sábado, 27 de janeiro de 2007

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Crônicas para Natal

Praia da Redinha: sacrário da cachaça

Redinha, teus barcos são ponte

que corre sobre as águas do rio Potengi.
Teus moradores são a festa,
a alegria, o sol, o movimento.

Teu mercado, sacrário da cachaça,

é o recanto onde
sobre mesas simples e fartas,
bebedores e amigos
celebram o ato de viver.

A Redinha, em sua amplidão

demarcada pelo sol,
é o mapa, caminho
e chegada da sala de estar de Natal.

Redinha, a caravana do sol

mora contigo.
Que sejas assim, sempre,
território alegre e bom do prazer,
e,ao mesmo tempo,
recanto intenso e calmo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

A morte vem pelo computador; ou tão belos e tão terríveis

Leia esta matéria, transcrita do Estadão online :
BERLIM - Um rapaz de 23 anos que vendia pela internet um coquetel letal de drogas chamado de "pílulas do suicídio" foi condenado nesta quarta-feira a três anos e nove meses de prisão.

O jovem confessou culpa em 16 acusações de comércio ilegal de medicamentos, informou um porta-voz do tribunal de Wuppertal.

Pelo menos duas pessoas morreram como resultado da ingestão do coquetel, enquanto outras sete entraram em coma. Três pessoas conseguiram deixar estados de coma, mas passaram a ter problemas graves de saúde, incluindo lesão muscular.

O condenado, natural da Albânia, vendeu os comprimidos que continham drogas para epilepsia e antipsicóticas em troca de dinheiro e, em alguns casos, por notebooks, informou
a mídia alemã.

Nós e os monstros de nossa criação

Não é de hoje que a sociedade humana por vezes se transforma em algo sombrio, perigoso, trágico, cruel. Nomes como os de Nero, Calígula, Hitler, Mussolini, Stalin e Pol Pot ainda ressoam na memória coletiva como sinônimos perfeito de brutalidade garantida por força do Poder institucional. Brutalidade garantida por lei. Donos do Estado-guilhotina.

Mas há personalidades que não tiveram ou não têm acesso ao Poder formal que também podem ser integradas à lista: Jack o estripador, O Homem da Luz Vermelha, Bonnie e Clyde, Al Capone e Elias Maluco, para misturarmos personagens daqui e de fora. É sobre o indivíduo que produz morte ao seu redor que quero falar. O matador que destrói sem ter a força da ditadura ou do Estado em suas mãos. Na verdade, quero falar do ser humano sinistro, o ser humano em sua unicidade mórbida.

Não vou tratar das teorias de César Lombroso e suas tipificações do criminoso nato, de resto superadas falo pelo lado da existência, a lamentável condição humana, o homem que, num dado momento histórico, num dado momento da sua vida, se descobre com propensões para o crime, para a exploração e até a morte daquele que lhe esteja próximo. E com isso se satisfaz. E até lucra, como o jovem que foi preso.

No caso, temos a proximidade que se dá pela internet, onde alguém se propõe a atender aos desejos suicidas de outro e, como um comerciante, o atende em sua encomenda letal. Isso, sem esquecer o caso daquele que procurou na teia de computadores um canibal que o matasse e devorasse. E conseguiu.

O terrível Dr. Hannibal do cinema, é o caso clássico da morbidez ficcional cinematográfica, sem esquecer Dr. Jeckyl e Mr. Hide, ou "O médico e o monstro", como foi o filme denominado no Brasil. Ou seja: a mídia sempre explorou o lado mórbido do homem, o horror que habita em cada um de nós. Exploração esta no cinema, no jornal, no rádio, na TV e hoje na internet.

Estes são indícios de que vivemos num mundo onde a dor, a solidão, os comportamentos discrepantes, os mistérios mais insondáveis e sórdidos da mente podem ser intercambiados via internet em sites, no orkut, em salas de bate-papo, em troca de mensagens instantâneas e com a visibilidade da webcam entre os interlocutores.

E assim, pela internet, o jovem vendia o coquetel do suicídio. Atendia à sua clientela, satisfazia o aparente desejo de alguém que na verdade precisava de outro tipo de ajuda que não a instigação ao suicídio. Nos desvãos de seus escombros mentais, o matador continuava a caminhar entre monstros, ele próprio interiormente deformado. Mas deformado por quê? Deformado por quem? Por que a necessidade de ajudar pessoas a morrer?

Havia, é claro, algo de sofisticado, de romanesco, de jogo de claro/escuro: alguém anuncia na internet que vende a morte, expõe-se de alguma forma a ser pego pela polícia, grita no silêncio da net seu pregão de horror e encontra quem deseja comprar a morte cientificamente embalada em comprimidos. Até então vinha driblando a prisão. Era como uma aventura ao lado de Hades, o deus grego do mundo dos mortos.

Não sou psicólogo, não falo como autoridade no assunto. Apenas registro minha perplexidade e meu lamento. Este planeta, tão belo e tão terrível, é habitado por nós, homens e mulheres, tão belos e tão terríveis.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Crônicas para Natal

O charme do Poder*

Antigo e nobre, o Palácio Potengi

é uma construção feita de tempo.
Arquitetura simples,
traz em sua escadaria,
em seus salões de silêncios,
em seu clima interior,
a marca da elegância.

Aqui, sonhos políticos

marcaram os delírios da História.
Aqui, o formal e o belo
se equilibram em um pêndulo estático.

Arte e requinte guardados

em salões que já fizeram
as delícias da política.

Palácio Potengi,

jardim de charme do Poder,
onde o tempo guardou
lembranças lindas,
jóias de arte e
passageiros gestos
das decisões políticas.

*O Palácio Potengi hoje não é mais a sede do Poder. É o Palácio da Cultura e serve para exposições e apresentações de grupos de artistas.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Novas e tenebrosas transações

Por obra desses mistérios informáticos, deixei, por alguns dias, de atualizar o blog. O comptador simplesmnte parou de funcionar, encheu-se de riscos no monitor e depois recusou-se terminantemente a colaborar. Resultado: parei. Enquanto isso, o tempo não parou e o Brasil continuou pródigo em acontecimentos noticiáveis: o presidente Lula deu anúncio ao PAC; bandidos se vestiram de policiais federais, atacaram, roubaram o dinheiro que queriam e conseguiram escapar; a Força Nacional de Segurança chegou ao Rio e os bandidos continuam a agir, ligeiros que só eles; resgataram-se dos escombros da cratera de São Paulo os corpos das vítimas da profunda tragédia; a mãe que queria matar o seu bebê de dois anos afogado foi condenada; os jornais informam que há articulações para anistiar Roberto Jefferson e José Dirceu; o BBB-7 continua a atrair o ócio e a tolice institucionalizados; a "Grande família" virou filme e, alegria, alegria, vem aí o carnaval.

Mas, pelo inusitado, chamou-me atenção, hoje pela manhã, a publicação, no Bom Dia Brasil, de uma rápida seqüência de fotos:uma mãe, em São Paulo, atirou-se às águas de uma represa, sem saber nadar, para salvar o filho que se afogava. E salvou.

De pronto, formou-se em minha retina uma imagem de Brasil: suas controvérsias já bem elucidadas no parágrafo anterior, seu painel de confrontos, desvios morais na política, desencantos e perspectivas duvidosas.

Aquela mulher, já idosa, frágil, saltando em águas com quatro metros de profundidade, na tentativa incerta de salvar o filho ou morrer com ele, funcionou, para mim, como uma síntese lancinante da tragédia brasileira.

É essa a imagem do Brasil: o brasilzinho do povo largado à própria sorte, a patriazinha que caminha a passos incertos nas filas do SUS, na dor dos doentes dos postos de saúde, das escolas públicas que funcionam mal, do menino que recolhe latinhas de cerveja para reciclar.

Aquela mãe pobre e seu heroísmo suburbano, reconhecido apenas pelas fotos sensacionalistas, merece estar em paz com o filho que, certamente, espera tenha um futuro melhor que o seu. Pelo menos está vivo. Já é um consolo.

Enquanto isso, no silêncio sussurrante da política, murmúrios tramam a volta de dois cassados por corrupção. Esses não mergulham em águas profundas e furiosas. Antes, repousam calmamente e sabem que um dia estarão, de novo, no timão do navio que os levará a bom porto. Lá haverá, sempre, novas e tenebrosas transações.