sábado, 14 de setembro de 2013

Silêncio, medo e escuridão na velha Ribeira


Dois perdidos numa noite suja

Não lembro bem o ano, mas foi na década de 1980 que resolvi participar de um concurso de reportagens sobre a Ribeira, o velho bairro boêmio de Natal. Eu era editor de Cidades do Diário de Natal. Arrastado pela saudade resolvi que aquela era uma boa oportunidade de reviver meus tempos de repórter. Especialmente os tempos de repórter policial. Afinal fora ali, na Ribeira, que fizera minhas primeiras matérias, entrevistando delegados, agentes de polícia e bandidos, sujeitos reles e da pior espécie, como se dizia.

(Redijo este texto sob os acordes de Astor Piazzolla, a quem entrevistei ainda nos anos 70 no hoje arruinado Hotel dos Reis Magos. Sobre essa entrevita falarei depois, algum dia, ok?)


Escolhi essa trilha sonora pois ela, de alguma forma, remonta à minha memória como uma senda no tempo, levando-me a ambientes fumageiros, mesas de bar barra-pesada, meia-luz, bas-fond; ambientes que a gente, na reportagem policial tem de enfrentar, melhor dizendo, viver.


Pois bem: resolvi fazer a reportagem exatamente à noite, quando a Ribeira é mais Ribeira. Acompanhou-me Moraes Neto, fotógrafo pé-quente. Isso basta para defini-lo. Marcamos para iniciar os trabalhos nas imediações do Bar das Bandeiras, garboso ambiente noturno, se é que me entende... Ali, expostas nas
paredes altas , bandeiras de muitos países, deixadas como dádivas, presentes de marinheiros de todo o mundo. 

Eu e Morais saímos do Diário às oito da noite e mergulhamos em direção à Ribeira, que em tempos outros era chamada de Cidade Baixa. Paramos o carro, descemos e ficamos observando o ambiente: marinheiros filipinos acocorados fumavam, diziam coisas ininteligíveis e nos olhavam com estranheza: um cara com um bloco de papel nas mãos e outro com uma tremenda Nikon ao peito. Creio que se sentiam, assim, digamos, investigados.


Deixamos os filipinos de lado e eu disse a Morais "vamos". O vamos queria dizer vamos ao bar. E fomos. Não éramos desconhecidos. Éramos muito bem recebidos. É que turmas de jornalistas, empresários, boêmios, poetas, pintores, escritores, artistas o frequentavam, especialmente às tardes de sábado. Mas, à noite, a coisa era diferente: ao escurecer a fauna era bem outra: putas, marinheiros, estivadores, pescadores... Era, aí sim, a Ribeira representada pela sua mais autêntica realidade. A alegria bruta de sua essência popular, o vulgo reluzente.


E foi isso, foi essa mudança, o que nos recebeu. Percebi que as coisas mudam literalmente do dia para a noite quando alguém, uma voz de mulher, disse: "Lá vem o triste". O "triste" era eu. Sinceramente leitor, não entendi aquelas palavras, até que me aproximei da dona do bar: grosseira, ela disse: - O que vocês estão fazendo aqui? Não podem fotografar. Aqui estão mulheres, até mesmo mulheres casadas, que vêm fazer a vida. Pode dar problema, entende?


Senti o peso da situação. Um estivador empertigou-se, uma mulher fuzilou-me com olhar de onça, um bêbado levantou-se, encostou-se no balcão, ameaçador. 


Foi como se milhares de olhos, olhos enraivecidos, estivessem a nos fitar. Então, percebi: éramos uma ameaça, uma ameaça à tranquilidade daquele ambiente onde reinavam as leis e ordens de Baco, a feroz felicidade do beber cachaça à larga, pegar uma puta pela cintura, gritar rudemnte pedindo "mais uma", e lá vnha mais uma cerveja gelada.


Expliquei que não havíamos fotografado nada nem ninguém. A gente estava ali somente para sentir, sentir, entendeu?, a noite da Ribeira. A dona do bar acalmou-se e eu disse a Moraes: "Vamo." Saímos. Ainda deu para ouvir a mesma voz de mulher, a mulher que havia me chamado de "triste", dizer: "Ainda bem, ele foi embora." Vale dizer: eu, o "triste", tinha tirado o time.


Continuo ouvindo Piazzolla. Agora com "Años de soledad". Se nunca ouviu não sabe o que está perdendo. Ouça, ouça o mais rápido possível, ouça.


Voltemos à Ribeira. Moraes e eu, dois perdidos nessa noite da Ribeira, saímos andando. Fomos até uma delegacia. Falei com o agente responsável - o delegado não estava - e pedi para entrevistar alguns presos. O cara foi legal e deixou. Um forte cheiro de sujeira ampliava a sensação de coisa marginal, ambiente de rejeitados, decadência, asco.


Suportei o odor e encaminhei-me à carceragem. Se você nunca entrou numa delegacia não tem ideia de como seja: gente dormindo no chão frio e sujo, gente assujeitada, fedida, infecta. Mas, deu para aguentar. Era como nos  velhos tempos de repórter policial. 


Sentei-me perto da grade de um dos cárceres e puxei conversa com um sujeito. Só de calção - prisioneiros homens ficam só de calção ou cueca. Isso é para impedir que alguém tente se suicidar com alguma peça de roupa. Pelo menos era o que se dizia na época. 

Voltando: sentei-me e tentei falar com o cara. Disse que estsava fazendo uma reportagem sobre a Ribeira e blá, blá, blá. Era preciso explicar tudo: afinal, eu estava falando com alguém cuja liberdade tinha sido suprimida. Tinha, pelo menos, que justificar essa invasão em sua vida. Não é fácil alguém estar preso e ainda por cima ter suas misérias expostas, entende?


E então foi que enfrentei outra dificuldade pouquinho tempo depois da fria vivida no Bar das Bandeiras: por causa do meu bigode - e isso sempre acontecia quando eu falava com bandidos ou outros tipos presos - o sujeito disse: - Você tem cara de cana. Cara de canoa. Não vou falar. Esse bigode mostra que você é da polícia. Quer me meter ainda mais num rabo de foguete. Muito maior do que a merda em que já tou metido.


Parei. Pensei depressa e expliquei que não era nada daquilo, que eu não era um canoa, que não tava numa de lascar ele ainda mais. O tipo terminou aceitando meu papo e falou que estava preso depois de dar uma surra na mulher e, pá, pá, pá, tinha entrado em cana. Uma história bem típica do povão, coisa cotidiana do noticiário policial. 


Nesse instante dei um salto no tempo e voltei a 1974, quando entrei no jornalismo, ao lado de Pepe dos Santos e Alexis Gurgel, dois monstros do noticiário de polícia de Natal. Duas grandes figuras, irrepetíveis e insuperáveis. Segurei a onda, falei com outros presos e saí. Nem lembro se Moraes fotografou. Só sei que deu para sentir a barra do quanto o pobre, do sujeito comum, sua estupidez, suas necessidades, sua lamentável e sórdida existência.

Saindo da delegacia começamos a andar pelo bairro. As horas se passavam e eu e Moraes percorrendo as ruas escuras, os bares escusos, as casas de luzes vermelhas, o silêncio faustoso da semi-obscuridade daquele bairro de cachaça e bebedeira, tão humano e tão verdadeiro, perigoso e bêbado.


Hoje vejo que foi coisa de louco. Moraes com uma câmera caríssima. Eu com minha vontade de repórter, eu com minha curiosidade humana. Nós com nossas vidas expostas a agressões, perigos, assaltos. Nós, com uma espécie de ingenuidade tão jornalística e tão poética, nos colocando à disposição de malandros e marginais somente para fazer uma boa matéria. Nossas famílias, em casa, talvez temendo pelo pior... Por que éramos tão loucos? Ainda hoje não sei a resposta, depois de 39 anos de jornalismo...


Mas, continuemos: caminhando, chegamos às imediações do Beco da Quarentena, sórdido ambiente de prostituição, da mais baixa prostituição já praticada em Natal. Ali é o seguinte: cubículos, lado a lado, eram quartos onde as mais reles prostitutas recebiam seus clientes. O sujeito entrava e a porta era fechada atrás de si. 


Trata-se, na verdade,  de ua ruela que liga, de ponta a ponta, uma rua a outra. Uma espécie de galeria do sexo mais sujo e marginal. Mas, acalme-se: ali já não mais reinava tal e dantesco quadro. Blenorragia e sífilis estavam afastadas. O Beco era - ainda é - uma viela abandonada, escura, miserável, sebenta, esquecida.

Paramos. Moraes começou a estourar flashes no casario que ladeia o Beco. Então eu fiz algo que até hoje me arrepia e me interroga. Meti o pé e entrei o Beco. (Piazzolla continha a me acompanhar neste relato). Caminhei alguns metros, minhas botas ressoando o silêncio escuro do chão da rua. De repente ouço sons. Sons de luta. Eram barulhos surdos, como se alguém trocasse socos. Gente se esmurrando no tórax. Bum, bum, bum! Tum, tum, tum! Era como se alguém recebesse um murro e depois batesse contra uma porta. Arrepiado, recuei.


Depois, voltei. E ouvi e mesma coisa. Devo dizer, foi aterrorizante. Fiz a mesma coisa mais umas duas vezes, com o mesmo e aterrorizante efeito. Afinal, desisti. Chamei Moraes, andamos mais um pouco e afinal, coisa de duas da manhã, demos a missão por encerrada. Fomos para nossos carros, estacionados perto do Bar das Bandeiras.


Nos despedimos com um abraço. Resumindo: terminei ganhando o prêmio de reportagem sobre a Ribeira.


Anos depois passei perto do Beco da Quarentena. Era dia e entrei. Para minha surpresa não havia portas nem nada, nada que justificasse aquele barulho aterrador de corpos se esbatendo contra madeira. Jamais entendi.


E hoje, bacutando este texto, me pergunto: valeu a pena? E me respondo: valeu, valeu pois a alma não foi pequena.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Travessias, muitas travessias

Dos perigos de fazer uma viagem perimetral de inspeção
Caro leitor, 

Devo dizer-vos que encontro-me hoje no ano de 1789 e estou a serviço de empresa para a qual trabalho mas cuja finalidade operacional não tenho condições de explicar qual é, pois nunca a entendi.  Percorro algum país em viagem perimetral de inspeção. Também não sei exatamente o que isso significa, mas cumpro com meu mister da melhor forma possível: interrogo pessoas a esmo, pergunto como vai o tempo, inquiro se nasceu algum novo carneiro, busco informar-me sobre qual a idade de uma formiga, indago se um peixe pode ser segrado rei, se uma cobra pode prescrever receituário médico e coisas que tais. Como vedes, coisas jurisconsultas e altíssimas.

Anoto tudo e logo em seguida jogo as anotações fora. Em seguida a mim vem um inspetor que recolhe meus escritos, os lê e os arremessa no mato, e atrás dele vem outro e faz a mesma coisa e logo após outro, outro e outro, e isso se repete indefinidamente. Mas, atentai bem, estas foram as instruções que recebi para que fosse levada e efeito uma eficaz viagem perimetral de inspeção. Sendo assim, como cumpro com inominável prazer e desesperada ânsia este fado, creio que estou me saindo muito bem.

A carruagem em que me desloco é uma espécie de inferno ambulante, tal o calor impregnante que me acossa em meio a estrada sacolejante. Já superamos, eu e os outros infelizes viajores que cumprem comigo este périplo insano, cada um com seus motivos, chuvas que mais se assemelham às mais imponentes cachoeiras, ataques de salteadores, perseguição de matilhas e gritos de pavor de velhas devotas em lugarejos insólitos - elas emitem guinchos terríveis quando nos veem em nosso lastimável estado: roupas sujas, cabelos eriçados, botas enlameadas, olhos injetados, pensando, tais e bondosas criaturas, que somos representantes do Maldito. Velhos curas nos expulsam apresentando o crucifixo. Como medida de bom senso fugimos sem parar.

Afinal, digo-vos, aproximo-me do término de minha viagem e eis que surge o gerente geral de viagens perimetrais de inspeção e me avisa: "Vais iniciar imediatamente uma viagem perimetral de inspeção, pois dizem que nos confins deste país maltas de desocupados, biltres temíveis, répobros insondáveis, ímpios impudentes e homens mal-faladores, além de néscios preguiçosos e beócios empedernidos preparam surtida contra a lei e contra ordem e, destarte, El Rey precisa de dados e números para preparar as defesas de todos os burgos."

Diante de tal quadro fugi, pois horrendo medo se apoderou de mim, inopinadamente, ao sentir que meu trabalho é cousa de louco ou de alguém a este assemelhado. Embrenhei-me na primeira e mais feroz floresta, cujas árvores têm arestas e espinhos de mais de um metro de comprimento e aliei-me ao primeiro magote de ímpios e outros banidos que encontrei. E, assim, senti-me pleno e lesto: depois desta fuga participarei de assaltos aos burgos mais solenes e preclaros, ataques a cidades ilustres e luminosas e jamais, nunca mais, farei novamente uma viagem perimetral de inspeção.