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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Li no Observatório da imprensa

O fim de uma era

Por Leneide Duarte-Plon em 27/12/2011 na edição 674
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Sempre foi e sempre será uma triste tarefa a de noticiar o fim de um jornal. Foi duro para os jornalistas brasileiros verem a lenta decadência do Jornal do Brasil, seu desaparecimento na versão impressa, assim como foi penoso este mês para os jornalistas franceses verem chegar ao fim o France-Soir depois de 67 anos presente no panorama midiático francês.

Libérationdeu capa e a matéria principal de quatro páginas com a história do legendário France-Soir, além de uma análise da situação atual da imprensa francesa e das perspectivas futuras. No editorial assinado, Nicolas Demorand, diretor de Libération, escreveu que “o jornalismo da imprensa escrita é um esporte de combate” parafraseando o documentário sobre Pierre Bourdieu, A sociologia é um esporte de combate, de Pierre Carles. Como o brasileiro, o jornal francês vai manter sua versão online. Na França, France-Soir é o primeiro jornal impresso a parar de circular mantendo a versão online.

France-Soirfora comprado pelo milionário russo Alexandre Pougatchev, de 23 anos, em 2009, por 65 milhões de euros. O pai do jovem é um oligarca próximo de Vladimir Putin e já comprara o gigante da alimentação de luxo francês Hédiard. Mas tendo acumulado um prejuízo em 2010 de 31 milhões de euros, Pougatchev resolveu parar de perder dinheiro com a crescente perda de publicidade e de leitores. A equipe de 130 jornalistas que fazia o jornal impresso foi reduzida a 32 profissionais e o jornal passou a ter apenas uma versão online.

O fim da imprensa como a conhecemos
Criado em 1944 por Robert Salmon e Philippe Viannay, France-Soir é o diário que se originou do jornal clandestino da resistência contra os nazistas, Défense de la France, também fundado pelos dois jornalistas. Na época áurea de Pierre Lazareff, que comprara o jornal de seus fundadores, o jornal chegou a vender 1 milhão de exemplares diários.

O sociólogo Jean-Marie Charon, especialista da mídia, estima que essa tendência de passar do impresso ao web vai continuar na França. Os jornais La Tribune e L’Humanité podem seguir o mesmo caminho de France-Soir e passar a circular unicamente online. Nos Estados Unidos, onde a tendência ao fechamento dos jornais impressos é crescente, a imprensa diária já suprimiu 10 mil empregos desde 2007. Segundo o jornal Le Parisien, outro diário que migra lentamente para a internet, dois terços dos franceses se informa hoje pela internet.

Jean-Marie Charon arrisca uma profecia de especialista. Segundo ele, os cotidianos vão cada vez mais migrar para a internet. Alguns jornais manterão uma versão impressa apenas alguns dias da semana; outros, apenas um dia por semana. Ligados dia e noite no smartphone, no rádio e na TV, os leitores não têm mais tempo de ler um jornal impresso todo dia. E as novas gerações não formaram o hábito da relação sensorial, indispensável para alguns, do leitor com o papel do jornal.

Sem dúvida, o desaparecimento de uma geração que ainda compra ou assina um ou mais jornais diários marcará o fim da imprensa como nós a conhecemos.
***
[Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris]

sábado, 23 de julho de 2011

Deu na Folha:

"La Voie" fala dos caminhos para evitar catástrofe mundial, diz Edgar Morin

IZABELA MOI
DE SÃO PAULO

Hessel: O embaixador da indignação
O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin foi confirmado vem ao Brasil no início de agosto para particpar do seminário "Fronteiras do Pensamento". O pensador estará dia 8 de agosto, em Porto Alegre, e, na noite seguinte, na capital paulista.
Na pauta, entre outros temas, seu mais recente livro "La Voie - Pour L'avenir de L'humanité" (O caminho - para o futuro da humanidade), lançado na França em janeiro deste ano. "La Voie", ainda sem título oficial em português, será publicado pela Bertrand Brasil em 2012.

A obra convida a uma reflexão sobre os problemas da globalização e do mundo contemporâneo e prevê o fim catastrófico da humanidade se ela não escolher outras vias pelas quais caminhar. Aos críticos que o viram como um pessimista, o filósofo advoga que "pelo contrário: se eu enxergo caminhos, é porque sou um otimista". "Mas é preciso reformar tudo."

David Monniaux/Creative Commons
Edgar Morin
Edgar Morin vem ao Brasil para falar sobre seu livro mais recente, "La Voie - Pour l'avenir de la Humanité"
Morin, que acaba de completar 90 anos, falou à Folha por telefone de seu apartamento em Paris. A entrevista foi interrompida quando, em sua TV, uma orquestra começou a tocar a Nona Sinfonia, de Beethoven: "Será que você poderia me ligar em 10 minutos, ao final do primeiro movimento? A 'Nona' é o que eu mais amo nessa vida, não posso perder a introdução", desculpa-se cantarolando, e não espera a resposta.

Leia a seguir os principais trechos.
Folha - É impossível não relacionar seu novo livro, "La Voie", ao best-seller do diplomata Stéphane Hessel, "Indignai-vos!" (Leya Brasil). Parece que Hessel vem para dizer que "é preciso acordar" e o senhor vem para dizer "vejam que já há alguns caminhos para agir".
É exatamente o que diz Stéphane Hessel: "Não basta se indignar, leiam 'La Voie' de Morin". Claro, existe uma complementaridade entre nós, não somente nos livros, mas pessoalmente também.

E parece que vocês dois decidiram agora escrever um livro a quatro mãos?
Sim. Porque "La Voie" é um livro escrito sob a perspectiva planetária. Fala dos caminhos que é preciso escolher para evitar não somente uma catástrofe mundial (ou várias), mas também, talvez, para construir um mundo melhor, um mundo novo, um mundo que eu chamo de metamorfose.
"La Voie" indica que tudo deve ser reformado e que todas as reformas necessárias são interdependentes entre si. É preciso reformar a economia, as administrações públicas, a medicina, a justiça, as prisões, a alimentação, a agricultura... Tudo o que nos rodeia, enfim.
Mas insisto também sobre as mudanças necessárias ao indivíduo, dentro de nossa vida cotidiana. A compreensão do outro, o amor.
Pode parecer ridículo dizer que o amor precisa ser reformado, mas digo isso sobre as formas degradadas do amor --o amor superficial, o amor-cego, que só enxerga uma parte da pessoa amada, o amor-possessivo, o amor-ciumento.
Ou seja, é preciso reformar a sociedade em todos os seus aspectos, mas também reformar nossa maneira de viver. Parece uma tarefa gigantesca, mas acredito que essas mudanças já começaram, espontaneamente, espalhadas por todos os lugares do mundo.
O livro que preparo com Hessel é para mostar que, mesmo em um grande país como a França, que participa da Europa e da globalização, é possível uma outra política que fuja da máxima simplista que afirma que "é preciso crescer".
Vamos falar de uma política que é capaz de oferecer mais qualidade de vida a seus cidadãos e uma economia mais social, solidária e cooperativa, onde o comércio justo seja uma norma.
Mesmo um grande país como o Brasil, onde há riqueza material e também humana, esse tipo de política é possível. Sempre cito como exemplo os ensaios de democracia participativa de Porto Alegre.
Acredito num tipo de pensamento que não é binário --que não está dividido entre defender ou negar a globalização. É preciso globalizar e desglobalizar ao mesmo tempo. É preciso dar continuidade aos aspectos positivos que propiciam a solidariedade planetária entre os indivíduos e o enriquecimento trazido por essas trocas, mas é preciso desglobalizar para as realidades locais, regionais e nacionais.
Nosso pequeno livro vai se chamar "Le Chemin de L'Espérance" [O caminho da esperança] para mostrar que mesmo um país que esteja integrado ao contexto da globalização pode mudar significativamente sua forma de funcionar.

"La Voie" deveria então ser um título no plural --já que não há ali um só caminho, mas vários a serem seguidos.
Há uma multitude de reformas e de caminhos. Elas funcionam como os pequenos riachos, que afluem para os rios e que finalmente poderão formar um rio das dimensões do Amazonas. Minha ideia é que será no final que surgirá esse novo "caminho" ["la voie"] para a humanidade, depois que todas essas forças se unirem.
Não podemos trocar de caminho de forma abrupta. Todas as grandes mudanças da história começaram de maneira modesta. Veja a história das grandes religiões, por exemplo. Jesus, Buda e Maomé eram vozes solitárias no seu entorno. O começo do socialismo, da ciência... todo início é modesto.

Alguns críticos de seu livro dizem que o senhor mudou de lado: que o senhor abandonou o socialismo e adotou o discurso dos ecologistas.
A ecologia não é apenas a preocupação com as energias renováveis. Ela propõe também mudança de mentalidade, de vida, e é um programa muito importante.
Mas, ao mesmo tempo, ela não é suficiente como política, pois não dá conta de problemas de justiça, de liberdade, de igualdade, de direitos... esses problemas não são problemas "ecológicos". É preciso integrar a ecologia à política.
São os espíritos binários, sobre os quais já falei, que me veem ou como socialista ou como ecologista. Não é assim que as coisas funcionam.
O problema também é que a palavra "socialismo" tornou-se vazia. Os partidos socialistas hoje não têm mais pensamento algum. A esquerda na Europa está completamente fraturada. Verdadeiramente, ela existe apenas nos países da América Latina, e sob diversas formas.
Para fazer a esquerda renascer, é preciso reunir três fontes originárias do pensamento do século 19. A primeira é a libertária (anarquista), que versa sobre a liberdade dos indivíduos. A segunda é a do socialismo, onde a palavra quer dizer algo em prol do interesse da sociedade como um todo. E a do comunismo, onde a comunidade é o foco dos interesses (a fraternidade).
Essas três vias do pensamento se separaram ao longo da história, algumas se perveteram, outras perderam seu sentido.

Para fazer renascer a esquerda, então, é preciso voltar aos ideais da Revolução Francesa? Liberdade, igualdade e fraternidade?
Sim. Esses ideais são ainda muito modernos. Olhe para a "primavera árabe". O que querem esses jovens? Liberdade e dignidade. É preciso recuperar esse pensamento, essas ideias, esses ideais para que a esquerda renasça.

Em seu livro, o senhor fala um pouco sobre esse "vazio do pensamento" quando afirma que essa crise caótica que vivemos em escala planetária começa com uma "crise cognitiva".
Nós subestimamos a cegueira em que nos encontramos. E quando digo nós, me refiro aos indivíduos, mas também aos dirigentes políticos, os economistas, os especialistas.
Vivemos em um sistema de educação que separou os conhecimentos em disciplinas que não se comunicam umas com as outras.
Uma crise econômica está ligada a uma crise social, histórica, etc. Num cenário de globalização, tudo está ligado, conectado. Ora, é preciso pensar esses problemas de forma complexa, mas somos ensinados a ver (e a compreender) apenas pedaços da realidade.
Temos uma inteligência cega.
Para mudar isso, é preciso mudar completamente a forma como educamos nossas crianças.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós

Tenho minhas desconfianças se a internet é assim esse reino da liberdade, anárquico e incontrolável, democrático e totalmente livre de injuções. Entendo que, em circunstâncias digamos normais, isso se aplique tomando-se como parâmetro o Ocidente. Mas, não esqueçamos que países como a China e a Coreia do Norte nos dão indicativos em contrário: ali a internet é sim controlada e dominada.

Comprovando o que temo, detalho: jamais aderi ao novo formato do Twitter. Acho que a versão atual é a melhor, mas para minha surpresa nos últimos dias, sempre que acesso, leio logo acima das caixinhas de TTs a seguinte informação que entendo como uma ameaça: "You will automatically be upgraded to New Twitter very, very soon."

Numa tradução livre, algo como "você será automaticamente remanejado para o novo Twitter, muito, muito em breve." Ou seja: quer queira ou não, serei levado à nova forma do Twitter por alguém que tem poder para isso. E pronto. Daí minha suspeita de que os donos de provedores ou seja lá o que for ou quem for que domine a internet têm, eles sim, a capacidade de nos dar a liberdade. E liberdade desse tipo, que é dada, não é liberdade, é uma espécie de território social onde eu posso trafegar, mas até certo ponto. E pronto.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Liberdade nasce na boca do canhão

Os lábios dos líbios estão trêmulos de um certo ardor de liberdade, mesmo que não saibam o que virá depois. Revoluções, insurgências, quedas de ditadores não asseguram que será melhor o dia seguinte, que na história é muito longo, dura anos, muitos anos. Mas acreditam, os líbios acreditam e estão certos, de que o quadro atual não pode mais se manter, mantendo todo um povo em sucumbência. 

A capa do jornal francês dá bem uma ideia do clima áspero e doloroso. O texto visual, a força da foto traz em si toda a síntese da tragédia. O parto da história se fazendo em meio ao fogo.  "Somos nós quem libertará Trípoli" grita a manchete encaixada na imagem indicando que agora não tem volta. Estranhamente, o horror traz em sua alma aquilo a que chamamos de Liberdade. E o canhão faz o seu chamado: Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós.
O cenário é desolador: morte e clamores rondam as ruas como fantasmas que assombram, mãos dadas com os medos que percorrem corações e mentes. Ao lados dos que lutam há os que fogem, não suportando, não tendo forças e coragem para o embate. O desenho da tragédia começa a ganhar traços fortes e escuros, indicando que forças não líbias podem interferir na luta. Uso esse eufemismo para dizer que os EUA estão prontos para desembarcar os marines. Kadaffi já ameaçou: isso acontecendo, rios de sangue, mais intensos e tensos desaguarão no caudal dos sofrimentos.

A geopolítica no norte da África, caso haja a intervenção americana, ficará mais complicada na era pós-Kadaffi. O ideal seria que a revolta triunfasse sem ajuda estrangeira, pois será um problema a mais administrar a presença de forças militares que estarão representando os interesses políticos e econômicos americanos. 

A história dá seus passos. A luta na Líbia terá repercussões que começarão a ser medidas depois do último disparo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

De ditadura e de democracia 

Poder, diz definição simples mas de significação bastante clara, é a capacidade que um homem ou grupo de homens tem de levar adiante seus intentos, mesmo encontrando oposição. Tomando-se unicamente tal aspecto, vai desde o bêbado que na esquina brande uma arma contra pessoas indefesas - é o poder momentâneo, ilegal e ilegítimo - e chega ao governo que assesta tropas e armas contra governos inimigos ou seus próprios cidadãos. Temos aí então o Poder: manifestação política institucionalizada num Estado e tornada legítima pelo fato mesmo dessa institucionalização, ainda que injusta e inaceitável como ocorre nas ditaduras.
www.falcemartello.cbj.net

Atenho-me às ditaduras em suas diveras manifestações. Nenhuma ditadura é boa, seja de direita, seja autoproclamada de esquerda. Admitir ditaduras é atribuir a um grupo de homens uma espécie de competência quase divina de saber o que é o melhor e, por consequência, o pior para um povo. É alegar a alguém a condição de grande líder, condottiero, grande irmão, timoneiro, a figura mitificada do Presidente nos Estados Unidos, coisas do tipo. 

Há também uma ditadura imperceptível, que age de maneira suave, permite a comunicação e a aparente discordância. É a ditadura da democracia formal, essa em que vivemos: podemos falar contra o governo, jornais circulam livremente, é possível fazer passeatas, há partidos políticos, pode-se viajar sem maiores problemas, há liberdade de religião e de organização. Temos assim a sensação de democracia, esse poder existir cidadão, o sujeito de direito pleno.

Mas, onde está a ditadura então, se podemos fazer tudo? Muito simples: os meios de comunicação pertencem a quem tem dinheiro para mantê-los e podem se organizar em oligopólios que controlam o que deve ou não ser divulgado. E esses mesmos meios de comunicação de massa se encarregam de, ideologicamente, representar o mundo social como staqus quo perfeito e acabado: esscamoteiam a realidade das desigualdade de classes e difundem que pequenas modificações conjunturais são como que uma espécie de concessão dos poderosos àquela massa a quem chamamos povo.

Falando em povo, vejamos: na África e Oriente Médio as convulsões sociais, que explodem como resultado da insatisfação de milhões de pessoas levadas à condição de desgraçados políticos, mostram o quanto é terrível uma ditadura e seus mecanismos de consenso pelo silenciamento, o que a rigor não é consenso. Toda ditadura, até mesmo a ditadura da democracia formal, busca se impor como se essa imposição ocorresse naturalmente e fosse parte da paisagem social cotidiana, respirável, uma espécie de ar político. Para tanto, naturalizam sua propaganda como se fosse prestação de serviço e se afirmam como quadro ideal onde se deve passar a vida, adequada, ajustada a tal ideário.

As redes sociais, que mundializaram a comunicação interpessoal e criaram comunidades virtuais que podem se transformar em multidões nas ruas, estão mostrando sua importância no enfrentamento dos regimes islâmicos, cuja ferocidade já está bem demonstrada. Países como a Coreia do Norte, Mianmar, Cuba, só para ficar nesses três, também são ditaduras; equívoco histórico, desvio doutrinário da luta por sociedades mais justas. Por sua vez, os EUA, como paradigma imposto de liberdade, escravizam povos aos seus interesses econômicos e levam o inferno aonde quer que suas tropas cheguem em nome da Liberdade. 

Mas é nessa realidade que temos que nos inserir e lutar. Ocupar espaços políticos, proporcionar mudanças, promover um discurso libertário via sociedade civil e chegar aos parlamentos e ao Executivo. A democracia não é situação pronta e acabada. É processo, é uma espécie de combate civil, avanços de posição, criação de uma nova moral política, conscientização de que aqueles a quem se chama povo podem um dia despertar, consciência de que é preciso esse despertar. É preciso habilidade e força. É preciso. É preciso.

sábado, 13 de novembro de 2010

O discurso da servidão voluntária ou de como garantir a liberdade à custa da prisão
Emanoel Barreto

Dizem as coisas de jornal do Estadão: Autoridades do governo de Mianmar libertaram neste sábado a líder oposicionista Aung San Suu Kyi, após o fim do prazo de sete anos de sua prisão.
 
A libertação da prisão domiciliar de uma das mais importantes presas políticas do mundo ocorre uma semana depois de o governo realizar eleições, as primeiras em 20 anos no país, que foram vencidas pelo partido pró-militar e denunciadas pelos países do Ocidente como uma farsa.

Detida ou sob prisão domiciliar por mais de 15 dos últimos 21 anos, Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, tornou-se um símbolo da luta para livrar o país do sudeste asiático de décadas de regime militar. As informações são da Associated Press. 
........

A liberação de Aung San Suu Kyi leva-me a lembrar Étienne de la Boétie e seu "Discurso da Servidão Voluntária", magnífica obra em que basicamente indaga: por que tantos se curvam a tão poucos? Por que o povo, que é muito, se dobra à vontade de déspotas de vários tipos? 


Dobramo-nos à vontade das grandes corporações, que alegam a liberdade do empreendedorismo individual como garantia democrática de todos, quando no real apenas a uns poucos é dado tal direito; ajelhamo-nos perante regimes de força, que se asseguram portadores, por si, dessa mesma liberdade. Todos os sistemas foram e são, percebe?, guardiães da liberdade. 


Frente a seus algozes a até então prisioneira cometera o crime de pensar. Seu pensamento divergente, a atitude discrepante, apenas predizia  a necessidade de ser o povo livre para viver o seu cotidiano - isso o digo de maneira bastante singela.


O resultado? A prisão, a angústia de viver capturada às paredes de sua própria casa. Outro exemplo: Mandela e seus terríveis dias sob o peso do apartheid. Mais um: o Nobel chinês que amarga as grades sob a tutela de Pequim. Em Cuba, casos semelhantes. Americanos ceifando vidas no Iraque, nos porões de masmorras bem guardadas. A Igreja e a Santa Inquisição. Continuar seria infindável.


Vive o Homem sua louca aventura sobre a Terra e segue como um cego a ser guiado por um bandido. E a servidão voluntária continua sem que tenhamos uma luz no fim do túnel.

sábado, 28 de agosto de 2010

Anistia para Luiz, onde estiver
Walter Medeiros* - waltermedeiros@supercabo.com.br

A mulher com o "olhar no portão" sonhava, esperava, acreditava que um dia veria
chegar de volta o seu marido. Mas o tempo da sua vida não foi suficiente; ela morreu
e ele não voltou. Passou cerca de 28 anos esperando notícia do paradeiro do lutador
que foi preso em 1974 pelos órgãos de repressão do regime militar e nunca mais deram
informação sobre o seu verdadeiro destino. Assim, o ex-deputado Luís Maranhão Filho,
que teve seu mandato cassado, foi preso e entrou para a lista dos desaparecidos
políticos. Nunca voltou, para tristeza de Dona Odette.

O Estado brasileiro reconhece hoje que foi feito um mal à família daquele homem e
pede perdão de público. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça anistiou
aquele potiguar, juntamente com muitos outros que foram perseguidos, como Agnelo
Alves, Garibaldi Alves, Iaperi Araújo, Gileno Guanabara e Marcos Guerra. Eles
entraram no rol onde já estavam Glênio Sá, Meri Medeiros, Luciano Almeida, Cassiano
Arruda e outros. A cada julgamento, alguém afirma que é preciso lembrar sempre o que
ocorreu naquele período, para que não se esqueça e que para que tais fatos nunca
mais aconteçam.

A emoção era geral em cada canto da Assembléia Legislativa, onde foi descerrada uma
placa homenageando Luiz Maranhão. Seu sobrinho-neto, Haroldo Maranhão, fez um curto,
discurso emocionado, lembrando o que chamou de tempos de jeep. Explicou que teve um
jeep de brinquedo, com o qual se divertia muito. Era um brinquedo da época,
principalmente em Natal, resultado da movimentação da Segunda Guerra Mundial. Mas
depois apareceram para Haroldo os jeeps verdes, dos quais saíam homens de botas e
capacetes, naquele ambiente onde seu tio desapareceu. Depois ficou sabendo que ele
"foi levado para Recife, Fernando de Noronha, Rio de Janeiro, São Paulo e Nunca
Mais".


Num telão mostraram cenas do período da ditadura, que trouxeram de volta até aquele
cheiro de gás lacrimogêneo, mas também promoveram o reencontro de velhos sonhos,
conforme as palavras da vice-presidente da Comissão, Maria Aparecida Abelardo. Ela
mostra a importância de conhecer o passado e reconstituir a verdade através dos
processos de anistia, que acumulam histórias densas e intensas que o Brasil precisa
conhecer. Mais de 65 mil pessoas foram atingidas pelo regime militar.

Os chamados "anos de chumbo" vividos pelo Brasil entre 1964 e 1985 constituíram um
tempo atribulado, mas também - ao mesmo tempo - uma era de muita fibra, de muita
luta, de muita resistência no Rio Grande do Norte. Resistência à injustiça, à falta
de liberdade; resistência à solidão das noites nas quais ninguém podia nem devia
procurar notícias de alguns companheiros, para não desfalcar o movimento, pois as
movimentações poderiam terminar em prisões, em desaparecimentos ou mortes.

Naquele tempo, em Natal, os militantes tinham de possuir uma intuição muito aguçada,
para escolher em quem confiar, pois cada desconhecido podia ser um agente da
ditadura. A qualquer momento qualquer ativista podia ver-se diante de um fuzil, de
uma sala escura e de um inquisidor, determinado a descobrir até o que não sabia, mas
que achavam que devia saber. Todos viviam sobressaltados, pelo simples fato de
defender a liberdade, o direito ao habeas-corpus, o direito de votar para
Governador, Prefeito da capital e um terço do Senado.

A despeito de tudo aquilo, presenciávamos a cada momento gestos de coragem de
incontáveis militantes, destemidos democratas, resistentes cidadãos, que guardavam
aqueles livros que não podiam ser encontrados em nas casas dos militantes, o que
aumentava a certeza de que o dia anunciado por Vandré vinha vindo. Cada filme no
cinema de arte no cine Rio Grande era um grande ato democrático; cada música
executada nos diretórios acadêmicos era uma ascensão da luta; cada obra de arte
encenada era um impulso imenso para a derrocada do regime de exceção.

Quem optava por caminhar esses caminhos, findava marcado e perseguido. Naquele
quadro, cada um vivia a sua história e encontrava a face implacável do poder de
exceção, um poder desigual e injusto. Foram anos de solidão e aflição dos
interrogatórios, das acareações e dos assédios. Mas foram também dias de ânimo
cívico, têmpera revolucionária e coragem democrática. Uma luta ora aberta, ora
 solitária, ora clandestina, mas sempre no rumo de um amanhã, que seria outro dia,
como dizia Chico Buarque. O outro dia chegou. Estamos a vivê-lo. E é importante
fazer com que tudo aquilo tenha realmente valido à pena.
*Jornalista

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Navio negreiro navio negreiro navio negreiro navio negreiro

 https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgcw8kZJGYgdK_oalgYgfgCIqCZxhQByhVfBHZMqjgVg4wPYQyvO_eREeMf_YlY9uEra880C2NbSZJ7Zwd5gz1DgvXg0z6BZe2kwW4r9CIfHejWUXvMF3XcI2S6j43de_C58bu3/s1600/Navio_negreiro_-_Rugendas.jpg
'Stamos em pleno mar ou o Brasil é um Pélago profundo

Diz a Foha: A brasileira Geisa Arcanjo, 18, é a nova campeã mundial do arremesso do peso juvenil. Ela ganhou a medalha de ouro na última terça-feira, na final da prova no Campeonato Mundial Juvenil, em Moncton, no Canadá.
......

SINCERAMENTE, DISSO disso já sabia. Por acaso não somos um povo habituado a atirar para a frente o peso mensal das dívidas que o salário não consegue pagar; não somos nós um povo que na verdade não arremessa pesos, mas suporta fardos; não somos nós uma espécie de raça estranha, exóticos sociais a olhos estrangeiros; e, aparentados de Sísifo, empurramos montanha acima, com o peito, enorme rochedo para vê-lo desabar aos abismos, descemos até lá e empurramos de volta a pedra? Somos.

Ufa! Até ao parágrafo acima foi difícil empurrar sua construção. Ufa!, de novo.

Somos uma espécie de povo-módico. Baratinho a políticos, maiorais, ricaços, capatazes, poderosos de todo o gênero, sabidões e outros quejandos.

Somos um povo, sim, de atiradores de pesos, agrilhoado às filas pedintes de fichas, suplicantes de um atendimento médico que nunca chega, de uma escola que mal e mal funciona, de uma segurança que nos atemoriza, de um amanhã que pode preludiar tragédia.

Eia! Vamos mais e mais atirar pesos ao longe. E comemorar vitórias de manchete. Na realidade sabemos que tais aclamações são sagrações passageiras, destinadas a embrulhar peixe no mercadinho da esquina. Eia!
'Stamos em pleno mar...

PS: O Brasil é um Pélago profundo.