quinta-feira, 25 de março de 2010

Amigas e Amigos,

Tenho andado muito ocupado. Assim, não posso atualizar o Coisas de Jornal diariamente. Espero voltar a fazê-lo a partir deste fim de semana.

Abraços,
Emanoel Barreto

terça-feira, 23 de março de 2010


Acredito
Emanoel Barreto

Acredito na força das mãos que trabalham
o silêncio cúmplice dos que querem viver a sós.

Acredito nesse silêncio que
fala vozes invisíveis.

domingo, 21 de março de 2010

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Caras Amigas,
Caros Amigos,



Era uma vez, Pobre. Pobre era um sem-teto, sem-tudo, sem-nada, sem lenço e, principalmente, sem documento. "Sem documento", terrível e essencial detalhe. Esse foi seu grande erro: nunca ter tirado documento. Mas também pra quê? Ninguém sabia mesmo quem era ele...


Mas foi assim que, certa noite, deitado ao lado de amigos, sentindo o cheiro forte da cachaça de Marimba, velho companheiro de dias de fome, noites de frio, relento e abandono, Pobre morreu. Simplesmente, morreu. Esquecido e anônimo, foi recolhido como indigente e despejado numa vala. Sem nome, sem choro nem vela.

Chegando ao Outro Lado, encaminhou-se ao Departamento de Recepção, onde uma simpática velhinha o recebeu. Deu-lhe as boas-vindas, garantiu que ali finalmente ele seria feliz e disse para ele se encaminhar ao Setor de Cadastro. Pobre obedeceu, cabisbaixo e calado, como sempre. Lá chegando, o funcionário, um fantasma grandão, olhar de desagrado, pediu:"Documento." O problema é que Pobre, lembram?, não tinha documento algum.

Disse: "Tenho não."

O homem insistiu:"Documento."
"Que documento o senhor quer?"

O outro repondeu: "Certidão de óbito. Sem isso, nem vem que não entra."


Pobre quis saber se poderia conseguir algo, um registro provisório, alguma coisa assim. A resposta foi "não. Aqui é a eternidade, sabia? A eternidade é o para sempre do nunca mais. Não tem meio termo, nada é provisório."


Pobre perguntou então o que deveria fazer. Era muito simples, disse o homem: "Você volta, e lá no mundo você consegue o atestado de óbito. Vem para cá e entra. Vá logo, que a eternidade não espera por ninguém."

Pobre fez um esforço enorme para sair da cova rasa e, quando conseguiu chegar à superfície, estava em meio a um temporal. Calado, acostumado ao sofrimento, sofrido e abatido, encaminhou-se a uma rua deserta e ali passou a noite, deitado sob uma marquise. Dia seguinte, saiu perambulando pela cidade, à procura de uma certidão de óbito.

Foi primeiro a uma repartição pública, onde eram atendidos mendigos e explicou sua situação. Disse que tinha morrido, estava com pressa para ir para o Outro Mundo, mas os funcionários disseram que, mesmo entendendo sua situação, nada podiam fazer. Não dava para atender quem já tinha morrido. Gente morta era com o pessoal da Prefeitura, que cuidava de enterrar desvalidos. Sentiam muito.


Pobre foi até um Departamento qualquer da Prefeitura e nada. Também ali não atendiam os mortos. Pobre saiu caminhando, caminhando, até chegar a outra repartição. Ali causou sensação. Uma funcionária, toda apressadinha, anunciou aos colegas que ali estava um "morto legítimo, já pensou? Juntou gente, formou-se confusão. Um vereador que ia passando manifestou-se sensibilizado e disse que faria um pronunciamento na Câmara, em favor dos mortos sem documento. O pessoal de uma ONG se propôs a fazer uma manifestação de protesto, pois os mortos também têm direitos humanos e não podem ficar por aí, largados.

O alarido era enorme, até que uma radiopatrulha que passava, parou. Os soldados queriam saber o que se passava e logo chegaram até Pobre, que já estava desesperado e queria fugir, pois o vereador já conclamava a multidão a uma passeata reivindicatória e gritrava: "Os mortos/Unidos/Jamais serão vencidos!" Gente já pensava em se suicidar para unir-se organicamente à mobilização mortuária.

Pobre entrou em pânico e dizia: "Eu só quero meu atestado de óbito." Mas de nada adiantava. As pessoas só queriam saber "como era do outro lado e como ele havia voltado." O sargento que comandava a radiopatrulha, vendo que se tratava de um morto e, pior, de um morto desordeiro, resolveu prendê-lo. Mas, foi advertido pelo pessoal da ONG de que Pobre não estava promovendo o tumulto, era vítima dele. Assim, não poderia ser preso. Se fosse em cana, tome protesto.

Nisso, o sargento teve uma idéia, a solução para prender Pobre e acabar com a confusão. E disse: "O senhor esteje preso."


"Mas como?", quis saber o vereador. Este morto não fez nada. Morrer é crime?"
O sargento insistiu: "Morrer, pode. Morrer não é crime. Mas, no caso, trata-se de um zumbi. Zumbi é proibido. Zumbi só é permitido no Haiti e nosso país não quebrou essa patente nem tem verba para comprar os direitos de produzir zumbis. O senhor é um zumbi. Está dando alteração. Portanto, esteje preso."


Emanoel Barreto