada sabia, mas intimamente tinha a vingança premeditada. Mas, como vingança é prato que se come frio, esperou que o soldado estivesse de serviço e pediu a licença, certo de que o tal seria seu acompanhante: assim, despejaria sobre a mulher o peso do seu ódio sem que o outro nada pudesse fazer em sua defesa . 

Dito e feito: chegaram às Rocas e, quando o soldado o deixou entrar na casa e ser recebido pela mulher, Mansinho puxou para baixo uma porta de metal era uma porta daquelas de loja, que ele fechou e trancou por dentro. Então começou o horror: depois de se satisfazer como macho, Mansinho abriu a discussão, bateu mão de uma faca e começou o estrago golpe após golpe. Ferimentos profundos, talhos por todo o corpo. 

A mulher gritava, louca e nua, e ele trabalhava firme, cevando nela o ódio amealhado e borbulhante. Daí as marcas de mãos nas paredes do banheiro, o chão empapado em sangue. Ela tentava fugir em desespero inútil. Do lado de fora o policial nada podia fazer: batia na porta, chutava, tentava inutilmente levantar o aço que protegia e amparava o crime. A mulher lutou o que pôde, até que a vida lhe fugiu. O corpo tombou pesado. 

Mansinho, satisfeito, pegou uma escada de pedreiro que inexplicavelmente estava por lá, subiu, saltou o muro dos fundos e escapou. Os vizinhos ouviram o tumulto e chamaram a polícia. Os soldados vieram, arrombaram a porta e encontraram a desgraça feita. 

Como notícia ruim anda ligeiro, Domício soube, me acionou e aí começou tudo o que você acabou de ler. De lá para cá já se passaram 37 anos. Passaram-se como quem passa um minuto olhando o mundo de esguelha.

Enfim, era isso: o Diário de Natal hoje é saudade, não lembro o nome da mulher e nunca mais ouvi falar de Mansinho.   


Meu querido Diário...

Com a morte do Diário de Natal nasce em mim a lembrança , a primeira, a mais antiga e por isso a mais menina na minha tábua de memórias. Então com 23 anos fui uma noite à velha Redação da Deodoro falar com Luís Maria Alves, nosso Chatô: queria trabalhar no jornal. Começava aí uma estrada que já dura 38 anos e não sei quando termina. Um dia começarei a contar essa história, aqui, neste coranto elétrico.
Mas, adeus, meu Querido Diário, adeus.


Jamais irei a Tóquio 

Amigo meu, de cuja sanidade mental já vinha duvidando há muito tempo, procurou-me em minha casa dizendo ter para mim “importantes informações”. Trouxe-o até o meu escritório e coloquei-me à disposição. Imediatamente afirmou: “Jamais vá a Tóquio. Indo a Tóquio poderá ser morto a qualquer momento. 
http://seul-le-cinema.blogspot.com.br/2009/11/mask-of-fu-manchu.html

Respondi que, pelo menos não nesta vida, pretendo ir a tão distante paragem. Ele fez de conta que não ouvira minhas palavras e continuou com suas advertências: disse que soubera que um jovem fora a Tóquio e lá fora dominado, preso e seu corpo vendido em retalhos no mercado de carne; uma pobre freira, missionária, tentara inutilmente converter aqueles incréus e fora vendida a piratas da Índia; um comerciante tentara de lá escapar, mas fora imediatamente preso e hoje encontra-se atirado a um manicômio. Só para citar alguns casos, detalhou.

Retomando a palavra disse-lhe que ficasse calmo, eu era grato pelas importantes informações, mas jamais iria a Tóquio. Então ele disse o seguinte: “De nada adianta isso que você me diz. Se não for a Tóquio, Tóquio virá a você. Depois de estar ligado a Tóquio, meu pobre amigo, criou-se situação decisiva. Assim, prepare-se, Tóquio virá a você. Você está ligado a Tóquio.

Compreendi seu total estado de loucura, admiti que estava ligado àquela linda cidade e insinuei que ele agora deveria ir embora. Já estava tarde e eu precisava dormir.

Ele se foi, eu vim ao computador, e após começar a redigir este texto senti sono e fui me deitar. Horas depois, altas horas, ouvi barulho. Parecia alguém pulando o muro da minha casa. Olhei pela janela e vejo dois indivíduos sorrateiros se encaminhando para a porta. 

Corri para a sala, encostei o ouvido à porta, espreitei pelo olho-mágico e então percebi a gravidade da situação. Era ele, o meu amigo, na companhia de um japonês a quem dizia:
– Pronto, é essa a casa. Ele mora aqui...