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quinta-feira, 9 de março de 2023

 como nos últimos dias tenho escrito muito sobre Luís da Câmara Cascudo aproveitei para fazer o resgate de texto do jornalista Audálio Dantas, que entrevistou o professor. Segue na íntegra. – Emanoel Barreto

Câmara Cascudo e aquela do papagaio

AUDÁLIO DANTAS

Na manhã de 18 de junho de 1970 ainda se viam nas ruas de Natal uns restos dos festejos da véspera pela vitória da seleção brasileira nas semifinais da Copa do Mundo, no México, sobre a seleção do Uruguai, por 3 a 1. Grupos vinham da zona do porto, embandeirados, em direção ao centro da cidade, cantando "Pra Frente, Brasil", uma espécie de hino que teria sido sugerido pela ditadura militar. 

Ao passar pelo casarão em que vivia Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), numa rua da Cidade Alta, um bêbedo enrolado numa bandeira brasileira se destacou do grupo e gritou: "Desça, professor. Venha festejar com a gente. Enfiamos três no Uruguai!". 

O professor, Luís da Câmara Cascudo, era uma espécie de monumento vivo da cidade. Eu acabara de ser recebido em sua casa, um elegante chalé, construído no início do século 20. Ele foi até a uma janela, acenou para o grupo e voltou, aos risos: "Eles nem imaginam, mas eu nunca assisti a uma partida de futebol". 
Futebol, uma paixão brasileira, era um dos temas que eu tinha anotado para a entrevista que deveria fazer com ele para a revista "Realidade". O assunto estava quente, conforme acabavam de demonstrar os grupos que passavam festejando. Um bom começo de conversa, mas Câmara Cascudo, um sábio, tinha muito o que conversar, além do futebol. 

E eu, muito o que perguntar, pois a reportagem que me coubera fazer trataria das paixões do brasileiro. Cascudo era o homem certo para responder sobre o assunto. 

Para começar, ele tratou de me deixar à vontade, acho que por ter percebido em mim uma ponta de ansiedade. Afinal, eu estava diante de um dos intelectuais mais importantes do país, especialista em várias matérias -história, antropologia, folclore, etnografia-, autor de mais de cem livros. 

Mas ele disse, como se fosse um igual: "Eu também fui nego de jornal". Começara no jornalismo muito cedo, aos 19 anos, em "A Imprensa", de propriedade de seu pai. E, sabe como é, "a gente começa e não larga mais; dizem até que é uma cachaça". 

Trabalhou também em outros jornais, "A República" e o "Diário de Natal", publicando artigos diários. Nos anos 1960 já havia publicado quase 2.000 textos. 

Nossa conversa se estendeu por mais de duas horas. Aos 71 anos, Cascudo falava com o entusiasmo de um menino, às vezes inflamado ao mencionar, antes das paixões, as qualidades do brasileiro. Em alguns momentos, quase discursava e, como professor que era, estendia-se em explicações. 

Várias vezes, ao tentar explicar alguma questão mais complicada, quase chegava a se irritar, mas logo amansava a voz. Por exemplo, ao ser perguntado sobre a alimentação dos brasileiros. "Não tenho como resumir o que estudei durante 30 anos e que está contido em dois volumes de um livro", respondeu, referindo-se à sua "História da Alimentação no Brasil" (1967). 

Mas continuou a conversa, exaltando a capacidade de adaptação do brasileiro. O futebol, que naqueles dias mexia com o país inteiro, paixão que levava milhões a torcer pelo tricampeonato, foi inventado pelos ingleses, mas aqui virou mania nacional. 
Enquanto na Inglaterra era mais um esporte, aqui tomou conta da alma do povo. Da alma e dos pés dos moleques que improvisam dribles em terrenos baldios. Mas não é só improviso, não. 

Foi difícil evitar o individualismo no jogo, mas os nossos atletas se adaptaram às técnicas de conjunto. "Para muitos deles, tirar a bola do pé e passar para outro, renunciando a uma jogada individual, era como emprestar a mulher, mas terminaram cedendo, em benefício da alegria do gol, que é do time em campo e da arquibancada e se esparrama pelo país inteiro", analisou. 

A fala, as lições de Cascudo se estendiam sobre paixões e, sobretudo, qualidades que ele exaltava nos brasileiros. Por exemplo, a improvisação que muitas vezes se sobrepõe à tecnologia. 

Citou como exemplo a chegada a Natal, durante a Segunda Guerra, de máquinas escavadeiras, trazidas pelos americanos. Para cuidar delas, um monte de técnicos, especialistas em seus mistérios. 
Não demorou para que mulatos raquíticos passassem a dominar os segredos dos equipamentos, manobrando-os com destreza. Viraram senhores da máquina. "Seria o famoso jeitinho brasileiro?", perguntei. Resposta: "No caso, a inteligência supria a técnica, impedindo que o cabra fosse condenado à especialização". 

A entrevista terminaria com uma história de papagaio. Cascudo pediu a ajuda de sua mulher, Dahlia. "Conte aí a versão brasileira da história de Chapeuzinho Vermelho." A versão, informou ela, é invenção de uma neta de cinco anos, que se impressionara com o triste destino da avó de Chapeuzinho. 


Deu um jeito e passou a contar assim: o lobo bateu na porta, a avó se preparou para abrir, mas o papagaio da casa avisou: "Não abra não; é o Lobo Mau".

Conclusão de Cascudo: "Coisa de brasileiro. Onde é que Perrault ia arrumar um papagaio tão sabido?". 


segunda-feira, 6 de março de 2023

 Cascudo delirava e dizia: “Você é um dos engenheiros mais jovens?”

Por Emanoel Barreto

Quando a Tribuna do Norte passou a offset, a 13 de outubro de 1979, a direção do Segundo Caderno ficou comigo, chefiando uma equipe que tinha entre seus talentos o colunista Franklin Jorge e uma jovem aluna de jornalismo, Christiana Coeli, filha da poeta e jornalista Miriam Coeli e do jornalista Celso da Silveira. Quer dizer, a menina tinha a quem puxar. Porém, se faltava experiência, sobravam empenho e vontade de fazer jornal.

O caderno era dedicado a cultura e serviço, e funcionava como uma redação à parte: tinha repórteres, fotógrafo e um bamba na ilustração, o cartunista Aucides, que também diagramava. Contava ainda com a presença de um articulista especializado em música popular brasileira, de nome pomposo e grandiloquente: Odosvaldo Portugal Neiva. Tinha vindo não sei de onde e fora contratado pelo jornal. Produzia enxurradas de textos que chegavam a ocupar quase uma página.

Pois bem, certo dia Christiana foi pautada para fazer uma entrevista com o mestre Luís da Câmara Cascudo sobre algum tema de cultura popular. Pois bem: ela saiu e voltou. Como uma flecha.

Fiquei surpreso com a rapidez, mas ela me explicou por que a matéria não havia dado certo: “Barreto, não deu para entrevistar o professor porque ele estava com uma dor de cabeça fortíssima, estava tonto e mal se aguentava em pé.”

Foi o suficiente para disparar em mim o alerta vermelho. Eu respondi: “Christiana, uma dor de cabeça desse tipo, em mim, preocupa a minha família e talvez algumas pessoas amigas. Só isso. Mas uma dor de cabeça dessas em Cascudo, com ele não podendo nem ao menos ficar de pé, preocupa o Estado inteiro ou quase isso."
 
Ato contínuo, segui com um fotógrafo para o estacionamento do jornal em busca de um carro. Não havia carro. Chamei uns táxis, ninguém parou. Então, saí correndo da Tribuna até a casa do professor; o fotógrafo, esbaforido, correndo atrás. Quem conhece Natal sabe que a casa onde morava Cascudo fica razoavelmente próxima à Tribuna do Norte, na Ribeira. Mas, ir até lá, correndo, já são outros quinhentos.

Bom, mas cheguei à casa do mestre. Fui atendido por Dona Dahlia, sua mulher, que me disse: “Barreto, venha cá, depressa. Me ajude a cuidar de Cascudo, que ele não está bem."

Mandei que o fotógrafo esperasse fora da casa e fui com ela ao quarto onde o professor estava. Fiz isso a fim de respeitar sua privacidade. Eu não queria um drama sensacional. Somente chamaria o fotógrafo caso o bom senso assim o indicasse, e sob permissão de Dona Dahlia.

Quando entrei no quarto onde ele estava vi a seguinte cena: Cascudo estava de pijama, deitado numa cama imensa, os olhos semicerrados; delirava. Dona Dahlia estava quase em pânico. Parecia não haver mais ninguém em casa. Ela lamentava o calor. Temia que isso fosse deixá-lo ainda pior. Disse-me: “Segure a cabeça dele enquanto dou os comprimidos.” Levantei a cabeça do professor e esperei que ela trouxesse os medicamentos.

Ele não me reconheceu e disse: “Quem é você? Você é um dos mais jovens, não é? É um dos engenheiros?”

A pergunta deu-me a dimensão exata da situação. Senti que tinha de agir com muita prudência pois ali, mesmo sendo um jornalista era também uma pessoa que estava ajudando a prestar socorro a ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. Sintetizando: era preciso um respeito sagrado.

Mas, respondendo à pergunta dele, eu disse: “Sim professor, eu sou um dos mais jovens. Sou um dos engenheiros. Vim aqui para ajudar.”

Ele continuou a dizer, agora baixinho, coisas que eu não compreendia. Observei os esforços dedicados de Dona Dahlia nos cuidados com o marido. Ela trouxe enormes, redondos e vermelhos comprimidos que ele engolia um a um, deitado. Creio que o total foi de quatro comprimidos. A água era servida por ela num copo grande.

Ele tomou a medicação, fez mais alguns comentários sem sentido e reclinou a cabeça, dormindo em seguida. Ao mesmo tempo em que ajudava no atendimento eu anotava mentalmente os nomes dos comprimidos, observando os rótulos das caixas onde estavam os frascos. Como fiz uma espécie de jornalismo participante, ou seja, integrei a cena do começo ao fim, tinha plenas condições de relatar o fato.

Dona Dahlia me agradeceu, eu dei uma última olhada no mestre e saí do quarto. Perguntei a ela pelo menos três vezes se poderia publicar a matéria e ela disse que sim. Voltei ao jornal sem uma foto e sem qualquer anotação, mas com a notícia toda na cabeça. 

O assunto era sério e devia ser tratado com grande contenção no texto. Fiz uma matéria seca, direta, de forma a não passar ao leitor a impressão de que Cascudo estava à beira da morte e entreguei o texto à editoria de Geral, pois, como era uma notícia do cotidiano, não era tema do Segundo Caderno. 

 
Horas depois, todavia, a família de Cascudo recuava e chegava à direção do jornal um pedido para nada fosse publicado; disso fui informado. O texto foi sobrestado e perdeu-se o registro a quente daquele momento intenso. Detalhe: o texto tinha apenas meia lauda. Não alardeava nenhuma doença terrível, não apregoava nenhum infortúnio, nem mencionava os detalhes que conto agora...

domingo, 5 de março de 2023

Minhas conversas com Cascudo, quando ele ensinava: “Todo homem é digno do seu tempo”

 Por Emanoel Barreto

 Conversar com Cascudo era descobrir um tempo velho passando à minha frente. Era mergulhar na história arcaica escrita pelo povo em suas vivências, eternamente sertão. Era virar páginas e páginas inteiras de cores, fandangos, jangadas, bichos e gentes; vozes de acá, nascidas ibéricas ou africanas. Conversar com Cascudo era perscrutar a vida no seu mais íntimo significado de coisa humana e bela, humana e triste – humana, humana, humana...

Conversar com Cascudo eram tardes alongadas, quando ele me ensinava, envolto na densa nuvem azulada do charuto: “Barreto, todo homem é digno do seu tempo.” Ou seja: nós construímos nosso tempo – vamos arcar com as consequências. E completava: “Plantar é colher...”

Conversar com Cascudo era descobrir um homem feito de sabedoria. Conversar com Cascudo era viajar o chão do sertão, a brenha secreta da caatinga; cruviana esfriando o passo do cavalo do vaqueiro em noite de plenilúnio: arrepio com medo de lobisomem.

Conversar com Cascudo era alumbrar-se com as visagens, os cantos do povo, os aboios, a comida da terra; caçuás, canga e cantiga de botar menino para dormir. Conversar com Cascudo era ouvir o tempo severo do Nordeste em sua eterna e serena espera pela chuva criadeira.

Conversar com Cascudo era ouvir o sábio que se confessava “um provinciano incurável”, morador desta Natal tão dele e tão pequena. Conversar com Cascudo agora é uma saudade, quando a vida já não anda em cavalo baixeiro e estamos todos à mercê e ao léu do não-sei-mais.

Cascudo não está mais aqui, já não tenho quem me mande “baixar noutro terreiro” após cada entrevista. Mas nunca esqueci quando ele uma vez me disse: “Vá baixar noutro terreiro, Barreto; mas, quando quiser, pode voltar...”

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Como a ditadura vigiava a Cooperativa dos Jornalistas de Natal

Por Emanoel Barreto

A Fundação da Coojornat, Cooperativa dos Jornalistas de Natal-Coojornat, aconteceu dia 1º de outubro de 1977. Para os jovens que a haviam criado - com o incentivo do cartunista Henfil, então morando em Natal -, era uma conquista. Uma fresta na luta contra a ditadura. Dermi Azevedo era o presidente, Arlindo de Melo Freire vice, e eu secretário – Dermi e Arlindo hoje são saudade.

Dias depois da fundação, uma desagradável surpresa: uma desagradável surpresa pelo menos para mim. Veja só: nós havíamos alugado uma casa na Rua São Tomé, Cidade Alta, em frente ao Senac. Ali seria a sede da Coojornat. Num sábado, poucas semanas após a autorização para funcionamento, fazíamos uma espécie de inauguração festiva, um congraçamento. Cheguei por lá mais ou menos às três da tarde; da rua ouvi música. Som muito alto. Estranhei, porque não tínhamos contratado qualquer serviço de som, muito menos com aquela potência toda.

Parei o carro a uns 20 metros da Cooperativa, pensando: "Quem diabo contratou esse som?", e continuei andando. Quando cheguei em frente ao Senac, descobri: a música vinha de lá mesmo, do Senac, que promovia alguma festividade. Superada a pequena dúvida entrei na sede da Coojornat e fiquei por lá, conversando com um e com outro. Nisso, entram dois sujeitos que se dirigiram a mim e se "identificaram": um era "jornalista", o outro "bancário".

Estranhei a visita por um motivo simples: o que um bancário teria de interesse numa cooperativa de jornalistas?  E o "bancário" era o que mais perguntava. Expliquei que eu era o secretário da Cooperativa e falei do projeto como um todo. Então, o que se dizia jornalista quis saber se eu tinha o estatuto da Coojornat. Respondi que sim, mas o documento estava em minha casa. Rápido, ele perguntou: "Posso passar lá, para ver os estatutos?", eu respondi que sim, dei o endereço e marquei para que ele fosse à noite me procurar.

Os tipos agradeceram e foram embora. Minutos depois chega Dermi Azevedo e eu lhe  conto o caso, já sentindo que boa coisa aquela visita não fora . Dermi disse: "Barreto, você ficou doido? Isso é o SNI, Barreto."
Respondi: "Dermi, eu sei, rapaz. Mas, quem não deve não teme. Os caras vão lá em casa lá pelas sete da noite.Vamos ver no que vai dar."

E Dermi: "Então, tome cuidado". E cuidado foi o que não deixei de tomar. Avisei a um cunhado que morava vizinho e mim.  À minha mulher, grávida de nossa segunda filha alertei que iríamos receber um mau elemento. Feito isso, começou a espera. Meu cunhado ficou na sala da casa dele aguardando para intervir se fosse preciso, enquanto minha mulher estava trancada num quarto.

Devo dizer: não sei se a pouca idade - eu tinha 26 anos - ou a convicção de que nada fazíamos de errado, mas o fato é que a palavra medo sequer me passou pela cabeça. Havia, claro, a certeza de que alguém muito mal-intencionado viria, mas o enfrentamento não me causou qualquer abalo. Estava precavido, intimidado não. 

Pouco depois das sete o sujeito chegou. Subiu os degraus da entrada da minha casa e eu o recebi. "Boa noite, boa noite. Vamos sentar", foi o diálogo inicial. O elemento sentou-se a meu lado e aí começou um ridículo interrogatório travestido de conversa. O treinamento do agente, um reles espião de baixíssima categoria, era básico. Limitava-se fazer perguntas que tentavam induzir-me a dar respostas de contestação à ditadura, como se fosse ele um jornalista insatisfeito com o regime, em confidência com um colega.

Exemplo: "A Cooperativa trabalha para quem?
Resposta: "Somos uma entidade, uma cooperativa de mão-de-obra intelectual. Prestaremos serviços de assessoria de imprensa e teremos um jornal próprio."
"Vão trabalhar também para o governo?"

Ao que eu disse: "Se formos contratados, por exemplo, por uma Secretaria de Estado para fazer assessoria de imprensa, consultoria ou um jornal, sim."
E ele: "Mas, aí, vocês vão perder a independência."

Eu disse: "A finalidade da cooperativa não se resume ao jornal próprio. Queremos ampliar o espaço de trabalho da categoria, entende? E saiba que isso não vai interferir em nossa independência."

E a conversa seguiu nesse tom. Eu sabia que tinha de dar respostas exatamente opostas ao que ele esperava de mim. Ou seja: se concordasse com tudo o que ele dissesse contra o governo daria ao agente munição para fazer relatório dizendo que a Coojornat era mesmo uma célula comunista perigosíssima. E nesse conto de vigário eu não iria cair. Então, dava respostas as mais cândidas possíveis. 

Percebendo que a tática investigativa tosca não estava dando certo - a abordagem pura e simples da atuação da Cooperativa -, ele partiu para o ataque direto: começou a falar mal do ditador Ernesto Geisel. Para o investigador, era a última cartada. O agora ou nunca. Fechei-me em retranca e em nenhum momento concordei com o que ele dizia. Afinal o homem desfechou um golpe fendente: "Esse presidente é um safado."

Não sei de onde tirei um argumento inesperado, mas sei que que desarmou o sujeito: "Acho que não. Pelo que soube, ele já foi secretário da Segurança no Rio Grande do Norte - e disse lá um ano qualquer - e, nessa época, um rapaz foi preso sob acusação de ser comunista. Depois, descobriram que o cara não era comunista coisa nenhuma e ele, Geisel, foi pessoalmente libertar o prisioneiro." 

Mesmo assim o investigador não se deu por vencido: Disse: "É, mas tem uns assessores escrotos..." O "assessor escroto", para o agente, era o ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki que já admitira a possibiolidade, mesmo que longínque de privatizar a Petrobras. O investigador disse isso com todas da letras: "Ele quer entregar a Petrobras." Aí eu comecei a ficar irritado com o nível sórdido da investigação e fui claro com o tipo: "Colega, você tem aí algum documento que prove que você é jornalista? Como você sabe em nossa profissão tem muito picareta, e dessa gente não gosto."

Ele respondeu: "Claro". E escandiu a palavra: "Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaro!" E então, na sequência da resposta, cometeu o erro que o desmascarou por completo. Disse: "É bom você me pedir o documento, amigo. Em nossa profissão tem muita infiltração. Nunca se sabe, né?"

Explicando: picareta, em jornalismo, é aquele cara que vive de expedientes, ganha propinas,  faz louvações, essas coisas. Infiltração, algo bem diferente. Infiltrado dizia-se de pessoa de esquerda que atuava em qualquer ambiente visando difundir a ideologia socialista, os famosos agitadores

Em seguida ele, pelo excesso de documentos que me apresentou, provou o que não era. Puxou do bolso uns dez documentos que o diziam jornalista: desde uma fajuta carteira de sindicato até uma autorização para cobrir visita presidencial à Paraíba, estado de onde se dizia originário. Mostrou também carteira de radialista, noticiarista de não-sei-de-onde, repórter de jornal-fulano-de-tal; isso, aquilo, aquilo outro. 

Pronto: para mim, estava desmontada a farsa. Mas ele insistia: "Você me disse que tem os estatutos da cooperativa, não foi?

Eu disse: "Foi." E completei: "Por sinal, é idêntico ao da Coojornal, do Rio Grande do Sul, com pequeníssimas modificações, relativas à realidade local."
Qual não foi minha surpresa quando ele disse: "Ah, mas se é assim, não quero." Respondi: "O quê? Não quer?", perguntei, já começando a me exaltar. "Não quer, por quê?"

Ele respondeu: "Porque os estatutos da Coojornal nós - veja bem - nós já temos..."
Eu disse: "Mas eu insisto."

Saí um instante da sala, e voltei com um calhamaço na mão. Mantive-me de pé, deixando claro que ele tinha de sair de minha casa. "Pronto", eu disse. E continuei: "Está tudo aqui. O amigo veio buscar, o amigo vai levar."

E quase atirei a papelada em cima dele. Acho que, naquele instante, o agente viu que tinha perdido o seu tempo: não iria levar nenhum relatório espetacular a seus maiores, nem  jactar-se de haver descoberto um terrível complô comunista em Natal. 

Entreguei os papéis e mantive-me de pé; grosseiramente de pé. O sujeito, sentado e perplexo. Afinal levantou-se, pôs o documento debaixo do braço e pediu desculpas pelo tempo que me havia 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Porque a meninada não está sorrindo




Temer, as crianças e o Papai Noel envergonhado
Há algo de patético, de trágico, de triste e ridículo na foto que a Folha trouxe hoje em sua primeira página. Perceba que apenas a primeira-dama Marcela Temer parece exibir um esgar de sorriso; tipo aqueles em que o fotógrafo pede: “Diga xisssss!”. E ela fez xis, com elegância e distinção. 
  
Era para ser uma foto bela. Alegre, solar, festiva, exultante. Afinal, foi um momento ímpar, irrepetível, na vida daquelas crianças: já pensou, posar ao lado do presidente da República? E ainda mais no período natalino, quando todos se dizem ou buscam estar felizes ou quase isso? 

 Mas o que se vê é um homem de sorriso tartamudo, figura que em muito lembra aquelas estátuas de cera do museu de Madame Tussaud. Percebe-se uma cara estática, uma espécie de falsificação, um simulacro de festejador, fraude de alegria natalina. Valeria dizer que ele fez um pós-sorriso.

A única verdade dessa foto é que de alguma forma expressa a essência de um governo que rege a sinfonia fanhosa de um poder que, em Brasília, reúne ávidos comensais em jantares onde se discutem as mais recentes incertezas de um presidente que vagueia como uma sombra pelos noticiários, se escorre nos ácidos comentários das redes sociais e foge de aparecer em público como Nosferatu, o vampiro, escapulia de se expor ao sol. Creio que você lembre o clássico de Murnau.
Mas o trágico, o chocante, é a expressão das crianças. Nenhuma está sorrindo, todas acompanham a macerada face presidencial e seu ricto soturno; a boca fingindo um fio de júbilo enquanto a efígie fotográfica expõe enfadonho sentimento. 

O retrato nos demonstra um certo um mal-estar: pessoas chamadas a ficar próximas quando na verdade se encontram em mundos diferentes, na verdade opostos. Aquela sensação de elevador lotado.

As sete crianças não fixam a máquina com o fulgor natural da idade, não gritam com o olhar, não estão radiantes, radiosas, brincalhonas, pirralhas, à vontade.
São como que pequenos seres chamados a compor uma cena em que um casal riquíssimo, o casal presidencial, lhes dá a oportunidade raríssima, irrepetível, de estar em ambiente elevado e chique. E ainda têm a falta de educação de não sorrir...

Observe bem o rosto de cada menino e de cada menina. Não existe espontaneidade, falta solaridade às faces infantis, não há algo importantíssimo numa foto: não há sin-ce-ri-da-de. Fica bastante claro que aquelas crianças foram convocadas a posar, não foram convidadas, acolhidas, compartilhando e vivendo momento especial. 

Preste atenção na terceira menininha da esquerda para a direita. Aparentemente ela está constrangida. Perceba a contração labial, o gesto cabisbaixo, o ato de sucumbência, a forma como vive o embuste. É como se dissesse, com a expressão facial: “O que estou fazendo aqui?”
A falsificação é sumamente amplificada pelo fato de que os figurantes não têm referente ambiental. O fundo é branco e isso anula humanização e retira veracidade ao flagrante, mostrando-o como aquilo que é: apenas um simulacro. Nem mesmo flagrante é. 

Não dá indícios, nada mostra que a meninada fora recepcionada no Palácio do Planalto, ou seja: além da ausência de espontaneidade dos atores compulsórios deixou-se de captar a circunstância natalina nos âmbitos do Poder ficticiamente aberto a receber filhos e filhas de famílias pobres. Nada implica  bondade e ternura natalinas.

O registro fotográfico não passa a sensação – embora tenha sido esse o objetivo – de que os pequenos troféus humanos estão dentro, frequentando o Poder. Simplesmente não há imagem de fundo, nada mostra que estão no interior do Palácio, muito embora a imagem tente sugerir a ideia de que ali estão como se fossem visitantes de honra.  
Mas são todos figurantes de um lugar que a rigor é lugar nenhum. Montou-se uma farsa. Mostrou-se uma farsa. Seja na distribuição de presentes seja na tentativa de captação imagética de momento epifânico e generoso entre o presidente e aqueles pequenos brasileiros. Mas a farsa desmontou-se porque simplesmente não houve epifania ou generosidade. Foi só uma tentativa de agenda positiva. 

Em verdade são um grupo de pessoas que se reuniram – no caso das crianças foram como que postas numa ruma – para aparentar confraternização, proximidade de classes, confraria de vidas.
Essa foi uma das fotos mais tristes e lamentáveis que já vi em meus mais de 41 anos de jornalista. Os olhares erráticos, os sorrisos postiços de Temer e Marcela, a hipocrisia desleal e ilusória de usar crianças para uma pose histórica que transmutou-se numa forma de confissão de erro midiático; essa a verdadeira essência da imagem que a Folha deu em destaque de primeira página.  

Registre-se: o Papai Noel cobriu a boca com a barba. Dou-me a liberdade poética de supor que estava triste. Talvez envergonhado.