O meu rolezinho
Há alguns dias acompanhei minha
mulher às compras; lojas do centro de Natal. Numa delas, de roupas femininas,
entramos e fiquei parado nas imediações da porta enquanto ela procurava por
vestidos.
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Nossa atitude foi o suficiente
para que um funcionário da segurança entrasse imediatamente em ação: ao que
tudo parecia indicar – notei logo suas manhas – ele estava pensando algo mais
ou menos assim: “Esse casal de trambiqueiros está armando algum golpe.” Mais
claramente: ele começou a andar em círculos, olhos cravados em mim.
Ia de um ponto a outro da loja
tentando disfarçar sua imperícia como vigia, digamos assim, não caracterizado. Não
usava arma aparente nem uniforme. Devia estar se achando o máximo. E eu, claro,
seria um terrível elemento que a qualquer momento iria afanar alguma peça de
roupa e sair, na companhia da minha mulher, correndo feito dois loucos pela
Princesa Isabel.
Notando os olhares do indivíduo
caminhei até o centro da loja e ali parei. Não toquei em nenhuma roupa, não
examinei nada. Cruzei os braços e permaneci estático. Em seguida voltei para
junto da porta. Com isso quis sinalizar ao elemento que eu nada queria, a não
ser exercer o direito de estar num local aberto ao público.
Ele continuou a me rondar, chegando
ao ponto de seguir-me quando fui em direção dos provadores de roupa
acompanhando minha mulher que queria experimentar um vestido. O rapaz chegou bem
perto de mim. Quase me tocou. Minha mulher não se interessou por nada e desistiu. Agradeceu
às atendentes e deixamos a loja.
Saímos. La fora, rimos bastante
da lamentável atitude, da bizarrice, da estupidez do vigia. Devo dizer que a
situação foi constrangedora. Por instantes deu-me vontade de reagir, mesmo com serenidade,
às atitudes do sujeito. Mas eu queria ver até aonde ele iria. Queria perceber
até aonde iria a ação daquele ignorante.
Agi com calma até pelo
seguinte: àqueles dias estava em alta a ação dos jovens que praticam
rolezinhos. Na prática, resolvera dar o meu rolezinho: invadir aquele espaço
onde era tido como ameaçadador. E resolvi sofrer o preconceito sem manifestar
maiores repúdios. Arquei com as consequências emocionais daquela situação que
oscilava entre o ridículo vigilantismo e o patético ato de alguém ser, por motivo
apenas indicial, comparado a um criminoso, a um ser de periculosidade nascida de
suspeita infundada.
Devo dizer: não foi fácil. É terrível
você sentir-se observado, analisado, visto, examinado por um óculo torto e
desfocado. Não vou entrar a fundo na questão do rolezinho: é coisa para outro
artigo. Mas é lamentável, é perigoso – e até bastante perigoso – alguém ser
visto previamente como “mau elemento” sem que tenha efetivamente manifestado
periculosidade.
Controlei-me acima de tudo para
não humilhar nem dirigir-me àquele trabalhador mal qualificado, recebedor de
salário mínimo e perguntar: “Você sabe com quem está falando?”