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Saudade de Ti Zé Guilherme
Este rosto de vaqueiro
lembrou-me fortemente a imagem de Ti Zé Guilherme, na verdade tio de Minha Mãe.
Senhor das terras da Fazenda Jordão, acres de terra seca e nordestina, região
central do Rio Grande do Norte.
Rijo como um cardeiro, forte
como um lajedo, tinha no corpo espigado a marca do sertanejo. Tomava rapé e fumava cigarros de fumo bruto. Pai de Zé Guilherme
Moço, Lurdinha e Mariinha. Luquinha, filho mais novo, lidava com o gado e o roçado.
Seu cavalo chamava-se Soberano.
Era bicho arisco e difícil de selar e enredear. Cavalo bom de gado e ligeiro; zanho
que só ele. Eu era doido por aquele cavalo. Bicho castanho, alto de cernelha,
crina preta. Espantadiço, olho de coisa braba, jeito de cangaceiro.
Fui à fazenda acho que só umas
duas vezes. Ali vi Vovó Lulu, mulher de Ti Zé Guilherme, pilando café. Colhido não
sei como naquelas terras bravias. Passei a chamar Vovó Lulu de Vovó Lulu porque
todos os meninos d fazenda a tinham nessa conta: vovó de todos, abraço gostoso em colo de
mulher grande, matrona, dessas que amparam, protegem, refugam medo de tudo. Ô, Vovó Lulu, que
saudade...
Ela era assim: sertaneja gorda,
bonachona, o cabelo preto mesclado de fios alvos. Tudo puxado para
trás, enfeixado num totó. A pele branca de há muito recoberta por um bronzeado entranhado,
como somente o sol do sertão ferrenho pode fazer. Se você não é nordestino não sabe do que eu falo.
Lá no Jordão tinha também uma
vaca de quem eu gostava muito: chamava-se Mangaba e dava um leite bom que só o
cão. Naquele tempo, idos de 1959, era assim: quando uma coisa era mesmo muito
boa, a gente dizia que era “boa que só o cão”. Não era “bom que só Deus”, mas
bom que só o cão. Esquisito, né? Mas era assim mesmo: bom que
só o cão...
A
Fazenda Jordão me veio hoje à
mente . Mexendo nessas coisas da net vi a foto deste vaqueiro. E me
chegou também, de repente e num minuto, uma saudade tardia daqueles
tempos. Saudade esquecida nas gavetas avoengas da memória de um menino
que ainda teima em morar em mim.
Às vezes esse menino me chama e
me diz: "Rapaz, Soberano ainda espera ser montado; para que você e ele somados se metam na caatinga à procura de
Mangaba: é hora de tirar leite. O leite dos peitos fartos daquela vaca
sertaneja."
Mas isso é só lembrança. Hoje eu vivo o meu hoje e
digo: Ave, Maria, que tempo é esse? Mas, dai-me Senhora Mãe, coragem, espora e sela; coragem e
decisão, que o tempo é de seca é pó. E que vez por outra, Senhora, me venham as lembranças de Ti Zé e do cavalo Soberano.