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quarta-feira, 28 de março de 2012

Tem fuá no BBB

Ontem, enquanto esperava para ser atendido por uma caixa do correio, ouço conversa entre uma mulher na fila ao lado: falava alto, dizia ser telespectadora assídua do BBB e "disso não se envergonhava". Garantia que muita gente assiste o programa mas diz que não vê. 
http://www.bigbrotherbrasil.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/mulheres-bbb-12.jpg

Teorizando, explicava que que o BBB "era como a gente estar vendo a vida", e mais: "Aquilo ali é a vida mesmo. É um jogo, quem sabe jogo, ganha. É matar um leão por dia". 

Acho que não deixa de ter alguma razão. O BBB representa de alguma forma o tipo de sociedade que criamos, cuja valoração da esperteza e da ética relativa são uma espécie de padrão. 

As humilhações sofridas pelos participantes, como se fossem "competições" para tentar ganhar um milhão ao fim da disputa, são algo que realmente as pessoas enfrentam no cotidiano, só que nas filas dos ônibus, no péssimo atendimento da rede de saúda pública, no trabalhador que aceita não receber hora-extra como jeitinho de não ser demitido, essas coisas..., você sabe... De alguma forma há sim um BBB no mundo. 

Mas, voltando à falastrona: defendia a necessidade de haver aquele tipo de programa como "um bom passa-tempo" e atraía a si a atenção de mais umas duas ou três mulheres, todas concordando com o bravo pronunciamento. Afinal, encerrando a conversa, disse: "O que eu gosto mesmo é de ver o fuxico; o que eu gosto mesmo é de ver o fuá."

Concordo: no Brasil o que precisamos mesmo é de ver o fuá. Qualquer candidato a vereador sabe disso. Ele também, se eleito, vai fazer muito fuá.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Veja só que texto encontrei na Folha. Abaixo, comento.

Fina Estampa" vai ter um assassinato a cada mês



João Fernando (interino)

Para movimentar ainda mais a trama da nove, Aguinaldo Silva vai matar um personagem a cada mês. De acordo com integrantes do elenco, o autor já tinha avisado aos atores de que haveria uma morte a cada 30 capítulos. A primeira vítima foi Zilá (Rosa Marya Collyn), que no sábado passado teve o corpo encontrado misteriosamente na mata. 
.........

Senador é tudo, menos zumbi

Ao ler a respeito da ficção quase delirante do gênio de Aguinaldo Silva, uma das mentes mais criativas e ácidas da -  vá lá -, teledramaturgia, veio-me à cabeça o seguinte: já pensou se alguém, um misterioso assassino agisse sorrateiramente no Congresso,  passando a eliminar senadores e deputados e transformando aquela Casa em palco de horror-show de grande impacto, um reality show exato e na essência da palavra?

Já pensou? Primeiro, apareceria um senador jogado sobre a bancada da presidência, o corpo exangue e muito branco. O corpo seria encontrado de manhã, o que levaria a supor que a eliminação fora feita durante a longa e escura noite do Congresso, templo sombrio de negócios e de lsis, local onde  acontece de tudo.

Já pensou a manchetaça da Folha, a circunspecta chamada do Estadão? E a coisa continuaria assim: senadores e senadoras, deputados e deputadas aparecendo mortos das mais diversas maneiras: pendurados no teto do congresso, boiando nos espelhos d'água de Brasilia, atirados sobre o teto dos palácios, espichados nos enormes leitos das mansões, jogados ao chão de alguma boate cara e reluzente. E tudo isso, sem  dúvida, dentro de prazos que faria estupefata a equipe de Criminal Minds: a cada semana um mandatário morto.

Brasília entraria em polvorosa: quem estaria matando aquelas nobres e candentes pessoas, todas dedicadas ao serviço público e ao bem-comum, à temperança dos costumes sóbrios e à prestação de relevantes serviços à pátria e a história. Quem? Mistério...

Enquanto isso, mais e mais vítimas iriam se acumulando até que um dia, como que por encanto, todos os mortos reapareceriam lampeiros e mais sôfregos que nunca: os jornais enlouqueceriam, os repórteres estariam à beira de um colapso, tal a profusão de pessoas - e pessoas ilustres - ressuscitadas. Uma revolução. Até na comprovação de vida após a morte.

Os ressuscitados, então, convocariam uma grande coletiva. Imprensa nacional e internacional. O mais velho deles, o presidente do Congresso então falaria, dizendo: tudo aquilo fora uma encenação com bons propósitos. Todos haviam participado de um grande show da Rede Globo como parte da campanha da campanha Seu Talão Vale um Milhão. Perdão, errei: tinham participado da campanha Criança Esperança, era o que queria dizer.

Todos haviam participado de graça, de graça, note, cedendo direitos de imagem a grande novela global a ser lançada sob o título: "Quem matou Carmélia?", sendo Carmélia uma pobre senadora que vendia ovos de páscoa para ajudar a seu lamentável irmão, semi-analfabeto e vereador mal remunerado em cidadezinha dos pampas. O dinheiro da novela iria para o Criança Esperança, entendeu leitor?

A trama era assim: Carmélia, desesperada por ser senadora, e pior que isso, pobre, pois seus pares não compravam os ovos de páscoa, fizera conjura com um caseiro que mataria congressistas a serviço de um feiticeiro do Haiti, muito necessitado de corpos para suas experiências na criação de neo-zumbis. Os corpos seriam entregues ao tal feiticeiro, que trabalhava para a CIA e pagava em dólar. Carmélia ficaria rica, igual a seus colegas.

Mas afinal o caseiro voltava-se contra Carmélia e seria ela também morta, apoderando-se o caseiro do pagamento milionário feito pelo feiticeiro a Carmélia. E a novela transcorreria sob a indagação: "Quem  matou Carmélia?". Ela reapareceria no último capítulo. Transformada em zumbi e fazendo justiça ao maléfico caseiro. Muito justo.

Quanto à presença dos congressistas na novela o presidente da Casa disse que, como a participação dos deputados e senadores havia terminado, todos haviam resolvido retornar ao trabalho, a fim de continuar prestando grandes serviços à nação, no que foi muito aplaudido.

Nisso, aconteceu o imprevisto: a atriz que havia feito o papel de Carmélia descobriu que havia participado de sessões do congresso ao entrar por acaso em plenário, e até havia votado a favor da destruição de dez por cento da floresta amazônica. Assim, queria porque queria receber o salário de senadora, cumulado de jeton e propinas de até 20 por cento conforme reza a Constituição.

Os senadores, é claro, repudiaram ato tão vil, pois propina é coisa séria. A ser negociada em restaurante de luxo e gabinetes fechados a sete chaves. Então, entraram em confronto com a atriz que foi surrada a golpes de látego e fugiu para junto de seu irmão semi-analfabeto, homiziando-se nos longínquos pampas. Dia seguinte, diante do acontecido, a Folha abriu manchetaço de três linhas, seis colunas: 

Acaba mistério dos senadores-zumbis;
sem jeton não dá pra ser feliz.
Senador é tudo, menos otário

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dinheiro nosso na mão do milionário
Vejo nas coisas de jornal da Folha que está em andamento mais uma intentona: a campanha eleitoral paga com o dinheiro do povo. Acrescendo-se a isso o fato de que empresas poderiam continuar doando dinheiro a candidatos que representarão seus interesses nas Câmaras Municipais, Assembleias Leglslativas, Câmara dos Deputados e Senado. Ou seja: a ideia é fornir por inteiro a carteira dos políticos, abrindo-se as torneiras até o ponto de sufocação - se é que político pode ser sufocado com dinheiro. 

A proposta, ao que suponho, é institucionalizar a roubalheira, garantindo dinheiro à tripa forra a esses profissionais das leis e da governança. Enquanto isso, falta verba para saúde, educação, cultura, esporte, estradas e segurança. Aqui no Rio Grande do Norte não houve dinheiro para atender às reivindicações dos professores, que foram humilhados e esmagados pela governadora Rosalba. Mas haverá dinheiro para pagar campanha de milionário rumo a mais um mandato.Triste, não?

GOVERNOS DE LULA
Vejo também na Folha que Lula encomendou a Fernando Morais livro a respeito de seu período de governo. Diz o jornal: "O biógrafo de Olga Benário, Assis Chateaubriand e Paulo Coelho agora vai assinar a história oficial do governo Lula (2003-2010).Autor de best-sellers premiados, Fernando Morais foi convidado pelo ex-presidente para organizar um livro sobre seus dois mandatos.Ele diz que o modelo da narrativa ainda não foi definido, mas deixa claro que a obra reproduzirá sua simpatia pelo protagonista."
A obra, ao visto, será na verdade uma ação de merchandising político. É história viva e ainda não é tempo de ser vista - ou revista - no calor de seus próprios acontecimentos. Lula é ainda personagem palpitante, está vivo e tem expectativa histórica de voltar ao Poder. Assim, livro a respeito de seus governos, com enquadramento a favor ou contra, perde-se no vazio da louvação histriônica ou oposicionista enlouquecido. Falta distanciamento histórico, análise sensata, madura e serena que só as léguas do tempo podem permitir. A obra pode resultar em coisa pífia e lamentável.

BOA NOTÍCIA PARA OS CRIMINOSOS
O governo do Estado paga fortunas em comerciais na TV para anunciar que nosso falido RN está em vias de entrar no Paraíso. Mas, entre a realidade midiática e a realidade mesmo, a vida em si, há enorme diferença. Nessa realidade real temos o seguinte: falta dinheiro, por exemplo, para pagamento à polícia militar a fim de que faça rondas e blitzen. Não há verba para o pagamento de diárias. A isso os bandidos brindam e elogiam o desempenho negativo do governo estadual.

A MARCA DA BRUTALIDADE
Leio estarrecido no Diário de Natal: 
"O caso de Maria de Lourdes Araújo completou a maioridade prevista na Constituição. Há 18 anos ela espera por uma cirurgia que vai corrigir seu problema de flebite - nome dado às acentuadas varizes que tem nas pernas - no Hospital Universitário Onofre Lopes. Exercendo sua condição de cidadã, Denise Araújo Correia, 28 anos, filha de Maria de Lourdes, escreveu uma carta para o Diário de Natal relatando o sofrimento da mãe de 59 anos, que passou por várias tromboses, internações, e vai recorrer à Justiça para poder ter seu direito à saúde garantido após quase duas décadas de espera. O caso de Lourdes é um no universo da enorme fila do hospital, que segundo informações não oficiais, chega a mil pacientes. A diretoria do Onofre diz que existe espera desde 2001, mas não confirma quantas pessoas aguardam pelo procedimento cirúrgico."

---- Enquanto isso, sobra dinheiro, sai até pelo ladrão, para esbanjar com a Copa do Mundo, com festejos e outras quinquilharias administrativas que tando encantam os governantes. A realidade desses a quem se chama de povo é aterradora. O povo vive mal e com certeza tem medo até do dia seguinte. 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Veja só o que faz o jornalismo declaratório, sem que o repórter tenha reação questionadora. É da Folha a matéria. Meu comentário vem logo abaixo do texto do jornal.

Schwarzenegger se diz contra construção de hidrelétricas

MARIANA BARBOSA
DE MANAUS
O ator e ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, se juntou ao diretor James Cameron na luta contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Na abertura do Fórum Mundial de Sustentabilidade, que acontece em Manaus até sábado, Schwarzenegger afirmou que a água é uma fonte "fantástica" de energia, mas que "a construção de barragens, com o consequente desalojamento de pessoas e animais, não é sustentável". 

O ex-governador defendeu o uso de energias alternativas como solar e eólica e afirmou que o Brasil tem muito a aprender com a Califórnia. "Estamos construindo o maior painel solar do mundo na Califórnia." 

Schwarzenegger: defensor do meio ambiente
Na quarta-feira, antes do início do evento, Schwarzenegger acompanhou Cameron em uma visita a comunidades indígenas no Pará, localizadas no entorno das obras da usina. "Ninguém pode vir até Manaus e não visitar a floresta, foi um dia muito inspirador. Aqui em Manaus você pode sentir o poder da natureza que nos circunda." 

Segundo o ex-governador americano, para conseguir promover mudanças no campo ambiental, é preciso mudar o discurso de "medo" e "culpa" com relação ao meio ambiente, com discursos científicos catastróficos sobre mudanças climáticas ou de responsabilização de pessoas que usam carro ou sacolas de plástico. "A mudança virá da base da sociedade, e as pessoas precisam se envolver emocionalmente, precisamos fazer com que 'agir de verde' seja sexy". 

Cameron elogiou o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, mas criticou a falta de políticas a favor de energias renováveis. "Vocês aqui têm muito sol, mas apenas 1% da matriz energética vem do sol ou do vento. Na Alemanha, que depende muito de carvão e tem bem menos sol do que o Brasil, obtém até 20% da sua energia do sol e do vento. Vocês também podem fazer isso." 

ETANOL
Schwarzenegger elogiou o programa brasileiro de etanol e como o país conseguiu reduzir a dependência em relação ao petróleo. "Vocês são inteligentes ao produzir etanol de cana-de-açúcar. Mais do que a gente usando milho. Espero que vocês consigam exportar etanol para os EUA, isso vai nos ajudar imensamente." 
....
A entrevista foi centrada na força midiática, na personalidade dos dois famosos. Nenhum dos dois, ao que me consta, tem autoridade técnica para opinar a respeito do tema. Além disso, falta-lhes algo essencial para tratar do assunto: nenhum dos dois é brasileiro. Daí supondo que falta às suas assertivas algo essencial a um discurso digno de credibilidade: refiro-me a algo chamado sinceridade.

São americanos, portanto, têm interesse nas coisas do seu país e na exploração dos nossos recursos naturais em favor do gigante do Norte.

Schwarzenegger, então, faz um discurso chão, tolo, uma platitude: diz que é preciso criar o que entendi como sendo uma consciência sexy verde, a fim de que ser defensor da natureza transforme o indivíduo em alguém da moda, percebe? É tão rasteiro seu pensar, que o conservadorismo - não conservacionismo - do ator sinaliza que ninguém deve ter preocupação nem "sentir culpa" por usar automóvel ou entupir o mundo com plástico. Isso não foi questionado. Ou se foi não está dito no texto da Folha.

Ambos jogam culpa no Brasil pela construção da barragem, mas não referem ao fato de que seu país é um poluior em alto grau e defende o uso de energia nuclear. Somente para lembrar, Schwarzenegger - que nome! - em seus filmes, é o Exterminador do Futuro. É pouco ou quer mais?


A nossa triste sina

Apelando para tecnicalidades jurídicas o ministro Luiz Fux apoiou o fagueiro ingresso em plenário de fichas-sujas como Jader Barbalho (PMDB-PA), Cássio Cunha Lima (PSDB-PBO), João Capiberibe (PSB-AP), Marcelo Miranda (PMDB-TO), eleitos para o Senado, e Janete Capiberibe (PSB-AP), eleita para a Câmara. Com isso, atirou na lata do lixo a moralidade e os bons costumes políticos. 

Fux: fichas-sujaseleitos vão tomar posse
Diz a Folha que ele assim justificou seu gesto: "O intuito da moralidade é de todo louvável, mas estamos diante de uma questão técnica e jurídica de que se aplicar no ano da eleição fere a Constituição." Ações como esta, que fariam corar ambientes jurídicos mais sintonizados com anseios sociais elevados, asseguram a pessoas como as nominadas acima desenvoltura para que continuem a perpetrar seus atos frente a um Judiciário que, de alguma forma, os garante, dobrando-se a questões técnicas.

A impunidade, desta forma, passa a ser garantida como uma espécie de direito travesso, justiça às avessas para júbilo de quantos a queiram afrontar em sua forma tradicional e exata: punir aqueles que mereçam punição. 

A mesma Folha registra opinião contrária ao comportamento de Fux, ao detalhar: "Joaquim Barbosa, que defendeu a validade da lei nas eleições passadas, afirmou que a moralidade é um princípio constitucional e que caberia ao STF fazer uma escolha ao interpretar a Carta." Relata ainda o jornal: "Para Ayres Britto, 'o candidato que desfila pelo Código Penal com sua biografia não pode ter a ousadia de se candidatar'".

Triste sina a nossa, quando a lei termina por apoiar incursos no Código Penal em detrimento do que a sociedade espera de uma Corte Suprema. Triste Sina. 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Os miseráveis do Big Brother Brasil

Os miseráveis do Big Brother Brasil 

Na matéria logo abaixo desta ("O homem-bomba do BBB") excerta da revista Veja, mostro que tipo de inteligência - e de caráter - dirige o Big Brother Brasil - que tipo de programa... Trata-se de um perfil de José Bonifácio de Oliveira, Boninho. Autoritário, trocista, atroz, perpetrador de atos que desnorteiam os participantes, utiliza-se de voz onipresente em altofalantes para xingá-los, um deus ex machina naquele pequeno mundo confinado e esquizofrênico. Ali, pessoas movidas pelos mais baixos valores da condição humana largam de lado o que possa ser chamado de confiabilidade, honradez, decência, respeito mútuo e até respeito próprio para ganhar um milhão.

O Big Brother é um show midiático criado a partir da novela 1984, de George Orwell, onde um ser incorpóreo conhecido exatamente como O Grande Irmão a todos vigiava, até mesmo em suas casas onde as teletelas, neuróticos televisores transmitiam sem parar notícias do Partido do Grande Irmão ao mesmo tempo que vigiavam os moradores. Daí a ideia doentia do Big Brother televisivo, que aqui virou Big Brother Brasil.

O BBB é metáfora não-intencional da condição humana agregando a si dois aspectos: a questão existencial em si, o medo que o mundo nos infunde de neles estar, a insegurança do dia seguinte, a necessidade de nos prevenir  - monetariamente - para o que virá e o anseio de obtenção dessa segurança, manifesto pelo desejo cúpido do dinheiro. Os participantes são norteados inconscientemente pela convicção de que numa sociedade capitalista, com suas regras injustas e cruéis, jamais ganhariam aquela soma apenas com o trabalho. Essa a pedra de toque do BBB. Açular em suas vítimas o medo de continuarem a ser pobres, o medo de continuar a sofrer no mundo.

Assim criou-se um microcosmo onde a torpeza, a esperteza amoral e o epílogo da decência são valores máximos. Em continuidade, no combate entre os participantes os herois dessa débâcle infame são, além disso, levados aos seus limites físicos e psicológicos. Por exemplo, provas degradantes os obrigam a ficar de pé horas inteiras, até que o penúltimo sucumba, cabendo ao vencedor as batatas bichadas de tão lutuoso certame. Logo a seguir virão novas inquietações e padecimentos.

Como num circo romano, o país todo transformado em patuleia pela TV Globo, urros e guinchos se dividem pró ou contra alguém que exercite seu heroismo tracanho. Eliminado, o expulso sai da Casa do BBB e surge um substituto: the show must goes on e isso é feito a toda a pressa, pois é preciso manter a multitude midiática de dentes afiados para o próximo e torpe desafio.

Nesse microcosmo de injustiça, vilania e delírio que raia a insanidade, tal o clima que ali se instaura de desconfiança, temor, delação e manifestação de egoísmo ritual - egoísmo que exaltará o paciente a patamar mais alto caso se utilize da falta de escrúpulos como força maquinal a destuir o outro - ressalta-se aspecto quase patológico: a única regra é ganhar e ganhar a qualquer preço: o preço da mentira, do engodo, da exposição do outro ao ridículo e à humilhação. O BBB é um brutal exercício de poder. Reúne em casa luxuosa magote de desvairados pela ideia fixa do milhão a ser abocanhado. Temos a simbolização do poder do capital sobre as pessoas que na Casa representam o social por inteiro, e o poder de uns sobre os outros, que expõe as misérias da condição humana.

Sob aquele sol de desesperados todos sabem que o deus ex machina Boninho os vê a todos a todo instante, assim o queira. E os punirá como no mundo entidade superior nos observa e castiga, adões e evas do paraíso insólito em que vivemos, onde nada é permanente - apenas o pecado de ser homem. Desta forma, os participantes se atiram ao BBB na busca de fugir deste mundo, em busca do milhão, esse milagre que lhes retirará o pecado de não serem ricos.

Esse número, um milhão, quando representa dinheiro, assume condição sígnica de quantia invejável, desejável e inalcançável pela maioria dos mortais. A ideia de alguém milionário traz subjacente a visão paradisíaca de homem ou mulher que tem o mundo a seus pés e, portanto, está livre dos esforços do trabalho, da prestação de contas a um gerente, chefe ou patrão. Alguém que simplesmente-não-precisa-mais-trabalhar. Portanto, está livre dos horrores do cotidiano, dos ônibus superlotados, do dinheiro contado para chegar o fim de mês, da humilhação de pedir um adiantamento. Tudo isso é substituído, na casa do BBB, pela esperança da compra de um carrão e de um apartamento, vida à tripa forra: champanhe, farra e praia o resto da vida. O BBB é o Paraíso redivivo.

Sintetizando: o vencedor do BBB será alguém que, sob a couraça do milhão, estará livre do grilhão do capitalismo e poderá flutuar num éden provisório, uma bolha de sabão hedonística, mesmo todos os participantes intuitivamente saibam que logo será desfita em delicada explosão como ocorre no inocente jogo infantil, o menino e seu canudo. Um milionário, qualquer milionário sabe que o milhão em e em si é algo parco se não tem possibilidade de se reproduzir capitalisticamente. E os vencedores do BBB, parece-me, só sabem gastar.

O BBB é uma reunião de reclusos, um pequeno bando de efêmeros patifes, leva de desocupados que se deixa explorar pensando estar explorando os outros, entre si. Já se informou que agora serão deixados se embriagar e trocar tapas, a fim de que o espetáculo ganhe mais realidade. Esse diminuto exército de infames é trupe de desgraçados retirados do social; são, portanto, excerto exato de que tipo de sociedade está em construção, de que tipo de tragédia está e vem o homem perpetrando na face da Terra.

sábado, 8 de janeiro de 2011

 Da Veja, compartilho:

O homem-bomba do BBB

Com seu jeito irascível e broncas pesadas nos ‘brothers’, Boninho mantém o programa quente e garante sua longevidade na Globo

Maria Carolina Maia
Boninho, diretor do Big Brother Brasil "Em vim para confundir", diz Boninho, ecoando Chacrinha (TV Globo/Divulgação)
 
Se o Big Brother Brasil continua dando lucros à Globo (30 pontos de audiência, em média, na última edição e faturamento estimado em mais de 100 milhões de reais em 2011), ele é o responsável. Ou culpado. Diretor do programa desde o início, em 2002, José Bonifácio de Oliveira, o Boninho, sabe mantê-lo aquecido. Gritos contra os participantes nos bastidores, ataques a jornalistas no Twitter, deboches e suspense quanto às atrações arquitetadas para testar os participantes fazem parte do arsenal mobilizado pelo diretor antes e durante o programa.

“O Big Brother Brasil seria uma Fazenda sem o Boninho”, diz a ex-BBB 10 Fernanda Cardoso, em referência ao ritmo modorrento do programa da concorrente. “É ele quem deixa o show quente com broncas pesadas nos participantes, desestabilizando-os emocionalmente. Teve uma prova que eu venci e ele demorou a dar o resultado. Aquilo me deixou ansiosa e insegura. Ele consegue induzir a gente ao stress e à carência.”

Stress e carência que, por sua vez, provocam os barracos e as associações afetivas que muito agradam ao público e puxam a audiência para cima. É tudo estratégia. Como numa tática de terror, o diretor jamais aparece pessoalmente para despejar suas críticas sobre os moradores da casa do BBB. É apenas a sua voz que os brothers ouvem, diz Fernanda – quase sempre em alto volume.

As críticas dirigidas aos participantes dizem respeito ao descumprimento de regras – novas ou alteradas no meio do jogo -, mas jamais comunicadas. Como uma toalha que, deixada sobre o box de vidro, cobriu a visão de uma das câmeras do banheiro e despertou a ira do filho de Boni.

“Ele entra em contato de repente, sem avisar, e em geral é para reclamar”, conta a também ex-BBB 10 Tessália Serigheli. “Boninho é realmente pouco sutil nas reclamações, mas acho que isso faz parte do que ele pretende, que é deixar todo mundo a ponto de explodir. Se a pessoa que é a sua ligação com o mundo exterior é rude, você fica ainda mais inseguro e nervoso no confinamento.”

Ovos podres – Em 2007, ficou famoso o episódio em que João Brizola, neto do ex-governador fluminense Leonel Brizola, colocou na internet um vídeo em que Boninho, sua ex-mulher Narcisa Tamborindeguy e outros endinheirados do Rio contam que têm o costume de atirar objetos pela janela de seus luxuosos apartamentos.

“Taquei muito ovo pela janela, muito ovo estragado”, diz Boninho no vídeo, em que dá uma receita para produzir uma bomba antipedestres. “Bota éter dentro do ovo e espera uns três dias.”


Em entrevista a VEJA Rio, o diretor desmentiu a declaração, alegando que tudo não passava de uma brincadeira que, por vacilo do neto de Brizola, foi parar na internet e se espalhou. Narcisa ainda mantém a versão. “Era brincadeirinha”, diz a socialite, que descreve o ex-marido, com quem não sabe dizer quantos anos ficou casada – “Acho que foram cinco” – como um homem inteligente. “Ele tem QI (quociente de inteligência) acima da média.” E exigente. “Boninho é rígido e cabeça quente, ele não tem paciência com a humanidade.” Em 2002, a autora dos livros Ai, que Loucura e Ai, que Absurdo já acionou a Justiça para que Boninho pagasse a pensão da filha Mariana, mas diz que os conflitos com o ex são águas do passado.

Ainda que os ovos podres tenham sido desmentidos, permanece a aura de bad boy – ou bad playboy – do diretor. Especialmente, por sua atuação no Twitter, feita de posts debochados e de críticas a jornalistas – muitos nominalmente citados – que escrevem sobre o reality show.

“A lista que vazou na internet está certa, estão lá alguns aspirantes para o BBB 11. Mas não são os escolhidos. É furo! Rsrsrsrsr”, ironizou Boninho na semana passada, quando uma suposta relação dos participantes da nova edição do Big Brother apareceu na web.
Os tuítes debochados não apenas ajudam a sustentar na internet a fama de irascível, mas fazem de sua conta no microblog uma grande promotora do programa. E ele tem plena consciência disso. “Até quando meus coleguinhas da imprensa vão achar que aqui eu falo algo sério?”, escreveu em outra ocasião no site.

Desde o ano passado, aliás, o BBB incorporou o Twitter a seu formato, com a criação de um microblog para cada participante do programa. A medida fez da internet uma aliada ainda maior na caça à audiência. Enquanto a fórmula der certo, Boninho vai seguir como o Chacrinha do Big Brother, tuitando e movimentando o circo. Ele mesmo já avisou, repetindo o velho guerreiro em menos de 140 caracteres: “Eu vim para confundir.”