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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

E ainda querem falar de flores

Leio no Diário de Natal preocupante notícia a respeito do Hospital Walfredo Gurgel. Experienciando crise que não acaba nunca, crise histórica, entranhada à vida de médicos e pacientes, o hospital é a prova mais cabal e lamentável do descaso do governo estadual, que em sua propaganda anuncia na TV um Rio Grande do Norte que somente existe na cabeça de alguém delirante, que repassa seu delírio à sociedade a fim de que o delírio de tanto ser repetido vire alucinação social e daí passe à condição de verdade. É lamentável, é perigoso, é triste. 

Vamos orar,
vamos chorar,
vamos correr. 
Correr?
Não tem pra onde...

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Segue a matéria:

Setor de politrauma do Walfredo pode parar
Paralisação está sendo cogitada por médicos do setor devido às condições precárias

A ausência de mudanças no cenário da saúde pública estadual após a decretação do estado de calamidade pública na área fez as entidades do Fórum Estadual da Saúde decidirem retirar o apoio ao Governo do Estado. Agora, o setor de Politrauma do Pronto Socorro Clóvis Sarinho pode parar. Pelo menos é o que está sendo cogitado por médicos do Hospital Mosenhor Walfredo Gurgel (HWG), de acordo com Francisco Braga, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremern) e plantonista da unidade de saúde. O motivo para a paralisação, que ainda será discutida entre os médicos que trabalham no setor, é a precária estrutura da unidade para atender os pacientes, gerados pela superlotação e o desabastecimento de medicamentos no HWG.

Superlotação e desabastecimento foram eleitos motivos determinantes. Foto: Maiara Felipe/DN/D.A Press

O setor de Politrauma é para onde a maioria das vítimas de acidentes em todo o Rio Grande do Norte são encaminhadas pelas ambulâncias de pronto-socorro, principalmente do serviço de atendimento móvel de urgência (Samu), sendo a principal porta de entrada dos pacientes no HWG. São pessoas que chegam com fraturas, traumatismos cranianos, cortes ou perfurações profundas, entre outros ferimentos sérios.

 Nessa seção do hospital, quatro médicos atendem por turno, sendo dois cirurgiões por operação médica. Segundo dados da assessoria de comunicação o hospital, entre os dias 5 e 12 deste mês (domingo a domingo) foram atendidos 1.063 pessoas no setor, uma média de 152 por dia.

A grande dificuldade, segundo Francisco Braga, está na superlotação do hospital, que gera alguns entraves no atendimento. "Muitas vezes os atendimentos são atrasados porque o setor de Politrauma está lotado com macas de pacientes internados oriundos de setores como Ortopedia ou Neurologia. Já houve casos em que se esperou entre seis a oito horas para entrar com paciente na sala de cirurgia porque não tinha leito para onde levar outra pessoa que já tinha sido operada. Como também já aconteceu de se esperar quase 24 horas para abrir vaga na UTI [Unidade de Terapia Intensiva]".

Francisco Braga afirma ainda que outro ponto bastante incômodo para os plantonistas do Politrauma é o do desabastecimento de medicação no HWG. "O que nos afeta mesmo é o problema dos anestésicos. O que tem chegado só atende a demanda de uma semana. Às vezes falta a raquianestesia (paralisação somente dos membros inferiores) e chegou a faltar propofol (anestesia geral). Essa desestrutura gera muita ansiedade e angústia entre nós, por não podermos realizar a contento nosso trabalho".

Segundo o vice-presidente do Cremern, a sugestão de paralisação do setor tem sido feita por entre os médicos via mensagens de celular. "Ainda não foi marcada uma reunião para definir essa questão, porém". Tereza Neuma, da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), alega não ter recebido qualquer informação sobre a possibilidade de paralisação e, por isso, prefere não comentar o assunto.

Temor
Uma possível paralisação no setor de Politrauma do HWG gera bastante temor no coordenador do Samu Natal, Rodrigo Azevedo. Isso porque, segundo ele, o setor é quem retém a maioria das macas utilizadas pelas ambulâncias do serviço e uma paralisação ou mesmo uma greve poderia ocasionar um colapso no atendimento de acidentados na capital potiguar.

Rodrigo Azevedo afirma que 60% das macas que ficam retidas no Walfredo Gurgel são aquelas encaminhadas para o Politrauma. Para ele, o problema maior acontece durante o final de semana, quando o volume de ocorrências e consequente acúmulo de ambulâncias do Samu na unidade médica aumenta bastante o lapso de tempo entre chegada e saída das macas. "O dia mais crítico é a segunda-feira, quando quase todas ficam presas por lá devido ao acumulado do final de semana e também porque é o dia em que mais registramos acidentes de moto". O coordenador teme que uma greve nesse setor possa fazer com que todas as macas fiquem retidas no hospital. "Poderemos até deixar de atender ocorrências, caso isso aconteça".


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Recebo e divulgo

Sindicatos da saúde solicitam interdição total do Walfredo Gurgel

A convite do Sindicato dos Médicos do RN (SINMED), Sindicato dos trabalhadores em saúde (SINDSAÚDE) e do Sindicato dos Odontólogos (SOERN) ontem, dia 30, foi realizada uma reunião com os representantes dos conselhos da área da saúde. Após uma rodada de discussões, na qual foram apresentados problemas técnicos de diferentes unidades hospitalares, com destaque para o Hospital Walfredo Gurgel, os sindicatos definiram por solicitar aos conselhos regionais a interdição total do hospital.
“Temos consciência de que não é possível um fechamento total do hospital de uma única vez, pois não há como se transferir 400 pacientes de imediato, por isso sugerimos o fechamento por etapas”, explica o presidente do Sinmed, Geraldo Ferreira. 
Segundo Francisco de Almeida Braga, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremern), a solicitação será levada para as plenárias de cada conselho, já que os conselhos funcionam de forma colegiada. Braga, que também é responsável pelo Departamento de Fiscalização do Cremern, explicou que se solicitação dos sindicatos for aceita  o próximo passo dos conselhos e realizar uma fiscalização minuciosa  em cada setor do hospital.
Outra solicitação dos sindicatos é que a fiscalização se torne mais efetiva e que seja realizada em conjunto, como forma detectar problemas e tornar uníssona as cobranças por melhorias nos quadros hospitalares. Durante a reunião, discutiu-se ainda, a possibilidade de que após as fiscalizações serem realizadas pelos conselhos um relatório fosse enviado ao governo com um prazo limite para adequação dos setores debilitados, tornando o fechamento do hospital a última opção.
O setor de reanimação do Walfredo já se encontra interditado pelo Cremern desde o dia 8 de maio e até aqui nenhuma providência foi tomada para a sua reabertura. Para Sônia Godeiro, diretora do Sindsaúde, essa ação, se efetivada, é uma forma dos sindicatos, conselhos e trabalhadores darem um basta na situação indigna enfrentada diariamente pelos profissionais e doentes.
Estiveram presentes na reunião, além de representantes do Sinmed, Sindsaúde e Soern , dirigentes do Conselho Regional de Medicina, Enfermagem, Odontologia e Biologia.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012


Livro do médico Tarcísio Gurgel é estímulo ao intercâmbio cultural
Gurgel: livro rico em valores culturais e humanos

Janela aberta para o mundo”, uma obra bilíngüe - português e inglês -  é o novo título que o médico, turista e escritor Tarcísio Gurgel de Sousa lança no próximo sábado, 28 de Janeiro de 2012, às 17 horas, na Livraria Siciliano do Shopping Midway Mall, em Natal-RN. O livro é um rico relato sobre intercâmbio estudantil e os valores sociais e humanos que o autor adquiriu e cultivou durante 45 anos, que é o espaço de tempo decorrido entre os estudos através do American Field Service (1965) e os dias atuais.

Com uma memória privilegiada e um senso de organização raro, o autor resgata momentos, fatos, informações e fotografias, que com o passar do tempo vão se revelando preciosidades, e que vale à pena ler e ver.  Mostra com riqueza de detalhes aquele ano que passou nos Estados Unidos e as experiências que vieram em seguida. Tarcísio Gurgel formou-se em medicina, foi Médico Perito do INSS e da Secretaria Estadual de Saúde. Sempre gostou de viajar e já conhece mais de cinqüenta países em todos os continentes. Em 2007 o autor lançou seu primeiro livro sobre viagens, intitulado “Batendo asas - onde e como”.

“Janela aberta para o mundo - Open window to the world” teve um lançamento comemorativo em outubro de 2011, em West Chicago ? EUA, durante evento que reuniu os participantes da turma de High School 1965/66. Tarcísio Gurgel foi o orador da turma e diz que foi um momento emocionante e inesquecível, pois ali reencontrou dezenas de amigos, 45 anos depois. E é sobre esse tipo de laços de amizade que o seu livro trata. Tarcísio deseja que sua obra sirva de estímulo aos estudantes que pretendem participar de programas de intercâmbio

domingo, 10 de julho de 2011

Na boca do lobo
Emanoel Barreto

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://4.bp.blogspot.com
Leio estarrecido reportagem de Maiara Felipe n'O Poti sobre o Hospital Walfredo Gurgel. Segue abaixo transcrição parcial. Trata-se de jornalismo do bom, vivido, experienciado, repórter passando a vida por dentro. Confesso, dá medo. A quem estamos entregues? Encontro, à minha pergunta, duas respostas; primeira delas: pelo que li no texto, estamos entregues a médicos que fazem de tudo para atender, sob condições de adversidade que se aproximam do desespero, a gente que foi vítima de uma guerra. No caso, a guerra de um Estado omisso, regido por política de saúde irmã geminada do caos. Segunda resposta: estamos entregues ao deus-dará, ao improviso, à decisão do médico em salvar. Salvar dentro do possível, claro.

Mas, diante dessa situação temos o reverso da medalha: são os planos de saúde. Geridos por empresas que adentram o mercado cientes de que o Estado brasileiro falhou historicamente nessa missão. Mas falhou por falta de vontade política. Dinheiro há, tenho certeza; o que falta é transformar esse dinheiro em verbas, dar-lhe destinação social. Mas a prioridade não é o social. É o interesse político mais rodapé, pedestre e reles. Fazer de conta que se atende ao, vá lá, povo, e seguir adiante de qualquer jeito.

Mas, falava eu sobre os planos de saúde. Eles são, pelo menos se apresentam assim, como o contrário do caos. São o não-mundo, a não-realidade, o privilégio comprado a preço-ouro. Por que "não-mundo", "não-realidade"? Simples: o plano de saúde é uma espécie de seguro contra os maus serviços do Estado. Algo que você paga pedindo a Deus para não ter de usar. O plano dá a sensação de que estamos a salvo, estamos fora da realidade das pessoas comuns, aquelas sujeitas ao cutelo do atendimento improvisado e malfeito. Temos o privilégio de ser doentes especiais, com caminha boa e serviço confiável. Doentes que pagam para ter o insidioso direito de ficar doente do jeito certo. 

Todavia, a realidade é larga como um abismo e profunda como uma fossa oceânica. O Walfredo Gurgel, lembremos, é hospital de urgências. Quer dizer: votado ao atendimento de casos onde as pessoas são vítimas da brutalidade da vida. Mais claramente: qualquer um pode, em situação que tal, ser levado para lá. Um acidente de carro, um assalto, coisas assim, compreende? E aí, salve-se quem puder, pois não há plano de saúde que garanta a segurança de ninguém. Fico por aqui. Leia o texto de Maiara.
 
Walfredo Gurgel: por dentro do caos
O Poti/Diário de Natal acompanhou o sofrimento de funcionários e pacientes em um plantão de 12 horas no maior pronto-socorro do RN

A ineficiência do sistema de saúde pública do Rio Grande do Norte é responsável, direta ou indiretamente, por danos irreversíveis e até pela morte de muitos potiguares, mês a mês, ano após ano, em situações cotidianas que lembram as vividas em um estado de guerra. Pode se dizer responsável diretamente quando a referência é, por exemplo, a de um dos idosos que está entre as 22 pessoas que aguardam nos corredores do Pronto Socorro Clóvis Sarinho, no Hospital Walfredo Gurgel, por um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Indiretamente, quando se observa as condições de trabalho dos profissionais do hospital que fazem um esforço sobre-humano para preservar a vida daqueles pacientes, abarcando para si graves consequências físicas e psicológicas em função disso.


A superlotação gera a já tradicional e dramática cena de filas de pacientes no corredor do hospital Foto:Maiara Felipe/DN/D.A Press
Mesmo sem material, sem leitos, sem condições adequadas de atender o cidadão, no "coração de mãe" do Walfredo Gurgel sempre cabe mais um. Cabe o doente do interior do estado, encaminhado pelos hospitais regionais sem condições de atender os casos de maior complexidade. Cabe o rico e o pobre que venha a sofrer qualquer tipo de acidente. E, apesar da generosidade de sempre acolher mais um "filho", é visível que esse "coração" sofreu um infarto e precisa urgentemente que o poder público tome uma providência para salvá-lo, interrompendo o ciclo de mortes. Mensalmente o Governo do Estado aplica no hospital R$ 10 milhões, que não estão sendo suficientes para receber dignamente toda demanda.

A equipe de O Poti/Diário de Natal passou 12 horas - período que normalmente dura o plantão dos médicos e enfermeiros - dentro do único hospital de urgência traumatológica do estado. No dia 2 de julho, por volta das 7h30, entramos no Centro Cirúrgico, primeiro setor a ser visitado. Na ocasião, o Centro de Recuperação Operatório (CRO) estava lotado. Os pacientes eram levados para o corredor após os procedimentos cirúrgicos. O Centro tem nove leitos, mas o número de pessoas lá dentro passava de 20, sem contar os que ficavam do lado de fora. "Os casos mais críticos ficam lá dentro", explicou o médico. Das seis salas destinadas às cirurgias, duas estão paradas. Uma com o foco do iluminador quebrado e outra interditada por falta de gás no respirador.

Mas, apesar dos problemas, o trabalho não para. Um dos primeiros procedimentos acompanhados pela reportagem na manhã de sábado, foi o de Marcos*, 10 anos, morador do município de Macau. Ele caiu e fraturou o punho e os médicos decidiram fazer uma redução de fratura no seu braço. O procedimento durou cerca de 20 minutos e ocupou uma das salas do Centro Cirúrgico que funcionam atualmente. "O médico de Macau disse que lá não fazia e mandou a gente vir para o Walfredo", justificou a mãe de Marcos sobre o motivo de se deslocar cerca de R$ 180 quilômetros para solucionar uma pequena fratura.

Enquanto Marcos era operado, Juvenal Bispo da Silva, 69 anos, que também caiu em casa, aguardava dentro do consultório do ortopedista, em cima de uma mesa, por uma maca. "Ele veio transportado dentro deum carro de forma inadequada. A suspeita é que ele tenha fraturado o fêmur, mas estamos aguardando desocupar uma maca para ele poder fazer o raio-x", esclareceu o médico de plantão. Segundo relatos da família, o atendimento inadequado começou já em casa. A esposa disse que a ambulância do Samu não considerou o caso de Juvenal urgente e, por isso, ele veio de Ceará Mirim até o Walfredo em um carro fretado e foi conduzido ao consultório em cima de uma tala de madeira, que serve apenas para imobilizar o paciente.

O idoso ficou em cima da mesa onde o médico atendia outros pacientes por 2 horas, tempo depois do qual conseguiu uma maca, fez o raio-x e se internou no corredor, onde fica situada a urgência dos casos de clínica médica e tem mais 54 pessoas. Por trás da parede onde Juvenal ganhou seu "leito", funciona a sala de observação da urgência em clínica médica. O local deixou de ser uma sala de acolhimento de pacientes há muitos anos para se transformar no espaço considerado "privilegiado" na estrutura do hospital, onde ficam pessoas que aguardam por um leito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Lá, estão respiradores, que amenizam a angústia de quem necessita da UTI, como Geraldo de Holanda, 75 anos, há 12 dias aguardando uma vaga na sala de reanimação. É que no Walfredo, diante da exorbitante quantidade de pacientes que chegam todos os dias, a sala de reanimação é o primeiro passo antes de conseguir uma UTI. "Ele está cansando, tanto é que quando chegou aqui já foram logo entubando. A médica disse que ele deveria ficar na reanimação, já que não tem vaga na UTI, mas a reanimação também está cheia", disse a acompanhante de Geraldo, que, além da idade avançada, é dependente de hemodiálise duas vezes por semana.

*Os nomes não são verdadeiros para presevar os personagens.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quando é melhor morrer

A eutanásia é assunto que divide opiniões, levanta questionamentos éticos, jurídicos e religiosos, todos interligados de uma forma ou de outra. Eutanásia vem do grego euthanasía "morte sem sofrimento", por oposição a distanásia, também do grego dusthánatos, "que tem morte penosa, lenta", diz o Houaiss. Assim, quem pratica a eutanásia o faz por questões humanitárias frente a situação de doença irreversível, com padecimento intenso do doente. Encontrei essa matéria na Folha, depoimento pungente de mãe que, ante quadro insuportável de dor do filho, deixou que se fosse. Segue.

MINHA HISTÓRIA LÚCIA HELENA FRANÇOSO, 44

Decisão em Família

(...) Pressenti que o Natal passado seria o último do meu filho (...) Decidimos não reanimá-lo caso o coração dele parasse (...) Fiquei segurando a mão dele, beijando-o até o coração parar de vez

Marisa Cauduro/Folhapress

Lúcia Françoso, 44, (de azul) mãe de Felipe, e sua irmã, Dulce dos Santos Machado

RESUMO
Durante quatro anos, o jovem Jeferson Felipe Françoso, 23, de Guarulhos (SP), lutou contra uma doença crônica incurável e uma infecção que devastaram os seus pulmões.
Quando ele já estava entubado na UTI, respirando por aparelhos, sua mãe, Lúcia Helena Françoso, com apoio da família, autorizou que os médicos não o reanimassem caso ele sofresse uma parada cardiorrespiratória.
No último dia 4, às 20h48, o coração de Felipe parou. Morreu na presença da mãe e da avó.

(...) Depoimento a
CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO

Meu filho começou a ficar doente aos 16 anos, logo depois que o pai morreu, de câncer no reto.
Sofria pneumonias seguidas e, aos 19, descobrimos que era fibrose cística [doença genética que pode causar infecção crônica]. Ele também tinha uma bactéria resistente [Mycobacterium abscessus] nos pulmões.
Durante seis meses, o Fê ficou com um cateter por onde recebia os antibióticos para combater a bactéria.

Por causa dos remédios, perdeu a audição. Isso o deixou desanimado com o tratamento. Não tinha melhora dos sintomas e também não podia estudar, jogar bola.

Ele começou a faculdade de administração e um curso de desenho, mas não conseguiu terminá-los. Eram antibióticos, inalações, injeções de enzimas diárias e mesmo assim as crises de tosse e de falta de ar não davam trégua. Ele sentia falta de ar até para tomar banho.

Em agosto de 2010, o Fê começou a piorar. Pesava 44 kg e media 1,80 m. Passava 20 dias no hospital e uma semana em casa.
Foi quando começamos a ser acompanhados pela equipe de cuidados paliativos do Samaritano.

O Fê precisava ganhar peso para entrar na fila do transplante de pulmão. Foi colocada uma sonda no estômago para ele receber suplementos alimentares. Mas ele sabia que não ia sarar, que a doença era incurável.

SEM REMÉDIO O Fê passou a conversar mais comigo e com a tia [Dulce Machado]. Numa das últimas conversas, ele disse para a tia que não tinha medo da morte porque já não havia mais prazer algum na vida.

Mas eu não deixava o ambiente ficar triste em casa. Ele dizia: "Mãe, como é que você consegue ainda me fazer rir". E eu dizia: "Mãe é assim mesmo. Mãe chora, mãe é palhaça, mãe é boba.'
No Natal passado, eu já pressentia que seria o último do meu filho. Foi uma festa linda. Ele ganhou uma camiseta do São Paulo, que era o time que ele tinha paixão.
Na última internação, em 3 de janeiro, a médica explicou que os antibióticos não faziam mais efeito.

Quando ela saiu do quarto, o Fê disse: "Mãe, não tem remédio para mim mais..." Aí ele chorou muito. Viu que era o ponto final da medicina. Eu peguei na mãozinha dele e disse: "Filho, agora é só Deus. Se ele achar que pode fazer um milagre, vamos confiar".

Eu não chorava perto dele porque ele não gostava. Dizia: "Mãe, se você não ficar forte, o que vai ser de mim?". Eu sofria por dentro, sem demonstrar. Só chorava longe.
No dia 19 de janeiro, comemoramos o aniversário dele no hospital. Vieram os primos, as médicas, as enfermeiras. Ele ficou tão feliz! Comemoramos também o fato dele ter atingido 50,5 kg, que era o peso mínimo para entrar na fila de transplante.

Mas, com o passar dos dias, o desconforto respiratório foi piorando. Ele sentia muita dor, que só era controlada com morfina a cada quatro horas. No dia 26 de janeiro, foi transferido para a UTI semi-intensiva. Já não conseguia mais falar direito.

Ficava com a máscara de oxigênio o tempo todo. Conversando com a irmã, Jéssica, ele voltou a dizer que não tinha medo da morte, que estava em paz. Ele até brincou: "Vou ficar bem, vocês é que vão sofrer um pouquinho".

No dia 27, à tarde, soube que o Fê teria de ser entubado [respirador artificial] porque a máscara de oxigênio já não dava mais conta do desconforto respiratório. Os médicos queriam dar mais uma chance para o organismo reagir, pois a infecção pulmonar estava sem controle.
Foi um choque para mim. Eu sabia que aquele momento iria chegar, mas não esperava que fosse tão rápido. Quando o Fê soube, chorou.

Eu segurei a mão dele e disse: "Filho, não fique com medo. Eu vou ficar bem, a sua irmã vai ficar bem". Ele estava assustado, mas só perguntou se iria continuar dormindo, se não sentiria dor. Aquele olhar assustado foi a nossa despedida.

Em seguida, ele foi sedado. A esperança era que, em 72 horas, a infecção fosse controlada. Mas isso não aconteceu. O antibiótico não fazia mais efeito.

ATÉ O ÚLTIMO MINUTO Na segunda, dia 31 de janeiro, tomamos uma decisão em família: não reanimá-lo caso o coração dele parasse.
A proposta era dar o conforto necessário para ele não sofrer. A equipe médica iria aumentando a morfina e a sedação. Eu concordei. Vi meu filho sofrer tanto nesses últimos anos que eu não suportava prorrogar mais isso.

Foi de coração que eu entreguei ele para Deus. Fiquei até o último minuto ao lado dele, dizendo: "Filho, estou aqui. Se você quiser partir comigo aqui do teu lado, pode partir. Se você acordar, eu também estarei aqui".

Eu sabia que o Fê tinha uma briguinha com Deus por causa da morte do pai e por causa da sua doença. Na UTI, com ele inconsciente, eu dizia: "Filho, fala para Deus tirar você desse sofrimento". E falava para Deus: "Se for para trazer meu filho de volta, traga ele inteiro. Se não for, eu te dou de presente um anjo".

No dia 4 de fevereiro, ele quase não tinha mais pulsação. Olhei para o monitor, e os batimentos cardíacos estavam em 35 [o normal é de 60 a 100 batimentos por minuto]. Fiquei segurando a mão dele, beijando-o até o coração parar de vez. Doeu muito e ainda dói, mas me sinto com dever cumprido. Agora me sinto em paz.

sábado, 29 de janeiro de 2011

 Deu na Folha:

Criador do 'Canna Cola' quer a bebida em 15 Estados dos EUA

BRUNO TORANZO
DE SÃO PAULO
O criador do refrigerante de maconha "Canna Cola", Clay Butler, pretende que o produto esteja em 15 Estados americanos, como Colorado, Califórnia e Arizona, até o fim do ano. São locais em que o uso medicinal da maconha é permitido.
A bebida de Butler terá uma incidência de THC (tetrahidrocanabinol) entre 35 e 65 miligramas. O tetrahidrocanabinol é o principal ingrediente psicoativo do cannabis, o gênero botânico utilizado para produzir haxixe e maconha.
Butler, 44, vive na cidade de Santa Cruz, lugar ideal para quem gosta de praia, que fica no Estado da Califórnia. Todos os dias pela manhã, o americano aproveita a beleza da paisagem para praticar seu esporte predileto, o surfe. Quando procurado pela Folha ontem, respondeu, por e-mail, que não poderia conversar naquele momento por estar a caminho do mar.
Nesta sexta-feira, a Folha conseguiu conversar com Butler. Para isso, entrou em contato mais tarde do que no dia anterior. Depois de vencer as ondas, o californiano concedeu, por telefone, uma entrevista. "Venderemos o refrigerante em todo o país, mesmo naqueles Estados que não permitem o uso da maconha para fins medicinais", explicou.
Nesses Estados, a pequena empresa que comanda já criou uma maneira de atrair o público, sem cometer qualquer ilegalidade. Em vez de maconha, vão utilizar "outras ervas relaxantes", expressão utilizada por ele, com destaque para a camomila. "A embalagem será a mesma. O produto terá o mesmo padrão. Mas sem contar com as propriedades da maconha", revelou.
Alimentos e bebidas que contenham o THC em sua fórmula não são exatamente uma novidade nos Estados Unidos. O inédito está na elaboração de um produto que circule nacionalmente, independentemente das diferentes legislações que vigoram nos Estados, principal objetivo, aliás, do surfista.

Divulgação/Drinkcannacola.com
O empresário Clay Butler pretende que seu refrigerante chegue a todos os lugares dos Estados Unidos
O empresário Clay Butler pretende que seu refrigerante chegue a todos os lugares dos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, os consumidores, mediante apresentação de receita médica, conseguem comprar uma lista extensa de alimentos que usam propriedades da maconha em lojas especializadas. Até mesmo cookies e barras de cereais são comercializados.
"É fácil conseguir uma receita médica", revelou Butler. Segundo ele, alguns médicos da Califórnia são especializados em conceder esses atestados, chamados de "doutores da maconha medicinal", e oferecem seus serviços, por meio de anúncios publicitários, em revistas menores. Existem diversos sites que explicam, de forma detalhada, como conseguir seus serviços em cada um dos Estados onde a prática é autorizada.
Há também a opção de o interessado adquirir um cartão de maconha medicinal, o que permite, inclusive, cultivar determinado número de pés de maconha no quintal da sua própria casa.
Se o paciente apresentar insônia, falta de apetite, nervosismo e cansaço muscular, a autorização do médico, de acordo com Butler, é quase certa. Como se sabe, a maconha tem poder terapêutico, o que representa uma forma de tratar esses problemas.
"Na Califórnia, você pode comprar produtos feitos de maconha aos 16 anos se seus pais e o médico aprovarem", destacou Butler.
LEI DO BROWNIE
O que está dificultando a vida do empresário é um projeto de lei, apelidado de "Brownie Law" (Lei do Brownie), de autoria da senadora democrata Dianne Feinstein, política conhecida por ser radicalmente contrária ao uso da maconha. O projeto de lei foi aprovado pelo Senado no ano passado e seguiu para análise dos políticos da Câmara dos Representantes.
A proposta proíbe que qualquer pessoa misture maconha com doce, faça com que a embalagem desse produto pareça com a de um doce convencional ou modifique as características da maconha com o objetivo de distribuí-la para pessoas com menos de 18 anos. São três, portanto, as restrições, todas elas independentes umas das outras.
O primeiro ponto da proposta está incomodando Butler, o de não permitir a mistura da maconha com doce, proibição que inviabilizaria seu negócio.
"O projeto não especifica quais alimentos se enquadram em doce", criticou. "Na verdade, os senadores querem o fim da venda dos produtos que contenham maconha. A lei federal já proíbe qualquer atividade com maconha. O objetivo deles é coibir nossa atividade", finalizou.