Uma estranha realidade
Cansado de notar que o que chamamos de realidade nos reserva unicamente a sazonal repetição de fatos como as eleições, quando os discursos anunciam que o Paraíso está próximo, narro aqui a visita que recebi ontem de um ornitorrinco, notável e sábia criatura que teve a generosidade de visitar-me em minha oficina tipográfica.
Segundo me disse, estou sob séria ameaça de ser preso devido a atividades de subversão e atos conspiratórios. Estranhei, pois não sou dado a conluios ou conchavos de qualquer natureza, nem atento contra a lei ou contra a ordem. Mas, para não cansar meu ocasional leitor, digo que após horas de edificante e elucidativa conversa aquele bom homem retirou-se, não sem antes advertir-me de que poderia ser preso a qualquer momento.
Após sua saída voltei a trabalhar com meus tipos, compondo este coranto, quando ouço poderosas, raivosas batidas à porta. Corri a atender àquela confusão e eis que entram oficina adentro uns dez escaravelhos, todos homens de má catadura e péssimos modos, que em poucos minutos me manietaram e me puseram a ferros, levando-me em seguida a uma masmorra.
Naquele miserável ambiente estavam recolhidos outros homens, todos acusados de sedição e ódio, motim e outras desobediências. Nenhum de nós entendeu nada daquelas acusações, a não ser quando a figura alta de um magistrado nos apareceu. Era ele grande, um macaco-prego, e se dizia de ascendência alemã, coisa muito comum a tais símios. Explicou que todos estávamos ali - sendo aquele tempo o ano de 1795 -, sob suspeição de haver inventado o computador e o telefone, a energia elétrica e outras cousas malsinadas como o automóvel e a bomba atômica.
Todos os que estavam recolhidos dissemos que se travava da mais pura inverdade, uma vez que tais e perigosas maravilhas somente seriam criadas muitos anos depois, conforme explicamos. Contrariando as nossas palavras eis que chega o Sr. Ornitorrinco, para minha surpresa. Tão logo adentrou aquele lúgubre ambiente apresentou-se como espião e mostrou fotografias da minha oficina, fotografias tomadas à sorrelfa, onde eu era visto preparando uma bomba atômica. E todos os demais infelizes também eram vistos em seu ambiente de trabalho criando engenhos danosos e coisas terrificantes; as fotos eram a prova maior.
Sob o choque das fotografias ficamos perplexos, uma vez que aquelas imagens eram inverídicas; sendo, claro, fruto de algum truque que desconhecíamos, uma vez que sequer sabíamos da existência da fotografia, que nem ao menos fora inventada. Em desespero pedimos para confabular, o que nos foi permitido, surgindo assim a nossa defesa: 1) nada daquilo existia; portanto, não poderíamos ser autores de tais e perigosos portentos; 2) sendo assim, deveríamos ser soltos imediatamente.
O ornitorrinco e o macaco-prego, homens tinhosos, rebateram. Comprovando o que diziam abriram as portas da masmorra e nos atiraram em meio ao mundo. E o que vimos foi o que o leitor também vê: o descalabro, a loucura das ruas, o computador onde você lê este coranto. Atônitos, recuamos, voltando à masmorra. E agora, o que fazer? Não criamos nada disso, mas tudo o que não criamos está aqui. Até que ponto essa irrealidade vai nos assediar?
Sem resposta, corremos masmorra adentro, fugimos. Ao sair, num ponto bem distante, batemos e trancamos a porta. O futuro e todo o seu horror havia ficado para trás. Eu voltei à minha oficina, a fim de terminar este texto. Mas, para meu desespero, eis que está à minha porta um novo e estranho personagem: um grande, gigantesco mosquito se apresenta e temo que traga algo terrível em suas palavras.
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
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terça-feira, 26 de junho de 2012
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quarta-feira, 28 de março de 2012
De como uma orca invadiu a redação da Tribuna do Norte
Sendo hoje o Dia do Diagramador quero prestar minha homenagem a esses jornalistas. São eles que fazem a programação visual das edições. Homenageio os colegas na figura de dois dos grandes monstros com quem já trabalhei: Moacir Oliveira, o Moaça, a velha Orca, e Enéas Peixoto, o velho Zé de Ena. Temperamentais, sérios, competentes, trabalhadores, talentosíssimos. E dignos, muito dignos.
Vou contar como Moacir ganhou o apelido de orca. Naquele tempo jornal era redigido a máquina de escrever e diagramado em papel e régua. As redações eram ambientes esfumaçados, regidos a gritos e imprecações, encharcados de café e estresse. Não podia haver melhor inferno do que esse.
Pois bem: foi em meio a essa loucura que um dia, coisa de seis da noite, máquinas disparadas, fotógrafos correndo para o laboratório, a redação a um grau de loucura, que Moaça começou com um estranho hábito que nos atormentou por vários dias: de repente, tomado por algum espírito zombeteiro, emitiu um alto, longo, forte, agudíssimo e poderoso guincho, que se sustentou no ar com a intensidade de um saca-rolha entrando em seu ouvido.
Enquanto ele despachava seu terrível som a redação começava a parar. Cigarros eram depositados nos cinzeiros, carros de máquina silenciavam. Alguns de nós chegavam a tapar os ouvidos. E o velho Moaça, firme: "Innnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn...!!!"
Só parou quando acabou o fôlego. E ele ria, ria muito da temível sonoridade que há pouco havia perpetrado.
Mas, enfim, terminada aquela ópera dos infernos, suspenso o guincho até a tarde seguinte, Enéas disse, procurando Moaça que havia saído da redação: "Cadê a orca?"
E foi assim que a velha redação da Tribuna do Norte ganhou, além do aquário do editor, a presença, a grande presença daquela orca no nosso mar tribulado de mil momentos, como só se viam naqueles tempos de grandes navegações.
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Meu caro amigo
É por essas e outras que digo: o velho jornal impresso é - sempre será -, essencial. Não há como substituir a ludicidade do papel, o contato, o dobrar, o recortar daquela notícia ou foto. Saudades - até mesmo saudades alegres, que já nos chegam impressas, prontas para guardar.
Confirmando minhas palavras essa capa magnífica do Estado de Minas, dedicada a Chico Buarque. Valeu pelo inesperado, pelo conteúdo, pela escolha estética, pela graça, pela sensibilidade, pela proximidade que isso estabelece com o leitor. Veja. E concorde comigo.
É por essas e outras que digo: o velho jornal impresso é - sempre será -, essencial. Não há como substituir a ludicidade do papel, o contato, o dobrar, o recortar daquela notícia ou foto. Saudades - até mesmo saudades alegres, que já nos chegam impressas, prontas para guardar.
Confirmando minhas palavras essa capa magnífica do Estado de Minas, dedicada a Chico Buarque. Valeu pelo inesperado, pelo conteúdo, pela escolha estética, pela graça, pela sensibilidade, pela proximidade que isso estabelece com o leitor. Veja. E concorde comigo.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Vejo no Observatório da Imprensa e compartilho.
O Estadão vai à guerra
Por Luciano Martins Costa em 21/09/2011 na edição 66Comentário para o programa radiofônico do OI, 21/9/2011
Sob um silêncio constrangedor de seus pares, o Estadão prossegue em rota de colisão com o Judiciário. Depois de duas reportagens claramente indignadas contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça que anulou provas obtidas através de telefonemas gravados, no processo que envolve o empresário Fernando Sarney, o jornal paulista volta, sozinho, ao campo de batalha para expor o que pode ser um esquema de tráfico de influência na Justiça.
Nesta quarta-feira, 21, reportagem que ocupa a manchete do jornal informa que, para anular as provas contra o filho do senador José Sarney, a 6ª Turma do STJ bateu recordes de eficiência e celeridade.
O ponto central da reportagem leva a conclusões perigosas. Ao observar que, ao contrário de outros processos, o STF funcionou como uma instituição extremamente rápida e eficiente, o Estadão está afirmando, sem meias palavras, que os desembargadores demonstraram um empenho muito maior em livrar Fernando Sarney do que é o comum de sua rotina.
No caso Satiagraha, a anulação de provas levou um ano e oito meses e o relator estudou o processo por dois meses antes de apresentar seu parecer. No processo gerado pela chamada Operação Castelo de Areia, a anulação das provas demorou 2 anos e a relatoria demorou oito meses. Para chegar à conclusão de que as provas contra o filho de Sarney não são válidas, a Justiça levou apenas nove meses, o processo foi relatado em seis dias e dois juizes foram convocados para completar o quórum.
A reportagem informa ainda que um dos juizes convocados para completar a votação teve sua aprovação no Senado Federal acelerada pelo próprio presidente da Casa, José Sarney. Fontes consultadas pelo jornal indicam que o procedimento do STF não é comum.
Além disso, o Estadão afirma que a decisão de anular as provas contra Fernando Sarney foi tomada sem levar em conta um parecer do Ministério Público Federal e decisões de juizes de primeira instância, que haviam aceitado como prova o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – que viu indícios de crime em três movimentações financeiras, no total de R$ 2 milhões, feitas pelo empresário e sua mulher.
O Estadão decidiu, claramente, abrir guerra contra certos setores do Judiciário. Os outros jornais fingem que não aconteceu nada.
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segunda-feira, 4 de julho de 2011
Abaixo, bela reflexão da professora Josimey Costa a respeito do jornalismo.
A primeira vez em que pensei em dizer o que vem a seguir foi em 2000, quando fui convidada para ser paraninfa, mas não cheguei a proferir o discurso. Havia, à época, uma noção muito distorcida do que significa ser um profissional da comunicação neste estado e qualquer pessoa, como eu, que criticasse quando necessário as práticas de profissionais e de empresas da comunicação causava uma certa ansiedade. Tanto que fui convidada e logo depois desconvidada... Mas guardei o discurso! E como se pode lucrar com o tempo, haja vista a venda de segundos pela televisão, acredito mesmo que lucrei, pois os tempos hoje são outros. Hoje posso falar e os alunos que aqui se formam podem ter certeza de que isso não vai tirar um emprego sequer de nenhum deles. Há mais espaço para a crítica, há muito mais liberdade para fazer diferença porque o campo da comunicação no Rio Grande do Norte está mudando. E muito.
A comunicação, o ensino e as pessoas no mundo
Profª Drª Josimey Costa da Silva
Aos formandos de Comunicação Social
Radialismo e Jornalismo - março de 2008
UFRN
A primeira vez em que pensei em dizer o que vem a seguir foi em 2000, quando fui convidada para ser paraninfa, mas não cheguei a proferir o discurso. Havia, à época, uma noção muito distorcida do que significa ser um profissional da comunicação neste estado e qualquer pessoa, como eu, que criticasse quando necessário as práticas de profissionais e de empresas da comunicação causava uma certa ansiedade. Tanto que fui convidada e logo depois desconvidada... Mas guardei o discurso! E como se pode lucrar com o tempo, haja vista a venda de segundos pela televisão, acredito mesmo que lucrei, pois os tempos hoje são outros. Hoje posso falar e os alunos que aqui se formam podem ter certeza de que isso não vai tirar um emprego sequer de nenhum deles. Há mais espaço para a crítica, há muito mais liberdade para fazer diferença porque o campo da comunicação no Rio Grande do Norte está mudando. E muito.Queridos alunos, que me permitiram experimentar um gosto que eu não tive no passado, muito obrigada por tão gentilmente me homenagearam com o convite para ser sua paraninfa. Aprendi muito com o seu caminhar os primeiros passos do jornalismo e do radialismo e por tudo o que vi e ouvi, só posso dizer que tenho muito orgulho de vocês, dos alunos que foram e dos profissionais que, com certeza, serão.
Depois disso, posso dizer, enfim, algo sobre o nosso campo de estudo e de trabalho.
As sociedades humanas são fundadas na comunicação. Entre os humanos, é na comunicação, no olhar de um ser para o outro, que toda a condição de humanidade se estabelece. Somos humanos porque nos reconhecem assim, porque nos reconhecemos como seres iguais a outros, também considerados humanos. Portanto, sem comunicação, não há vida humana. É a comunicação que nega a insularização primordial, essencial de cada ser humano.
A palavra comunicação, do ponto de vista etimológico, é o que pertence a todos ou a muitos. Comunicar, portanto, é o ato de tornar comum, fazer saber. Mas bem a propósito, a acepção “tornar comum” vem em primeiro lugar, e a razão pode ser encontrada buscando-se as raízes da palavra ação: ato, efeito, obra. Comunicação, assim, deve ser entendida como aquele ato de tornar comum que visa a uma nova ação. É assim que entendo a comunicação, e é essa a concepção que quero partilhar com todos aqui, especialmente com meus ex-alunos, hoje colegas, vocês que são o motivo maior da minha presença neste momento.
A comunicação é cultura e vice-versa. Mas o que tem isso mesmo a ver com o ensino numa universidade? É óbvio que as universidades não existiriam sem comunicação social. Não existe educação sem comunicação. Não existem aulas, não existem livros, não existem professores nem alunos sem a comunicação. E o quê as universidades têm feito pela comunicação humana?
As primeiras escolas superiores eram cooperativas de alunos. Alunos que eram senhores maduros, oriundos de centros de comércio, interessados em conhecimento geral, na época chamado de essências universais. Nada dessa moçada universitária que a gente conhece hoje, portanto.
No século 13, universidades de eruditos desenvolveram-se em organismos jurídicos com estruturas administrativas bem definidas. Essas estruturas geraram a massa crítica de pensamento fundamental para o surgimento do Renascimento e do Iluminismo como renovação da cultura humana.
Numa universidade contemporânea, se repassa o saber discursivamente formulado e se transforma cada uma das esferas da experiência humana num saber racional, assegurando-se a sua utilização técnica. Nessa confluência entre o saber e a sua utilização é que reside a essência da universidade atuais.
Na universidade, deve-se questionar, principalmente, a dimensão institucional da comunicação e dos meios, e não somente a dimensão instrumental. Deve-se buscar uma formação crítica, um conhecimento dos princípios do saber para além das suas meras aplicações. As aplicações puras são do âmbito do saber técnico. O saber mais amplo, que insere a técnica no contexto social e cultural, na dimensão humana: isso é o saber universitário.
Assim, o papel da universidade não é apenas produzir técnicos de nível superior. A universidade tem responsabilidade numa formação mais humanística, e não somente para o desenvolvimento de habilidades técnicas e de conhecimento desvinculado do agir social.
Hoje em dia, temos escassas oportunidades de refletir sobre o que fazemos e sobre como o fazemos nestes tempos em que se vive, simultaneamente, todas as dimensões contraditórias da história, nestes tempos em que as horas se transformam celeremente em segundos. Se as universidades formam profissionais capazes de refletir e atuar nos processos da comunicação - ou seja, no próprio cerne da vida social - poderemos intervir conscientemente na construção do mundo em que vivemos, na sociedade em que estamos inseridos. Poderemos, efetivamente, dirigir os nossos destinos.
Utopia? Talvez. Especialmente se continuarmos a trilhar o caminho que já estamos seguindo. Fazer pensar, levar a conhecer não é fácil, nem se consegue de qualquer jeito. As sociedades humanas evoluíram a tal ponto que o construir o conhecimento e conhecer o próprio processo de conhecimento são aventuras cada vez mais complexas. No mínimo, é preciso condições adequadas para o conhecimento florescer. No caso das universidades, espaços físicos, laboratórios, instrumentais, equipamentos. É indispensável, também, a presença daquela figura, que entra na constituição de qualquer ser humano adulto letrado contemporâneo: o professor. O professor ainda e sempre, é necessário, pois ele tem uma função importante a desempenhar na construção do conhecimento e na utilização social desse conhecimento, segundo princípios que não podem jamais se dissociar de um agir ético. Ele tem a responsabilidade de introduzir humanidade no processo do ensino-aprendizagem.
Ética é o ramo do conhecimento que pondera sobre a conduta humana, estabelecendo os conceitos do bem e do mal, numa determinada sociedade, em determinada época, mas segundo princípios universais de respeito à vida. A ética também pode ser entendida como o exercício de um olhar sobre si com vistas ao agir moral. Através dela, se pode analisar e aprofundar os fatos morais dos quais podem ser deduzidas as regras para o comportamento humano.
O pensar ético parte do princípio de que todo homem, espontaneamente, deve saber o que é bom e o que é mau, que ações devem ser praticadas, e quais não. Isso seria próprio da natureza do homem. A política visa o bem comum; a ética política visa os meios de se atingir esse bem comum.
Podemos pensar que, hoje, a comunicação social é ditada grandemente por interesses comerciais nos veículos de massa; que as universidades têm suas própria existência ameaçada pelo risco de se tornarem apenas fábricas de técnicos de nível superior; que a ética serve principalmente para a elaboração de códigos inócuos de um exercício profissional questionável; que a sociedade, enfim, desaba numa indesejável entropia excesso de individualismo.
Mas eu prefiro um exercício de otimismo crítico. Vocês sabem, o pessimista diz que é possível, mas muito difícil. E o otimista diz que é muito difícil, mas perfeitamente possível. Eu sou desse time.
Qualquer sistema como uma sociedade, ou um sistema de comunicação, são estruturas muito complexas. Envolvem diversos elementos em correlação constante e sua existência e desenvolvimento estão em dependência direta da sua capacidade de reformulação contínua. Há, na própria natureza desses sistemas, uma capacidade de aut-eco-organização que surpreende muitas vezes os analistas, os experts, ao abrir rumos em direções inesperadas. As disputas eleitorais são exemplares nessa área.
Agora, mesmo, estamos vivendo uma discussão importantíssima sobre o que é a comunicação pública. Em 2000, essa discussão não passava dos discursos não lidos dos professores universitários. Hoje está em todos os jornais, nas agendas da câmara e do senado federal. São ou não são tempos novos e muito mais estimulantes? E isso nada mais é do que reorganização.
É justamente na reorganização que cabe uma ação ética por parte de todos nós. A ação que visa o bem comum é que pode alterar a marcha da entropia e reorganizar os sistemas responsáveis pela nossa existência. Isso não é utópico, não é só teórico, nem está distante de nós. Isso diz respeito a cada um que está aqui, a mim e aos concluintes, a quem me dirijo especialmente.
Sejamos éticos no agir. Lembremo-nos de que a comunicação visa a ação comum, e a sobrevivência de cada um e de todos depende de visarmos, com essa comunicação, o bem comum. O que nós fazemos como comunicadores necessariamente tem efeito social e nos cabe uma responsabilidade enorme por isso. Não nos enganemos imaginando que nossos atos só dizem respeito a nós mesmos, que o nosso trabalho só deve beneficiar a nós mesmos e que o resto do mundo é o resto. Só existimos porque esse mundo existe. Por isso, ele não é o resto. O mundo somos nós. Nós o afetamos tão profundamente quanto ele nos afeta.
Portanto, sejamos éticos no ensinar, sejamos éticos no aprender, sejamos éticos no comunicar, sejamos éticos no viver. Não entendo vida de outra forma. E não poderia desejar nenhuma outra coisa a vocês.
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sábado, 11 de junho de 2011
Sereias ou 0 retroprojetor que encanta
Na aula de ontem com estudantes de Oficina de Texto falei a respeito da crônica, esse gênero bem brasileiro. A crônica se constroi de assuntos pequenos, limitadas parcelas da vida, esquecidos instantes de quase ninguém e que quase ninguém percebe, vê ou sente. É essa a matéria prima do cronista: o trivial, o tolo esquecido, o delicado refugo da vida que de repente no texto se dá a conhecer.
![]() |
| Ulisses, amarrado, enfrentando o canto magnífico e enganador das sereias |
Como exemplo peguei um retroprojetor. Como se fosse um bicho vivo e cheio de manhas ele insistia em não se deixar manusear. Quero dizer: aquela haste que dá suporte à lente estava presa na lateral e aparentava ser impossível erguê-la.
Depois de muita luta alevantou-se a lente e lá estava a máquina de ver: altaneira e firme como um grande olho de cristal e observar o mundo.
E então, pronta a minha metáfora de coisa insignificante e magnífica, disse que o retro podia ser encarado como uma máquina mágica, uma máquina que via ao contrário, porque uma máquina que exibia o seu olhar. Ao contrário de nós, que puxamos com o olhar a vida - puxamos para nós, puxamos para dentro de nós, para as nossas emoções caladas, o que está no mundo.
Assim, o retro passava a ser vivo e trazia pela luz ao mundo o mundo que escondia em seu ego de objeto vivificado. Os fios como fibras nervosas; a eletricidade como força, anima que a fazia coisa alumbradora.
Depois fomos à internet e vimos jornais de outras partes do mundo, jornais de longe de Natal e daquela sala do Setor II. A crônica da vida em mundo virtual envivecido. Acho que foi um grande-pequeno momento. Acho não, foi.
E aqui, tratando dessa situação momentânea, passageira e de beleza que pude perceber, terminei fazendo uma crônica que se completa com o seu olhar de leitor que por acaso achegou a essa praia feita de letras, remansos e calmaria que dá o que pensar; pensar como meditação boba, de jornalista que datilografa como o fazia em priscas eras, em meio e volutas de cigarro e litros de café.
PS: um dia, ainda um dia, encontrarei uma praia secreta e distante, onde verei sereias. Como Ulisses, como Ulisses...
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A Folha está promovendo um escarcéu em torno de texto que sequer foi publicado, de autoria de FHC. É o que se chama, em jornalês, de "balão de ensaio", uma coisa de jornal que visa "testar" até que ponto alguém pode medir a importância ou impacto de suas palavras ou atitudes midiáticas. O balão de ensaio surge de algo que em si não tem valor algum ou o tem de forma relativa; visa atender unicamente o interesse de alguém em torno da promoção de seu nome ou instituição a que seja ligado. No caso, o jornal pretende criar e promover um pesudoacontecimento - o "debate" interno do PSDB - a fim de promover esse partido. Leia a matéria.
Oposição discorda de FHC e defende foco no 'povão'
DE SÃO PAULO
Já o ex-governador José Serra fez vários elogios ao texto e disse que este não é o "ponto essencial" do texto.
FHC diz que PSDB precisa se aproximar de quem não se interessa por política
Oposição precisa conquistar a classe média, afirma FHC
FHC critica política econômica e diz que Dilma é diferente de Lula
Oposição precisa conquistar a classe média, afirma FHC
FHC critica política econômica e diz que Dilma é diferente de Lula
Em artigo que será publicado nesta semana e revelado pela Folha, FHC defende uma revisão profunda da estratégia do PSDB e da oposição para voltar ao poder.
O tucano diz que a oposição deveria desistir de conquistar as camadas mais pobres do eleitorado e se conectar com a nova classe média.
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quarta-feira, 30 de março de 2011
Minha estupidez
François Silvestre, cidadão da vida, escreveu artigo domingo passado no Novo Jornal a respeito da humanidade e sua inominável estupidez. O texto foi, para mim, um reencontro com um amigo que não vejo a anos. Comemorando esse reencontro, enviei-lhe email que compartilho:Vi, gloriosamente estarrecido, seu artigo de domingo último. Sim amigo,
porque o que você escreveu não é para ser lido, mas visto, apreciado pelo
olhar alumbrado ante mural improvável, ou meticulosamente observado por
visão que se encanta com alguma máquina pequenina e complexa. Foi esse o
meu sentimento. O texto, limitado pelo espaço da mancha gráfica, era
todavia infinito em sua profundidade virtual, o leitor arremetido, puxado
para o centro daquele universo paradoxalmente profundo e plano na página
do jornal.
Serena e lúcida loucura perpassa suas palavras, palavras matizadas,
palavras com cor, volume, corpo. Cor, volume e corpo como somente os
podemos perceber na pintura de um grande mestre dessa arte que é pintar
com o que se escreve. A palavra vale mais que a imagem quando a palavra é
ela mesma a imagem proposta e visualizada na legalidade interna do texto.
Refiro à palavra como ato positivo, concretizado, e, sendo assim, visível
no mundo pelos efeitos que provoca. Mesmo que seja um grito, a palavra é
forma corpórea para quem a percebe como escultura. Não estou falando para
os exatos, dirijo-me a quem pensa em paralelo, em contramão, em viés. Uma
conversa amigo, uma grande conversa, é mais que som inteligível articulado
em linguagem; mais que isso, a conversa é monumento.
Sua concepção de humanidade ou de não-humanidade comoveu-me e gratificou o
gesto do meu olhar que via sua obra impressa; e sendo coisa impressa era
imagem, planície a perder de vista. Um marco em meio ao deserto.
Amigo, encerro aqui, mas quero comunicar: tenho me dedicado, nos últimos
tempos, a me tornar um grande, se possível o maior ignorante das cousas e
atos de saber dos que sabem definir o mundo e propor suas soluções. Sou um
ignorante das sabenças definitivas que logo a História revela frágeis como
um dócil vime, sou um ignorante das matemáticas e das lógicas
irreversíveis, sou um ignorante da acurácia que minutos após está cega e
pede um novo modelo interpretativo para atender a intenções as mais
inaceitáveis.
Grato, amigo. Seu artigo, seu mural, mostrou-me que estou no caminho certo
e que devo perseguir a total ignorância. Sabe porquê? Porque continuo sem
entender a lógica, o motivo razoável que dá a alguém a sapiência social, o
direito de ser dono de uma empresa de aviação e nega a outro o direito de
ser dono de um pão, um fugidio pão que lhe mate a fome. E pior: não
entendo porque aquele que tem fome gostaria de ser, ele sim, o dono dos
aviões, de todos os aviões do mundo - e naturalizar tal situação para
sempre.
Abraço grande deste amigo que há anos não o vê,
Emanoel Barreto
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domingo, 20 de março de 2011
Somente agora, quase oito da noite, pude ler O Poti, formato standard, em seu retorno como leitura dominical. Um bom jornal. Bem diagramado, bom uso de ilustrações fotográficas, vários articulistas. Noticiário local abrangente, alguns textos em estilo reportagem. Parabéns a Deliomar, diretor institucional, e a Soares e a Juliska Azevedo, editora-chefe.
Emanoel Barreto
Emanoel Barreto
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Ser repórter
Emanoel Barreto
No Dia do Repórter, aos meus alunos, dedico. E àqueles que sabiam e me ensinaram.
Se repórter é estar desconfiado. Sempre.
E desse sempre não ser nunca omisso.
É ser gravemente humano perante a desumanidade lancinante.
É dar tudo por uma matéria que o dono do jornal, ele sabe, vai cortar. Mas faz.
É correr riscos. É investigar sem poder prender o bandido de colarinho branco.
É ser lúcido. Jamais pensar em ser herói, porque notícia também é um negócio, é lucro. Mas também não pode ser covarde. Porque o salário do medo é a vergonha mais íntima.
Ser repórter é ser o sábio do improviso, aquele saber de um segundo. E por isso mesmo deve ser comedido, porque há sempre uma descoberta a mais.
Ser repórter só sabe quem é repórter.
E por mais que eu diga aqui o que é ser repórter,
somente um repórter saberá o que é ser repórter.
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domingo, 23 de janeiro de 2011
Hrnfil- Continuação de memórias sobre a Coojornat
Um telefone valia muito dinheiro
A entrevista com Henfil, na casa do Comandante Graco, demorou-se por quase toda a tarde. Falamos de muita coisa: política, cartunismo, motivo de sua vinda para Natal, que à época 1977 não tinha ainda a aura de paraíso turístico. Então, qual o motivo?, perguntei; ele disse: queria tranquilidade e que aqui teria essa tranquilidade. Que não aguentava mais o Rio. Que estava encantado por Natal.

Henfil, depois dessa entrevista, passou a frequentar regularmente a redação. O jornal começou a publicar seus cartuns, um dia depois do Jornal do Brasil. E foi assim que, em 1977, quando a Coojornat foi fundada, Dermi, Arlindo de Melo Freire e eu o convidamos a participar das reuniões prévias, a preparação do projeto.
Ele topou na hora. À época eu ocupava cargo na Fundação José Augusto: Coordenador Centro de Desenvolivimento Cultural. E era lá mesmo, na Fundação, que nós nos reuníamos. Henfil deu colaboração ao projeto como se fosse coisa do seu interesse pessoal. Sabia da importância da Coojornat frente ao momento político.
A cooperativa, cerca de um anos depois promoveria um encontro de cooperativas de jornalistas, realizado na Fundação José Augusto, o que revelava sua pujança.
Foi um período bom e uma grande experiência conviver com Henfil. Generoso, anos depois, antes de deixar Natal de volta ao Rio, doou à cooperativa um telefone. Naquela época, para se ter uma ideia, um telefone era tão caro que entrava até em partilha de bens, era briga de herança.
Bom, por enquanto, é isso. Nos passeios que farei à minha memória tentarei lembrar de algo mais. Um bom final de semana ao amigo leitor.
-- Abaixo, texto do chargista Claudio Eldi, que conheci menino no Diário de Natal, para onde fora levado por Jorge Batista, grande profissional e hoje uma saudade imensa, precocemente falecido. O texto de Claudio foi publicado pela Revista Imprensa, junho de 2008. Tudo o que se segue é reproduzido da Revista.
Cláudio Eldi
Discípulo de Henfil, Cláudio é cartunista do jornal Agora São Paulo. Freqüentador da casa de Henfil em Natal aprendeu com o artista que deveria dar muita atenção à expressão fácil dos personagens e que, se necessário, era para usar um espelho para estudar a melhor expressão para seu desenho.
Conheci Henfil em Natal, na época em que ele lá morou, de 1976 a 1978. Estava começando minha carreira como chargista no diário natalense Tribuna do Norte. O colunista político do jornal, jornalista Woden Madruga, me apresentou a Henfil. Ele gostou dos desenhos que lhe mostrei e me convidou para colaborar com o Pasquim. Tinha eu 14 anos e o velho "Pasca" então era impróprio para menores de 16 anos. Podia desenhar para o jornal, mas não podia lê-lo.
Minha relação com ele era de mestre e aprendiz. Passei a freqüentar a casa de Henfil todas as quartas-feiras, dia em que ele mandava os seus desenhos, junto com os meus, para o Pasquim, via malote aéreo. Era uma casa bem espaçosa, muito agradável. Ficava na Praia dos Artistas. O estúdio de trabalho dele tinha uma janela com vista para o mar. Era uma maravilha, ventilado, iluminado. Como por ali entravam insetos, ele sempre tinha à mão um mata-mosquitos. Henfil era super organizado. No estúdio havia também uma grande estante, do chão ao teto, completamente tomada com caixas-arquivo, onde guardava todos os seus originais, catalogados. Ao lado da sua mesa, havia uma máquina de fazer fotocópia, bem moderna. Acho que era importada. Ele não mandava os originais para os veículos, mas sim fotocópias. Num corredor ao lado da sala, havia duas estantes, com livros, jornais e revistas. Eu sempre ia lá à tarde, ele ficava trabalhando enquanto conversávamos. Henfil era um sujeito muito generoso. Eu era quase um menino e ele sempre me recebia muito bem, apesar de estar muito ocupado.
Fazia, segundo ele próprio, cerca de 10 desenhos por dia, entre charges, cartuns, tiras. Além de publicar no Pasquim, nessa época ele fazia uma tira diária do Zeferino, para o Jornal do Brasil, uma página semanal para a revista dominical do JB, uma página semanal para a IstoÉ, uma charge diária para um jornal mineiro, editava a revista mensal do Fradim, além de colaborar com cartuns eróticos para a revista masculina Status e para jornais da imprensa alternativa, como Movimento e Em Tempo. Eu sempre saía da casa dele com as mãos cheias, com livros que ele simplesmente me dava, ou com outros que ele me emprestava. Às vezes, com o jornal Movimento, do qual ele recebia mais de um exemplar, ou o Coojornal, lá do Rio Grande do Sul. Aliás, ele incentivou a criação da Cooperativa dos Jornalistas de Natal, que editou um jornal, o Salário Mínimo, no qual eu publiquei e, salvo engano, ele também. Colaborou também com a Maturi, uma pequena revista dos quadrinistas de Natal.
Henfil dizia que o chargista devia ser sempre muito bem informado, ler tudo, até receita de bolo. Ele lia de manhã os principais jornais do país, e, muitas vezes, cortava algumas matérias e as prendia numa prancheta, que ficava no birô, ao lado de sua mesa. Um dos primeiros livros que ele me emprestou foi "Composições Infantis", de Millôr Fernandes, que ele considerava "o melhor de todos nós". Também os anuários dos cartunistas norte-americanos. Na época, eu não sabia ler em inglês, mas ficava maravilhado com os desenhos. Ganhei dele um pedaço de papel schoeller montado, um papel alemão importado, bastante caro. Era para eu treinar como colorir os desenhos. Ele mesmo cortou o papel com uma guilhotina manual, usada com muito cuidado. Hemofílico, ele brincava, "isso corta mesmo".
Nessas tardes em que o visitava, Henfil me ensinou muito e me deu muitas dicas. Insistia que deveríamos dar muita atenção à expressão facial dos personagens. Muitas vezes, usava um espelho para estudar a melhor expressão para o seu desenho. E me explicava as expressões e eu rachava o bico com suas caretas. Dizia também que a caricatura não deveria ser apenas uma deformação fotográfica da cara de um político, mas uma "síntese psicológica", que, com poucos traços, revelasse a pessoa retratada. Quando viu meus desenhos pela primeira vez, sugeriu mudar a minha assinatura, que para ele devia ser o mais legível possível. Eu assinava imitando a assinatura de Ziraldo, que eu descobri lendo a revista da Turma do Pererê. Segui o seu conselho e mudei mesmo. A partir dessa época, meus desenhos tinham a nítida influência do traço de Henfil, que fez escola naquele tempo. Muitos da nova geração do Pasquim desenhavam com o traço daquela escola, um traço rápido, nervoso, expressivo. Não sei bem quais foram as influências que Henfil recebeu. Ele admirava o desenho de Carlos Estevão, um pernambucano que publicou nos anos 50 e 60 e que desenhou O Amigo da Onça, no Cruzeiro, em substituição ao também pernambucano Péricles, que havia se suicidado. Mas aquele jeito de desenhar era o desenho da época, predominante, por exemplo, nos cartunistas do semanário francês de humor, o Charlie Hebdô, fonte de inspiração da turma do Pasquim. Cartunistas como Wolinski, Reiner.
Porém, o que de mais ele me ensinou, foi quanto ao papel do chargista. Henfil refutava o besteirol. Para ele, o cartunista deveria ter um alto senso de responsabilidade ao ocupar um espaço na imprensa. Deveria sempre fazer uma crítica contundente, um humor crítico, e não o mero gracejo com os donos do poder. Henfil tinha boas razões para dar tal conselho. O Brasil vivia numa ditadura, ele mesmo era uma pessoa politicamente engajada, e seu irmão mais velho, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, amargava o exílio no Canadá. Betinho havia sido a principal cabeça da Ação Popular, um grupo de esquerda católica, perseguido depois de 1964. Não dava, portanto, para se desperdiçar tintas se não fosse para reconquistar a democracia e transformar a injusta realidade social brasileira. E ainda hoje não dá...
Nós mantivemos contato esporadicamente. Ele deixou Natal em 1978 e veio para São Paulo, quando começaram a pipocar as greves no ABC paulista. Ele queria estar no centro dos acontecimentos. E eu me dediquei aos estudos, prestei vestibular e fiz Jornalismo na Federal do Rio Grande do Norte. Fiz política estudantil. Fui presidente do CA de Comunicação, do DCE, delegado da UNE. Em 1983, de férias em São Paulo, eu o visitei em seu apartamento na Rua Itacolomi, Higienópolis. Perguntou se eu continuava a enviar os desenhos para o "Pasca". Disse-lhe que não, pois achava que jornal tinha ficado muito brizolista. Ele me aconselhou a voltar a colaborar, pois, segundo ele, o Pasquim era a seleção brasileira do humor e eu poderia conseguir melhoria do meu contrato no clube em que eu jogava - o jornal lá de Natal. Henfil morreu em 1988 e eu desenhei para o "Pasca" até 1989, quando saí do Brasil e fui estudar artes gráficas na Escola Superior de Artes Industriais de Praga, na antiga Tchecoslováquia. Pouco tempo depois, acho que em 1990, o jornal fechou.
Henfil se destacava pela sua grande capacidade de fazer um humor crítico, lúcido e extremamente irreverente, com muita sintonia com a alma popular. Era dono de uma sensibilidade aguçadíssima. Outra característica impressionante era a sua imensa capacidade de criação e de produção. Eu o vi fazer 60 desenhos, às vésperas de ir para a China. Ele pegou um livro com recortes de charges antigas publicadas no JB, folheava e adaptava as idéias. Íamos conversando, e a mão ligeira desenhando. Sua cabeça era uma usina de idéias. Por isso tinha de fazer aquele traço ligeiro, para o pulso dar conta da velocidade com que as idéias lhe vinham à cabeça.
A entrevista com Henfil, na casa do Comandante Graco, demorou-se por quase toda a tarde. Falamos de muita coisa: política, cartunismo, motivo de sua vinda para Natal, que à época 1977 não tinha ainda a aura de paraíso turístico. Então, qual o motivo?, perguntei; ele disse: queria tranquilidade e que aqui teria essa tranquilidade. Que não aguentava mais o Rio. Que estava encantado por Natal.

O diretor de Redação da Tribuna do Norte, Djanir Dantas, publicou a matéria sob o título "Zeferino chega a Natal e traz Henfil a reboque". Página inteira. Primeira página do segundo caderno, chamada de capa.
Quanto a Zeferino, era a figura icônica do Nordeste, criada por ele: bigodão, vestido com os couros do vaqueiro, cintos de balas trançados em forma de "X", chapelão quebrado na testa.
Quanto a Zeferino, era a figura icônica do Nordeste, criada por ele: bigodão, vestido com os couros do vaqueiro, cintos de balas trançados em forma de "X", chapelão quebrado na testa.
Henfil, depois dessa entrevista, passou a frequentar regularmente a redação. O jornal começou a publicar seus cartuns, um dia depois do Jornal do Brasil. E foi assim que, em 1977, quando a Coojornat foi fundada, Dermi, Arlindo de Melo Freire e eu o convidamos a participar das reuniões prévias, a preparação do projeto.Ele topou na hora. À época eu ocupava cargo na Fundação José Augusto: Coordenador Centro de Desenvolivimento Cultural. E era lá mesmo, na Fundação, que nós nos reuníamos. Henfil deu colaboração ao projeto como se fosse coisa do seu interesse pessoal. Sabia da importância da Coojornat frente ao momento político.
A cooperativa, cerca de um anos depois promoveria um encontro de cooperativas de jornalistas, realizado na Fundação José Augusto, o que revelava sua pujança.
Foi um período bom e uma grande experiência conviver com Henfil. Generoso, anos depois, antes de deixar Natal de volta ao Rio, doou à cooperativa um telefone. Naquela época, para se ter uma ideia, um telefone era tão caro que entrava até em partilha de bens, era briga de herança.
Bom, por enquanto, é isso. Nos passeios que farei à minha memória tentarei lembrar de algo mais. Um bom final de semana ao amigo leitor.
-- Abaixo, texto do chargista Claudio Eldi, que conheci menino no Diário de Natal, para onde fora levado por Jorge Batista, grande profissional e hoje uma saudade imensa, precocemente falecido. O texto de Claudio foi publicado pela Revista Imprensa, junho de 2008. Tudo o que se segue é reproduzido da Revista.
Cláudio Eldi
Discípulo de Henfil, Cláudio é cartunista do jornal Agora São Paulo. Freqüentador da casa de Henfil em Natal aprendeu com o artista que deveria dar muita atenção à expressão fácil dos personagens e que, se necessário, era para usar um espelho para estudar a melhor expressão para seu desenho.
Conheci Henfil em Natal, na época em que ele lá morou, de 1976 a 1978. Estava começando minha carreira como chargista no diário natalense Tribuna do Norte. O colunista político do jornal, jornalista Woden Madruga, me apresentou a Henfil. Ele gostou dos desenhos que lhe mostrei e me convidou para colaborar com o Pasquim. Tinha eu 14 anos e o velho "Pasca" então era impróprio para menores de 16 anos. Podia desenhar para o jornal, mas não podia lê-lo.
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| Charge do Claudio - 7 de janeiro de 2011 |
Minha relação com ele era de mestre e aprendiz. Passei a freqüentar a casa de Henfil todas as quartas-feiras, dia em que ele mandava os seus desenhos, junto com os meus, para o Pasquim, via malote aéreo. Era uma casa bem espaçosa, muito agradável. Ficava na Praia dos Artistas. O estúdio de trabalho dele tinha uma janela com vista para o mar. Era uma maravilha, ventilado, iluminado. Como por ali entravam insetos, ele sempre tinha à mão um mata-mosquitos. Henfil era super organizado. No estúdio havia também uma grande estante, do chão ao teto, completamente tomada com caixas-arquivo, onde guardava todos os seus originais, catalogados. Ao lado da sua mesa, havia uma máquina de fazer fotocópia, bem moderna. Acho que era importada. Ele não mandava os originais para os veículos, mas sim fotocópias. Num corredor ao lado da sala, havia duas estantes, com livros, jornais e revistas. Eu sempre ia lá à tarde, ele ficava trabalhando enquanto conversávamos. Henfil era um sujeito muito generoso. Eu era quase um menino e ele sempre me recebia muito bem, apesar de estar muito ocupado.
Fazia, segundo ele próprio, cerca de 10 desenhos por dia, entre charges, cartuns, tiras. Além de publicar no Pasquim, nessa época ele fazia uma tira diária do Zeferino, para o Jornal do Brasil, uma página semanal para a revista dominical do JB, uma página semanal para a IstoÉ, uma charge diária para um jornal mineiro, editava a revista mensal do Fradim, além de colaborar com cartuns eróticos para a revista masculina Status e para jornais da imprensa alternativa, como Movimento e Em Tempo. Eu sempre saía da casa dele com as mãos cheias, com livros que ele simplesmente me dava, ou com outros que ele me emprestava. Às vezes, com o jornal Movimento, do qual ele recebia mais de um exemplar, ou o Coojornal, lá do Rio Grande do Sul. Aliás, ele incentivou a criação da Cooperativa dos Jornalistas de Natal, que editou um jornal, o Salário Mínimo, no qual eu publiquei e, salvo engano, ele também. Colaborou também com a Maturi, uma pequena revista dos quadrinistas de Natal.
Henfil dizia que o chargista devia ser sempre muito bem informado, ler tudo, até receita de bolo. Ele lia de manhã os principais jornais do país, e, muitas vezes, cortava algumas matérias e as prendia numa prancheta, que ficava no birô, ao lado de sua mesa. Um dos primeiros livros que ele me emprestou foi "Composições Infantis", de Millôr Fernandes, que ele considerava "o melhor de todos nós". Também os anuários dos cartunistas norte-americanos. Na época, eu não sabia ler em inglês, mas ficava maravilhado com os desenhos. Ganhei dele um pedaço de papel schoeller montado, um papel alemão importado, bastante caro. Era para eu treinar como colorir os desenhos. Ele mesmo cortou o papel com uma guilhotina manual, usada com muito cuidado. Hemofílico, ele brincava, "isso corta mesmo".
Nessas tardes em que o visitava, Henfil me ensinou muito e me deu muitas dicas. Insistia que deveríamos dar muita atenção à expressão facial dos personagens. Muitas vezes, usava um espelho para estudar a melhor expressão para o seu desenho. E me explicava as expressões e eu rachava o bico com suas caretas. Dizia também que a caricatura não deveria ser apenas uma deformação fotográfica da cara de um político, mas uma "síntese psicológica", que, com poucos traços, revelasse a pessoa retratada. Quando viu meus desenhos pela primeira vez, sugeriu mudar a minha assinatura, que para ele devia ser o mais legível possível. Eu assinava imitando a assinatura de Ziraldo, que eu descobri lendo a revista da Turma do Pererê. Segui o seu conselho e mudei mesmo. A partir dessa época, meus desenhos tinham a nítida influência do traço de Henfil, que fez escola naquele tempo. Muitos da nova geração do Pasquim desenhavam com o traço daquela escola, um traço rápido, nervoso, expressivo. Não sei bem quais foram as influências que Henfil recebeu. Ele admirava o desenho de Carlos Estevão, um pernambucano que publicou nos anos 50 e 60 e que desenhou O Amigo da Onça, no Cruzeiro, em substituição ao também pernambucano Péricles, que havia se suicidado. Mas aquele jeito de desenhar era o desenho da época, predominante, por exemplo, nos cartunistas do semanário francês de humor, o Charlie Hebdô, fonte de inspiração da turma do Pasquim. Cartunistas como Wolinski, Reiner.
Porém, o que de mais ele me ensinou, foi quanto ao papel do chargista. Henfil refutava o besteirol. Para ele, o cartunista deveria ter um alto senso de responsabilidade ao ocupar um espaço na imprensa. Deveria sempre fazer uma crítica contundente, um humor crítico, e não o mero gracejo com os donos do poder. Henfil tinha boas razões para dar tal conselho. O Brasil vivia numa ditadura, ele mesmo era uma pessoa politicamente engajada, e seu irmão mais velho, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, amargava o exílio no Canadá. Betinho havia sido a principal cabeça da Ação Popular, um grupo de esquerda católica, perseguido depois de 1964. Não dava, portanto, para se desperdiçar tintas se não fosse para reconquistar a democracia e transformar a injusta realidade social brasileira. E ainda hoje não dá...
Nós mantivemos contato esporadicamente. Ele deixou Natal em 1978 e veio para São Paulo, quando começaram a pipocar as greves no ABC paulista. Ele queria estar no centro dos acontecimentos. E eu me dediquei aos estudos, prestei vestibular e fiz Jornalismo na Federal do Rio Grande do Norte. Fiz política estudantil. Fui presidente do CA de Comunicação, do DCE, delegado da UNE. Em 1983, de férias em São Paulo, eu o visitei em seu apartamento na Rua Itacolomi, Higienópolis. Perguntou se eu continuava a enviar os desenhos para o "Pasca". Disse-lhe que não, pois achava que jornal tinha ficado muito brizolista. Ele me aconselhou a voltar a colaborar, pois, segundo ele, o Pasquim era a seleção brasileira do humor e eu poderia conseguir melhoria do meu contrato no clube em que eu jogava - o jornal lá de Natal. Henfil morreu em 1988 e eu desenhei para o "Pasca" até 1989, quando saí do Brasil e fui estudar artes gráficas na Escola Superior de Artes Industriais de Praga, na antiga Tchecoslováquia. Pouco tempo depois, acho que em 1990, o jornal fechou.
Henfil se destacava pela sua grande capacidade de fazer um humor crítico, lúcido e extremamente irreverente, com muita sintonia com a alma popular. Era dono de uma sensibilidade aguçadíssima. Outra característica impressionante era a sua imensa capacidade de criação e de produção. Eu o vi fazer 60 desenhos, às vésperas de ir para a China. Ele pegou um livro com recortes de charges antigas publicadas no JB, folheava e adaptava as idéias. Íamos conversando, e a mão ligeira desenhando. Sua cabeça era uma usina de idéias. Por isso tinha de fazer aquele traço ligeiro, para o pulso dar conta da velocidade com que as idéias lhe vinham à cabeça.
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sábado, 15 de janeiro de 2011
...................................Preciosidades do Henfil................................
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces
Truman Capote
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domingo, 7 de novembro de 2010
A primeira reportagem de um bebê jornalista
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Professor Duarte solidariza-se com "Queremos um jornal"
No dia em que defende sua tese de doutorado, o professor Duarte Guimarães envia email em que se congratula com a campanha vitoriosa "Queremos um jornal".
Caro Prof. Barreto,
Tenho corrido tanto nos últimos dias preparando a minha apresentação que, apesar de ter incentivado e me colocado à disposição dos alunos do movimento, quando foram à sala de aula outro dia, não lhe postei uma mensagem a tempo nesse sentido.
Mas receba minhas congratulações pela campanha. Sou testemunha de seu esforço para colocar um jornal impresso em circulação. Lembro-me que, juntos, quando estávamos ministrando o "disciplinão" Jornalismo Impresso, acho que entre 1999 e 2000, fomos em peregrinação a vários lugares, inclusive à Reitoria e à Editora da UFRN, com o material todo pronto, e com muita luta conseguimos imprimir, com relativo sucesso, alguns números daquele que denominamos "Jornal de Comunicação". Um jornal-laboratório assim voltava a circular por toda a UFRN depois de seis anos parado.
Em seguida, com a ajuda do professor Eduardo Pinto, chefe do Decom, conseguimos (o sr. tinha se afastado para uma pós, salvo engano), aumentar o formato do jornal, colocar cor e imprimir mais um ou dois números, apenas. Em seguida passamos a fazê-lo somente para a internet. Depois fui eu quem teve que se afastar. Devo dizer que tudo isso, especialmente quando estivemos juntos, rendeu matérias na imprensa local e até um excelente trabalho de final de curso do aluno Marcone Maffezzolli, cujo título, se não me engano, foi "A prática do Jornalismo Impresso na UFRN: da crise à implantação", além de que a grandiosa maioria dos alunos se inseriram muito bem no mercado.
Antes disso, por volta dos anos 1994-98, desta vez com o professor Albimar Furtado, conseguimos imprimir uns jornais de bairro, como o "Folha de Ponta Negra" e o "Repórter: Santos Reis". Ainda hoje lamento que muitos dos jornais que todos nós fizemos ao longo de todo esse período não tenham sido impressos. Muitas matérias importantes, históricas até, inclusive com furos jornalisticos, não conseguimos publicar.
Agora, com a promessa do reitor, reascende em mim a chama da fé na prática laboratorial, apesar de, após ter passado por tantos percalços, guardar uma expectativa ainda maior.
Abração.
Duarte.
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História do rádio
Walter Medeiros* – waltermedeiros@supercabo.com.br
A vida de Natal e do Rio Grande do Norte através de muitas décadas, contada pelas próprias pessoas que a viveram, num emocionante exercício de história, recordação, emoção e saudade. Talvez assim possamos definir o trabalho dedicado, contínuo e de valor inestimável dos profissionais que compõem o quadro do programa Memória Viva da TV Universitária, que vai ao ar às quintas-feiras, a partir das 19:00 horas e aos domingos, a partir das 16:00 horas.Sob o comando do escritor, professor de Letras da UFRN e jornalista Tarcísio Gurgel, uma hora é sempre pouco para os convidados contarem suas vidas e suas histórias, de forma descontraída. Esses convidados são sempre selecionados entre pessoas que tiveram e têm destacada participação nos mais variados setores da sociedade potiguar. São pessoas de todos os extratos, que formam um verdadeiro quebra-cabeça do tempo, e ao final deixam sempre uma sensação de harmonia, beleza e vitalidade.
Através daquele programa podemos ter acesso privilegiado a muitas histórias, que certamente corriam o risco de se perder no tempo pela falta de registro, muitas delas em vista do fato de seus próprios protagonistas não lhes atribuírem o grande valor que têm.
Como pequenos detalhes de aspectos da cidade em cada época. Através dos anos, dos bairros, das ruas, de tantos logradouros e monumentos, vamos conhecendo a vida de Natal, com seus encantos, seus dramas, suas divergências e convergências, sua importância universal.
Assim já vimos contar suas histórias: políticos, profissionais liberais, esportistas, artistas, comerciantes, industriais, educadores e uma sequência bastante qualificada de pessoas, que sempre prendem a atenção do telespectador. Esta curiosidade é aguçada pelo formato do programa, que inclui a participação de dois convidados escolhidos por cada entrevistado, normalmente pessoas com as quais conviveram muitos dos episódios que são narrados.
Fui surpreendido pelo convite para entrevistar o jornalista e radialista Adamires Furtado, ao lado do também jornalista e radialista Wellington Medeiros, meu irmão, e de Tarcísio Gurgel. Uma concatenação da natureza findou me colocando nessa condição de entrevistador. Mas alguém que acompanhou a amizade que sempre tivemos eu e Adamires, nos tempos da Rádio Cabugi, ao saber da gravação, exclamou: “Tinha de ser você!”.
A entrevista vai ao ar nos dias 18 de novembro, a partir das 19:00 horas e 21 de novembro, a partir das 16:00 horas. Aí, por mais que tenhamos vontade de adiantar os assuntos que foram abordados na entrevista, Wellington e eu não podemos revelar nada.
Nem precisou Tarcísio pedir, pois é assim mesmo que funcionam esses compromissos tácitos do embargo jornalístico. Mas podemos garantir que Adamires contou muitas passagens interessantes e até engraçadas da sua vida e que sua entrevista será uma importante página da história do rádio potiguar.
*Jornalista
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Texto transcrito
Brasil vive a encruzilhada mais séria desde 64
Alípio Freire*
Quando José Serra tenta transformar a disputa política numa guerra religiosa - estamos no terreno privilegiado do fascismo. Aliás, a este respeito, certo filósofo alemão de origem judaica, já nos advertia no século 19 sobre as guerras religiosas enquanto o mais baixo degrau da política, e suas conseqüências para a maioria do povo. Fomentar a intolerância religiosa (ou qualquer outro tipo de intolerância) é fascismo. O que está em jogo nesta eleição é ainda mais grave que uma escolha por um programa de crescimento e desenvolvimento social. Alipio Freire
Ainda que possa parecer para muitos de vocês que estou "chovendo no molhado", sinto-me no dever de repetir:
Vivemos hoje, no Brasil, encruzilhada das mais sérias desde o golpe de 64.
Não interessa muito, a esta altura, as nossas opiniões pessoais sobre os limites das políticas do Partido dos Trabalhadores; da sua política de alianças; do Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva; etc. Interessa menos ainda as nossas simpatias pessoais ou opiniões pontuais sobre a candidata Dilma Rousseff (minha candidata desde o primeiro turno).
O que escolhemos nesta eleição é simplesmente o seguinte: ou vamos com a candidata Dilma, e os seus limites, ou escolhemos o candidato da “santa” aliança Demo-Tucana, o senhor José Serra, com sua absoluta falta de limites políticos, éticos e morais.
Não adianta mais discutirmos as falcatruas com as verbas públicas levadas a cabo pelo dois blocos que hoje polarizam a disputa; tolice descobrir ou avaliar quem roubou mais, se os Sarneys ou os Henrique Cardosos; se este ou aquele dirigente petista, ou o ministro Sérgio Motta para a compra do Congresso visando o segundo mandato para o Príncipe dos Sociólogos; se os filhos deste ou daquele presidente, ou daquele governador cuja descendência praticamente monopolizou os pedágios de São Paulo privatizados pelo pai, etc. etc. etc.
Obviamente todas essas coisas estão erradas e, se nos afligem não importando qual dos lados as tenha praticado, para o bloco Demo-Tucanos, não há qualquer reação de repúdio ou censura aos seus membros que assim sempre agiram, agem e agirão: não enrubescem. Pelo contrário, providenciam apenas os Gilmar Mendes para colocar na presidência do STF.
Na verdade, o Demo saqueia o país, desde antes de sermos Brasil, quando este território atendia apenas e genericamente por Pindorama, e aqui desembarcaram em 1500. Nos ancestrais do Demo está a responsabilidade de todas as mazelas que vimos herdando há tantas gerações. No Demo está a matriz da corrupção, do Estado autoritário, da escravidão, da tortura, da repressão e de todas as misérias que assolam o país e que conhecemos sobejamente.
Mas não é isto o que fundamentalmente está em jogo neste momento.
Também não está em jogo o programa econômico (macro) das duas candidaturas – na atual conjuntura internacional, e com as estratégias definidas por vários dos partidos de esquerda, essas políticas econômicas dificilmente poderiam ser outras que não as que estão na praça. No entanto, entre uma perspectiva de crescer com distribuição de renda ou com concentração de rendas, sem sombra de dúvidas, a primeira alternativa (representada pela candidatura Dilma Rousseff) é a que mais convém ao nosso povo.
Chamo a atenção de alguns camaradas mais radicalizados para o seguinte: não haverá Armagedon ou Apocalipse Socialista. O povo não morrerá de fome hoje, para ressuscitar em pleno Esplendor da Aurora Socialista, quando os rios jorrarão leite e mel. Não haverá qualquer profeta Daniel do Velho Testamento, ou o São João, do Novo Testamento, capaz de prover milagre de tamanha envergadura. Isto não existe, senão nas pobres cabeças de alguns, acostumados a fazer três refeições por dia, e a não passar frio nem calor, resguardados por um conforto que deveria ser igual para todos.
Mas, muito mais que isto, o que está em jogo nesta eleição é ainda mais grave que esta escolha de programa de crescimento.
Trata-se, na verdade, de escolhermos entre uma candidata que quer e fará o possível para nos preservar do fascismo que se expande em todo o Mundo (sobretudo nos países centrais do capitalismo), ou um candidato cuja campanha e cujas declarações e estratégias apontam para um alinhamento exatamente com o fascismo.
E não se trata de figura de retórica, discurso de palanque, o que aqui escrevo.
Enquanto na Europa e nos Estados Unidos cresce a xenofobia, o ódio contra os trabalhadores imigrantes; enquanto na Itália o Congresso aprova uma lei que permite e estimula a criação de "rondas de cidadãos" (leia-se, formação de milícias paramilitares); enquanto na Suécia, a ultradireita conquista cadeiras no Parlamento; enquanto na Holanda, a ultradireita cresce no Parlamento - podendo vir a se tornar maioria; enquanto o Governo de Washington – mascarado pela melanina do seu presidente - barra o acordo Brasil-Turquia-Irã, que poderia abrir um importante canal de negociações pacíficas para aquela região que vive hoje a ameaça de invasão pelos EUA e seus aliados, tipo as que foram levadas a cabo no Iraque e no Afeganistão – ocupados até hoje, a ferro e fogo, pela democracia estadunidense; etc. etc. etc.
O senhor candidato da aliança Demo-Tucana segue a mesma linha em sua campanha.
Sim, meus camaradas e amigos: a linha de campanha do senhor José Serra é uma linha fascista. E não é necessária muita análise ou qualquer metafísica para concluirmos isto:
Quando o senhor José Serra ataca sua adversária por ter lutado bravamente na resistência contra a ditadura, o senhor José Serra não apenas tenta criminalizar a candidata Dilma Rousseff e todos os seus companheiros de lutas dos anos 1960-1970, quando os liberais – longe de se oporem à ditadura (o que só farão a partir da metade da década de 1970), serviam de sustentação àquele regime. Significa criminalizar todos os que lutam hoje por seus direitos, todos os movimentos e organizações dos trabalhadores e do povo – como, aliás, têm agido as PMs nos Estados governados pela “santa” aliança que sustenta a candidatura do senhor José Serra.
Isto é fascismo.
Quando o senhor José Serra coloca a questão do aborto e sua estigmatização, como divisor de águas entre ele e a candidata Dilma Rousseff – estamos exatamente no terreno da intolerância fascista.
Quando o senhor José Serra tenta transformar a disputa política numa guerra religiosa - estamos no terreno privilegiado do fascismo. Aliás, a este respeito, certo filósofo alemão de origem judaica, já nos advertia no século 19 sobre as guerras religiosas enquanto o mais baixo degrau da política, e suas conseqüências para a maioria do povo. Fomentar a intolerância religiosa (ou qualquer outro tipo de intolerância) é fascismo.
Quando o senhor José Serra participa de regabofes no Clube Militar e estimula os encontros entre esses que deveriam ser os guardiões da legalidade e da nossa Constituição, e os lambe-botas da grande mídia comercial que pregam, sem pejo e desabridamente, o golpe contra as nossas instituições, estamos cara a cara com o fascismo.
Quando o senhor José Serra se dirige ao Clube do Pijama, que reúne a nata do que há de pior e mais reacionário dos oficiais da Reserva (e que garantiu a ferro e fogo, à base de seqüestros de opositores, aprisionamentos em cárceres clandestinos, torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres, os 25 anos de ditadura), ressuscitando fantasmas tipo "República Sindical" e outros jargões que serviram de mote para o golpe de 1964, o senhor José Serra se comporta como um fascista.
Quando o senhor José Serra se articula com a grande mídia comercial para divulgar todo tipo de mentiras e aleivosias contra a candidata Dilma Rousseff e seus apoiadores, sem a menor vergonha de falsificar e publicar uma suposta ficha dos órgãos de repressão da ditadura sobre candidata Dilma Rousseff, o senhor Serra age como um fascista.
Quando o senhor José Serra conquista como apoiadores e se reúne com organizações paramilitares – verdadeiras societas sceleris – como a Tradição Família e Propriedade – TFP, e o Comando de Caça aos Comunistas – CCC, o senhor José Serra está se articulando com fascistas.
E somente fascistas se articulam com fascistas.
Quando o senhor José Serra, em atos aparentemente menores (e apenas demagógicos), como na sua lei antifumo, ou na criação da "nota paulista", e não equipa o Estado da quantidade adequada de funcionários para o controle dessas questões, transferindo esse controle para os cidadãos, estamos frente ao pior dos fascismos: a tentativa de transformar os cidadãos e cidadãs num grande exército de dedos duros e alcagüetes, um verdadeiro embrião das "rondas de cidadãos" do senhor Berlusconi.
Muito mais poderíamos apontar como atos que fazem do senhor José Serra um fascista. A lista, no entanto, seria grande demais (uma verdadeira lista telefônica).
Neste momento, o mais importante é que tenhamos todos muito claro, o que significam as duas candidaturas, onde se diferenciam fundamentalmente, e as conseqüências que enfrentaremos com a eleição de uma ou do outro dos candidatos.
A unidade, neste segundo turno, em torno da candidatura de Dilma Rousseff – do meu ponto de vista – tem um claro caráter de frente antifascista.
Sem sombra de dúvida, a unidade em torno do entendimento acima exposto sobre o significado das duas candidaturas e, em conseqüência, a escolha da candidata Dilma Rousseff constituem um ponto de partida fundamental.
Apesar disto, não é suficiente, não basta.
É necessário um passo a mais.
É necessário que nos organizemos e passemos à ação, de forma articulada com o geral da campanha. É necessário, portanto, que procuremos os comitês de campanha dos partidos aos quais sejamos filiados, ou os comitês suprapartidários que apóiam a nossa candidata.
Neste momento, circulam dezenas de manifestos de setores sociais, profissionais, religiosos, etc., com milhares de assinaturas em apoio à candidata Dilma Rousseff. É óbvia a importância de fazermos com que circulem em nossas listas via internet. No entanto, se nos detivermos apenas nisto, corremos o risco de conversarmos sempre e apenas entre nós. E é fundamental que consigamos sair do nosso círculo. Creio que uma boa maneira de faze-lo, de sairmos da tentação do espelho, seria – e que proponho – que reproduzíssemos grandes quantidades desses manifestos e, em grupos, fôssemos distribuí-los, nos locais de concentração dos sujeitos aos quais se dirigem esses manifestos e abaixo-assinados.
Por exemplo: no pé desta mensagem, repasso para todos um documento assinado por religiosos e leigos católicos e evangélicos. Pois bem, podemos reproduzi-lo e panfletarmos organizadamente nas saídas das igrejas e templos, conversando com as pessoas, explicando, convencendo aqueles que ainda tenham dúvidas, etc. Com o manifesto dos juristas, como um segundo exemplo, faríamos panfletagens nas portas de fóruns e tribunais nos horários de entrada e saída do pessoal, e assim por diante.
Temos de vencer o poder da grande mídia.
Para isto, vamos todos para as ruas, praças e avenidas – espaços privilegiados da nossa luta, pois é neles que podemos ser mais forte.
E nos encontraremos pelas ruas e praças do Brasil.
Foto: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYNhIa1_0L4rPelWhz72tO18wzBht0XvB4lYN3JzEcwjhKCgNS1A5_uNe5688nhj7ZWnBYdaXVXJQY8Ztt5gTmGnNyWjL_VM24XG9Qr5fL_s72bJ0AgBqXZKrF-iFw1dcjTW8crg/s320/anistia.JPG&imgrefurl=http://imagesvisions.blogspot.com/2008/08/exposio-recupera-memria-do-golpe-que.html&h=300&w=313&sz=15&tbnid=Ejt5j2z-GccfjM:&tbnh=112&tbnw=117&prev=/images%3Fq%3Dditadura%2Bde%2B64%255D&zoom=1&q=ditadura+de+64]&usg=__3xa1aBdrMwBwD35E9vctQuC1yEA=&sa=X&ei=PxC_TJmhJoT78AbnqOC7Bg&ved=0CC4Q9QEwBAVivemos hoje, no Brasil, encruzilhada das mais sérias desde o golpe de 64.
Não interessa muito, a esta altura, as nossas opiniões pessoais sobre os limites das políticas do Partido dos Trabalhadores; da sua política de alianças; do Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva; etc. Interessa menos ainda as nossas simpatias pessoais ou opiniões pontuais sobre a candidata Dilma Rousseff (minha candidata desde o primeiro turno).
O que escolhemos nesta eleição é simplesmente o seguinte: ou vamos com a candidata Dilma, e os seus limites, ou escolhemos o candidato da “santa” aliança Demo-Tucana, o senhor José Serra, com sua absoluta falta de limites políticos, éticos e morais.
Não adianta mais discutirmos as falcatruas com as verbas públicas levadas a cabo pelo dois blocos que hoje polarizam a disputa; tolice descobrir ou avaliar quem roubou mais, se os Sarneys ou os Henrique Cardosos; se este ou aquele dirigente petista, ou o ministro Sérgio Motta para a compra do Congresso visando o segundo mandato para o Príncipe dos Sociólogos; se os filhos deste ou daquele presidente, ou daquele governador cuja descendência praticamente monopolizou os pedágios de São Paulo privatizados pelo pai, etc. etc. etc.
Obviamente todas essas coisas estão erradas e, se nos afligem não importando qual dos lados as tenha praticado, para o bloco Demo-Tucanos, não há qualquer reação de repúdio ou censura aos seus membros que assim sempre agiram, agem e agirão: não enrubescem. Pelo contrário, providenciam apenas os Gilmar Mendes para colocar na presidência do STF.
Na verdade, o Demo saqueia o país, desde antes de sermos Brasil, quando este território atendia apenas e genericamente por Pindorama, e aqui desembarcaram em 1500. Nos ancestrais do Demo está a responsabilidade de todas as mazelas que vimos herdando há tantas gerações. No Demo está a matriz da corrupção, do Estado autoritário, da escravidão, da tortura, da repressão e de todas as misérias que assolam o país e que conhecemos sobejamente.
Mas não é isto o que fundamentalmente está em jogo neste momento.
Também não está em jogo o programa econômico (macro) das duas candidaturas – na atual conjuntura internacional, e com as estratégias definidas por vários dos partidos de esquerda, essas políticas econômicas dificilmente poderiam ser outras que não as que estão na praça. No entanto, entre uma perspectiva de crescer com distribuição de renda ou com concentração de rendas, sem sombra de dúvidas, a primeira alternativa (representada pela candidatura Dilma Rousseff) é a que mais convém ao nosso povo.
Chamo a atenção de alguns camaradas mais radicalizados para o seguinte: não haverá Armagedon ou Apocalipse Socialista. O povo não morrerá de fome hoje, para ressuscitar em pleno Esplendor da Aurora Socialista, quando os rios jorrarão leite e mel. Não haverá qualquer profeta Daniel do Velho Testamento, ou o São João, do Novo Testamento, capaz de prover milagre de tamanha envergadura. Isto não existe, senão nas pobres cabeças de alguns, acostumados a fazer três refeições por dia, e a não passar frio nem calor, resguardados por um conforto que deveria ser igual para todos.
Mas, muito mais que isto, o que está em jogo nesta eleição é ainda mais grave que esta escolha de programa de crescimento.
Trata-se, na verdade, de escolhermos entre uma candidata que quer e fará o possível para nos preservar do fascismo que se expande em todo o Mundo (sobretudo nos países centrais do capitalismo), ou um candidato cuja campanha e cujas declarações e estratégias apontam para um alinhamento exatamente com o fascismo.
E não se trata de figura de retórica, discurso de palanque, o que aqui escrevo.
Enquanto na Europa e nos Estados Unidos cresce a xenofobia, o ódio contra os trabalhadores imigrantes; enquanto na Itália o Congresso aprova uma lei que permite e estimula a criação de "rondas de cidadãos" (leia-se, formação de milícias paramilitares); enquanto na Suécia, a ultradireita conquista cadeiras no Parlamento; enquanto na Holanda, a ultradireita cresce no Parlamento - podendo vir a se tornar maioria; enquanto o Governo de Washington – mascarado pela melanina do seu presidente - barra o acordo Brasil-Turquia-Irã, que poderia abrir um importante canal de negociações pacíficas para aquela região que vive hoje a ameaça de invasão pelos EUA e seus aliados, tipo as que foram levadas a cabo no Iraque e no Afeganistão – ocupados até hoje, a ferro e fogo, pela democracia estadunidense; etc. etc. etc.
O senhor candidato da aliança Demo-Tucana segue a mesma linha em sua campanha.
Sim, meus camaradas e amigos: a linha de campanha do senhor José Serra é uma linha fascista. E não é necessária muita análise ou qualquer metafísica para concluirmos isto:
Quando o senhor José Serra ataca sua adversária por ter lutado bravamente na resistência contra a ditadura, o senhor José Serra não apenas tenta criminalizar a candidata Dilma Rousseff e todos os seus companheiros de lutas dos anos 1960-1970, quando os liberais – longe de se oporem à ditadura (o que só farão a partir da metade da década de 1970), serviam de sustentação àquele regime. Significa criminalizar todos os que lutam hoje por seus direitos, todos os movimentos e organizações dos trabalhadores e do povo – como, aliás, têm agido as PMs nos Estados governados pela “santa” aliança que sustenta a candidatura do senhor José Serra.
Isto é fascismo.
Quando o senhor José Serra coloca a questão do aborto e sua estigmatização, como divisor de águas entre ele e a candidata Dilma Rousseff – estamos exatamente no terreno da intolerância fascista.
Quando o senhor José Serra tenta transformar a disputa política numa guerra religiosa - estamos no terreno privilegiado do fascismo. Aliás, a este respeito, certo filósofo alemão de origem judaica, já nos advertia no século 19 sobre as guerras religiosas enquanto o mais baixo degrau da política, e suas conseqüências para a maioria do povo. Fomentar a intolerância religiosa (ou qualquer outro tipo de intolerância) é fascismo.
Quando o senhor José Serra participa de regabofes no Clube Militar e estimula os encontros entre esses que deveriam ser os guardiões da legalidade e da nossa Constituição, e os lambe-botas da grande mídia comercial que pregam, sem pejo e desabridamente, o golpe contra as nossas instituições, estamos cara a cara com o fascismo.
Quando o senhor José Serra se dirige ao Clube do Pijama, que reúne a nata do que há de pior e mais reacionário dos oficiais da Reserva (e que garantiu a ferro e fogo, à base de seqüestros de opositores, aprisionamentos em cárceres clandestinos, torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres, os 25 anos de ditadura), ressuscitando fantasmas tipo "República Sindical" e outros jargões que serviram de mote para o golpe de 1964, o senhor José Serra se comporta como um fascista.
Quando o senhor José Serra se articula com a grande mídia comercial para divulgar todo tipo de mentiras e aleivosias contra a candidata Dilma Rousseff e seus apoiadores, sem a menor vergonha de falsificar e publicar uma suposta ficha dos órgãos de repressão da ditadura sobre candidata Dilma Rousseff, o senhor Serra age como um fascista.
Quando o senhor José Serra conquista como apoiadores e se reúne com organizações paramilitares – verdadeiras societas sceleris – como a Tradição Família e Propriedade – TFP, e o Comando de Caça aos Comunistas – CCC, o senhor José Serra está se articulando com fascistas.
E somente fascistas se articulam com fascistas.
Quando o senhor José Serra, em atos aparentemente menores (e apenas demagógicos), como na sua lei antifumo, ou na criação da "nota paulista", e não equipa o Estado da quantidade adequada de funcionários para o controle dessas questões, transferindo esse controle para os cidadãos, estamos frente ao pior dos fascismos: a tentativa de transformar os cidadãos e cidadãs num grande exército de dedos duros e alcagüetes, um verdadeiro embrião das "rondas de cidadãos" do senhor Berlusconi.
Muito mais poderíamos apontar como atos que fazem do senhor José Serra um fascista. A lista, no entanto, seria grande demais (uma verdadeira lista telefônica).
Neste momento, o mais importante é que tenhamos todos muito claro, o que significam as duas candidaturas, onde se diferenciam fundamentalmente, e as conseqüências que enfrentaremos com a eleição de uma ou do outro dos candidatos.
A unidade, neste segundo turno, em torno da candidatura de Dilma Rousseff – do meu ponto de vista – tem um claro caráter de frente antifascista.
Sem sombra de dúvida, a unidade em torno do entendimento acima exposto sobre o significado das duas candidaturas e, em conseqüência, a escolha da candidata Dilma Rousseff constituem um ponto de partida fundamental.
Apesar disto, não é suficiente, não basta.
É necessário um passo a mais.
É necessário que nos organizemos e passemos à ação, de forma articulada com o geral da campanha. É necessário, portanto, que procuremos os comitês de campanha dos partidos aos quais sejamos filiados, ou os comitês suprapartidários que apóiam a nossa candidata.
Neste momento, circulam dezenas de manifestos de setores sociais, profissionais, religiosos, etc., com milhares de assinaturas em apoio à candidata Dilma Rousseff. É óbvia a importância de fazermos com que circulem em nossas listas via internet. No entanto, se nos detivermos apenas nisto, corremos o risco de conversarmos sempre e apenas entre nós. E é fundamental que consigamos sair do nosso círculo. Creio que uma boa maneira de faze-lo, de sairmos da tentação do espelho, seria – e que proponho – que reproduzíssemos grandes quantidades desses manifestos e, em grupos, fôssemos distribuí-los, nos locais de concentração dos sujeitos aos quais se dirigem esses manifestos e abaixo-assinados.
Por exemplo: no pé desta mensagem, repasso para todos um documento assinado por religiosos e leigos católicos e evangélicos. Pois bem, podemos reproduzi-lo e panfletarmos organizadamente nas saídas das igrejas e templos, conversando com as pessoas, explicando, convencendo aqueles que ainda tenham dúvidas, etc. Com o manifesto dos juristas, como um segundo exemplo, faríamos panfletagens nas portas de fóruns e tribunais nos horários de entrada e saída do pessoal, e assim por diante.
Temos de vencer o poder da grande mídia.
Para isto, vamos todos para as ruas, praças e avenidas – espaços privilegiados da nossa luta, pois é neles que podemos ser mais forte.
E nos encontraremos pelas ruas e praças do Brasil.
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