sexta-feira, 13 de março de 2026

 Nós, pobres animais de Deus

Por Emanoel Barreto

O poeta potiguar Luís Carlos Guimarães definia os seres humanos como “ nós, pobres animais de Deus”. Não era apenas uma assertiva certeira e perfeita, frase de efeito ou tirada genial em meio a um bate-papo regado a cerveja, mas um belo verso de poema cujo título não recordo.

É isso mesmo o que somos: animais que pastejam pelas ruas, ruminam sonhos, mendigam empregos, buscam horizontes artificiais para correr em busca de suas crenças, inventam santos e demônios, festejam alegrias, guardam rancor ou expressam gratidão e amor – ou o inverso, o que é mais comum.

Isso para citar apenas algumas das nossas facetas, que são muitas, extensas e misturadas em um emaranhado complexo e infinito de fatos e ações, todos largos e sem fim como sem fim são as múltiplas consequências de nossos gestos e atos para o bem ou para o mal – às vezes, para as duas coisas ao mesmo tempo.

As grandes vitórias, os impérios financeiros, as gigantescas corporações, o barraco do miserável, o magnata e o desvalido; tudo isso terá fim com a morte de um e de outro, do potentado e do indigente: são a essência, o trabalho e a consequência de sermos pobres animais de Deus.

E depois virão novamente as grandes vitórias, os impérios financeiros, as gigantescas corporações, o barraco do miserável, o magnata e o desvalido; tudo isso terá fim com a morte de um e de outro, do potentado e do indigente: são a essência, o trabalho e a consequência de sermos pobres animais de Deus.

Somos, ao passar do tempo, como o bicho que busca arrancar da terra a grama que o alimentará. A vaca faz isso todos os dias sem consciência do ato em si. Ela o faz e pronto. Vive a calma, a indolência modorrenta de sua eterna e transitória existência. Nós fazemos a mesma coisa, só que em outro nível de inconsciência e n aturalização.

Lutamos todos os dias, seja num emprego mal remunerado ou atrás do birô do milionário, obedecemos ao chefete atrevido ou somos o próprio, e tememos o ataque do bandido de rua: diante disso a condição humana nos obriga a ter algo de nosso, queremos garantias, defesas.

Como nossa fragilidade não nos permite arrancar grama do chão com a boca precisamos de um prato, de um teto, remédios e amparo na velhice.

Ao final, como a vaca, buscamos de forma inconsciente o que seja necessário e nos proteja. Ela precisa de grama, nós tentamos enganar nossa miserável condição humana com almoços e confraternizações. 

Tudo vale a pena. Nada vale a pena.

Paciência, somos pobres animais de Deus.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

 Os sonhos foram a primeira

forma de cinema

Por Emanoel Barreto

 

Uma vez estava conversando comigo mesmo – gosto de falar comigo mesmo; afinal, preciso conversar com alguém em quem tenha total confiança. No meio da conversa eu e mim começamos a discorrer sobre cinema: chovia a cântaros, e, pela janela, observamos como estava bela a enevoada paisagem, apesar da poderosa e quase aterrorizante chuva. Da janela, vidros molhados, a vastidão campestre distorcida era espetáculo que lembrava uma pintura impressionista.

A tempestade envolvendo o campo poderia ser o cenário perfeito para um filme, dissemos. E então eu disse a mim, “sabia que a primeira forma do cinema foram os sonhos?”. Mim concordou imediatamente, começando por lembrar que aqueles, digamos, sonhos, devaneios, são histórias que surgem das brumas da mente e podem nos levar a momentos de maravilha, magia e encanto ou a abismos profundos, escondidos em nossa própria essência. “Somos nosso próprio terror no cinema embutido em nossas cabeças”.

“Do mesmo jeito que nos filmes de horror”, sugeri, e mim concordou, lembrando que às vezes temos sonhos que se repetem, sonhos que têm continuação, sonhos de que não nos lembramos. E mim disse a eu, “eu também. Veja como somos parecidos.”

Bons sonhos.

Os sonhos foram a primeira forma do cinema, estamos convictos, pois, da mesma forma que hoje o mundo se vale dos críticos dos festivais para divulgar o cinema – esse sonho das multidões –, os reis, os grandes, os  principais, os nobres e cortesãos se valiam de áugures, intérpretes de sonhos, e aqueles lhes atribuíam explicações, avaliações e justificativas para do onírico dizer se eram produções que prenunciavam terríveis acontecimentos futuros, ou auspiciosos momentos de festejos e pompa.

E hoje, em casa, temos também nossas superproduções quando adormecemos, da mesma forma que os potentados ou nossos mais distantes ancestres, reunidos à volta da fogueira, olhando a lua e contando dos terrores ou belezas que haviam visto ao dormir.

Eu e mim estamos certos de que, na verdade, vivemos imersos em sonhos, acordados ou dormindo: a ilusão da existência está desfocada e nos cerca de convicções que se revelam disformes e ambíguas; a realidade é uma mistura de manchas e labirintos, onde as verdades se esvaem.

E eu, mim e você caminhamos nos sonhos e no cinema e nos perdemos em tudo o que acreditamos, quando a realidade se desmancha em lufada de vento.

É tarde. Já vamos dormir. Achamos que caímos num desvão ilusivo e esse texto escapou de nossas mãos sem querer. Desculpe-nos.

terça-feira, 10 de março de 2026

 

A verdade que ilude

os ignorantes

Por Emanoel Barreto

 

A ignorância é um bem precioso nas mãos dos poderosos. Com ela se fabricam mentes toscas, ideias são plantadas como ervas daninhas, pessoas caminham para o abismo ao som de cânticos e louvores ao deus da estupidez.

A ignorância vale muito, e o pior é que o ignorante, pela sua própria situação, não se descobre enquanto tal, uma vez que lhe disseram que uma certa mentira é verdade e o ignorante acreditou – pelo fato mesmo de que não tem condições de descobrir a contraface do erro que lhe foi ensinado.

Desta forma, liberdade, justiça, democracia, direitos e respeito somente o são segundo uma fórmula que passa de geração em geração, levando poderosos sempre no mesmo andor, enquanto o ignorante lhes dá suporte e os leva sobre os ombros, acreditando estar certo, já que está  misturado, dissolvido em uma sopa de crenças e certezas. A ilusão de que ser serviçal ao poder garante estabilidade e paz, domina os tontos e todos vão, à noite, dormir em paz.

segunda-feira, 9 de março de 2026

 A mulher triste e

coisas de horror profundo

Por Emanoel Barreto

 

Estávamos nos anos 70. Era noite. A sessão do cine Nordeste havia terminado. Entramos no carro minha mulher e eu. Saí dirigindo como que sem destino.  “Vamos passear por aí”, disse – até que, não sei por que, tomei a direção da fortaleza dos Reis Magos – a cidade já se embrulhando em seu sono, as ruas noturnas que não faziam medo, o rádio tocando alguma coisa, o carro em velocidade baixa. Tudo ia bem.

Afinal chegamos ao forte. A praia onde está plantado, completamente diferente de hoje, parecia ser algum ponto fora de Natal, ainda meio selvagem e deserta àquela hora. Ao fundo a imponente fortaleza e seus fantasmas portugueses, quem sabe esperando ataques de indígenas ou de tropas de holandesas, num combate de velhas almas armadas de arcabuzes barulhentos e canhões enferrujados.  A lua entrava como parte do cenário de algum filme noir. No mais, silêncio.

O carro foi se aproximando de um clube que havia por lá; a construção, às escuras, era como se fosse algo de há muito abandonado. A única luz vinha da luminária de um poste onde divisei cena que poderia muito bem compor o texto de um livro de realismo fantástico: bem perto do poste havia um carrinho de cachorro-quente e refrigerante.

O vendedor era um senhor já idoso, vestindo uniforme de uma empresa. O carrinho era de chamar a atenção: nada desses feitos em casa: eram geringonças de flandre com duas rodonas de bicicleta e pneus carecas; não, nada disso. O carrinho era pintado em vermelho, demonstrava ser feito em material de primeira e, detalhe: nele havia, preso a uma de suas laterais, um candeeiro daqueles que a gente acendia e ele reluzia igual a uma lâmpada fluorescente. Caso fosse preciso a engenhosa coisa supriria a escuridão.

Pregunta-se sobre aquela situação: como aquele homem chegou àquelas lonjuras, superando a distância certamente existente entre a empresa dona do carrinho e a areia da praia do Forte? Qual clientela ele poderia esperar em naquele local ermo? Por que alguém faria tal investimento? Por que um empresário pagaria a um funcionário para ficar ali, à noite, num lugar deserto? Senti que vivia um instante torto, como se fosse alguém caminhando no  interior de uma paisagem surrealista. Pacífica loucura. Momento diferenciado. Coisa esquisita sem ser malfazeja.

Eu ainda estava sob os efeitos daquela situação inusitada quando vi algo que rompeu o instante insolitamente onírico: uma cena triste, tristíssima, cortou a esquisita beleza daquele momento em que eu e minha mulher bebíamos Coca e comíamos cachorro-quente. Seguinte: ao fundo, divisei, caminhando pela areia, uma mulher que andava para lá e para cá, passos tardos, cabeça baixa, afundada certamente em pensamentos terríveis e crivada de sofrimentos de masmorra.

Fiquei paralisado e observei: ela ia para um lado em linha reta, andava uns dez metros, virava e, logo após, voltava, seguindo as pegadas que deixava na areia. Percebia-se seu sofrimento e solidão. Emanava de si uma dor profunda e de sua alma espumava uma sincera infelicidade, acompanhada de angústia confessional que demonstrava todo o seu sofrimento.

Parecia estar vazia de tudo o que significa estar vivo e, mais que isso, expunha estar despojada do que seja se desejar viver. Havia ali um ser humano que se desfazia em sombras e silêncios de catástrofe. Ela estava em momenmto de horror, perdida em seus próprios arrabaldes. Desorientada de si. Alguém que queria se morrer. Um pedaço de nada. Algo ou alguém havia destruído a mulher, arruinado a pessoa que habitava aquele corpo. Recusei-me a entendê-la como coitada. Ela resplandecia de pungência. Assumira por completo a queda.

Fiquei parado um bom tempo observando aquele tormentoso martírio até que não deu mais: parei de olhar a cena desalentadora paguei a conta e saí, deixando para trás o velho, seu carrinho vermelho e aquela sereia devastada. O carro partiu para casa em marcha lenta: ao dormir sonhei coisas de horror profundo.

domingo, 8 de março de 2026

 A vida acaba,

a palavra fica

  Por Emanoel Barreto

A última vez que publiquei aqui foi dia 17 de outubro de 2024. Ainda assim, verifiquei hoje, um público fiel mantém vigilância diária nesta página, numa espécie, creio, de visitação arqueológica, buscando talvez as matérias mais antigas como novidades: afinal o que ainda não se viu mesmo velho é fato novo.

Às vezes digo a mim mesmo: quando se nasce com a inquietação da palavra há de se cumpri-la à luz da vela de uma vida que se esvai enquanto você escreve, redige, fala consigo mesmo, se perde no labirinto da sua própria imaginação, caminho que nunca acaba. No fim a vida acaba, a palavra fica.

E por que parei de escrever? Não sei. Digamos que as palavras que estavam escondidas em minhas mãos se esvaíram a cada texto, até que se extinguiram. Só pode ser isso. Consultei um amigo, que é cientista e louco e ele me assegurou: quem gosta de redigir tem sim um estoque de palavras e o excesso de uso as consome temporariamente. Depois quem se extingue é você e então suas palavras ficam órfãs, à procura de outras mãos onde possam se sentir acolhidas. E, acolhidas, começam uma nova ciranda –  e assim sucessivamente.

Então, hoje, veio-me a vontade de escrever e descobri que as palavras voltaram. Regressei ao teclado do piano do computador e compus esse pequeno solo, todo cifrado nos sons silenciosos do texto.

Obrigado, espero voltar amanhã.