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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Lá vem o Brasil descendo a ladeira


E aí, vai encarar?
Emanoel Barreto

Moleque travesso, tinhoso, peralta.
Saiu da favela disposto a brigar.
Exibe sua força que é magra e rasteira.

É um brasilzinho de muque raquítico.

Moleque travesso, teimoso, assanhado.
Tem jogo de perna é bamba na vida.
De becos escuros em briga com a fome.
É o brasilzinho. Que dó que ele dá.

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Foto obtida no endereço https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhC2LJlLBqHCizL51vMEwR_fUDzEvL_cn_joinY9lo-jnB_xs7M1qnh76WI1ZAK5IkEg5sNeQzE93N20Hpvgvg8kNUJ88eITbP3JsG_AR6D75zo8Ri-wjagn0kXEz4Yj3CdnSGKeQ/s1600-h/!cid_F142B54B3E8C4B048EDA16A6B38785F5@Cida.jpg

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Hoje tá muito hoje ou uma tenda em cada estrela

Ando sem tempo para escrever. Tenho esperado as chuvas que não chegam. Mas sempre tenho uma grande alegria quando meu neto me informa: "Vovô, hoje tá muito hoje."

http://es.dreamstime.com/
Sim, meu filho, graças a Deus hoje tá muito hoje e espero que permaneça assim por muito, muito tempo. É preciso que hoje continue muito hoje. Não sei bem porque, mas creio que é importante que hoje esteja muito hoje. 

Estarmos muito hoje talvez signifique que as chuvas nordestinas virão, mesmo que meio atrasadas, só para festejar o hoje muito hoje; estar muito hoje certamente quer dizer que todos os males, projetos e planos dos indignos e quejandos serão levados pela chuva às bocas de lobo do chão do tempo e lá se perderão para sempre; estar muito hoje certamente significa que o olhar faiscante de beleza do meu neto será para mim um luzeiro a dizer  que é preciso embarcar com ele em seus navios e em seus carros e partir para novas aventuras e dizer como o velho Antero: "A galope, a galope, ó fantasia! Plantemos uma tenda em cada estrela."

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A capitã dos mares

Ontem tive uma das grandes alegrias da minha vida: minha neta começou a escrever sua primeira obra de ficção. Tem o título de "A capitã dos mares" e contará as aventuras de uma menina que comanda navio de piratas em busca de um tesouro a partir do mapa de um pirata holadês já morto. Detalhe: o mapa é "amaldiçoado" - imagine só..., o que confere maior intensidade à trama. E o título foi escrito em letras góticas.

Fiquei impressionado pelo seguinte: ela tem apenas 12 anos e jamais havia escrito algo assim. Estava em minha casa e perguntou-me como se faz uma história. Expliquei que o enredo básico é ter um personagem principal que tem um objetivo a alcançar, mas, entre ele e o objetivo há um opositor, qualquer que seja este. A luta para atingir o objetivo constitui toda a trama.


Ela disse: "Eu sei: mas o problema são os detalhes". Ou seja: as cenas, o quadro a quadro da ação romanesca. Para explicar,  narrei uma suposta cena num porto. Dez minutos depois, minha surpresa: "Vovô, venha ver." Ela já havia composto o primeiro parágrafo, incluindo diálogos, aprofundando em muito a minha sugestão. Tivemos que parar em seguida, pois seu irmãozinho queria porque queria ver uns filmes de Mickey no Youtube.

Ficou-me, contudo, a maravilhosa impressão de ver minha neta escrevendo. Mais tarde vou ligar para ela, a fim de saber o que mais já produziu. Será que a capitã dos mares já embarcou em busca do tesouro? Estou certo que sim. E acompanharei de perto esse mundo de aventuras.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Recebi do leitor Rafael o seguinte comentário em relação a matéria que publiquei, abordando situação de menino pobre que não fora atendido em hospital particular mesmo a Prefeitura assumindo o ônus desse atendimento.

Emanoel, muito bom o seu texto/desabafo/crítica. Discordo apenas do tom dado à prioridade pelo paciente particular. Temos que lembrar que o PAPI é um hospital privado que deve, pois, arcar com todos os custos de energia, água, equipamentos, medicamentos, materiais e mão de obra. Supondo que a outra criança estivesse em quadro de igual gravidade, necessitando também daquele leito de UTI, não vejo mal em priorizar o cliente, que é quem paga estas contas que citei. O que não podemos é, de forma maniqueísta, começar a culpar instituições privadas que há anos salvam as vidas de mais de 400.000 pessoas que têm convênio ou podem pagar por atendimento médico em Natal pelo descaso que as autoridades locais local praticam em relação aos 500.000 que não podem arcar com aquilo que é obrigação do governo oferecer de graça.
Rafael.
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Caro Rafael,

O maniqueísmo do meu texto é mais aparente que real. Explico: quando a Prefeitura tentou levar o menino a atendimento hospitalar fica implítico que arcaria com as despesas. Isso, imediatamente, equipara os dois pacientes, se o parâmetro for apenas a questão monetária. É claro também que o cliente particular tem direito, uma vez que vem pagando mensalmente para ter assegurado esse direito. Não culpo a iniciativa privada por suprir uma obrigação do Estado. Questiono a mercantilização da medicina, que leva instituição hospitalar a fazer a opção preferencial pelos que compram o serviço. Sei que, colocada assim, a questão assume aspecto controverso de conquista de direitos e a necessidade de ser a saúde bem imaterial de todo cidadão.

Vejamos agora por outro aspecto: e se tivessem chegado ao mesmo tempo dois pacientes particulares, como seria? Aí também o hospital, como o serviço público, estaria em falta, uma vez que somente dispunha de um leito, quando deveria estar apto, por suposto empresarial, a atender a urgências e emergências ocorridas ao mesmo tempo. Percebe  a essência do que proponho? Nesse caso, a questão do menino pobre que não foi atendido está completamente excluída, pois estariam em literal disputa dois pacientes particulares com idênticos direitos. E o hospital estaria deixando de cumprir com o contrato com um dos pacientes.

Grato pelo texto enviado e pela forma elegante como me contestou. 


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Na noite de Natal, um milagre terrível 

Em notícia da Folha, que transcrevo abaixo, é relato que oscila entre um conto de Edgar Allan Poe e a crua realidade, o que indica que a realidade é o grande e terrífico conto da vida mesma: aterrorizada, desesperada por estar grávida, mulher atira filho recém-nascido de altura de mais de dois metros. Contra todas as possibilidades o menino escapa do horrendo sacrifício. Isso ocorreu em Belém, Pará. Era noite de Natal e uma maria desgraçada, abandonada por algum josé malandro, se livra do filho em meio a sangue e dor de parto numa noite suja. É o que se poderia chamar de um milagre terrível: terrível porque, agora, o menino vai enfrentar no mundo as coisas do mundo; para as quais, de alguma forma, é preciso ter dom e gana para escapar com vida.

Recém-nascido é abandonado pela mãe e sobrevive a queda de 2 metros em Belém

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DE BELÉM
Na noite de Natal, um recém-nascido sobreviveu em Belém (PA) após ser colocado num saco plástico e arremessado de uma altura de quase dois metros pela mãe, que acabara de parir.
 
A mãe, de 20 anos, e o filho estão internados na Santa Casa de Misericórdia de Belém (PA) e não correm risco de morrer.

Segundo a versão da mãe, a criança nasceu por volta das 20h do dia 24. Ela mesma cortou o cordão umbilical, colocou o recém-nascido no saco e o jogou, por cima do muro de quase dois metros, na casa vizinha.

O motivo alegado foi o medo de ser descoberta por sua família, que é do Maranhão e não queria que ela engravidasse, e pelos patrões em Belém, que a contrataram para ser babá e de quem escondia a gravidez, disse a Polícia Civil.

Um inquérito foi aberto para investigar o caso. Ela pode ser indiciada até por tentativa de homicídio. 

O bebê foi encontrado algumas horas depois pelos vizinhos, que ouviram o choro da criança. O recém-nascido foi levado pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) à Santa Casa. Ele tinha apenas ferimentos leves e está em observação.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Clamores e desgraças

A notícia que você lerá após este comentário foi publicada pelo jornal Meia-Hora, Rio de Janeiro
E o pai, faca na mão, arrancou a cabeça do filhinho
Emanoel Barreto

Em minhas aulas de redação jornalística costumo lembrar aos alunos que palavras, certas palavras, trazem em si todo um conteúdo implícito, contêm já todo um discurso. São pistas de compreensão que nos levam a supor quem seja ou como vive quem a elas estejam ligadas. Explico: a palavra "biscateiro" traz o indício de que se trata alguém que vive de subemprego; consequentemente, não vive, sobrevive. Sem dúvida mora em bairro de periferia, mora num barraco ou quase isso, pode ter problemas de alcoolismo e mantém sua família sob condições extremas e desumanas. Isso só para ficar aqui, percebe?

Pois bem: foi um biscateiro, que num acesso de loucura arrancou a cabeça do filhinho dizendo agir em nome de Deus. É a desgraça do povo, seu clamor bruto urrando sem piedade em meio à desolação existencial passada em meio a um quadro de profunda injustiça social.

O homem rebaixado à condição de monstro louco e brutal atirando-se sobre improvável vítima para perpetrar ato bárbaro. A lancinante tragédia da vida pulsando nas mãos de um pai ao avesso. Clamores e desgraças desta vida iluminada pelo sol inclemente.
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Homem quase é linchado depois da atrocidade



Sob esquema de proteção, o biscateiro Edson Ferreira de Paula, de 30 anos, que matou o filho de apenas seis meses na noite de sexta-feira, em Volta Redonda, no Sul Fluminense, deverá ser transferido hoje para um hospital psiquiátrico, onde fará exames de sanidade mental.


Durante um ataque de fúria dentro de sua casa, ele arrancou a cabeça da criança, que estava num carrinho de bebê, com uma faca de cozinha. A mulher dele conseguiu fugir com os outros dois filhos do casal - uma menina de 10 anos e um menino de 9. Revoltados, moradores do bairro Jardim Belmonte, onde o crime aconteceu, tentaram linchar o assassino, salvo por policiais do 28º BPM (Volta Redonda).

"Chegamos a tempo de impedir que ele fosse morto por um grupo armado com paus e pedras e aos gritos de ‘monstro assassino'", afirmou o sargento Luiz César Lopes Pereira, do 28º BPM.

Indignadas, dezenas de pessoas acompanharam ontem à tarde o enterro do garoto no Cemitério Municipal Bom Jardim. "O policiamento teve que ser reforçado em torno da delegacia e durante a transferência de Edson para a Casa de Custódia, porque a revolta dos moradores é grande", contou o delegado da 93ª DP (Volta Redonda), Alexandre Leite.

Em depoimento confuso e apresentando alteração de humor, primeiro Edson disse que matou o bebê "em nome de Deus". Depois, argumentou que estava desconfiado de que a criança não fosse seu filho legítimo. A polícia, porém, investiga informações de que Edson, que é licenciado pelo INSS por problemas de saúde, teria consumido droga e se irritado com o choro do bebê.
Imagem: http://www.google.com/imgres?imgurl=http://mythosyleyendas.files.wordpress.com/2010/01/crono.jpg&imgrefurl=http://pt.translaten.com/mythosyleyendas.wordpress.com/2010/01/09/crono-preso-del-miedo-devora-a-sus-hijos/index.html&usg=__