quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011


A crônica que segue já foi publicada neste Coisas de Jornal. Mas acho que vale a pena reler. É de autoria de Augusto Severo Neto, poeta e piloto, acima de tudo uma grande figura que hoje habita as minhas saudades.

Um sábado de maio
Augusto Severo Neto

Um sábado qualquer do mês de maio. Maio das flores e das noivas, de um tempo em que isso não significava apenas uma promoção a mais de diretores lojistas, das lojas de eletrodomésticos, dos magazines de confecções e outros como tais. Mês de maio inteiro e de vergonha, daqueles que, às vezes, ainda aparecem nos antigos filmes e nos romances de primavera e de amor.

Sendo sábado e principalmente sábado de maio, era dia de footing na Ribeira. Isso significava que a rua Doutor Barata, a rua das Virgens, a Duque de Caxias, a Tavares de Lira e principalmente a Praça Augusto Severo (cuja estátua ostentava um ar particularmente
feliz), estavam floridas de mulheres bonitas, que desfilavam seus vestidos de melindrosas, suas meias de seda e seus sapatos de saltos altos e grossos, semelhantes aos das dançarinas de flamengo, até mesmo pela correia trespassada no peito do pé. Era um colorido macio de tons pastéis, que harmonizavam com os rubans de vlours em torno do pescoço onde se costumava prender uma flor, ou terminados em laço, cujas pontas pendiam adiante e atrás, sobre as espáduas. Somava-se a isso o brilho dos pendentifs de coral encastoado em ouro; de esmalte, com o retrato do ser querido, ou ainda tipo coffret ultra pequeno, contendo uma romântica mecha de cabelos. Além disso, os colares, os anéis, as pulseiras e os brincos de pérolas, rubis, esmeraldas ou brilhantes, igualmente encastoadas em ouro.

Também naquele sábado, os homens envergavam seus melhores ternos, duques ou jaquetões, ou blazers de mescla inglesa, cinza chumbo, com calças pretas, com riscas de giz. Podia ser que estivessem ainda de calças de flanela branca ou creme bem claro, com paletó azul, tipo comodoro, com botões de metal. Meias de seda ou de fio de Escóssia, cuidadosamente estiradas pelas ligas. Sapatos de duas cores (branco e marrom), ou então negro, de verniz ou pelica. O uso do colete era comum e havia uma predominância de gravatas-borboletas em seda, com petit-pois vermelhos, verdes ou de outras cores, mais ou menos graúdos. Se a gravata era de manta, trazia, quase sempre, um alfinete ou um prendedor de ouro, com uma pérola preciosa, ou o monograma de quem os usava.


João Alves de Melo, da Photografia Elite e João Galvão do Photo Chic eram os fotógrafos da cidade e estavam ali presentes, atendendo moças, moços ou casais que quisessem guardar, como lembrança, uma foto em uma das passarelas-pontes da praça; debruçados no belo coreto; junto a Erma com o medalhão de Nísia Floresta Brasileira Augusta; sentados em um dos bancos de ferro forjado e pinho-de-Riga; ou ao pé do chafariz com sua graciosa indiazinha apertando a cabeça da serpente, de cuja boca saía um jorro de água. A Erma, o Chafariz e os bancos sumiram; as pontes-passarelas e o coreto foram destruídos, para dar lugar a isso que vocês estão vendo.


Do primeiro andar da Escola Doméstica fundada pelo Doutor Henrique Castriciano (irmão de Eloy e de Auta de Souza), as alunas internas olhavam a paisagem festiva e respondiam aos acenos dos moços da praça. A loja Paris em Natal estava com as vitrinas iluminadas e expunha seus artigos mais finos. Por entre os pares, na praça, havia
vendedores de flores e garotos que carregavam taboleiros, oferecendo açúcar candi, sequilhos, alfenins, chocolates, "Charuto" e confeitos "Baratinha". Ouvia-se também o retinir do triângulo do vendedor de cavaco chinês. A sorveteria Polyteama estava cheia e era grande o consumo dos sorvetes e dos "polys".

À noite a festa continuaria. Haveria o concerto de uma cantora lírica no Theatro Carlos Gomes e um baile a rigor no Aero Clube. Luxuosos longos, muitas jóias, casacas e fraques, além dos primeiros smokers que começavam a aparecer. João Galvão e João Alves estariam presentes, espoucando seus flashes de magnésio e documentando fotograficamente as belas e os elegantes. Depois tudo sairia publicado n’A Cigarra, do saudoso e inesquecível Adherbal de França, o Danilo, primeiro cronista social da cidade."

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Kadafi é humano, profundamente humano

Vemos neste início de século 21 até que ponto a insânia pelo Poder, os grilhões do Poder aferrados à cabeça de um homem, produzem vitimas, espalham horror e promovem essa terrível manifestação de humanidade que é ser plenamente desumano: Muamar Kadafi personifica à perfeição o que digo.

É lamentável dizer, mas, ao visto, ser desumano é profundamente humano, historicamente humano.

Quando alguém toma a si o Poder e passa a ser ele próprio o Estado, então esse homem perverte o sentido o que seria humanidade como atitude ética, elevação, sentido de vida social. 

Louco de Poder, comprova, como Hitler, que é humano, muito humano matar, trucidar, tripudiar, fazer de tudo pelo Poder sob a alegação de que compre missão. É triste, mas é humano, profundamente humano.

Sobre a Líbia, diz o Estadão:

Protestos já deixaram 640 mortos na Líbia, dizem ONGs

Entre mortos estariam 130 soldados executados por oficiais após se recusarem a matar civis

AE - Agência Estado
Pelo menos 640 pessoas foram mortas nos protestos na Líbia contra o governo de Muamar Kadafi desde a semana passada, afirmou hoje a Federação Internacional pelos Direitos Humanos. O número é mais que o dobro do reconhecido pelo governo, de 300 mortos.


Segundo a federação, que reúne 164 organizações não governamentais, as cidades mais afetadas são a capital, Trípoli, onde já morreram 275 pessoas, e Benghazi, no leste da Líbia, onde os distúrbios deixaram 230 vítimas. O número foi divulgado pela chefe da federação, Souhayr Belhassen, em entrevista à agência France Presse.

Entre os mortos há "130 soldados que foram executados por seus oficiais em Benghazi por se recusarem a disparar nas multidões", disse ela. Belhassen, que lidera a federação sediada em Paris, afirmou que o número de baixas é baseado em fontes militares para a capital, Trípoli, e em relatos de grupos pelos direitos humanos para Benghazi e outros pontos do país.

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse hoje que uma estimativa realista era de que "cerca de mil pessoas" tenham sido mortas nos protestos, de acordo com a agência Ansa. Ontem, o governo de Kadafi admitiu 300 mortes nos protestos, incluindo 111 soldados. As informações são da Dow Jones.

Deu na Tribuna:

Sintest aprova indicativo de greve nacional

O Sindicato Estadual dos Trabalhadores em Educação do Ensino Superior do RN (Sintest/RN) aprovou o indicativo de greve nacional definido pela Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas Brasileiras (Fasubra) no dia 16 de fevereiro. A aprovação aconteceu em Assembleia Geral na manhã de hoje (23), que também serviu para deliberar sobre assuntos relativos a avaliação de conjuntura, campanha salarial emergencial, encaminhamentos e informes gerais.

O indicativo de greve foi definido para o dia 28 de março e é uma reivindicação ao Projeto de Lei 509/2009, que prevê o congelamento dos salários dos funcionários públicos por dez anos.

Ainda essa semana, a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) se reunirá em assembleia para decidir vão aprovar e participar da greve.

O trem, os trilhos e as nossas vidas

Marty Melville/AFP

Na vida somos passageiros do acaso, o desvio é padrão e a incerteza é tão grande quanto o trem que pode descarrilar
Recebo e publico informação enviada pela Fapern.

Prêmio Mulher Pesquisadora pretende dar visibilidade à atuação da mulher

No ano em que completam cem anos que a pesquisadora Marie Curie conquistou o segundo Prêmio Nobel, a Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte abre inscrições para a segunda edição do Prêmio FAPERN Mulher Pesquisadora. O objetivo é reconhecer e premiar pesquisadoras ou especialistas, cujas investigações estejam voltadas para os interesses do Rio Grande do Norte ou sejam aqui desenvolvidos, de natureza científica e/ou tecnológica, pura ou aplicada, gerando contribuições relevantes para o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural do Estado, com reconhecido e documentado mérito em suas áreas de pesquisas.

O Edital e a ficha de inscrição estão disponíveis no site da FAPERN (www.fapern.rn.gov.br).

Para inscrever-se, a candidata deverá enviar pelo correio ou entregar diretamente na FAPERN, até o dia 28/02, um memorial resumido, contendo dados pessoais, formação acadêmica e títulos obtidos, instituição(ões) onde desempenha suas atividades de pesquisa, prêmios e honrarias, além de justificativa de pleito ao prêmio, pontuando os principais achados e contribuições para a ciência, tecnologia e/ou inovação do Rio Grande do Norte; cópia do trabalho ou publicação da contribuição científico-tecnológica mais importante, com reconhecimento público e/ou acadêmico;  curriculum vitae no formato da Plataforma Lattes, atualizado; uma carta de anuência assinada pelo representante máximo da instituição ou órgão de vinculação da candidata; e carta(s) de recomendação emitida(s) por autoridade(s) na área da Ciência, Tecnologia e Inovação e/ou por conselhos de classes, instituições de pesquisas ou órgãos relacionados com a área de atuação da candidata, que contribuam para endossar a iniciativa.

O Prêmio Mulher Pesquisadora, composto por Troféu e diploma, será conferido nas categorias Jovem Pesquisadora e Pesquisadora Sênior para mulheres com menos e mais de 10 anos de atuação na ciência, respectivamente.


TROFÉU

O Troféu, criado pelo artista plástico Guaraci Gabriel, utiliza a imagem da Vênus de Willendorf. Essa é a mais antiga imagem de figura humana encontrada. Sua datação é de 25 a 30 mil anos. O nome se deve ao local onde foi encontrada em 1908, por Josef Szombathy: um sítio arqueológico, perto de Willendorf, na Áustria. A escolha dessa representação simboliza a contribuição da mulher à ciência. A intenção é que a participação feminina nas ciências tenha mais ampla repercussão na sociedade.


Na primeira edição do Prêmio foram contempladas na categoria Jovem Pesquisadora a engenheira têxtil Dorivalda Neira, mestre e doutora em engenharia mecânica, que apresentou o projeto Reaproveitamento de embalagens de EPS como isolante térmico de cobertura; e na categoria Pesquisadora Sênior, Lucymara Fassarella, que atua na área de biotecnologia, com ênfase em genética.  Atualmente é professora-orientadora permanente nos cursos de pós-graduação em Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio) e colaboradora nos cursos de Ciências da Saúde (UFRN) e Biotecnologia (USP).

Para outras informações, mandar e-mail para eventosfapern@gmail.com colocando no título Prêmio Mulher Pesquisadora 2011.
A força da democracia

O processo de globalização, que a princípio serviu de trampolim econônico ao neoliberalismo, apresenta agora nova faceta via redes sociais: a formação de comunidades virtuais com vigor para atuação no âmbito da sociedade civil. Mais que isso, com força suficiente para a deflagração de acontecimentos como os que hoje dominam os noticiários a respeito do chamado mundo árabe.

O obscurantismo de regimes ditatoriais de direita ou de esquerda, ou situações do mais absoluto absurdo como na Líbia, é contestado de forma eficaz como resultado da comunicação instantânea e mobilizadora. Creio que uma nova forma de manifestação política se desenha na África e Oriente Médio. Países de confissão religiosa islâmica começam a se distanciar da maneira autoritária, pior que isso, autocrática de seus dirigentes.

A juventude especialmente, irrigada de informações, parece perceber que há algo mais no mundo do que prega o Alcorão ou pelo menos suas interpretações mais rancorosas e intolerantes. Ao mesmo tempo, altera-se possivelmente o quadro da hegemonia americana naquelas regiões com a possibilidade de surgimento de governos não-alinhados às determinações de Tio Sam.

O importante é que os movimentos libertários tenham consequências históricas concretas e que a democracia comece a ser vivida enquanto processo permanente.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Se o povo não presta, acabemos com o povo

O regime de Muamar Kadafi começa a estalar. E parece que o mármore do inferno se acende para o ditador da Líbia, há 41 anos no poder. Setores do Exército debandam, embaixadores se afastam do velho regime, tribos leais dele se distanciam. A situação da Líbia dá continuação ao dominó de queda de regimes ditadoriais de povos seguidores do Islã na África e Oriente Médio. 

As ações de Kadafi, que beiram e até superam a insanidade, revelam um espírito autocrático movido por uma ânsia de poder inaceitável. Metralhar pessoas indefesas até mesmo com o uso da Força Aérea é algo que demonstra o quando ele e seus íntimos seguidores estão, na verdade, desesperados. É como numa situação de teatro do absurdo: se o povo se revolta, acabemos com o povo. Depois, reinaremos um país sem gente. E tudo estará em paz. 
Kadafi: o ditador age com total brutalidade contra os líbios

Outro aspecto a ressaltar é a comunicação em rede que tem deflagrado esses movimentos. Povos tomando a si a imagem de outros povos que buscam tempos novos, desencadeando movimento internacionalista num tipo de sociedade até então fechada ao Ocidente e conhecida como Mundo Árabe e periféricos. Refiro o Irã.

Os milagres da comunicação instantânea estão apenas começando. Suponho que em horizonte historicamente não muito distante o Ocidente também se levantará contra as formas sutis de ditaduras aqui vividas.

Para tanto, é preciso uma mobilização continuada, persistente e firme de sociedade civil. As coisa podem e devem mudar na rota da democracia.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Abuso policial. Escrivã é deixada nua e é revistada à força

Policiais forçam mulher a ficar nua a título de "fazer revista e cumprir com o dever legal"

Um caso de flagrante abuso de autoridade, humilhação e desrespeito foi praticado contra escrivã de polícia acusada de receber propina. Independentemente de justificado interesse jurídico em torno do assunto, que envolvia suspeita fundada de crime funcional, nada justifica como o interrogatório foi conduzido: um grupo de homens forçar mulher a se despir a fim de que fossem colhidas provas do seu comportamento delituoso. Trata-se de crime e de abuso à condição feminina. Leia a matéria a Folha a respeito do assunto e veja, logo abaixo, vídeo que comprova a humilhação.

Caso de delegados que deixaram escrivã nua é arquivado

DE SÃO PAULO
A Corregedoria da Polícia Civil arquivou o inquérito que investigava dois delegados suspeitos de abuso de autoridade durante a prisão de uma escrivã de polícia que atuava no 25º DP, no bairro de Parelheiros (zona sul de SP).
Conforme a denúncia, os policiais Eduardo Henrique de Carvalho Filho e Gustavo Henrique Gonçalves, ambos da Corregedoria, tiraram a calça e a calcinha de uma escrivã que era investigada pelo crime de concussão, quando um servidor exige o pagamento de propina.
Imagens que foram divulgadas ontem pelo blog do jornalista Fábio Pannunzio (www.pannunzio.com.br) mostram que durante a prisão em flagrante da escrivã os delegados determinaram que a mulher tirasse a roupa para checar se ela havia escondido dinheiro de propina dentro da calcinha. 

O caso aconteceu em junho de 2009. Ao longo dos 12 minutos do vídeo, a escrivã diz que os delegados poderiam revistá-la, mas que só retiraria a roupa para policiais femininas. Mas nenhuma investigadora da corregedoria foi até o local para acompanhar a operação.
O vídeo abaixo traz trechos cedidos pela TV Band (cuja íntegra da reportagem pode ser vista aqui) que mostram imagens do incidente:
SEM ROUPA
Ao final, o delegado Eduardo Filho, uma policial militar e uma guarda civil algemam a escrivã retiram a roupa dela e encontram quatro notas de R$ 50. A escrivã foi presa em flagrante e, após responder a processo interno, acabou sendo demitida pela Polícia Civil. No mês seguinte, seus advogados recorreram da decisão. 

"Foi um excesso desnecessário. Ela só não queria passar pelo constrangimento de ficar nua na frente de homens", disse o advogado Fábio Guedes da Silveira.
Para a Corregedoria, não houve excessos na ação dos dois delegados. Segundo a corregedora Maria Inês Trefiglio Valente, eles agiram "dentro do poder de polícia". 

O promotor Everton Zanella foi ouvido no inquérito que investigou os policiais e disse que a retirada da roupa foi uma consequência do transcorrer da operação. 

"Houve apenas um pouco de excesso na hora da retirada da calça da escrivã, todavia, em nenhum momento vislumbrei a intenção do delegado que comandava a operação de praticar qualquer ato contra a libido da escrivã", disse o promotor no inquérito.
PROCESSO
Além de ser expulsa, a escrivã responde a um processo criminal. A primeira audiência do caso só deverá ocorrer em maio, conforme seus advogados.
Os delegados Eduardo Filho e Gustavo Gonçalves continuam trabalhando na Corregedoria da Polícia Civil. A corregedora os caracterizou como policiais "corajosos e destemidos". A Folha não localizou os dois policiais neste sábado para comentar o assunto.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Julie Andrews
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Al Caparra, o gangster chic
Deu na Folha:

TENDÊNCIAS/DEBATES
País do conhecimento, potência ambiental

DILMA ROUSSEFF


Hoje, já não parece uma meta tão distante o Brasil se tornar país economicamente rico e socialmente justo, mas há grandes desafios pela frente, como educação de qualidade


Há 90 anos, o Brasil era um país oligárquico, em que a questão social não tinha qualquer relevância aos olhos do poder público, que a tratava como questão de polícia.
O país vivia à sombra da herança histórica da escravidão, do preconceito contra a mulher e da exclusão social, o que limitou, por muitas décadas, seu pleno desenvolvimento.
Mesmo quando os grandes planos de desenvolvimento foram desenhados, a questão social continuou como apêndice e a educação não conquistou lugar estratégico.
Avançamos apenas nas décadas recentes, quando a sociedade decidiu firmar o social como prioridade.

Contudo, o Brasil ainda é um país contraditório. Persistem graves disparidades regionais e de renda. Setores pouco desenvolvidos coexistem com atividades econômicas caracterizadas por enorme sofisticação tecnológica. Mas os ganhos econômicos e sociais dos últimos anos estão permitindo uma renovada confiança no futuro.

Enorme janela de oportunidade se abre para o Brasil. Já não parece uma meta tão distante tornar-se um país economicamente rico e socialmente justo. Mas existem ainda gigantescos desafios pela frente. E o principal, na sociedade moderna, é o desafio da educação de qualidade, da democratização do conhecimento e do desenvolvimento com respeito ao meio ambiente.

Ao longo do século 21, todas as formas de distribuição do conhecimento serão ainda mais complexas e rápidas do que hoje.
Como a tecnologia irá modificar o espaço físico das escolas? Quais serão as ferramentas à disposição dos estudantes? Como será a relação professor-aluno? São questões sem respostas claras.

Tenho certeza, no entanto, de que a figura-chave será a do educador, o formador do cidadão da era do conhecimento.
Priorizar a educação implica consolidar valores universais de democracia, de liberdade e de tolerância, garantindo oportunidade para todos. Trata-se de uma construção social, de um pacto pelo futuro, em que o conhecimento é e será o fator decisivo.
Existe uma relação direta entre a capacidade de uma sociedade processar informações complexas e sua capacidade de produzir inovação e gerar riqueza, qualificando sua relação com as demais nações.


No presente e no futuro, a geração de riqueza não poderá ser pautada pela visão de curto prazo e pelo consumo desenfreado dos recursos naturais. O uso inteligente da água e das terras agriculturáveis, o respeito ao meio ambiente e o investimento em fontes de energia renováveis devem ser condições intrínsecas do nosso crescimento econômico. O desenvolvimento sustentável será um diferencial na relação do Brasil com o mundo.
Noventa anos atrás, erramos como governantes e falhamos como nação.

Estamos fazendo as escolhas certas: o Brasil combina a redução efetiva das desigualdades sociais com sua inserção como uma potência ambiental, econômica e cultural.
Um país capaz de escolher seu rumo e de construir seu futuro com o esforço e o talento de todos os seus cidadãos.


DILMA ROUSSEFF é a presidente da República.

Laerte, na Folha

De ditadura e de democracia 

Poder, diz definição simples mas de significação bastante clara, é a capacidade que um homem ou grupo de homens tem de levar adiante seus intentos, mesmo encontrando oposição. Tomando-se unicamente tal aspecto, vai desde o bêbado que na esquina brande uma arma contra pessoas indefesas - é o poder momentâneo, ilegal e ilegítimo - e chega ao governo que assesta tropas e armas contra governos inimigos ou seus próprios cidadãos. Temos aí então o Poder: manifestação política institucionalizada num Estado e tornada legítima pelo fato mesmo dessa institucionalização, ainda que injusta e inaceitável como ocorre nas ditaduras.
www.falcemartello.cbj.net

Atenho-me às ditaduras em suas diveras manifestações. Nenhuma ditadura é boa, seja de direita, seja autoproclamada de esquerda. Admitir ditaduras é atribuir a um grupo de homens uma espécie de competência quase divina de saber o que é o melhor e, por consequência, o pior para um povo. É alegar a alguém a condição de grande líder, condottiero, grande irmão, timoneiro, a figura mitificada do Presidente nos Estados Unidos, coisas do tipo. 

Há também uma ditadura imperceptível, que age de maneira suave, permite a comunicação e a aparente discordância. É a ditadura da democracia formal, essa em que vivemos: podemos falar contra o governo, jornais circulam livremente, é possível fazer passeatas, há partidos políticos, pode-se viajar sem maiores problemas, há liberdade de religião e de organização. Temos assim a sensação de democracia, esse poder existir cidadão, o sujeito de direito pleno.

Mas, onde está a ditadura então, se podemos fazer tudo? Muito simples: os meios de comunicação pertencem a quem tem dinheiro para mantê-los e podem se organizar em oligopólios que controlam o que deve ou não ser divulgado. E esses mesmos meios de comunicação de massa se encarregam de, ideologicamente, representar o mundo social como staqus quo perfeito e acabado: esscamoteiam a realidade das desigualdade de classes e difundem que pequenas modificações conjunturais são como que uma espécie de concessão dos poderosos àquela massa a quem chamamos povo.

Falando em povo, vejamos: na África e Oriente Médio as convulsões sociais, que explodem como resultado da insatisfação de milhões de pessoas levadas à condição de desgraçados políticos, mostram o quanto é terrível uma ditadura e seus mecanismos de consenso pelo silenciamento, o que a rigor não é consenso. Toda ditadura, até mesmo a ditadura da democracia formal, busca se impor como se essa imposição ocorresse naturalmente e fosse parte da paisagem social cotidiana, respirável, uma espécie de ar político. Para tanto, naturalizam sua propaganda como se fosse prestação de serviço e se afirmam como quadro ideal onde se deve passar a vida, adequada, ajustada a tal ideário.

As redes sociais, que mundializaram a comunicação interpessoal e criaram comunidades virtuais que podem se transformar em multidões nas ruas, estão mostrando sua importância no enfrentamento dos regimes islâmicos, cuja ferocidade já está bem demonstrada. Países como a Coreia do Norte, Mianmar, Cuba, só para ficar nesses três, também são ditaduras; equívoco histórico, desvio doutrinário da luta por sociedades mais justas. Por sua vez, os EUA, como paradigma imposto de liberdade, escravizam povos aos seus interesses econômicos e levam o inferno aonde quer que suas tropas cheguem em nome da Liberdade. 

Mas é nessa realidade que temos que nos inserir e lutar. Ocupar espaços políticos, proporcionar mudanças, promover um discurso libertário via sociedade civil e chegar aos parlamentos e ao Executivo. A democracia não é situação pronta e acabada. É processo, é uma espécie de combate civil, avanços de posição, criação de uma nova moral política, conscientização de que aqueles a quem se chama povo podem um dia despertar, consciência de que é preciso esse despertar. É preciso habilidade e força. É preciso. É preciso.

Primeira semana de Introdução à Comunicação

O Semestre abre para os estudantes de Comunicação com um belo evento: a I Semana de Introdução à Comunicação. O cartaz abaixo dá uma ideia de como será.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Doris Day
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.dorisday.net/assets/images/doris-day-julie


Recebi do leitor Rafael o seguinte comentário em relação a matéria que publiquei, abordando situação de menino pobre que não fora atendido em hospital particular mesmo a Prefeitura assumindo o ônus desse atendimento.

Emanoel, muito bom o seu texto/desabafo/crítica. Discordo apenas do tom dado à prioridade pelo paciente particular. Temos que lembrar que o PAPI é um hospital privado que deve, pois, arcar com todos os custos de energia, água, equipamentos, medicamentos, materiais e mão de obra. Supondo que a outra criança estivesse em quadro de igual gravidade, necessitando também daquele leito de UTI, não vejo mal em priorizar o cliente, que é quem paga estas contas que citei. O que não podemos é, de forma maniqueísta, começar a culpar instituições privadas que há anos salvam as vidas de mais de 400.000 pessoas que têm convênio ou podem pagar por atendimento médico em Natal pelo descaso que as autoridades locais local praticam em relação aos 500.000 que não podem arcar com aquilo que é obrigação do governo oferecer de graça.
Rafael.
...

Caro Rafael,

O maniqueísmo do meu texto é mais aparente que real. Explico: quando a Prefeitura tentou levar o menino a atendimento hospitalar fica implítico que arcaria com as despesas. Isso, imediatamente, equipara os dois pacientes, se o parâmetro for apenas a questão monetária. É claro também que o cliente particular tem direito, uma vez que vem pagando mensalmente para ter assegurado esse direito. Não culpo a iniciativa privada por suprir uma obrigação do Estado. Questiono a mercantilização da medicina, que leva instituição hospitalar a fazer a opção preferencial pelos que compram o serviço. Sei que, colocada assim, a questão assume aspecto controverso de conquista de direitos e a necessidade de ser a saúde bem imaterial de todo cidadão.

Vejamos agora por outro aspecto: e se tivessem chegado ao mesmo tempo dois pacientes particulares, como seria? Aí também o hospital, como o serviço público, estaria em falta, uma vez que somente dispunha de um leito, quando deveria estar apto, por suposto empresarial, a atender a urgências e emergências ocorridas ao mesmo tempo. Percebe  a essência do que proponho? Nesse caso, a questão do menino pobre que não foi atendido está completamente excluída, pois estariam em literal disputa dois pacientes particulares com idênticos direitos. E o hospital estaria deixando de cumprir com o contrato com um dos pacientes.

Grato pelo texto enviado e pela forma elegante como me contestou. 


Um menino pobre, um engasgo e uma vida posta em risco

Leio no blog Abelinha.com, de Eliana Lima:

Na falta de UTI Pediátrica nos hospitais do Estado, e de atitudes para providenciar, a Prefeitura de Natal entrou em campo para salvar a vida do menino Matheus Brito da Silva, 3 anos, que estava na UPA do Pajuçara necessitando urgentemente de ser transferido para uma UTI.

Na primeira hora desta sexta-feira (18), 1h, Matheus foi transferido numa ambulância do Samu para uma UTI no Hospital Antônio Prudente, do Hapvida.

Antes, o secretário Thiago Trindade tentou no Papi, mas a única UTI disponível foi à preferência de particular que chegou em estado grave. Caso não desse certo no Hapvida, já se estudava a instalação de uma UTI improvisada no Hospital Walfredo Gurgel, conforme informou ao blog, noite de ontem, o secretário de Comunicação da Prefeitura, jornalista Jean Valério.

Mas a demora pode ter sido faltal para Matheus. Seu estado se agravou. Muito grave. A demora para a transferência pode resultar na sua partida. Apenas três anos, antes saudável e cheio de vida para brincar, o que, aliás, gostava e fazia bastante.

Matheus estava bem atendido na UPA, entubado, respirador adequado, mas necessitava de uma UTI e de acompanhamento neurológico. Como a unidade não dispõe de médico neurologista, em nenhum momento ele foi observado por um. Precisou passar por tomografia computadoriza, não não houve possibilidade para fazê-lo no Walfredo. E desde quarta-feira que sua vida – alertada por várias vezes neste blog e no twitter.com/elianalima – corria sérios riscos. Mas o socorro necessário não chegava. Apenas na madrugada desta sexta.

Matheus engasgou-se com um caroço de pitomba, ficou asfixiado, teve parada cardíada e foi atendido a tempo pelo Samu Natal. A partir daí começou mais um processo de angústia e desespero dos profissionais do Samu. Motivo de sempre, de todos os dias: falta de UTI nos hospitais públicos. A solução foi encaminhá-lo para a UPA do Pajuçara, onde foi bem atentido, mas sem UTI e neurologista, insuficiente para salvar sua preciosa vida em desenvolvimento.

Agora é rezar e esperar que um milagre faça Matheus voltar à vida de antes.
Em tempo: o problema de engasgo  é um dos maiores vilões que ceifam vidas de crianças. Muitas vezes por falta de orientação dos próprios pais. É passada a hora das autoridades de saúde pensarem, e realizarem, uma campanha de prevenção contra o engasgo.
...........
É aí onde bato na tecla: Natal precisa de um estádio de futebol para a Copa de 2014, quando se realizarão jogos de segunda categoria, ou de UTIs em hospitais públicos? Nem preciso responder. Se as autoridades tivessem mesmo o compromisso que alegam ter com a sociedade, o caso desse menino possivelmente já teria sido solucionado. 

E quanto refiro a autoridades não me dirijo às atuais prefeita ou governadora.  Incluo todos os que as antecederam. Autoridade, digo, em seu  sentido histórico, Poder Público. atuante, proativo. Esse problema é antigo e jamais enfrentado com a decisão política  necessária e enérgica em busca de solução.

A jornalista detalhou, ademais, aspecto estarrecedor: o menino, pobre, deixou de ser atendido em favor de paciente "particular".

O que se vê então, até o momento em que redijo, é uma situação dramática, em que a Prefeitura busca uma solução emergerncial. Louvável, mas emergencial. Tentei falar com o secretário de Comunicação da Prefeitura, Jean Valério, mas a ligação caiu na caixa postal. Deixei recado e aguardo resposta. 


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Deu no Observatório da Imprensa:

Falta alguém na guilhotina
Por Alberto Dines em 15/2/2011
A mídia está acompanhando, mas não está conseguindo flagrar e avaliar todos os desdobramentos da Operação Guilhotina desencadeada na sexta-feira (11/2) pela Secretaria da Segurança do Estado do Rio de Janeiro, Polícia Federal e Ministério Público.
Foi o maior golpe já desferido contra a corrupção policial no país: foram presos 35 agentes (civis e militares) e quatro delegados, entre eles o ex-subchefe da Polícia Civil do Rio, que até a véspera era subsecretário de ordem pública do município. O próprio chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski, foi imediatamente convocado para depor na PF como testemunha. Não caiu, mas dificilmente conseguirá recompor a imagem e superar o desgaste. [N.da R.: O delegado oficializou sua renúncia ao cargo no fim da manhã de terça-feira (15/2)]

Os acusados estão envolvidos no tráfico de drogas, de armas e, sobretudo, na montagem de uma formidável rede de proteção aos barões do crime organizado.

Sem entender
A guilhotina poderia ter sido acionada antes, em seguida à espetacular operação de reconquista da Vila Cruzeiro e do Morro do Alemão, no final de novembro passado, quando só foram pegos os "pés de chinelo".

Naquele momento de euforia, o antropólogo Luis Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública, soltou uma série de provocações para sacudir a mídia da perigosa simplificação que reduzia a questão da segurança ao confronto policial versus bandido. Para ele, o crime organizado não está apenas nos morros e favelas do Rio; está em São Paulo, Curitiba, no elaborado sistema de lavagem de dinheiro dos paraísos fiscais e nos esquemas de corrupção no aparelho do Estado brasileiro que os protegem (ver, neste Observatório, "A empáfia cega a mídia").
A mídia não quis entender ou fingiu que não entendia as convocações de Soares. Nem se abalou em dar seguimento a uma inocente informação na primeira página do sisudo Valor Econômico – prontamente amplificada neste Observatório da Imprensa – sobre o funcionamento do LAB-LD (Laboratório de Tecnologia Contra a Lavagem de Dinheiro) junto a Polícia Civil e cuja principal façanha resultara apenas na prisão da companheira do traficante Polegar (ver "Software acha ‘máquinas’ de lavar dinheiro").

Dois meses
O pífio resultado dessa sofisticada força-tarefa evidenciava uma tremenda malfeitoria da cúpula da Polícia Civil: ao invés de localizar e prender a elite do narcotráfico e desbaratar o esquema de lavagem de dinheiro, os agentes acharam mais rentável chantagear os mafiosos.

O assunto foi tratado no programa de TV deste Observatório exibido em 7/12/2010 (ver "Os poderosos chefões"), quando a grande mídia foi insistentemente cobrada. Continuou inabalável e imóvel.

O LAB-LD da Polícia Civil do Rio não mereceu qualquer atenção além da discreta matéria do Valor Econômico. Nosso jornalismo investigativo só trabalha com vazamentos – e como nada vazou, ninguém se mexeu
e nada foi apurado.

Dois meses depois está evidente que os capi do narcotráfico escaparam do cerco. Resta o consolo de ver guilhotinado o esquema de corrupção da Polícia Civil que os chantageou e depois liberou.
Esta é uma história que deveria ter sido contada pela mídia. E não pelos seus críticos.
Na Globo, um rapazola abusado; no comercial, peitos de bundas

A coluna Outro Canal, da Folha, assinada por Keila Jinemez, diz: 
André Muzell /AgNews
O famoso vlogueiro (que faz vídeos na internet) Felipe Neto é nova aposta do esporte da Globo.
Sucesso na web, com 18 milhões de visualizações de seu canal de vídeos no YouTube, o rapaz de 23 anos vai ganhar quadros no "Esporte Espetacular" e no "Globo Esporte" de São Paulo.
Felipe, que já fez um programete no Multishow no ano passado, foi convidado por Tiago Leifert, apresentador do "Globo Esporte", que o viu na internet.
Na Globo, o vlogueiro seguirá a linha de comentários ácidos bem-humorados que o tornaram sucesso na web, só que voltados ao esporte.
......

Não estava entre os 18 milhões que haviam visto a performance do rapaz no Youtube. Mas, depois de ver a matéria da Folha passei por lá. Pelo que vi, tenho impressão de que pode não dar certo. Por um motivo simples: o digamos assim, programa que ele apresenta no YouTube, é tipicamente uma atração teen: um garoto abusado, fazendo comentários superficiais, cheio de uma certa arrogância banal e narcísica. Deve ser um sucesso entre as meninas, mas não creio que se possa dizer o mesmo quanto ao público masculino, audiência sem dúvida predominante no Globo Esporte e Esporte Espetacular. 

Outra coisa: quanto aos milhões de acessos ao vlog, a Globo deu-se ao trabalho de pesquisar qual o público? Ou melhor, qual o segmento de público que atraiu? O torcedor típico, masculino, que leva futebol a sério como se fosse coisa sagrada, estaria interessado em ver alguém, que não é jornalista, que não tem tradição em comentar futebol, brincando com o resultado de uma partida? 

Um torcedor do Flamengo, do Corinthians, só para ficar com os dois times mais queridos, aguentaria, depois de uma derrota, ouvir comentários de um rapazola achincalhando com seus ídolos, e pior, fazendo isso só pelo prazer de estar aparecendo na TV e mostrando sua carinha? Qual a conexão que um personagem assim teria com a fração de público que pretende atingir? Parece que isso não foi levado em conta.

A decisão da Globo lembra-me comercial de TV anunciando a coleção de lingerie da De Millus para 1988, onde lindíssimas mulheres só de calcinha e sutiã encenavam disputa de futebol contra homens vestidos de calça preta e camisa branca. Tecnicamente o filmete era perfeito: as modelos, divas; os enquadramentos e planos, magníficos; em câmera lenta, as imagens salientavam os dotes das moças, o suave balouçar das carnes de jovens fêmeas superando os machos que faziam faltas e eram driblados de forma sensacional. A música de fundo era aquela, a famosa, que se ouvia nos saudosos filmes do cinejornalismo do Canal 100. 

Tinha tudo para dar certo, não tinha? Tinha tudo para garantir sucesso de vendas. Mas não deu nem foi sucesso. Simplesmente por isso, segundo li em um estudo a respeito do comercial: a peça fora feita a partir de um olhar masculino, colocando as mulheres como objeto e deixando assim de atingir o público-alvo. A falha do roteirista incidiu exatamente no fato de utilizar da sensualidade feminina como algo a ser exibido à cobiça sexual dos homens, deixando de lado o olhar da consumidora, público-alvo da campanha. Aí a falha: detalhe negativo sutil de peça publicitária bem programada visualmente mas equivocada na essência da mensagem.

Tanto que o texto de encerramento do clipe diz: "Seleção De Millus 88: os homens estão perdidos". Revela-se aí a proposta que resvalou a seu propósito: as mulheres estariam vestidas, ou semidespidas, para os homens, para atrair seu olhar, para ser objeto de desejo e submissas à posse de seus corpos capturados pelo masculino. Não para seu conforto pessoal, elegância íntima, auto-estima. A campanha foi um fracasso, apesar de ter encantado o olhar másculo, dizia o estudo.

Creio que com o rapaz a Globo incide em erro idêntico: não creio que haverá empatia do rapazola com esse segmento de público masculino. Para falar de esporte lhe faltará autoridade, seriedade, tradição midiática. Como o futebol neste país foi tornado coisa séria, brincar com ele pode ser perigoso.

Veja abaixo o filmete da De Millus

comercial antigo. Futebol De Millus

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011


Ser repórter
Emanoel Barreto

No Dia do Repórter, aos meus alunos, dedico. E àqueles que sabiam e me ensinaram.


Se repórter é estar desconfiado. Sempre.
E desse sempre não ser nunca omisso.  

É ser gravemente humano perante a desumanidade lancinante.

É dar tudo por uma matéria que o dono do jornal, ele sabe, vai cortar. Mas faz.

É correr riscos. É investigar sem poder prender o bandido de colarinho branco.

É ser lúcido. Jamais pensar em ser herói, porque notícia também é um negócio, é lucro. Mas também não pode ser covarde. Porque o salário do medo é a vergonha mais íntima.

Ser repórter é ser o sábio do improviso, aquele saber de um segundo. E por isso mesmo deve ser comedido, porque há sempre uma descoberta a mais.

Ser repórter só sabe quem é repórter.
E por mais que eu diga aqui o que é ser repórter, 
somente um repórter saberá o que é ser repórter.

Nina Simone - July Tree

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Nina Simone
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://2.bp.blogspot.com
Vereadores são um caso de police

Diz o Estadão:
SÃO PAULO - O presidente da Câmara Municipal de São Paulo, vereador José Police Neto (PSDB), anunciou na tarde desta quarta-feira, 16, que o reajuste salarial de 61% a ser concedido aos parlamentares a partir de 1º de maio será depositado em uma conta judicial.
A medida é uma resposta à recomendação do Ministério Público de São Paulo para que a mesa diretora suspendesse o aumento salarial, conforme o Estado revelou hoje.

Com base em decreto legislativo de 1992, a Câmara anunciou no mês passado que replicaria aos 55 parlamentares reajuste aprovado em dezembro pelos deputados federais. Isso faria com que o salário de um vereador saltasse de R$ 9.800 a R$ 15.013 - o equivalente a 75% dos vencimentos de um deputado estadual.

A Promotoria do Patrimônio Público e Social da capital abriu inquérito civil para apurar suspeita de que o aumento replicado aos vereadores de São Paulo é inconstitucional.

....
É realmente um caso de police. Os vereadores, sem qualquer justificativa, legal, moral ou trabalhista, se autoconcedem esse aumento. O caso em si é lamentável e revoltante, mas, mais que isso, é indício de como funciona o que chamamos de política nesse país: um grupo de privilegiados que se faz eleger e em nome do povo começa ou continua a se enriquecer.

Por que digo "se fazem eleger"? Muito simples: o voto não é um direito; o voto é uma obrigação. Direito presume que eu o exerça ou não dentro de um determinado quadro jurídico. O direito é uma faculdade do cidadão. Se lhe é imposto passa a ser obrigação, passível de punição quando infringida a lei que a estabelece enquanto tal. 

Tenho a obigação de respeitar a vida, tenho a obrigação de agir de forma honrada no exercício profissional, tenho a obrigação de não fraudar, de educar meus filhos, etc... etc... etc... O voto não-obrigatório, aí sim, seria um direito. Tal medida poderia permitir que, pelo absenteísmo consciente, surgisse um grande movimento de sociedade civil repudiando a corrupção na política e, por consequência, os políticos corruptos. 

Com um baixo índice de votação os eleitos não teriam legitimidade. Os atos criminais dos políticos ganhariam maior expressão na mídia, uma vez que a sociedade já havia advertido, pela ausência do voto, quanto ao perigo de sua eleição. 

Os escândalos políticos já se tornaram coisa comum, coisa do normal, estão naturalizados. Isso anestesia o cidadão, que de há muito está convencido de que "é assim mesmo", tal o nível da impunidade. Os vereadores de São Paulo já mostraram que são um caso de police. Mas, é assim mesmo, não é?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ronaldo e o heroísmo midiático

O jogador Ronaldo agiu taticamente ao anunciar que abandona os gramados. Com sérios problemas físicos, chamado muitas vezes de "gordo", tomou a decisão certa: antecipou-se ao assédio da imprensa, às cobranças que o levariam a um final senão humilhante pelo menos vexatório: o confronto impiedoso do que é com o que fora. Sair em tal circunstância teria o gosto amargo de estar sendo atirado para fora; tomando a decisão de retirar-se virou o jogo, e todos os jornalistas que o acusariam passaram a cantar loas ao "fenômeno".

Eduardo Knapp/Folhapress
O ato de Ronaldo foi tipicamente um acontecimento de mídia, aquele que somente se dá por causa e para o sistema de informação. Na coletiva que convocou para fazer o anúncio, o declaratório assumiu conotação dolorosa. O discurso pungente deu o tom existencial e trágico-glorioso ao episódio, mostrou o sofrimento do herói, o mito trazido à condição humana e isso o engrandeceu ao olhar da mídia. 

Quem é grande, entrando em decadência, passa a ser comparado com o que foi, e como não se perdoam os heróis de mídia, passa a ser "culpado" de ter envelhecido ou algo assim. Isso já estava sendo feito. Na imprensa nacional e em outros países.Saiu bem e saiu na hora certa; com uma espécie de solenidade tocante marcou sua despedida. E assim remiu-se da culpa midiática usando, e muito bem, os artifícios da própria mídia. Talvez tenha sido a sua melhor jogada.

Deu na Folha:

Site anuncia descoberta da receita de Coca-Cola

DE SÃO PAULO
Os ingredientes da bebida mais famosa do mundo parecem não ser mais um "segredo de Estado". De acordo com publicação do site "The Telegraph", a receita criada em 1889 pelo farmacêutico John Pemberton, leva 16 ingredientes agora revelados pelo site norte-americano "This American Life".
A descoberta teria surgido com a afirmação do site de que havia descoberto uma lista em uma fotografia de um artigo de jornal que dá os ingredientes e quantidades exatas para fazer a bebida.
RicFeld/AP
Segundo o "Telegraph", a receita da Coca-cola, criada em 1889, leva 16 ingredientes
  Segundo o "Telegraph", a receita da Coca-cola, criada em 1889, leva 16 ingredientes
Na edição do Atlanta Journal-Constitution, de 8 de fevereiro de 1979, há uma imagem de alguém segurando um livro aberto com a receita exata de Pemberton.
Nenhuma publicação foi categórica em afirmar a autenticidade do achado histórico, mas a receita supostamente contém as medidas exatas de todos os óleos e ingredientes necessários para colocar um fim ao maior segredo da marca Coca-Cola.
A RECEITA SECRETA
3 dracmas de extrato fluido de coca
3 onças de ácido cítrico
1 onça de cafeína
30 açúcar ( mas não está claro a partir das marcações que quantidade é necessária)
2,5 galões de água
2 1/4 pints de de suco de limão
1 onça de baunilha
1,5 onças de Caramelo
7 vezes de sabor (use 2 onças de sabor para cada 5 galões de xarope)
8 onças de álcool
20 gotas de óleo de laranja
30 gostas de óleo de limão
10 gotas de óleo de noz-moscada
5 gotas de coentro
10 gotas de neroli
10 gotas de canela
MEDIDAS
As unidades seguem a métrica norte-americana. Veja os valores da métrica brasileira equivalente abaixo:
Onça fluída, líquida = 28,4123 ml
Galão = 3,785 litros
Dracma = 3,552 mililitro
Pint =0,568 litro

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

John Lee Hooker: Boom boom

Chuvinha boa, deixe meu neto olhar você
Emanoel Barreto

Chuvinha bonita e brincalhona molha as ruas e chãos de Natal. Uma chuva menina, que brinca de água e se espalha e molha as plantinhas pequenas e árvores grandes, árvores jovens ou árvores já avós, presença silenciosa a observar a passagem das horas e dos homens.

Chuvinha boa, fique mais um pouco, deixe meu neto olhar você, deixe eu olhar meu neto olhando você. Deixe eu inventar de ser menino e ele inventar que você está aprendendo a escrever o inverno de que o sertão gosta tanto gosta.
Quando é melhor morrer

A eutanásia é assunto que divide opiniões, levanta questionamentos éticos, jurídicos e religiosos, todos interligados de uma forma ou de outra. Eutanásia vem do grego euthanasía "morte sem sofrimento", por oposição a distanásia, também do grego dusthánatos, "que tem morte penosa, lenta", diz o Houaiss. Assim, quem pratica a eutanásia o faz por questões humanitárias frente a situação de doença irreversível, com padecimento intenso do doente. Encontrei essa matéria na Folha, depoimento pungente de mãe que, ante quadro insuportável de dor do filho, deixou que se fosse. Segue.

MINHA HISTÓRIA LÚCIA HELENA FRANÇOSO, 44

Decisão em Família

(...) Pressenti que o Natal passado seria o último do meu filho (...) Decidimos não reanimá-lo caso o coração dele parasse (...) Fiquei segurando a mão dele, beijando-o até o coração parar de vez

Marisa Cauduro/Folhapress

Lúcia Françoso, 44, (de azul) mãe de Felipe, e sua irmã, Dulce dos Santos Machado

RESUMO
Durante quatro anos, o jovem Jeferson Felipe Françoso, 23, de Guarulhos (SP), lutou contra uma doença crônica incurável e uma infecção que devastaram os seus pulmões.
Quando ele já estava entubado na UTI, respirando por aparelhos, sua mãe, Lúcia Helena Françoso, com apoio da família, autorizou que os médicos não o reanimassem caso ele sofresse uma parada cardiorrespiratória.
No último dia 4, às 20h48, o coração de Felipe parou. Morreu na presença da mãe e da avó.

(...) Depoimento a
CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO

Meu filho começou a ficar doente aos 16 anos, logo depois que o pai morreu, de câncer no reto.
Sofria pneumonias seguidas e, aos 19, descobrimos que era fibrose cística [doença genética que pode causar infecção crônica]. Ele também tinha uma bactéria resistente [Mycobacterium abscessus] nos pulmões.
Durante seis meses, o Fê ficou com um cateter por onde recebia os antibióticos para combater a bactéria.

Por causa dos remédios, perdeu a audição. Isso o deixou desanimado com o tratamento. Não tinha melhora dos sintomas e também não podia estudar, jogar bola.

Ele começou a faculdade de administração e um curso de desenho, mas não conseguiu terminá-los. Eram antibióticos, inalações, injeções de enzimas diárias e mesmo assim as crises de tosse e de falta de ar não davam trégua. Ele sentia falta de ar até para tomar banho.

Em agosto de 2010, o Fê começou a piorar. Pesava 44 kg e media 1,80 m. Passava 20 dias no hospital e uma semana em casa.
Foi quando começamos a ser acompanhados pela equipe de cuidados paliativos do Samaritano.

O Fê precisava ganhar peso para entrar na fila do transplante de pulmão. Foi colocada uma sonda no estômago para ele receber suplementos alimentares. Mas ele sabia que não ia sarar, que a doença era incurável.

SEM REMÉDIO O Fê passou a conversar mais comigo e com a tia [Dulce Machado]. Numa das últimas conversas, ele disse para a tia que não tinha medo da morte porque já não havia mais prazer algum na vida.

Mas eu não deixava o ambiente ficar triste em casa. Ele dizia: "Mãe, como é que você consegue ainda me fazer rir". E eu dizia: "Mãe é assim mesmo. Mãe chora, mãe é palhaça, mãe é boba.'
No Natal passado, eu já pressentia que seria o último do meu filho. Foi uma festa linda. Ele ganhou uma camiseta do São Paulo, que era o time que ele tinha paixão.
Na última internação, em 3 de janeiro, a médica explicou que os antibióticos não faziam mais efeito.

Quando ela saiu do quarto, o Fê disse: "Mãe, não tem remédio para mim mais..." Aí ele chorou muito. Viu que era o ponto final da medicina. Eu peguei na mãozinha dele e disse: "Filho, agora é só Deus. Se ele achar que pode fazer um milagre, vamos confiar".

Eu não chorava perto dele porque ele não gostava. Dizia: "Mãe, se você não ficar forte, o que vai ser de mim?". Eu sofria por dentro, sem demonstrar. Só chorava longe.
No dia 19 de janeiro, comemoramos o aniversário dele no hospital. Vieram os primos, as médicas, as enfermeiras. Ele ficou tão feliz! Comemoramos também o fato dele ter atingido 50,5 kg, que era o peso mínimo para entrar na fila de transplante.

Mas, com o passar dos dias, o desconforto respiratório foi piorando. Ele sentia muita dor, que só era controlada com morfina a cada quatro horas. No dia 26 de janeiro, foi transferido para a UTI semi-intensiva. Já não conseguia mais falar direito.

Ficava com a máscara de oxigênio o tempo todo. Conversando com a irmã, Jéssica, ele voltou a dizer que não tinha medo da morte, que estava em paz. Ele até brincou: "Vou ficar bem, vocês é que vão sofrer um pouquinho".

No dia 27, à tarde, soube que o Fê teria de ser entubado [respirador artificial] porque a máscara de oxigênio já não dava mais conta do desconforto respiratório. Os médicos queriam dar mais uma chance para o organismo reagir, pois a infecção pulmonar estava sem controle.
Foi um choque para mim. Eu sabia que aquele momento iria chegar, mas não esperava que fosse tão rápido. Quando o Fê soube, chorou.

Eu segurei a mão dele e disse: "Filho, não fique com medo. Eu vou ficar bem, a sua irmã vai ficar bem". Ele estava assustado, mas só perguntou se iria continuar dormindo, se não sentiria dor. Aquele olhar assustado foi a nossa despedida.

Em seguida, ele foi sedado. A esperança era que, em 72 horas, a infecção fosse controlada. Mas isso não aconteceu. O antibiótico não fazia mais efeito.

ATÉ O ÚLTIMO MINUTO Na segunda, dia 31 de janeiro, tomamos uma decisão em família: não reanimá-lo caso o coração dele parasse.
A proposta era dar o conforto necessário para ele não sofrer. A equipe médica iria aumentando a morfina e a sedação. Eu concordei. Vi meu filho sofrer tanto nesses últimos anos que eu não suportava prorrogar mais isso.

Foi de coração que eu entreguei ele para Deus. Fiquei até o último minuto ao lado dele, dizendo: "Filho, estou aqui. Se você quiser partir comigo aqui do teu lado, pode partir. Se você acordar, eu também estarei aqui".

Eu sabia que o Fê tinha uma briguinha com Deus por causa da morte do pai e por causa da sua doença. Na UTI, com ele inconsciente, eu dizia: "Filho, fala para Deus tirar você desse sofrimento". E falava para Deus: "Se for para trazer meu filho de volta, traga ele inteiro. Se não for, eu te dou de presente um anjo".

No dia 4 de fevereiro, ele quase não tinha mais pulsação. Olhei para o monitor, e os batimentos cardíacos estavam em 35 [o normal é de 60 a 100 batimentos por minuto]. Fiquei segurando a mão dele, beijando-o até o coração parar de vez. Doeu muito e ainda dói, mas me sinto com dever cumprido. Agora me sinto em paz.
Al Caparra, o gangster chic