sábado, 26 de setembro de 2009

Os tempos escuros e o Homem-luto
Emanoel Barreto

E então vieram os tempos escuros. E todos se fizeram luto. E disfarçados de tristeza ficou mais fácil ser-se luto e conviver com os tempos escuros. E todos ficaram cegos, pois não precisavam nem mais podiam ver. E assim a Escuridão triunfou.
E um dia, quando a Luz voltou, não mais pôde ser vista, pois todos estavam de há muito cegos e não mais sabiam o que era a Luz. "Para que a Luz? Para que serve a Luz?" - todos se perguntavam. E escolhiam ficar na escuridão.
Apenas um seguia à frente. Tinha os olhos vivos e a tudo via. E ele dirigia o mundo dos cegos e com isso ganhava muito.Todos o louvavam como um grande guia, que lhes ensinava: "Para que a Luz? Para que a Luz?"
E o bando em coro respondia: "Para nada, para nada, para nada..."

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Ribeira e os loucos intermitentes
Emanoel Barreto

Havia na Ribeira uma louca. Negra e muda, ela caminhava pelo bairro, perdida de si. Ela e outros personagens, que não sei para onde foram. Como um outro, que construiu para si um amontoado de tábuas, um labirinto de restos de construções, que a muito custo de equilibrava. Que lhe servia de morada e púlpito, de onde fazia estranhas pregações.
Não sei a quem se dirigia, talvez ao mundo todo, a advertir desgraças e administrar conselhos e crenças. Muitas vezes o vi, pertinho da Tribuna do Norte, a voz em alerta, os braços em gestos largos, em seu teatro fantástico e trágico.
Havia também um cego, que andava depressa, um braço tocando as paredes que lhe davam rumo, enquanto seguia em seu labirinto escuro pelas ruas da vida. E um outro, uma espécie de desocupado caminhante, que a todo custo tentava vender às pessoas revistas velhíssimas. Talvez a nos chamar a viver permanentemente o passado ali retratado, e como a dizer: "Leiam, os males que estão aí não valem mais. Do mesmo modo como valem pouco as coisas que hoje vivemos e que nos apavoram."

A Ribeira é um velho bairro de sombras. Onde a saudade anda vestida de farrapos.

ZOORÓSCOPO

VAGALUME - É o zoosigno dos poetas e outros sublimes sem-juízo. Anda para lá e para cá e sua pobre luz não é suficiente para acender nas almas duras algum sentimento. Mas, seguem. E vivem plenamente sua loucura raspando de faíscas breves o peso da noite.



quinta-feira, 24 de setembro de 2009


Imagem: http://4.bp.blogspot.com/_Cxv3W9QCccM/SoSkGoOnz9I/AAAAAAAABRw/WF0vgqoMckc/s400/caras-de-susto.jpg
O evangelho dos maus
Emanoel Barreto



Ora, naquele tempo disse um corrupto a seus discípulos: "Ide e pregai, pregai peças quero dizer, a todos e a cada um. E de todos e de cada um tirai vosso sustento, sem que para tanto tenhais de trabalhar. Que não é dado ao injusto ser justo, e sendo injusto que traga sempre para si o prato mais pesado da balança e dele engorde."



"Mas, Mestre", perguntou um deles, "como faremos para burlar os demais, se há tantas leis?"



"Então", respondeu o Mestre dos corruptos, "apoderarmo-nos-emos dos órgãos que fazem as leis e as faremos injustas à nossa igualdade e mostra. Ide."



E os discípulos do corrupto foram e fizeram as leis. E as fizeram tão bem feitas, que hoje imperam no mundo a inoperância, a fome e os privilégios. E vendo que as leis eram boas para si, eles se banquetearam. Mas, um voltou-se para o Conselho dos Corruptos e questionou: "O que faremos com as prisões, que são a nossa maior obra e embelezamento?"



Eis a resposta: "Já que as leis são nossas e assim sendo nos privilegiam, e a elas estamos todos adequados, metamos na prisão os que são contra, pois são eles os culpados e os monstros e teremos boa obra feito ao mundo. "



E assim foi dito e assim foi feito. E até hoje os comuns e os desgaçados estão atirados nas prisões e calabouços, enquanto os corruptos uivam seu hedonismo e seu muito dinheiro.



ZOORÓSCOPO



BÚFALO - Brutos e agressivos, são encontradiços entre os que têm na estupidez seu mérito maior e sua força e razão. Andam em carrões enormes e riem dos que ficam ao lado, cobertos pela lama que os de Búfalo pisoteiam.





terça-feira, 22 de setembro de 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

OBRIGATORIEDADE DO SILÊNCIO
--- Walter Medeiros Filho*

Começava em 1994 a saga da série juvenil “Malhação”, com historinhas que agradavam aos jovens e aos pais dos adolescentes. Os temas abordados eram diversos e tratavam de assuntos cotidianos da vida das famílias brasileiras, assim como ajudava em temas polêmicos na construção do caráter e da boa índole, como dependência química e doenças sexualmente transmissíveis. Guardo ainda as lembranças de anos não muito distantes, de quando meu pai assistia à série, por ter interesse em temas relacionados ao alcoolismo.

Hoje, o seriado não passa de uma mera “novelinha”, apenas um programa de entrada para as diversas novelas da Rede Globo de televisão. O programa não trata mais de temas interessantes, mas sim, de problemas inerentes à vida de quaisquer grupinhos de jovens com desvio de conduta: tramas para ver um colega preso, gravidez forjada para evitar uma separação – ou para fazer voltar atrás dela, “filhinhos de papai” tendo seus comportamentos apoiados pelos pais que não dão boa educação etc.

Infelizmente, estes problemas retratados pela Malhação existem na sociedade, e o ponto chave da questão é: o programa se passa em um colégio, e neste não há respeito algum pelos Professores e Mestres. Este problema está presente em todos os tipos de instituições, desde escolas públicas – onde alunos usam drogas ou levam armas para dentro de sala de aula, até escolas particulares – onde se imagina que haja um controle mais rigoroso, mas é o local onde se verifica o maior índice de descontrole por parte dos pais, que em matéria de “limites”, tiram zero!

Hoje a profissão de professor deveria ser coberta por um gordo adicional de insalubridade – salas sujas, barulhentas e recheadas de falta de respeito fazem mal à saúde; acho que é a posição mais perigosa da sociedade e que é a mais propensa a infartos e acidentes vasculares cerebrais decorrentes do estresse. É um trabalho extremamente árduo, visto que ninguém gosta de falar só. E é isso o que acontece: professores falam para platéias voltadas para a mais nova “resenha” da hora ou para o mais novo modelo de tênis lançado ou, ainda, para o local da festa do próximo final de semana.

O que fazer para solucionar um problema desta magnitude? Falar com a direção do colégio ou instituição não resolve, garanto! Tenho experiência em colégio particular, apenas, e posso garantir que o interesse que rege instituições deste tipo é o lucro gerado pelos pais dos alunos no final de cada mês, com o pagamento de mensalidades cada vez mais caras. É a obrigatoriedade do silêncio. Passei também três anos de minha vida em cursos pré-vestibulares e posso afirmar que, como querem, alunos saem ou entram nas salas de aula para o que quer que seja, sem o famoso “professor posso ir tomar água?”. Os professores para a maioria dos alunos, neste tipo de ambiente, são meros empregados assalariados, que têm que deixar os seus “patrões” saírem na hora que eles quiserem.

Não há, para os professores, como serem ouvidos nestas instituições – ambas particulares. No caso de públicas, a situação é ainda pior. Famosos são os relatos de professores que são obrigados a trabalhar sob a ameaça da presença de armas de fogo em sala de aula, e que convivem com alunos que além de não prestarem atenção ao que dizem, usam drogas em sala – reina a impunidade no Brasil. Este Brasil que vive numa sociedade acuada, com medo de dizer a verdade e de ser repreendida por aqueles que mandam – verdadeiramente – nas pessoas, os criminosos. Mas, para não me alongar no assunto, quero dizer que não há como os profissionais reclamarem estas condições de trabalho, pois polícia e sociedade sabem os focos do problema, mas nada podem fazer. Ou se podem, não fazem.

Como defender os direitos de uma profissão como a de Professor, uma posição tão nobre, importante e imprescindível para todas as pessoas? Quem consegue ter um pouco de dignidade na vida sem passar por uma sala de aula, e pelo aprendizado com estes mestres que têm como trabalho o fornecimento do único bem que não é possível que roubem de nós: o conhecimento? A importância dessas pessoas na vida da sociedade é inegável. Mas, as más condições de trabalho, e de salários também, estão tornando a profissão algo não mais desejado. Hoje é necessário que o Governo Federal lance na TV propagandas que incentivem pessoas a buscarem esta vida profissional.

Porém, como pessoas vão ter interesse se não há respeito!? A mais nova sensação da internet, no sítio dos desocupados – Youtube, é uma banda que faz danças em que o vocalista levanta a saia das mulheres para mostrar suas calcinhas. Esta banda fez vítima em vídeo que foi veiculado na internet, uma mulher que trabalhava como professora e perdeu o emprego pela dança. Hoje a banda contratou a dita cuja, que faz performances em palcos do Brasil “fantasiada” de professora. Quem tomou providências contra isto? As autoridades proibiram a banda de usar a imagem de uma professora que dança e mostra a calcinha? E as crianças que recebiam aulas desta pessoa que agora vende sua imagem, como ficam? Não há respeito pelo Professor no Brasil.
A única arma para categorias de trabalhadores termina sendo as greves. Então, sindicatos organizados vão às ruas reclamar melhores salários e condições de trabalho. Resultado: são mal interpretados pela população, e não atendidos pelo poder público. Em resumo vê-se: professores, quando não são os próprios donos do colégio, sofrem para serem ouvidos. E o pior, não é só pelos alunos.
* Estudante universitário do Instituto Federal do Rio Grande do Norte

domingo, 20 de setembro de 2009


Você
Emanoel Barreto

Se o tempo acá já não me diz
As verdades frias em que acreditei
Vou buscar então novas verdades
Que a verdade é coisa tão mutável
Que a vida só é boa se mudar
Para afinal encontrar em porto amigo
Aquela (mulher) que sempre foi verdade
Você.