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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

اعتقال القذافي.. صورة واضحة جدا

Novo vídeo divulgado mostra Kadafi vivo e conversando com os rebeldes. ONU quer investigação a respeito da morte. Caso o ditador tivesse escapado e fosse e julgamento suas declarações poderiam implicar líderes ocidentais em relacionamentos com seu regime.

A morte como justiça; a ira como processo

A morte de Kadafi, o ritual sangrento, os gritos roucos, os urros de contentamento são a prova do quanto ainda somos cruéis e desgraçados na rota da história. 

Se uma revolução de alguma forma ganha legitimidade, exige assertividade bélica, sua consecução final com a captura do fautor dos momentos históricos que levaram à sua deflagração não deveria levar o homem à barbárie primeva de um ser básico. 

É preciso renunciar ao fogo como instituto dialogal insano, substitui-lo pela palavra quando chega o momento do uso da palavra.

Entendo que falar como falo agora, na calma do meu escritório, torna fácil esse pronunciamento. Sei que a hora faz o estado emocional, sei que o momento da Líbia era de irrupção das forças mais primitivas do instinto humano. 

Todavia, deploro o acontecimento em si: um homem caçado como um rato, como dizem muitas manchetes de jornais pelo mundo. Manchetes que ululavam de alguma forma o regozijo bruto, a estupidez humana centrada na vingança.

Os milhares que tombaram nas masmorras de Kadafi, as dores de familiares e amigos são a justificativa distante a alicerçar os atos finais dessa tragédia. 

Foram essas mortes que penetraram fundamente na alma sofrida do povo líbio. E foi aí, no grande momento escandido da história, nos 41 anos de domínio do ditador, no assassinato de inocentes nos porões lúgubres que se gestou a hora da vingança como justiça.

A mísera condição humana atuando de forma retributiva, desatinada, violenta, irracional. 

A Líbia agora, se espera, seguirá rumo diverso da era Kadafi. Mas, mesmo assim, o mundo vive um grande luto - o luto mesmo de sermos homens, falíveis, desastrados.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

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 A matéria abaixo, a partir do título, insinua o quanto há de sujo e lamentável no jogo do poder. O texto do Globo dá os rastros indiciais dos relacionamentos sórdidos do Ocidente com o ditador líbio, a hipocrisia dos poderosos, o lamentável rumo da história construída a bala, fogo e dor.

Morte de Kadafi evita julgamento longo que poderia dividir a Líbia e constranger líderes ocidentais


Publicada em 20/10/2011 às 21h32m
O GloboCom agências internacionais

RIO - A morte de Muamar Kadafi, ainda que envolta em relatos imprecisos e imagens com cenas caóticas dos últimos momentos do cerco a Sirta, evitou um longo e complexo julgamento que poderia dividir a Líbia e constranger governos ocidentais e companhias de petróleo, dizem analistas. 

Um militar de alto escalão do Conselho Nacional de Transição (CNT) disse que o ex-líder líbio morreu após um bombardeiro da Otan atingir o comboio no qual fugia de Sirta. Mas rumores dão conta de que o ditador teria sido capturado com vida e depois executado ou ainda de que teria sido encontrado em um esconderijo na cidade ou até que Kadafi teria morrido durante um tiroteio em Sirta após ser capturado por soldados rebeldes. De qualquer forma, as primeiras notícias da morte de Kadafi já foram suficiente para motivar celebrações em toda a Líbia e ajudar a baixar o preço do petróleo, que caiu cerca de 30% nesta quinta-feira. 

 
Se ele estivesse vivo, possivelmente ocorreria um debate sobre onde ele seria julgado: ou na Líbia ou pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), que em maio expediu um mandato de prisão contra o ditador, seu filho Saif al-Islam, que também foi capturado e estaria gravemente ferido em um hospital de Zlitan e o ex-chefe da Inteligência da Líbia, Abdullah al-Sanoussi, também morto na operação desta quinta-feira. 

Qualquer tribunal poderia dar a Kadafi uma nova oportunidade de constranger tanto os novos líderes da Líbia, quanto as potências internacionais, e lembrar de questões que todos preferem deixar esquecidas. Além disso, ele poderia relembrar laços com importantes companhias de petróleo que na última década assinaram contratos bilionários com o regime. Mas o pior mesmo seria, dizem analistas, se o ditador tivesse continuado escondido nos desertos do país, articulando novas milícias, minando a estabilidade da Líbia e de seus vizinhos e prejudicando a credibilidade da Otan e do CNT. 

- (A morte de Kadafi) é de uma enorme importância simbólica - disse Alan Frase, analista de Oriente Médio para a consultoria de risco AKE. - Ajuda o CNT a seguir em frente. Se Kadafi foi mesmo morto, ao invés de capturado, isso também pode ser visto como uma forma de evitar um longo julgamento que poderia revelar secretos constrangedores.
Organizações de direitos humanos há muito afirmam a importância de o ditador líbio ser capturado e levado a julgamento, o que poderia oferecer ao novo governo da Líbia uma chance de mostrar suas intenções e comprometimentos com os crimes cometidos contra civis por membros do regime. 

Morte tem lados positivos e negativos para governo interino
Mas alguns críticos reclamam que muitos julgamentos de crimes de guerra, locais ou internacionais, demoram muito para analisar provas, se transformando, muitas vezes, em verdadeiros shows. Líderes como Saddam Hussein e Slobodan Milosevic, por exemplo, usaram suas audiências para negar qualquer crime e para ofender seus algozes. Além disso, o líder derrubado também pode usar a oportunidade de um tribunal de grande visibilidade para abrir feridas políticas e incitar novos problemas. 

- A morte de Kadafi é um evento ambivalente para as novas autoridades líbias - disse Daniel Korski, membro do Conselho Europeu para Relações Exteriores e defensor da intervenção da Otan - Eles evitaram um drama judicial como foi com Milosevic, o que poderia ter incitado simpatizantes do ditador líbio, mas sua morte também tira do governo interino a chance de mostrar que são melhores que o ex-líder. A morte de Kadafi, em circunstâncias tão violentas, pode transformá-lo num mártir. 

A imprensa internacional teria esmiuçado todos os detalhes sórdidos de como os governo ocidentais ajudaram Kadafi a construir seu império e construir a indústria de petróleo do país. Muitas grandes imprensa como a British Petroleum, a italiana ENI e a francesa Total tinham contratos com o ditador. 

Este risco, é bem verdade, ainda não foi apagado completamente. Alguns filhos de Kadafi ainda estão soltos e podem, eles próprios, serem réus de julgamentos.
Se o CNT queria julgar Kadafi internamente, eles provavelmente enfrentaria problemas para erguer um sistema legal. A Líbia de Kadafi tinha muito pouca credibilidade em infraestrutura judicial, e muitas dúvidas sobre a legitimidade do processo poderiam surgir. 

Desde a morte de Osama bin Laden, assassinado por forças especiais americanas, a morte de líderes controversos (no lugar de seus julgamento) se tornou uma opção também muito atraente.
- Dizer que é melhor para todo mundo que ele esteja morto é dizer que o processo legal tem algumas desvantagens e se render ao cinismo - disse Rosemary Hollis, chefe do programa de estudos de Oriente Médio da London's City University - 

Com a morte de Kadafi, diz Rosemary, há um risco de que seus simpatizantes e outros radicais queiram se vingar. E o risco será ainda maior se for de fato comprovado que ele foi morto pela Otan ou ainda executado. Apesar de vários líderes internacionais terem dito que a morte do ditador representa o fim de um capítulo sangrento na História da Líbia, analistas são categóricos: a morte de Kadafi está longe de ser o fim dos problemas líbios.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/10/20/morte-de-kadafi-evita-julgamento-longo-que-poderia-dividir-libia-constranger-lideres-ocidentais-925624506.asp#ixzz1bN5sis9O
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Raw footage: Colonel Gaddafi dead

Kadafi morreu em meio à barbárie, crivado de balas, o corpo cambaleante arrastado em meio aos gritos dos inimigos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011


http://www.google.com.br/imgres?q=muammar&hl=pt-BR&client=firefox-a&hs
O ocaso do bárbaro

A queda de Muammar Kadaffi é mais um exemplo do quanto um ditador pode ser odiado - e é - pelas entranhas da sociedade oprimida. O homem ditador, em sua arrogância louca, é levado a supor em si a condição de superioridade, domínio e direção. Aí está o seu erro: no âmago profundo do social, nas entranhas do povo, ferve a insatisfação alimentada pelo medo impotente até que um dia explode tudo no tiro do fuzil.

Foi assim com Kadaffi, foi assim com Mussolini, cadáver exposto em praça pública ao lado do corpo dilacerado da amante Claretta Petacci. Sem esquecer as mortes morais e humilhantes como as de Pinochet e dos generais-ditadores da Argentina. Todo tirano cultiva uma maré montante de inimigos.

E afinal mandar nos outros com poder de vida e de morte é assinar a própria morte, cultivada nos porões mais fundos da história que se faz.

sábado, 19 de março de 2011

A Folha informa que aviões da França começaram a atacar alvos terrestres de Muamar Kadafi. Ao que tudo indica haverá uma dura inversão no rumo dos acontecimentos. As forças do ditador não terão como enfrentar o poder de fogo francês. Abaixo, a matéria.

Avião francês lança ataque contra veículo militar de Gaddafi

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Onda de RevoltasAtualizado às 14h51.
Um caça francês lançou neste sábado o primeiro ataque contra as forças do ditador líbio, Muammar Gaddafi. O alvo foi um veículo militar líbio, segundo o Ministério de Defesa francês.
O porta-voz do ministério, Thierry Burkhard, disse que o ataque foi lançado às 16h45 GMT (13h45 em Brasília), quando o jato atirou contra o veículo militar.
Este foi o primeiro ataque da campanha internacional militar de proteção de civis na Líbia desde que a resolução do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre a intervenção foi aprovada, na noite de quinta-feira.

Sebastien Dupont/AFP
Caça francês Rafale decola da base de Saint-Dizier, rumo à Líbia; governo confirmou primeiro ataque no país
Caça francês Rafale decola da base de Saint-Dizier, rumo à Líbia; governo confirmou primeiro ataque no país

Burkhard não deu mais detalhes sobre o local do ataque ou possíveis vítimas. Ele disse, contudo, que nenhum ataque contra os jatos franceses foi registrado.
O canal de TV árabe Al Jazeera, que cita fontes anônimas, diz que os aviões de guerra franceses já destruíram quatro tanques líbios, no sudoeste da cidade de Benghazi. O relato não foi confirmado. 

Mais cedo, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, alertou que aviões franceses já sobrevoavam o território líbio e estavam intervindo para evitar ataques das forças de Gaddafi em Benghazi, reduto dos rebeldes no leste do país.
Ele anunciou o ataque como cumprimento da resolução do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) que estabelece uma zona de exclusão aérea na Líbia, mas ressaltou que o ditador Muammar Gaddafi ainda tem tempo de desistir da ação militar contra os rebeldes da oposição. 

"Nossos aviões já estão prevenindo ataques na cidade de Benghazi", disse Sarkozy, acrescentando que estão "preparados" para intervir também contra tanques de guerra.
Mesmo antes do anúncio oficial, fontes militares diziam que vários caças franceses sobrevoavam o território líbio, no que seria uma missão de reconhecimento que duraria toda a tarde. 
 
Burkhard confirmou o envio de jatos Mirage e Rafale neste sábado para a cidade de Benghazi, com a missão de impor a zona de exclusão aérea de 150 km por 100 km. "Toda aeronave que entrar nesta zona pode ser derrubada", disse.
A intervenção, segundo Sarkozy, foi acordada após uma reunião com líderes de mais de 20 países. Sarkozy disse em breve pronunciamento que todos decidiram aplicar efetivamente a resolução, aprovada há dois dias. 

"Juntos decidimos garantir a aplicação da resolução do Conselho de Segurança exigindo o cessar-fogo imediato e o fim da violência", disse Sarkozy. "Concordamos em usar todos os meios necessários, em particular os meios militares, para garantir a decisão".
Ele ressaltou, contudo, que a medida permite a intervenção militar visa a proteger o direito dos civis de protestar pacificamente e não decidir o rumo do país africano. A intervenção "acontecerá enquanto houver qualquer pressão de Gaddafi contra Benghazi", disse Sarkozy.

LIBERDADE
Diante do fantasma da ocupação no Iraque, Sarkozy fez questão de ressaltar que a intenção da comunidade internacional é proteger os civis líbios e seu direito de protestar pela libertação "da escravidão à qual estão submetidos há muito tempo".
Ele garantiu que a comunidade internacional não vai interferir na escolha do futuro da Líbia, decisão que cabe unicamente ao seu povo.

Ian Langsdon/Efe
Presidente francês, Nicolas Sarkozy, assiste a reunião de crise sobre a Líbia; intervenção militar começou
Presidente francês, Nicolas Sarkozy, assiste a reunião de crise sobre a Líbia; intervenção militar começou

"A luta pela liberdade é deles. Nossa intervenção não é por qualquer resultado específico, mas apenas para evitar crimes" contra os civis, disse Sarkozy. "Estamos intervindo pelo povo, para que possam escolher seu próprio destino. Seus direitos não podem ser anulados pela repressão e violência". 

O presidente francês ressaltou ainda que ainda há tempo de evitar uma maior ação internacional no território. "Gaddafi ainda tem tempo de recuar e se submeter à resolução", disse o francês. "As portas da diplomacia estarão abertas quando a violência parar". 

ATAQUE
Mais cedo neste sábado, um avião militar foi derrubado nos arredores de Benghazi, deixando uma nuvem de fumaça negra. Um repórter da Associated Press viu o avião cair, em meio ao som de artilharia.
Os rebeldes alegaram que o avião era um caça militar de Gaddafi, que bombardeava a cidade.

Patrick Baz/AFP
Montagem mostra momento em que avião das forças de Gaddafi é derrubado nos arredores de Benghazi
Montagem mostra momento em que avião das forças de Gaddafi é derrubado nos arredores de Benghazi
Já o porta-voz do governo, Ibrahim Musa, negou a queda do avião. Ele também negou que as forças do governo atacaram cidades líbias e disse que são os rebeldes que violam o cessar-fogo. "Nossas forças armadas continuam a regredir e se esconder, mas os rebeldes continuam nos atacando e nos provocando", disse Musa.
Os jovens de Benghazi reagiam como podiam. Alguns recolhiam garrafas para fazer coquetéis Molotov. Outros moradores usavam estrado de camas e pedaços de metal para bloquear as estradas e impedir o avanço das tropas por terra.
A rede de TV Al Arabyia registra também bombardeios das forças de Gaddafi contra os rebeldes em Zintan e disse que ao menos cinco morteiros caíram em seus arredores. 

AGRESSÃO
Antes mesmo da declaração de Sarkozy, Gaddafi alertou, via um porta-voz, que qualquer intervenção internacional na Líbia será uma "clara agressão".
"Isto é injustiça, isto é uma clara agressão", disse Gaddafi, em uma carta enviada à ONU, à França e ao Reino Unido. 
 
"Vocês também vão se arrepender se tomarem um passo para interferir nos nossos assuntos internos", continuou Gaddafi.
Segundo o porta-voz, Gaddafi enviou ainda uma carta separada aos Estados Unidos, na qual disse que todos os líbios estão preparados para morrer pelo país. 

O ditador reverte assim as declarações de seu chanceler, Moussa Koussa, que foi a público menos de 24 horas atrás dizer que a Líbia aceitava a resolução da ONU e decretava assim cessar-fogo imediato e a interrupção de todas as operações militare

quinta-feira, 17 de março de 2011

Líbia: é preciso reagir a Kadafi

Vejo no Estadão a manchete "França pode lançar ataque aéreo contra Kadafi logo após sinal verde da ONU".

Em seguida, diz a matéria: "Ataques aéreos contra posições do Exército da Líbia poderão começar tão logo o Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU) aprove o uso da força contra o regime do governante Muamar Kadafi, disseram fontes diplomáticas francesas. Mais cedo, em tom ameaçador, o ditador da Líbia, Muamar Kadafi, alertou os rebeldes que há um mês iniciaram uma revolta para derrubá-lo que as tropas do governo estão chegando a Benghazi, no leste do país, e 'não terão misericórdia'".

É mais que tardia a decisão. Uma atitude enérgica, ação bélica decisiva precisa e deve ser tomada. Não é possível que o Ocidente veja, em letargo, o genocídio em andamento. Kadafi assumiu a condição de pessoa-Estado e, tomado por essa insanidade, perpetra crimes de lesa-humanidade, num delírio mortal e desapiedado. É preciso pôr fim ao morticínio.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Deu no Observatório da Imprensa:

EXPLOSÃO ÁRABE
Por trás das revoluções
Por Luís Olímpio Ferraz Melo em 22/2/2011
É preciso ultrapassar o campo da sociologia e o da ciência política para compreender o que acontece neste momento no Oriente Médio, pois há evidência de orquestração nesses movimentos ditos revolucionários. Não é sábio acreditar que, de uma hora para outra, os egípcios se deram conta que Hosni Mubarak estava há três décadas no poder e que deveria cair para ser implantada a tão sonhada democracia. Esses regimes governamentais imperialistas fazem parte da cultura do mundo árabe e há outro item que merece reflexão: a religião tem mais poder do que o governo constituído. Ou seja, independente do regime de governo, é a religião que sempre tem a última palavra. O termo mais apropriado para classificar esses movimentos no Oriente Médio seria revolta, e não revolução, como sugerem os meios de comunicação. A maioria dessas pessoas que estão se "revoltando" contra os seus vetustos governantes nem sabe ao certo a razão do conflito e pode, sim, estar sendo manipulada por interesses obscuros.

Os conflitos – ou revoltas – estão se espalhando e colocando o Oriente Médio no centro das atenções do mundo e não se pode prever como terminarão esses eventos. O discurso de todos os líderes desses movimentos é bastante conhecido e sedutor: a liberdade. Mas é intrigante, somente agora, perceberem que a liberdade – no sentido amplo da palavra – é a melhor coisa que possa existir numa sociedade.

Articulação obscuraPor ocasião da "revolta" no Nepal, em que os nepaleses queriam derrubar a secular monarquia, perguntei a alguns nativos "revoltados" a razão daquele movimento. A resposta era lacônica: liberdade. No Tibete, procurei uma explicação oficial para a invasão chinesa na Revolução Cultural, em 1950, em que foram assassinados um milhão e duzentos mil inocentes e inofensivos tibetanos e a resposta confunde mais do que explica: foi para libertar o Tibete dos tibetanos (?).

A rainha das Revoluções – a Francesa – fornece-nos elementos para a compreensão de como são arquitetados esses movimentos, pois a franco-maçonaria era que estava por trás da Revolução e a sua bandeira era a tão almejada liberdade de expressão e o fim da religião. O leitor não se espante em saber que Montesquieu, Kant, Rousseau, Voltaire, Karl Marx e outros tantos famosos eram maçons e usavam a sociedade secreta maçônica para articular a derrubada de governos autoritários, sugerindo desejar a construção de um governo único.

Curiosamente, Hegel e Marx diziam que a história sempre se repete, sugerindo que possa existir uma articulação obscura por trás de todas essas "revoltas" no Oriente Médio sem que nem os "revoltados" saibam da teleologia desse movimento...
A Liberdade nasce na boca do canhão

Os lábios dos líbios estão trêmulos de um certo ardor de liberdade, mesmo que não saibam o que virá depois. Revoluções, insurgências, quedas de ditadores não asseguram que será melhor o dia seguinte, que na história é muito longo, dura anos, muitos anos. Mas acreditam, os líbios acreditam e estão certos, de que o quadro atual não pode mais se manter, mantendo todo um povo em sucumbência. 

A capa do jornal francês dá bem uma ideia do clima áspero e doloroso. O texto visual, a força da foto traz em si toda a síntese da tragédia. O parto da história se fazendo em meio ao fogo.  "Somos nós quem libertará Trípoli" grita a manchete encaixada na imagem indicando que agora não tem volta. Estranhamente, o horror traz em sua alma aquilo a que chamamos de Liberdade. E o canhão faz o seu chamado: Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós.
O cenário é desolador: morte e clamores rondam as ruas como fantasmas que assombram, mãos dadas com os medos que percorrem corações e mentes. Ao lados dos que lutam há os que fogem, não suportando, não tendo forças e coragem para o embate. O desenho da tragédia começa a ganhar traços fortes e escuros, indicando que forças não líbias podem interferir na luta. Uso esse eufemismo para dizer que os EUA estão prontos para desembarcar os marines. Kadaffi já ameaçou: isso acontecendo, rios de sangue, mais intensos e tensos desaguarão no caudal dos sofrimentos.

A geopolítica no norte da África, caso haja a intervenção americana, ficará mais complicada na era pós-Kadaffi. O ideal seria que a revolta triunfasse sem ajuda estrangeira, pois será um problema a mais administrar a presença de forças militares que estarão representando os interesses políticos e econômicos americanos. 

A história dá seus passos. A luta na Líbia terá repercussões que começarão a ser medidas depois do último disparo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Kadafi é humano, profundamente humano

Vemos neste início de século 21 até que ponto a insânia pelo Poder, os grilhões do Poder aferrados à cabeça de um homem, produzem vitimas, espalham horror e promovem essa terrível manifestação de humanidade que é ser plenamente desumano: Muamar Kadafi personifica à perfeição o que digo.

É lamentável dizer, mas, ao visto, ser desumano é profundamente humano, historicamente humano.

Quando alguém toma a si o Poder e passa a ser ele próprio o Estado, então esse homem perverte o sentido o que seria humanidade como atitude ética, elevação, sentido de vida social. 

Louco de Poder, comprova, como Hitler, que é humano, muito humano matar, trucidar, tripudiar, fazer de tudo pelo Poder sob a alegação de que compre missão. É triste, mas é humano, profundamente humano.

Sobre a Líbia, diz o Estadão:

Protestos já deixaram 640 mortos na Líbia, dizem ONGs

Entre mortos estariam 130 soldados executados por oficiais após se recusarem a matar civis

AE - Agência Estado
Pelo menos 640 pessoas foram mortas nos protestos na Líbia contra o governo de Muamar Kadafi desde a semana passada, afirmou hoje a Federação Internacional pelos Direitos Humanos. O número é mais que o dobro do reconhecido pelo governo, de 300 mortos.


Segundo a federação, que reúne 164 organizações não governamentais, as cidades mais afetadas são a capital, Trípoli, onde já morreram 275 pessoas, e Benghazi, no leste da Líbia, onde os distúrbios deixaram 230 vítimas. O número foi divulgado pela chefe da federação, Souhayr Belhassen, em entrevista à agência France Presse.

Entre os mortos há "130 soldados que foram executados por seus oficiais em Benghazi por se recusarem a disparar nas multidões", disse ela. Belhassen, que lidera a federação sediada em Paris, afirmou que o número de baixas é baseado em fontes militares para a capital, Trípoli, e em relatos de grupos pelos direitos humanos para Benghazi e outros pontos do país.

O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, disse hoje que uma estimativa realista era de que "cerca de mil pessoas" tenham sido mortas nos protestos, de acordo com a agência Ansa. Ontem, o governo de Kadafi admitiu 300 mortes nos protestos, incluindo 111 soldados. As informações são da Dow Jones.
A força da democracia

O processo de globalização, que a princípio serviu de trampolim econônico ao neoliberalismo, apresenta agora nova faceta via redes sociais: a formação de comunidades virtuais com vigor para atuação no âmbito da sociedade civil. Mais que isso, com força suficiente para a deflagração de acontecimentos como os que hoje dominam os noticiários a respeito do chamado mundo árabe.

O obscurantismo de regimes ditatoriais de direita ou de esquerda, ou situações do mais absoluto absurdo como na Líbia, é contestado de forma eficaz como resultado da comunicação instantânea e mobilizadora. Creio que uma nova forma de manifestação política se desenha na África e Oriente Médio. Países de confissão religiosa islâmica começam a se distanciar da maneira autoritária, pior que isso, autocrática de seus dirigentes.

A juventude especialmente, irrigada de informações, parece perceber que há algo mais no mundo do que prega o Alcorão ou pelo menos suas interpretações mais rancorosas e intolerantes. Ao mesmo tempo, altera-se possivelmente o quadro da hegemonia americana naquelas regiões com a possibilidade de surgimento de governos não-alinhados às determinações de Tio Sam.

O importante é que os movimentos libertários tenham consequências históricas concretas e que a democracia comece a ser vivida enquanto processo permanente.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Se o povo não presta, acabemos com o povo

O regime de Muamar Kadafi começa a estalar. E parece que o mármore do inferno se acende para o ditador da Líbia, há 41 anos no poder. Setores do Exército debandam, embaixadores se afastam do velho regime, tribos leais dele se distanciam. A situação da Líbia dá continuação ao dominó de queda de regimes ditadoriais de povos seguidores do Islã na África e Oriente Médio. 

As ações de Kadafi, que beiram e até superam a insanidade, revelam um espírito autocrático movido por uma ânsia de poder inaceitável. Metralhar pessoas indefesas até mesmo com o uso da Força Aérea é algo que demonstra o quando ele e seus íntimos seguidores estão, na verdade, desesperados. É como numa situação de teatro do absurdo: se o povo se revolta, acabemos com o povo. Depois, reinaremos um país sem gente. E tudo estará em paz. 
Kadafi: o ditador age com total brutalidade contra os líbios

Outro aspecto a ressaltar é a comunicação em rede que tem deflagrado esses movimentos. Povos tomando a si a imagem de outros povos que buscam tempos novos, desencadeando movimento internacionalista num tipo de sociedade até então fechada ao Ocidente e conhecida como Mundo Árabe e periféricos. Refiro o Irã.

Os milagres da comunicação instantânea estão apenas começando. Suponho que em horizonte historicamente não muito distante o Ocidente também se levantará contra as formas sutis de ditaduras aqui vividas.

Para tanto, é preciso uma mobilização continuada, persistente e firme de sociedade civil. As coisa podem e devem mudar na rota da democracia.