Feliz natal aos mendigos e feliz natal aos menos dignos
Vi hoje uma matilha de pedintes
se espalhando pelas ruas. Todos queriam sua parte do feliz natal. Mãos estendidas,
olhar de cachorro triste, aquele olhar que o cão nos manda, comovente,
langoroso, quando parece pedir alguma coisa. Só que o cão não pede nada com
aquele olhar, sequer é um olhar. Ele olha e pronto. Nós é que entendemos que o
cachorro é triste.
O mendigo não: ele é humano e
tem olhar. E olhar representa sentimento, intenção, expressão. Assim, o mendigo
reúne as duas coisas: ele tem a tristeza essencial do homem, e alguma
compreensão de que como homem vive como cachorro abandonado.
A tristeza se prega na vida do
pobre, do miserável, do desvalido, e dela ela se vale como argumento. Pudera. Ele
sabe que vivemos um jogo; jogo sujo,
esperto, maroto, muitas vezes safado, da exploração do homem pelo homem.
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O mendigo aprendeu isso na
favela, no esgoto, no chão escuro e úmido daquele esconso do viaduto onde se
esconde da chuva e do frio, a fome roendo o estômago, a gripe forte roncando no
peito.
E dessa escola ele tem diploma.
Assim, munido da autoridade do sofrimento parte para pedir seu quinhão, mesmo
que seja a menor, a mais sórdida, a mais grande parte da miséria que lhe
despejemos na mão desse feliz/infeliz natal.
Hoje vi uma matilha de
mendigos-cães ladrando pela esmola do natal. Hoje vi uma corja da sofredores
encardidos. Hoje vi também uma humanidade esmoleira se atiçando nos shoppings e
pedindo o óbolo do presente suntuoso para enganar a sua situação de miserável,
miserável que pode comprar um naco de ilusão.
Feliz natal a todos os mendigos.
Feliz natal até mesmo aos menos dignos.