sexta-feira, 19 de outubro de 2007

E aí, Abdon me perguntou: "Vale a pena?"

Caros Amigos,
Encontrei-me hoje com o meu velho amigo Abdon. Não o via há anos. Aposentado, resolveu isolar-se numa pequena comunidade praieira e ali vive com o básico.

Foi um exílio calmo, decidido com a chegada da lucidez dos 60 anos. Barba crescida, pele crestada pelo sol, dedica-se a ajudar os pescadores uma vez ou outra, para passar o tempo, ou a sorver intermináveis doses de cachaça em meio àquela gente simples.

Não quer saber de rádio, TV ou jornal. Internet, nem se fale. Logo ele, que foi tão bom repórter lá pelos lados do Rio e São Paulo. Quis saber se ele estava desencantado. Não, não estava. Apenas decidira mudar. E mudar significou juntar a aposentadoria, vender alguns bens e passar a viver com o que isso lhe rende por mês.

Não quis filosofar, não quis dar-me maiores explicações. Apenas disse que parou e pronto. Depois, deu-me um abraço, não me revelou onde está morando e sumiu-se. Antes de encantar-se em meio às pessoas, perguntou:
- Vale a pena?
Emanoel Barreto

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Os passos de viver

Caros Amigos,
Redigir é um ato que demanda esforço. Não o empenho físico que alguém tenha que despender para empurrar um piano, por exemplo. Mas esforço até mesmo para encontrar a assunto - e isso, é claro, é bastante subjetivo. Varia da temática, do estilo, da visão de mundo do repórter.

Hoje, vejo nas coisas de jornal que um cientista que ganhou o Nobel de medicina disse que os negros são menos inteligentes que os brancos, o que explica o atraso socioeconômico da África; no Rio, doze são mortos em um confronto com a polícia, incluindo-se uma criança entre as vítimas; na França, o presidente anuncia seu divórcio; em São Paulo, as prostitutas estão faturando muito com a presença do circo da Fórmula Um.

Aí, alguém se pergunta: e não há assuntos de sobra?
E eu respondo: há?

Qual desses acontecimentos são em si mesmo novidades? Todos eles contêm alguma parte da insânia humana, nossas misérias, perplexidades, medos, cupidez, contra-sensos; tudo coisa que de alguma forma é parte do cotidiano.

Não deixo de lamentar o infeliz raciocínio do cientista, nem o espetáculo de barbárie no Rio, ou os demais acontecimentos que elenquei. Mas entendo que isso já se tornou lamentavelmente parte da nossa cotidianidade, e há séculos.

Há séculos o homem repete a sua tragédia, geração após geração, ato após ato, modificando-se apenas as circunstâncias históricas em que se desenrolam seus dramas: em essência, nossa vida é a mesma, escura e incerta.
A humanidade caminha tateando.

Amanhã eu volto. Mas as coisas de jornal serão as mesmas. Pois os bárbaros, os tolos, os loucos felizes, os monstros e os afáveis estarão nas ruas, cada um cumprindo seus passos de viver.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Ele quer "seriedade"

Caros Amigos,
O presidente Lula está pedindo "seriedade" ao senado, quando da votação da CPMF. "Seriedade", significa votar a favor da manutenção do imposto do cheque, que por sua vez representa um esbulho ao contribuinte.

Seriedade, para mim, é um partido político honrar sua trajetória histórica e manter-se fiel a seus princípios; seriedade é sustentar um discurso que havia sido propagado como letgítimo e inabalável; seriedade é manter a honradez, a honestidade, a ética, como elementos constitutivos essenciais a uma agremiação partidária.

Nada disso aconteceu durante os governos Lula. Portanto, para pedir seriedade, é preciso, primeiro, olhar em volta de si memo e verificar se você está agindo de forma séria e digna de crédito.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Começou a cair...

Caros Amigos,
Felizmente enganei-me, quando do comentário de ontem, ao temer que Calheiros poderia manter-se no cargo, apesar de todas as pressões. Ao que parece, com o licenciamento da presidência do senado, os pés de barro poderão levá-lo, mais adiante, à débâcle total. Espero.

Há o dedo do Planalto para a retirada de Calheiros, objetivando com isso a tentativa de aprovação da CPMF no senado. Com ele no comando as oposições seriam bem mais rígidas. À sua falta, estimam os arquitetos do poder, haveria maior possibilidade de flexibilização para a manutenção desse esbulho às contas bancárias.

É o Leviatã mostrando suas garras, querendo a todo o custo força e vida do povo, para manter-se em pleno vigor: dinheiro, dinheiro, dinheiro...

Mas Calheiros começou a cair. Nada garante que seus hoje aliados o acompanhem amanhã, quando forem julgadas as novas acusações que pesam contra ele. Vamos esperar. Após o tropeço, sempre vem o tombo.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Calheiros não quer cair

Caros Amigos,
As coisas de jornal andam informando que o senador Renan Calheiros "está triste, abatido e tenso." Interessante: nas filas do SUS, nos ônibus lotados, nos hospitais públicos, nas escolas, nas delegacias, no fim do mês, nos salários sufocados, enfim, onde haja povo brasileiro, as pessoas também estão tristes, abatidas e tensas; e nenhum político teve pena do povo brasileiro. Sabe quem está com pena de Calheiros? Veja a seguir: a informação a respeito do estado de ânimo de Calheiros, segundo os jornais, partiu do senador Edison Lobão, que integra o grupo de pessoas que confiam - confiam? - existir naquela criatura, em algum ponto do seu íntimo, um homem de bem, servidor da honradez e apóstolo da causa pública.


Aos seus iguais Calheiros tem dito que não se afastará da presidência do senado. A insistência para tanto visa a facilitação de votos a favor da manutenção da CPMF. Segundo os amigos de Renan, com ele no cargo fica mais difícil domar votos em favor desse insidioso imposto que mina até mesmo o dinheiro do mais frácil correntista bancário. Saindo, por cerca de 45 dias, mas mantendo o mandato, ficaria mais fácil conseguir votos dos senadores para que o governo continue e tomar dinheiro do povo.

O ideal será que fossem desalojados Calheiros e a CPMF. Mas, infelizmente, não temos cultura política suficientemente lustrosa para a obtenção de tais feitos.Calheiros não quer cair; parece que vai ficar.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A mendiga e o trânsito

Caros Amigos,
A cena chamou-me a atenção.
O sinal de trânsito havia parado de funcionar perto do meio-dia. Os carros avançavam uns contra os outros no cruzamento da avenida. Nenhum guarda aparecia para dominar o caos. Até que uma mendiga, que sempre estava por lá, amparando um marido doente e cambaleante, atirou-se em meio ao drama urbano e, numa cena impressionante, impôs respeito.

Aquela mulher, magra, mal vestida, certamente faminta, ergueu as mãos e os carros pararam. Depois, determinou que os automóveis do cruzamento podiam passar e os motoristas obedeceram. Com energia patética, ela mandava, os carrões paravam ou seguiam.

Tive ali uma visão impressionante de como a cidadania, nas ocasiões mais absurdas, pode fazer-se valer. Alguém que vive à margem, na miséria mais absoluta, conseguiu domar aquele trânsito infernal e o tráfego fluiu normalmente.

Não precisou de apito, não vestia uma farda, não tinha qualquer autoridade formal para fazer-se obedecer. Valeu sua força e sua decisão.

Tempos depois eu a vi novamente, em outro ponto da cidade. O marido esquálido estava deitado no chão, numa calçada perto do cruzamento de outra avenida. Ela conversava com outra mulher. Esquecida, jogada, ela ali estava com seu frangalho de família, sequer esperando alguma ajuda. Cena bem brasileira, tão comum, que parece normal.

Nunca mais a vi. Está morta, está viva? Não sei. Seu companheiro, tão sofrido, tão fraco, tão doente e dependente, que fim terá levado? Não sei.

Lembrei-me hoje do episódio. Aquele casal, unido na doença e na pobreza, é um exemplo de amor. Aquele mulher, tão forte em sua presença esgarçada, na certa teria merecido algum respeito. Os perversos mecanismos da sociedade brasileira não quiseram. Lá vem o Brasil descendo a ladeira.
Emanoel Barreto

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quarenta anos da morte do Che

Caros Amigos,
As coisas de jornal estão falando dos quarenta anos da morte do Che. Hoje, ele é uma foto em muitas paredes, ou um retrato impresso em camisetas de jovens que não sabem exatamente quem ele foi e o que pretendia. Mas olham aquele olhar que Alberto Korda captou magnificamente e se encantam com aquele enigma. Depois vão às baladas.

O tempo das revoluções talvez já tenha passado. E as revoluções se transformaram em registros históricos. Ninguém mais, em sã consciência, acredita que a classe operária vai chegar ao paraíso. Os shopping centers garantem isso. As TVs de plasma são mais atrativas que as revoluções.

Somos uma humanidade que teme o aquecimento global, o tráfico de armas e drogas e as ações furiosas de Osama bin Laden.

Não há mais tempo para preparar, ou buscar, ou pensar num futuro de igualdade. Não temos mais tempo para pensar na Revolução. E o Che, como Itabira, é só um retrato na parede. Mas como dói.
Emanoel Barreto

domingo, 7 de outubro de 2007

O que é de César

Caros Amigos,
A sociedade do espetáculo, que se expandiu e se firmou especialmente pela consolidação da TV como veículo primordial de visão e divulgação do mundo, trouxe a reboque uma circunstância inesperada: a midiatização religiosa, transformando Jesus Cristo em super star, Nossa Senhora em mito pop e os anjos em ídolos imateriais.

Isso, em se falando de marketing católico, cujo panteão abrange muitas manifestações de fé, respeito e amor por entidades sobrenaturais. Quando se fala de protestantismo, cujos fiéis hoje preferem ser conhecidos pela marca evangélicos, a coisa fica diferente. Admitem o Espírito Santo como integrante do seu elenco de salvadores. Mas as palmas vão, mesmo, para Jesus.

É da mercadoria Jesus, da marca Jesus, que advêm seus maiores aportes financeiros. A Igreja Católica, da mesma forma, também cultua a figura exemplar do Rabi da Galiléia. Mas, alguns de seus segmentos, midiatizados e extremamente profissionalizados, obtêm êxitos financeiros com programas de exaltação, onde Jesus também é mercadoria fina e rentável.

Este texto, que tem, sei disso, uma apresentação efetivamente crítica, não objetiva criticar a fé, a crença em um ser supremo. Meu objetivo é lamentar a utilização da fé como mercadoria, dentro de um contexto de economia globalizada. Vão longe os tempos em que, nos púlpitos, católicos ou protestantes, se pregava a palavra da crença com o uso da retórica, com gestos grandiosos e oradores de grande poder de convencimento.

Havia, é claro, a atitude teatral, o vigor da palavra, o acendimento da fé mediante o impressionismo. Mas, suponho, existia também sinceridade, o próprio orador imerso em seu discurso. Hoje, o discurso mesclou-se ao discurso televisivo, com os recursos de edição, cortes, enquadramentos, vinhetas e cenários. A isso deve ser ajuntado o desencantamento das multidões, que se encantam novamente via imagem telemidiática.

Há portentosos eventos que são vistos pelos participantes de co-presença, mas que também são vistos em tempo real por pessoas em suas casas. O espetáculo só é espetáculo porque há um público ali presente e esse mesmo público, espetacularizado, é visto por um público não-presente, mas atento, no recôndito do lar, ao que está acontecendo. Há uma cadeia, uma teia de acontecimentos: o grande espetáculo da vida religiosa, visto por quem também tem um sentimento de pertença àquele grupo, todos numa ação global de louvor.

Em verdade, em verdade vos digo: o que vale é a aliança que se forma entre a participação co-presencial e a participação tele-assistencial. Ao fundo, o pastor e o padre conferem com seus contadores quem pagou ou não. Suponho que hoje, de alguma forma, ressurge midiaticamente a figura dos vendilhões do templo.

Talvez seja chegada a hora de todos, todos eles, serem expulsos do vestíbulo, pois suas oferendas são venais e lucrativas. César não quer as coisas de Deus. E, Deus, também não quer o que é de César. Os sofrimentos do mundo são muitos. E vender a salvação virou objeto de lucro. Compre um carro novo, compre a TV de tela de plasma, compre também um jeitinho de escapar do purgatório, ou até mesmo do inferno.

Mas se você quer mesmo ser um justo, fique em paz e deixe Deus de fora dessa coisa de dinheiro. Não precisa nem mesmo rezar, ou orar como dizem outros. Seja honesto, digno e honrado. Creio que isso agrada a Deus. Ser bom é ser feliz, como dizia a minha Mãe. Seja bom e afasta-se dos trinta dinheiros.
Emanoel Barreto

sábado, 6 de outubro de 2007

O direito à preguiça

Caros Amigos
Vejo na TV um professor doutor defendendo o direito à preguiça como algo de real importância para o povo brasileiro. Entre boquiaberto, perplexo, desencantado, caio em mim e entendo: preguiça pode mesmo virar jurisprudência social num povo que, convenhamos, não é mesmo muito chegado ao trabalho.

Os feriadões são espécies de datas sacras trabalhistas e infundem um tal estado de espírito carnavalesco-ocioso, que chego a temer pelas noções de civismo e responsabilidade. Às favas com tudo isso... é a norma. E lá vamos nós para o ócio desabalado.

E, chegando o domingo, vem mais um dia de modorra barulhenta, descanso esparramado em velhacaria televisiva vulgar e insusportável de programas como o do Faustão, que brada suas grosseiras baboseiras para um público que urra, após haver assistido a mais um jogo de futebol.

Diante de tudo isso, começo a suspeitar: será que o Brasil não é uma pegadinha?
Emanoel Barreto

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Tristes costumes políticos

Caros Amigos,
A decisão do Supremo, determinando que os mandatos pertencem aos partidos, não aos mandatários, inaugura, espero, um encaminhamento - mesmo que ainda tímido -, de nossos costumes políticos a uma postura algo civilizada.

É preciso acabar com a figura do velhado de paletó, que ao não ter atendidos seus apetites, muda de bando e se insere naquele que mais lhe atende aos intentos de pirataria.

Se alguém integra um partido político é porque o faz em consonância com afinidades ideológicas e históricas. É inaceitável que alguém mude de sigla partidária como quem sai da um ônibus político e passa para outro.

Trata-se, lamentemos, de uma cultura de há muito enraizada nas atividades políticas; mais que isso, integra a cultura nacional maior, os costumes do dia-a-dia, o jeitinho brasileiro, as coisas nossas do cotidiano.

E as pequenas infrações, corrupções, facilitações, enganações e procedimentos correlatos, terminam desaguando na eleição de mestres talentosos na estimada arte - em alguns círculos -, da manobra política em proveito de si e dos seus.

A determinação do Supremo dá algum alento a quem espera por novos tempos. Esperemos que estes venham, como se fora uma manhã aberta a uma nova vida à cidadania.
Emanoel Barreto

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Um poema de Lord Byron

Caros Amigos,
Abaixo, "O Oceano" de Lord Byron. Belo, soturno, denso, talássico.

Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!
Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;
de ruínas o homem marca a terra, mas se evola
na praia o seu domínio. Na úmida extensão
só tu causas naufrágios; não, da destruição
feita pelo homem sombra alguma se mantém,
exceto se, gota de chuva, ele também
se afunda a borbulhar com seu gemido,
sem féretro, sem túmulo, desconhecido.

Do passo do há traços em teus caminhos,
nem são presa teus campos. Ergues-te e o sacodes
de ti; desprezas os poderes tão mesquinhos
que usa para assolar a terra, já que podes
de teu seio atirá-lo aos céus; assim o lanças
tremendo uivando em teus borrifos escarninhos
rumo a seus deuses - nos quais firma as esperanças
de achar um portou angra próxima, talvez -
e o devolves á terra: - jaza aí, de vez.

Os armamentos que fulminam as muralhas
das cidades de pedra - e tremem as nações
ante eles, como os reis em suas capitais - ,
os leviatãs de roble, cujas proporções
levam o seu criador de barro a se apontar
como Senhor do Oceano e árbitro das batalhas,
fundem-se todos nessas ondas tão fatais
para a orgulhosa Armada ou para Trafalgar.

Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:
Grécia, Roma, Cartago, Assíria, onde é que estão?
Quando outrora eram livres tu as devastavas,
e tiranos copiaram-te, a partir de então;
manda o estrangeiro em praias rudes ou escravas;
reinos secaram-se em desertos, nesse espaço,
mas tu não mudas, salvo no florear da vaga;
em tua fronte azul o tempo não põe traço;
como és agora, viu-te a aurora da criação.

Tu, espelho glorioso, onde no temporal
reflete sua imagem Deus onipotente;
calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,
quer a gelar o pólo, quer em cima ardente
a ondear sombrio, - tu és sublime e sem final,
cópia da eternidade, trono do Invisível;
os monstros dos abismos nascem do teu lodo;
insondável, sozinho avanças, és terrível.

Amei-te, Oceano! Em meus folguedos juvenis
ir levado em teu peito, como tua espuma,
era um prazer; desde meus tempos infantis
divertir-me com as ondas dava-me alegria;
quando, porém, ao refrescar-se o mar, alguma
de tuas vagas de causar pavor se erguia,
sendo eu teu filho esse pavor me seduzia
e era agradável: nessas ondas eu confiava
e, como agora, a tua juba eu alisava.
Lord Byron


(Tradução de Castro Alves)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Milhões de homens a morrer de fome

Caros Amigos,
O medo se espalha
no ar como peste invisivel.

Uma mulher aborta
E joga a filha em riacho imundo
para garantir-lhe uma morte bárbara.

Corrupção se espalha.
Mancha de óleo social
ensopa nossos olhos nas páginas do jornal.

As balas travam seu brutal diálogo
e gritam tiros de morte e de dor.

Um político sujo sobe à tribuna
e expõe solerte propostas pegajosas.

Nossas vidas caminham a passos tardos
Enquanto um grupo de
senhores, em gabinete fausto,
Secretam planos para transformar
em pasta milhões de homens
a morrer de fome.
Emanoel Barreto

sábado, 29 de setembro de 2007

Pequena história dos infames

Caros Amigos,

Infames percorrem todas as calçadas,
Remoendo urros,
Ruminando horrores,
Trabalhando o Mal.

Infames ocupam muitos dos Poderes,
Apregoando bênçãos,
Orando ao dinheiro,
Recebendo palmas, ganhando milhões.

Ímpios (ó, os ímpios, que palavra antiga - tão velha como os degenerados),
Sobem as escadas,
E sorrindo hasteiam todas as bandeiras,
Pendões da vitória indecorosa.

Infames falam bem todos os dias
E dizem o quanto são tão bons,
Depois se retiram ao silêncio escuro e visgo.

Depois cantam e cantam e cantam...

Emanoel Barreto

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Olá, Insanidade...

Caros Amigos,
O Estadão Online está informando o seguinte:
"LONDRES - O Chelsea pode contratar o atacante Ronaldinho Gaúcho por "apenas" 14 milhões de libras (cerca de R$ 55 milhões) no fim desta temporada, afirma nesta quinta-feira o jornal britânico The Sun. O brasileiro, que tem 27 anos, poderia se beneficiar do artigo 17 do regulamento da Fifa para abandonar o Barcelona. A norma diz que se um jogador de 28 anos tiver jogado por um clube durante cinco anos pode ser liberado se comprar o resto de seu contrato."

Vemos aí uma completa subversão de valores, quando um espetáculo de mídia, como o futebol se tornou, ascende ao pódio de empresa cujos produtos, ( os jogadores e os jogos), são comercializados a preços ciclópicos em sua área de mercado.

Quando o espetáculo atinge assim tais níveis de valores, configura-se o demonstrativo de uma sociedade global movida pela necessidade do prazer coletivo, urrante como numa arena romana.
Só que hoje não corre o sangue dos gladiadores, mas jorram rios de dinheiro para as mãos dos investidores nesse tipo de mercado.

Não critico em si o que o jogador vai ganhar. Temo porém as circunstâncias históricas, em que uma massa histérica se deixa de alguma forma conduzir por emoções empacotadas em um sofisticado esquema de comunicação, que hedoniza o futebol, mitifica seus praticantes e faz do seu público uma multidão alegre, que compensa as coisas ruins que essa vida nos dá, com um grito de gol.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Cipó de aroeira

Caros Amigos,
O JB publica matéria em que fala de determinação judicial para que militares envolvidos em captura e morte de guerrilheiros nos anos 1970 dêem conta de onde foram parar seus corpos. Os envolvidos estão dizendo que não vão colaborar e um deles até garante que, se for chamado a depor, responderá à bala.

Não tenho mais idade para acreditar em revoluções. Mas entendo que o Brasil precisa passar a limpo essa história e contar aonde foram parar jovens que amavam tanto a revolução, pensavam em Cuba e acreditavam que um dia a classe operária chegaria ao paraíso. Sua juventude e, até mesmo, sublime loucura, merecem essa reparação.

Lendo a matéria, lembrei-me de uma composição de Geraldo Vandré, "Aroeira".
Transcrevo abaixo. Sem comentários.

Vim de longe vou mais longe, quem tem fé vai me esperar
Escrevendo numa conta pra junto a gente cobrar
No dia que já vem vindo
Que esse mundo vai virar

Noite e dia vem de longe
Branco e preto a trabalhar e o dono senhor de tudo
Sentado mandando dar e a gente fazendo conta
Pro dia que vai chegar

Marinheiro, marinheiro quero ver você no mar
Eu também sou marinheiro eu também sei governar
Madeira de dar em doido vai descer até quebrar
É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar

Emanoel Barreto

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

"Presidente, socorre eu!"

Caros Amigos,
As coisas de jornal contam que o lavrador Ângelo de Jesus, vindo da Bahia, tentou invadir o Palácio do Planalto, faminto e desesperado. Queria falar com Lujla. Enquanto era dominado pelos seguranças, os integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social passavam ao largo, envoltos em sua aura palaciana, para uma reunião com o Presidente.

Irônico, não? Eles iam tratar de um problema que estava ali, ao seu lado, gritando de fome e clamando por justiça. Todos os pobres deste País estavam ali representados naquele homem tão pobre, tão desamparado.

Ângelo de Jesus, antes de ser colocado, algemado, em uma ambulância, gritava, como se Lula tivesse algum interesse em sua pessoa: "Presidente, socorre eu! Presidente, socorre eu!"

Não, não, Lula não socorreu, sequer falou com aquele brasileiro esfomeado e pobre. Mas falou com Renan Calheiros, que já havia falado com muitos senadores para não ser chutado da vida pública, que haviam falado com cabos eleitorais para ser eleitos, que falaram com pessoas pobres para votar nos senadores, que falam todos os dias em honestidade, que é falada em muitas bocas mas muito pouco posta em prática por quem fala nos palanques e tribunas para dizer que é preciso trabalhar pelo povo, e falam que vão falar com algum figurão para liberar uma verba, mas depois falam que a verba não foi liberada, mas prometem que vão falar novamente, mas não falam que as pessoas não confiam mais nos políticos, mesmo que Calheiros fale que todo o País o entendeu e aplaude sua continuação como presidente do Senado, enquanto Aloísio Mercadante fala que não votar pela cassação de Calheiros foi um ato de justiça.

Emanoel Barreto

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Muito dinheiro para poucos

Caros Amigos,
Vejam só a historinha que a Folha Online está divulgando: "O Tribunal de Justiça da Bahia mandou a Assembléia Legislativa pagar uma indenização de cerca de R$ 150 milhões a 101 ex-deputados estaduais ou familiares pensionistas que contribuíram para a caixa de previdência da Casa, extinta em 1998. O valor da indenização eqüivale a 68,18% do orçamento anual da Assembléia (R$ 220 milhões)."

Pode? A cultura paternalista às custas do dinheiro público, o filhotismo, somente isso, permite uma decisão como essa.

O que esses homems e mulheres ex-deputados fizeram tanto, para receber tanto dinheiro? Foram cumpridores de seus deveres, guardaram fidelidade partidária, apresentaram projetos de grande relevância social, enfim, serviram à sociedade de maneira realmente séria?

Temo que não. Tanto, que formaram esse grupo para pedir tanto dinheiro. A sentença não leva em consideração que, segundo as coisas de jornal, o pagamento é superior ao orçamento anual da Assembléia da Bahia, no valor de 200 milhões de reais. É insensatez ou ingenuidade?

Enfim, essa a nossa cultura: aproveitar as coisas públicas para uso do privado, atendendo a ganâncias que vão se espalhando.
É isso.
Emanoel Barreto

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Tutti buona gente...

Caros Amigos,
O ex-banqueiro Salvatore Cacciola, preso em Mônaco, aguarda uma decisão da justiça local decidindo o seu destino: ser ou não ser - eis a questão - extraditado para o Brasil, onde cumprirá pena por fraudes ao sistema financeiro nacional.

O pior, o mais triste, é que ele, à época do golpe, o ano de 2000, foi solicitamente atendido pelo governo federal, que lhe vendeu dólares a preços abaixo da cotação do mercado, a fim de impedir que seu banco, o Marka, fosse à falência.

Alegou-se à época que, se isso ocorresse, haveria um efeito-dominó, prejudicial a toda a economia. Creio que não era verdade. Ele tinha negociatas que implicavam dívidas de 20 vezes o patrimônio líquido do banco. Quebrou, foi preso, ganhou um habeas corpus e, como soe acontecer, claro, fugiu.

Agora, o governo brasileiro, o quer de volta. O Governo FHC foi quem favoreceu o então banqueiro.

Pergunta-se: por que pessoas de renomadamente suspeitas são assim, tão beneficiadas pelos governos? Por que os governos não adotam planos para beneficiar a sociedade como um todo?

São as cavilações do sistema que fomentam e fermentam a corrupção. É triste, mas é verdade.
Mas, no caso das elites, como se sabe, é tutti buona gente...
Emanoel Barreto

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Os traficantes e a ação do Bope

Caros Amigos,
O filme Tropa de Elite, que já é sucesso em dez de cada dez bancas de camelôs do País, pode virar série na Globo. É o que dizem as coisas de jornal. Ao que li, a obra trata de um policial, o capital Nascimento, rígido comandante de um grupo de militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais-Bope, em rigorosa - entenda-se implacável - ação contra bandidos, quando não tem limites para reprimir o tráfico no Rio de Janeiro.

A obra, ao que entendi, trata de uma brutal e diária realidade brasileira, cujos desdobramentos históricos não são levados a sério pelo Estado, que limita sua presença à repressão e se omite de uma ação firme em favor do social. Não digo que a presença da polícia contra os criminosos deva esmorecer. Mas é preciso que haja uma grande reforma de mentalidade de Estado, sentido histórico do que está acontecendo, a fim de que se tente reverter ou mitigar o problema.

Em um mundo onde valores e comportamentos estão em crise, deveria haver um ação ampla, um governo que atacasse de frente o problema em toda a sua extensão sócio-criminal. Senão, em muito pouco tempo este País estará vivendo um caos tamanho que certamente não será possível reverter.

Junte-se a isso o fato de que a sociedade, de alguma forma legitima o tráfico no instante mesmo adquire a mercadoria dos traficantes.

A esfera pública, em algumas de suas parcelas, valida a droga como elemento componente de um estilo de vida. Grandes criminosos internacionais vêm ao Brasil implantar seus esquemas de distribuição e fazem fortuna. A Polícia Federal tem uma atuação exemplar, mas não é o suficiente: essas partes da sociedade que consomem drogas aprovam a presença do traficante. É uma lagitimação transversa, mas é de alguma forma um discurso de disrupção, um afrontamento.

Mas eu estava falando do Bope. Aguardo o lançamento do filme. Creio que dá bem uma idéia do grande problema que temos nas mãos.
Emanoel Barreto

sábado, 15 de setembro de 2007

Faltou povo na rua

Caros Amigos,
O senador Pedro Simon disse ao JB uma grande verdade: faltou povo na rua para clamar pela cassação de Calheiros. É isso. Sem a pressão popular, sem a manifestação pública de que não dá para suportar a indignidade presidindo o Congresso Nacional, realmente ficou mais fácil a Caheiros escapar. Escapou pelos fundos, portas do cenáculo a indecência cerradas ao olhar da imprensa.
Uma coisa, entretanto, é certa: esses hábitos pouco dignos do que se convncionou chamar de classe política, são produto da cultura maior, da cultura nacional do jeitinho, do primeiro-o-meu, do me-ajuda-que-eu-te-ajudo, do amigo-meu-não-tem-defeito. O brasileiro construiu um relacionamento social em que prevalecem costumes de escapismo e matreiricer diante do dia-a-dia. Nosso monumento de desigualdades sociais e cconômicas permitu que tal munumento se edificasse em bases sólidas. E deu no que deu.
Sei que estou sendo reducionista. Até mesmo porque o espaço não próprio para uma tese sociológica. Mas, na essência é isso mesmo: quem está no Congresso representa com exatidão das diversas facetas do povo brasileiro. Daí porque Calheiros ficou. Há milhares deles, senão milhões, pelas ruas.
Por isso faltou povo nas ruas: os renans não quiseram protestar.A corrupção tornou-se algo natural e assim seguimos nós.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Queria dormir

Caros Amigos,

Queria dormir e acordar num sonho.
Queria dormir e acordar
num país novo, refeito, renovado, luzente, passo à frente.

Queria dormir e
acordar com um jornal cheio de boas novas:
tudo mudou.

Quem falava o mal
ficou mudo
Quem queria mudar, não se calou.

Queria mudar
e nudar quem se veste de seda
e trás no dedo o falso brilhante.

Queria, queria tanto
calar as vozes que gostam do silêncio viscoso
dos atos insensatos.

Queria dormir...

Emanoel Barreto

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Escárnio

Caros Amigos,
Os senadores que votaram a favor de Renan Calheiros escarneceram do povo brasileiro. Contra o bom senso, mais que isso, contra a honradez, a dignidade, o respeito ao pudor público, o Presidente do Senado foi absolvido e o processo por ofensa ao decoro parlamentar, aquivado. Trata-se de uma das páginas mais deploráveis de quantas o Senado já se enxovalhou.

Deputados, garantidos por uma decisão judicial, foram atacados pelos seguranças do Senado, na tentativa destes de desrespeitar uma ordem que garantia aos parlamentares acesso e visão de tudo o que Calheiros e os seus iguais queriam que se passasse na obscuridade de um plenário lacrado, portas seladas ao olhar da sociedade civil.

Estamos, lamentavelmente, ainda presos a um sistema político atrasado, anti-democrático e validado pelos mais nauseantes costumes e práticas indecorosas. Entretanto, o ato de maior indignidade, certamente, não foi perpetrado pelos que votaram pela absolvição. O ato mais torpe foi cometido pelos que se abstiveram, pois sequer tiveram a dignidade - mesmo que uma dignidade maculada - de assumir uma postura, como é o caso do senador Aloisio Mercadante, que confessou à imprensa ter sido um dos deles.

Os mais depravados valores da nossa cultura política foram postos em ação, quando da decisão de que a votação seria em regime fechado, portas ocultando o coletivo ato de imoralidade. Todo um sistema foi movimentado, engrenagens enferrujadas chiando, rangendo à força da propulsão de apetites inconfessáveis. Escárnio, escárnio, escário...

Emanoel Barreto

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Os senhores do horror

Caros Amigos,
Seis anos após o atentado de Osama bin Laden aos Estados Unidos, ele continua, como um pesadelo insano, a aterrorizar o povo americano. Sua figura patética passa a idéia de um ser humano frio, calculista, insensível, devoto de uma religão cujo livro sagrado permite interpretações que justificam qualquer ato de violência para responder àqueles que se colocam como seus inimigos.

Osama é tudo isso e muito mais. Entretanto, seu equivalente ocidental, o american way of life, de alguma forma representa o seu duplo, o reverso da mesma moeda. O fundamentalismo neoliberal dos EUA e antes, sua histórica política externa belicista e imperialista, podem ser considerados como a causa remota do surgimento de inimigos terríveis e demenciais como ele. São dois pólos opostos que guardam entre si uma deprimente e assustadora semelhança no instante em que se cruzam.

Lamentemos pelos que morreram ou ficaram para sempre traumatizados pelo horror do 11 de setembro, sua brutalidade e perversa execução. Mas tenhamos medo também da devassidão ambiciosa que leva o Presidente dos Estados Unidos, qualquer que seja ele, a manter o mundo, especialmente os países pobres ou miseráveis, em permanente dependência e fome, enquanto a sociedade americana celebra o seu festim.
Emanaoel Barreto

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Policiais querem censurar "A elite da tropa"

Caros Amigos,
Um grupo de 20 capitães da Polícia Militar do Rio está tentando, na Justiça, impedir a exibição do filme "A elite da tropa" que trata de ações de repressão ao tráfico de drogas nos favelas da cidade. Consideram o filme ofensivo à corporação, além de servir de indicativo de como determinadas táticas se processam, antes e durante o confronto com os criminosos.

Parecem esquecer que os tempos da ditadura acabaram. Se podem e devem reprimir com rigor o tráfico, o mesmo não se diz quando se trata de respeitar o direito à livre circulação de idéias e opiniões, o que também se dá via cinema.

O filme está sendo muito esperado, pois uma versão pirata já se encontra à venda e, dizem as coisas de jornal, teve boa aceitação, chegando a competir com blockbusters como "Duro de matar - 4".

Isso já repercutiu na mídia e estimula a curiosidade a respeito do filme, que tem uma seqüência de cinco minutos disponível no You Tube. Não se sabe se foi uma jogada de marketing ou alguém que vazou para aquele portal.

Não vi a cópia pirata, apenas a versão no You Tube. Ali dá para perceber que a obra tem todos os componentes para atrair um bom público: tensão e verossimilhança, uma vez que trata de uma realidade que nos é bem próxima, lamentavelmente. Não compre o disco pirata. É melhor, e legal, ver no cinema. Ou então dê uma olhada no Tube.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Pátria minha

Caros Amigos,
Sete de Setembro, "Pátria Minha", de Vinícius de Morais. Sem comentários.

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria.
Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei.
De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha

Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.Pátria minha...

A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular

Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...

Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha

Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

Abaços,
Emanoel Barreto

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

E Osama gritou:"O rei está nu!"

Caros Amigos,
As coisas de jornal estão informando que, na Austrália, um comediante vestido de Osama bin Laden conseguiu ultrapassar a rígida segurança que cerca o Forum de Cooperação Econômica Asia-Pácifico, que se realiza em Sydney e chegou até à zona de segurança máxima, a poucos metros do hotel onde está hospedado o presidente George W. Bush. Ali, ele e seus companheiros foram detidos.

O ministro das Relações Exteriores, Alexander Downer, garantiu que a segurança foi eficiente ao afirmar: "Eles provavelmente pretendiam humilhar muita gente conhecida. O que importa é que, em todo caso, eles foram detidos."

O Forum, cuja sigla em inglês é Apec, reúne 21 representantes de países da região ao redor da Ásia-Pacífico, com um único objetivo: discutir sobre dinheiro, ou seja: delimitar ganâncias, estimar lucros para as grandes corporações, fixar normas que garantirão ao capital monopolista internacional mais e maiores lucros.

Resumindo: todos os que ali estão buscam reunir-se em torno de coisas mesquinhas, quando há tantas questões em jogo: o aquecimento do planeta; os milhões e milhões de pobres e miseráveis que vão morrrer de fome ou se arrastar a vida inteira em favelas e sub-habitações, vivendo com um dólar ou menos por dia; o belicismo dos Estados Unidos; o desvario da globalização; a loucura dos homens-bomba e seus opositores; o descompromisso dos países centrais com esse ser coletivo que se chama humanidade. A lista poderia, literalmente, não ter fim.

O que penso dessas pessoas reunidas? Acho-as ridículas, para dizer pouco. Assim, os comediantes, que formaram uma caravana com batedores e tudo mais para chegar até onde Bush estava, fizeram muito bem em levar ao ridículo aqueles cultuadores do dinheiro.

O mundo está regido, hoje em dia, mais do que nunca, por grandes adoradores do deus mercado e todos o seu panteão simbólico: seitas midiáticas exploram avidamente pessoas fagilizadas, políticos ganham as redes de TV e se apresentam como salvadores e bondosos, objetos são mitificados e expostos como essenciais à vida, como celulares e carros cheios de conforto; valores como respeito humano e decência são vistos como quase que um aleijão para aqueles que os defendem; a futilidade é tida como um padrão de comportamento.

Portanto, os comediantes cumpriram o mesmo papel que o personagem da história "O Rei está nu": era um alfaiate que, a título de fazer para um rei uma magnífica, requintadíssima vestimenta, pediu-lhe ouro e pedrarias. Guardou tudo para si e, mostrando ao monarca um vestuário invisível, dizia-lhe como era vaporosa e itangível a veste real. O Rei, louco de deslumbramento, vestiu-a e saiu a desfilar pela cidade. Até que um menino gritou: "O Rei está nu!"

Os participantes do encontro também estão nus, em sua cupidez e ganância. Os artistas apenas apontaram isso.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O Rubicão de lama

Caros Amigos,
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado determinou que a cassação do mandato do presidente da Casa, Renan Calheiros, seja decidida em plenário, o que se espera que aconeça semana próxima. As coisas de jornal indicam que ali é grande a chande de Renan se livrar da cassação, pois a votação é secreta e ele precisa de 41 votos para manter-se no cargo.

A tradição de corrupção e impunidade da política brasileira diz que casos assim costumam acabar favorecendo os que destas se utilizam. Vide a Emenda Dante de Oliveira que reinstituía as eleições diretas no País e os historicamente recentissímas absolvições de deputados envolvidos com o mensalão.

As forças mais ocultas e mais trevosas da cena política do Brasil já estão trabalhando, estejam certos, para garantir a Renan o mandato, apesar dos poderosos indícios de que violou o decoro parlamentar.

O cinismo e a ausência de respeito que habitam corredores, salas e plenários da Câmara e do Senado, devem estar ofegantes, sem dúvida, ante a expectativa de que mais um dos seus devotos saia impune.

A falta de respeito à opinião pública é marca patenteada de há muito na vida pública nacional.

Apesar da pressão da imprensa, dos gritos das manchetes e da perplexidade que se espalham, fala-se que Renan pode triunfar. Caso ocorra, será a confirmação, mais uma vez, de que vive-se plenamente o tempo em que os homens têm vergonha de ser honestos, como dizia Rui Barbosa.

Vencendo, Renan terá atravessado seu Rubicão de lama e estará pronto para continuar, sem medo, a atuar nos espaços mais escuros da vida pública brasileira.
Resta esperar.
Emanoel Barreto

terça-feira, 4 de setembro de 2007

E Gisele disse: "Oh! My God..."

Caros Amigos,
A modelo Gisele Bündchen deu entrevista sobre o lançamendo de um xampu. Assunto importantíssimo, claro. Os jornalistas somente tinham direito a uma pergunta e nada sobre a vida pessoal, alertava sua deslumbrada assessoria. Colocada num púlpito, a moça demonstrou tédio e chegou a dizer "Oh! My God", quando lhe dirigiram uma pergunta.

Como se sabe, modelos são pessoas altamente preparadas, cultas, interessadas em temas da mais alta relevância e assim os jornais devem lhes dispensar atenção, espaço e tempo de seus repórteres.

A "entrevista", tipicamente um pseudo-acontecimento, serve para demonstrar como a agenda da mídia pode ser manipulada por agências de publicidade e relações-públicas.

Ao que li, o encontro com os jornalistas foi rápido. Entenda uma coisa: qualquer repórter mais ou menos experiente, sabe que a exposição de pessoas de mídia aos jornais deve conter exatamente esse componente: a fugacidade da personalidade midiática, a fim de que os jornalistas fiquem com aquela sensação de que faltou algo - a ser deslindado no próximo contato com a imprensa.

Primeiro, vem uma superexposição, a fim de alguém apareça e se fixe num nicho de interesse por parte dos jornalistas. Segue-se então a fase do "aparece/desaparece", com o exato objetivo de manter a curiosidade a respeito do mito que os jornais mesmos ajudaram a criar.

Falsifica-se uma personalidade, tornam-na célebre para depois depender dela para a obtenção de uma notícia. No caso, uma "notícia". Se os jornais deixassem Gisele e outros tipos como ela de lado, desapareceriam o encanto, a atração, o tropismo jornalístico. Ela passaria a implorar por uma linha impressa, uma imagem, uma declaração. Do jeitinho que era, quando começou.

Ela, como outros midiáticos, nada têm de especial. Isso lhes foi colado pela imprensa, atendendo aos anseios da manipulação do marketing. Ela é apenas uma mulher que veste e expõe sobre o corpo roupas, só isso. O simulacro funciona e a futilidade, a banalidade de jovens frívolas passam a atuar como elementos de importância social. E muitos tolos ficam boquiabertos.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Uma exposição funesta

Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que realizou-se no Guarujá, em São Paulo, uma feira promovida por agentes funarários, a Funexpo, que contou com shows de axé music e sorteio de três caixões para crianças. Havia, digamos assim, féretros para todos os gostos: caixões cor-de-rosa ( Caixão da Barbie) e outros com paetês e purpurina. Como a feira realizou-se num balnerário, sua logomarca foi um caixão sorridente sobre uma prancha de surfe.

A banalização da existência, ao que se vê, chegou a cúmulos nunca antes pensados. Afora o dado grotesco, bizarro da promoção, temos um algo de cruel, insano, perverso, nesse tipo de comércio. O marketing, em uma de suas mais desvairadas propostas, leva segmentos empresariais a abusar das pessoas, a quem querem colocar unicamente na condição de consumidoras.

O fato, em si deplorável, mostra uma ponta de iceberg: o objetivo do lucro não tem medidas. Veja-se a enlouquecida publicidade em torno de celulares. Chega-se a tal ponto que, falando por mim, já não entendo nem diferencio mais um anúncio de outro. Todos incentivam a que se fale, se fale muito nos celulares, como se a vida das pessoas se resumisse a um ato vazio de sentido: pegar um telefone e ligar por ligar.

Vivemos num mundo perigoso e sombrio. Quando se desrespeita até mesmo o grande mistério do fim da existência.
Emanoel Barreto

sábado, 1 de setembro de 2007

Oração para aviadores

Caros Amigos,
"Oração para aviadores" é poema de Manuel Bandeira. E bastante atual para os tempos de hoje em dia. Bom final de semana.

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,de feição.

Estes mares, estes ares
Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.

Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Caros Amigos,
algumas notinhas rápidas:
  • Continua o deplorável combate entre Renan Calheiros, seus iguais e uns outros tantos, contra aqueles que querem ver valer a moralidade, com a cassação do político alagoano. Tristes tempos, pobre povo, que tem no senado um homem tão enormemente baixo em termos de estatura moral.
  • O Supremo, após a grande lição de considerar réus os 40 do mensalão, deixa vazar que seus membros votaram "com a faca no pescoço", ante a pressão da imprensa. Discordo. A pressão dos jornais não foi exatamente dos jornais: estes, de algum modo, refletem a insatisfação nacional com o lodoso terreno em que se move a política brasileira. E como, afinal, saiu uma decisão que coloca corruptos na condição de réus, houve festejos em cada cidadão digno desse nome. A imprensa cumpriu o seu papel.
  • E as coisas de jornal informam que na China havia um elefante viciado em heroína, que lhe era administrada pelos seus tratadores, juntamente com a comida. Assim, o animal liderava a manada para onde os tratadores quisessem. Autoridades florestais tomaram conhecimento, apreenderam o animal e o trataram durante um ano. Agora, o elefante está prestes a ser devolvido à floresta. Pobre mundo, em que pessoas se dedicam a drogar um animal para que ele atenda aos seus comandos. Pobre mundo, pobre mundo...

Emanoel Barreto

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Um ciúme muçulmano

Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Um ciúme feito de lençol. Fino e enlaçante como um abraço no silêncio cúmplice da noite. Noite de largo plenilúnio. Um ciúme delicado, tecido ao longo das páginas de um pergaminho construído de tempo. Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Daqueles que são feitos de aparições contínuas. Um ciúme namorado, diferente, protetor como uma tenda. Oásis.

Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Um ciúme que não segue os passos, porque já conhece e confia em todos os caminhos. Às vezes ficava parado, sentado à sombra de uma palmeira marroquina, observando o caminhar das caravanas que seguem caminhos feitos de distante.

A Mulher era feita de princesa e paz, gestos no ar fino da manhã de aurora. Depois, Ela se compunha, feita de acordes. Acordes em perfeito maior. O estranho naquele Casal era o seu silêncio calmo. Um silêncio que seguia sempre. E surgia nas curvas da vida como um momento que não tem minutos, como um instante que não tem segundos. A pausa do violino que espera um lá. Gesto de maestro que virou semínimas.

Para o Casal o tempo não passava, pois seu todo tempo era eternidade e eternidade é um tempo sem fim. Como nave grega que procura Ítaca. A Mulher, menina, estava companheira. Fazia-se de tarde, quando se queria noite; sentia-se manhã, quando se queria dia. Um dia inteiro, permanente instante. E o sol, amigo, só tinha estrelas. Como se fosse lua, crisálida de luar.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Só Ali Babá reuniu tantos...

Caros Amigos,
Quando criança, eu ouvia na Rádio Rural de Natal, aos domingos, um programa infantil que repetia inevitavelmente as mesmas histórias. Uma delas era a de Ali Babá e os quarenta ladrões. Os bandidos tinham até uma musiquinha, uma espécie de hino. Era assim: "Nós somos ao todo quarenta/Quarenta famosos ladrões/Roubar o ouro não contenta/Nós só queremos milhões."

E agora nos chegam os 40 mensaleiros, colocados agora na condição de réus pelo Supremo Tribunal Federal. Não são poucos corruptos. São quarenta homens e mulheres, todos ricaços ou quase isso, poderosos e influentes. Quarenta indivíduos com notável poder de fogo jurídico para se defender.

Advogados caríssimos ganharão milhões ao longo da causa que no mínimo se arrastará por três anos, dizem as coisas de jornal. Acho que isso vai durar muito mais tempo. E temo que nenhum seja preso. Pelo menos, com a atitude do STF, levantou-se a ponta do tapete da impunidade. Espera-se que todo o tapete seja levantado, descobrindo-se toda a sujeira que estava jogada embaixo.

Mas, como no mundo da fantasia infantil havia tapetes mágicos, os quarenta famosos bem poderão achar o seu e sair, airosamente, voando ante os nossos olhos estarrecidos... O Brasil não muda assim tão fácil.
Emanoel Barreto

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Os barcos mortos

Caros Amigos,
Uma lembrança de Natal.

Os barcos mortos

Trágicos em seu silêncio de madeira triste,
os barcos mortos do Potengi
são relembranças de marés em preamar.

Grandes corpos de madeira que sofre,

seus corpos se vão.
E seguem parados,
sem vela ou navegador.

Quantas vezes se fizeram ao mar,

quantas vezes se apressaram no confronto com ondas.
E de todas as batalhas corsárias de que participaram,
voltaram sob a bandeira da vitória.

Pescadores, corajosos,

enfrentaram tempos,
bateram milhas,
superaram noites.
E agora, guerreiros esquecidos,
sucumbem ao silêncio do frio.

E ninguém, ninguém,

se lembra de que lutaram tanto.
Emanoel Barreto

sábado, 25 de agosto de 2007

Para meditar

Caros Amigos,
Transcrevo pequeno tracho das Catilinárias, série de discursos em que o grande orador Cícero denunciava as trevosas tramas de Catilina para desmoralizar o Senado e até mesmo destruir Roma, para se apoderar da República.
Segue:

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes factos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.


Pois não é verdade que uma personagem tão notável. como era Públio Cipião, pontífice máximo. mandou, como simples particular, matar Tibério Graco, que levemente perturbara a constituição do Estado? E Catilina. que anseia por devastar a ferro e fogo a face da terra, haveremos nós, os cônsules, de o suportar toda a vida? E já não falo naqueles casos de outras eras, como o facto de Gaio Servílio Aala ter abatido, por suas próprias mãos, Espúrio Mélio e, que alimentava ideias revolucionárias. Havia, havia outrora nesta República, uma tal disciplina moral que os homens de coragem puniam com mais severos castigos um cidadão perigoso do que o mais implacável dos inimigos. Temos um decreto do Senados contra ti, Catilina, um decreto rigoroso e grave; não é a decisão clara nem a autoridade da Ordem aqui presente que falta à República; nós, digo-o publicamente, nós, os cônsules, é que faltamos.

Decidiu um dia o Senado que o cônsul Lúcio Opímio velasse para que a República não sofresse dano algum. Pois nem uma noite passou. Gaio Graco, apesar da sua tão nobre ascendência, de pai, de avô e de seus maiores, foi morto por causa de certas suspeitas de revolta; juntamente com os filhos foi executado Marco Fúlvio, um consular. Com um mesmo decreto do Senado, foi a República confiada aos cônsules Gaio Mário e Lúcio Valério. Acaso adiaram eles mais um dia sequer a pena de morte, por crime de lesa-república, a Lúcio Saturnino, um tribuno da plebe, e a Gaio Servílio, um pretor?

Nós, porém, há já vinte dias que consentimos no enfraquecimento do vigor de decisão destes homens. Temos um destes decretos do Senado, mas está fechado nos arquivos como espada metida em bainha; e, segundo esse decreto senatorial, tu, Catilina, deverias ter sido imediatamente condenado à morte. E eis que continuas vivo, e vivo, não para abdicares da tua audácia, mas para nela te manteres com inteira firmeza. É meu desejo, venerandos senadores, ser clemente; é meu desejo, no meio de tamanhos perigos da República, não parecer indolente; mas já eu próprio de inacção e moleza me acuso.

Há acampamentos em Itália contra o povo romano. estabelecidos nos desfiladeiros da Etrúria, aumenta em cada dia o número dos inimigos; e, no entanto, o general desses acampamentos e o comandante desses inimigos, eis que o vemos no interior das nossas muralhas e dentro do próprio Senado, urdindo a cada instante algum atentado contra a República. Se. neste momento eu te mandar prender, Catilina, se eu decretar a tua morte, o que sobretudo terei de temer, tenho a certeza, é que todos os bons cidadãos me censurem por ter actuado tarde, e não que haja alguém a dizer que usei de crueldade excessiva.

A mim, porém, aquilo que já há muito deveria ter sido feito, fortes razões me levam a não o fazer ainda. Hás-de ser morto, sim, mas só no momento em que já não for possível encontrar-se ninguém tão perverso, tão depravado, tão igual a ti, que não reconheça a inteira justiça desse acto.Enquanto houver alguém que ouse defender-te, continuarás a viver, e a viver como agora vives, cercado pelas minhas muitas e fiéis guardas, para não poderes sublevar-te contra o Estado. È até os olhos e os ouvidos de muita gente, sem disso te aperceberes, te hão-de espiar e trazer vigiado como até hoje o têm feito.

Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite com suas trevas pode manter ocultos os teus criminosos conluios, nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração, se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público? É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia, e importa que os recordes comigo nesta hora.


Bom fim de semana.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Coisas feias feitas no escuro

Caros Amigos,

O senador Renan Calheiros, enxovalhado pela publicização de todos os seus atos de viscosidade moral, acossado pela vergonha congressual que está exposta em chaga nacional, caçado pela imprensa como uma besta, tenta agora seu último lance de dados, antes que se decida o seu fim: articula junto aos de sua igualha que a votação a respeito de sua cassação, ou não, no Conselho de Ética, seja feito em votação secreta. Ou seja: o que é feio, sórdido, civicamente pecaminoso, deve ser feito às ocultas, na calada das alcovas políticas mais recônditas. Isso,a fim de que os seus sicários, pela não revelação do voto, não sejam conhecidos, ao mesmo tempo em que estes lançarão, sobre quem deles discorda, a pecha da dúvida: quem salvou Renan? Não se poderá afirmar. Todos serão suspeitos e, ao mesmo tempo, eximidos de culpa. Não fui eu, não fui eu, não fui eu...

As coisas de jornal dizem que ele conta com nove dos dezesseis votos do Conselho. Com isso, o homem estaria livre em meio à escuridão que ele mesmo semeara. Há resistências a esse tipo de votação, mas Calheiros tem a essência dos rochedos submersos. Aqueles que, pontiagudos, põem a pique qualquer embarcação e se mantêm, na escuridão das águas profundas, a salvo, a salvo, a salvo. Nenhum marinheiro os vê, mas eles continuam lá, permanente ameaça a quem seja argonauta do decoro, da decência e da moralidade.

Sou, lamentavelmente, obrigado a concordar com o senso comum: isso só acontece no Brasil. Você imagina tais fatos ocorrendo na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, na Alemanha? Enfim, em qualquer país que tenha uma cultura política digna desse nome? Somente um congresso de indignos, num conciliábulo politicamente infernal, um homem como Calheiros ainda estaria, como está, ocupando cargo tão importante.

De um coisa estou certo: liberto Calheiros das cadeias morais que o tentam prender, calará fundo na nacionalidade um sentimento de repúdio, uma espécie de nojo ao político enquanto estamento. Só espero que esse sentimento coletivo não seja passageiro e venha de alguma forma refletir-se nas próxima eleições.
Ó tempos! Ó costumes!
Emanoel Barreto

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Um samba acabado

Caros Amigos,
Folheando as páginas da net vi, acho que ontem ou anteontem, uma coisa de jornal que deixou-me perplexo: um casal madrileno saiu à noite com um filho de poucos meses, deixou o carrinho do bebê numa esquina e foi, tranqüilamente, a uma boate. Após cinco horas marido e mulher chegaram a casa completamente embriagados e sem a criança.

Outro filho, de cerca de oito anos, entrou em pânico ao ver os pais naquele estado, já de madrugada, e sem o bebê, e teve a iniciativa e ligar para a polícia. O carrinho foi encontrado a cerca de 15 minutos da casa, os pais foram presos e liberados sob fiança e a criança vítima dos maus tratos foi levada a uma instituição que cuida de menores.

Sei que esse é um caso extremo de negligência paternal, como também o são os acontecimentos em que pessoas deixam recém-nascidos jogados no lixo e estes são quase que miraculosamente resgatados por passantes.

Os filhos, para essas pessoas, especialmente quando me refiro a famílias de classe média, como parece ser o caso do casal espanhol, podem passar a ser um estorvo. Entra em ação, aí, um mecanismo perverso de "vamos nos livrar do estorvo" e para tanto vale tudo: deixar crianças presas em casa, sozinhas, enquanto os pais se divertem, pedir a um vizinho para "dar uma olhadinha" e o que mais lhes der na telha.

O que impressiona é a banalização das relações familiares, quando pais e filhos, envoltos num processo de vida que esgarça os laços tradicionais de afetividade, tornam-se quase que desconhecidos uns dos outros. Os pais com uma vida que lhes é bastante própria e os filhos, encastelados em seus próprios aposentos, voltam-se mais para o computador e o MSN ou Orkut, ligando-se a comunidades virtuais.

Sei que isso é próprio dos tempos que vivemos, quando valores se emboloram e são substituídos por outros códigos de comportamento e relacionamento. Tal situação foi naturalizada e crianças e jovens passam a ser, para muitos pais, apenas um problema a ser resolvido da maneira mais fácil: dar-lhes um instrumento de diversão, no caso o computador, ou dinheiro para que também vão para a rua. Todos vivem um clima de festa, cujo final é sempre o mesmo: a família vira um samba acabado.
Emanoel Barreto

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Ele voltou. Sim... e daí?

Caros Amigos,
A Folha de S. Paulo, em jornalismo reverente, divulga no caderno Ilustrada a volta de William Bonner à apresentação do Jornal Nacional e lembra - importantíssimo -, que há algum tempo Fátima Bernardes afastou-se do programa, entre um bloco e outro, devido a uma labirintite. Oh......

Ele estava afastado por causa de dores lombares e foi submetido a tratamento.

Isso mostra como o JN tornou-se, até mesmo para o jornalismo, uma espécie de ícone da comunicação de massa neste país. Por que a volta de um jornalista a seu local de trabalho merece tal destaque? Comentei há uns dias a respeito da morte de Joel Silveira, cujo perfil, bem superior ao de Bonner, não ganhou qualquer relevância de mídia.

Então, por que a volta do jornalista da Globo recebeu exposição? Por uma fator muito simples, o JN naturalizou-se como o mais importante telejornalismo do País, e tornou-se alvo de fascínio e atenções, Foi glamourizado pela Globo e ganhou, na verdade, feição de um show. É um jornal que não se indigna com nenhum problema nacional, não demonstra repúdio às injustiças que diariamente o povo brasileiro sofre.

Às vezes, Arnaldo Jabor aparece, fazendo uns comentários à guisa de editorial, que mais se parecem com as coisas do Casseta e Planeta. É mais uma ação satírica, humorística, que postura editorial: séria e, se preciso, ferina; atingindo o ponto a ser denunciado.

Não, não, não. Não tem qualquer importância a volta de Bonner ao JN. Se ele estava com dores nas costas, fez muito bem em se afastar para tratamento. No mais, é preciso entender que o Jornal Nacional não têm ancoragem, como estão dizendo por aí.

Um âncora comenta, explica, analisa, interpreta e apresenta de alguma forma a voz social que ele supõe representar. Bonner não comenta nada. Ele só apresenta o JN. O resto é show.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Um tolo chamado Zottolo

Caros Amigos,
O velho e lamentável preconceito contra o povo nordestino volta à cena, com declarações do presidente da Phillips do Brasil, Paulo Zottolo. Para ele, "se o Piauí deixasse de existir, ninguém ficaria chateado por isso." Como houve um vigoroso repúdio à atitude no mínimo insana, Zotollo percebeu sua tolice e, pressionado a pedir desculpas pelo Governo do Estado, o fez publicamente em jornais e outros veículos com circulação no Piauí.

Desconheço o contexto em que a decclaração foi feita, mas esta revela como muitos brasileiros não-nordestinos vêem a nossa região, a vida do nosso povo, nossos valores e cultura.

Há uma imagem estereotipada do Nordeste como uma espécie de povoamento de pessoas levadas à indigência pela seca, padecentes de todos os sofrimentos que a terra queimada nos dá. Não se vê, como lembrou Euclides da Cunha, que o Nordestino é antes de tudo um forte. Somente um povo como o nosso, historicamente adaptado a conviver com as duras realidades da caatinga, conseguiria continuar a viver, com coragem e até mesmo com alegria.

Claro que Zottolo não fez o pedido de desculpas porque mudou de idéia de repente. Em Teresina houve protestos e foram quebrados produtos da marca Philips, em demonstração de repúdio. O que ele temia mesmo era uma retração nas vendas da sua empresa naquele estado.

Esse pessoal do dinheiro sofre da Síndrome do Tio Patinhas: não pode ver, sequer pensar, que em sua mala, em sua conta de lucros, está havendo qualquer índice de redução. Não: eles amam dinheiro, querem dinheiro, vivem para nadar em dinheiro.

Zottolo é, a meu juízo, um homem digno de pena. Vive só para ganhar dinheiro, o que, convenhamos, não é projeto de vida para quem se pretenda gente. Viver só para o dinheiro? Minhas comiserações.
Ah! Sim, um detalhe: a Phillips não é do Brasil. Pelo que sei, é dos holandeses...
Emanoel Barreto