sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Um amor escuro e torto

Cara Amiga,
Caro Amigo,

O desfecho do seqüestro deu-se dentro de um panorama bastante previsível. Um desequilibrado, tonto de amor doentio, acabou trazendo ao reality show a face horrenda da dor televisada. Até que ponto a TV pode ser responsabilizada, é um fato a ser analisado depois, à luz de dados que a própria imprensa deve e tem de trazer a público.

Por enquanto, a imprensa questiona a ação da polícia. Mas, qual a influência do noticiário ao vivo que a TV teve sobre o criminoso? Uma mente perturbada, um ego ferido em seu amor próprio, em sua vaidade, em sua ânsia de ter como objeto seu uma segunda pessoa tem, sim, território emocional fértil para ali semear suas insanidades, mesmo que momentâneas.

O matador sentiu-se inequivocamente o ator principal dessa tragédia. No pequeno apartamento, ali estabelecido o seu mesquinho império, ele ditava sua lei. Era algoz, mas se supunha vítima e isso era o suficiente para exercer o seu domínio sombrio. Com a TV veiculando milhares de vezes seu nome, alardeando sua lamentável notoriedade, o criminoso via-se como que amparado.

Os apelos, as tentativas de negociação, validavam, para ele, a centralidade de sua figura, a suposta pungência do seu drama. Ele superdimensionava sua dor. Ele e o seu escuro amor eram o centro do mundo. E o largo palco da mídia dava-lhe a sensação de ter razão. Deu no que deu. O jornalismo precisa pesar muito sua disposição para dar cobertura a acontecimentos assim.
A polícia precisa estar melhor preparada para agir.
Emanoel Barreto

Desligue o televisor

Cara Amiga,
Caro Amigo,

Continua o espetáculo do cárcere privado da jovem Eloá. O seqüestrador está tendo seus quinze minutos de fama. E seu drama - algo em si, simplório -, transformou-se em motivo de atenção nacional, pala intervenção televisiva que mudou em espetáculo um ato que mais precisaria da presença de um bom psicólogo.

A situação tem obviamente aspectos jornalisticamente relevantes, mas a presença da TV ao vivo, como elemento alimentador amplia, isso sim, sua dramaticidade, ao invés de contribuir para o desfecho. O seqüestrador, ao sentir-se como ator principal, alguém nacionalmente valorizado, é estimulado a agir, sustentando a situação. A interveniência televisiva, como tal, contribui para prejudicar, não para ajudar a dar fim ao seqüestro.

Caso persista a situação, sem que surja solução em seu horizonte humano, perderá paulatinamente seu interesse. Isso porque a continuidade, a rotinização de algum fato, o transforma em coisa cotidiana, comum, banal. Perdendo-se o interesse, cairá pouco a pouco de relevância e não terá mais o interesse das emissoras. Seria então a hora de a polícia, de forma competente e segura, convencer o rapaz a se entregar.

Quanto mais rápido as Tvs deixarem de dar atenção ao fato, mais rapidamente o problema será resolvido.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um reality show de verdade: e muito perigoso

Cara Amiga,
Caro Amigo,

No momento em que escrevo, Lindemberg Fernandes Alves, o seqüestrador da jovem Eloá estava pedindo a presença de alguém que seja torcedor do São Paulo Futebol Clube, para ajudar nas negociações. Antes, ele havia estendido na janela uma camisa com o emblema do time. Revelando-se um negociador talentoso tentou criar, com a atitude, um liame afetivo com a numerosa torcida do time. A TV informava que um diretor do São Paulo iria se apresentar para interferir, a fim de que a situação tenha logo um desfecho e que este seja o menos traumático possível.

A sensação de que sua atitude se tansformava em espetáculo televisivo, um realitiy show de alto impacto, sem regras e capaz de mobilizar largamente o público, fez com que ele agora tenha atitudes de estrela. São os efeitos perversos do jornalismo intensivo da TV. Um acontecimento que poderia muito bem terminar após uma negociação bem dirigida, agora ameaça tomar rumos imprevisíveis.

O rapaz, que demonstrou ser ou pelo menos estar em situação psicológica de desequilíbrio, pode assumir-se como estrela de mídia e querer criar seu espetáculo; espetáculo a que deu margem a cobertura intensiva e ao vivo a Record News. Claro, rádios e jornais também cobrem o fato e isso retroalimenta seu efeito dramático.

O jovem considera-se vítima. Agrediu a moça para se apresentar como tal. E nada melhor para uma vítima, que na verdade se vitimizou, que parecer assim aos olhos da multidão de telespectadores. E assumindo-se como vítima, terá o palco grande da TV para encenar loucuras que, sem a TV, certamente não teria encenado
.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O pão que o Diabo amassou

Cara Amiga,
Caro amigo,

As coisas de jornal em todo o mundo começam a sinalizar a iminência de uma recessão. Ao que parece, o mundo vai comer o pão que o Diabo amassou. Esse pão vem sendo amassado há muito tempo e agora, quando os bancos não vêem mais perspectivas de livrar-se de tão incômodo banquete, vão reparti-lo com a chamada economia real, ou seja: com a mesa de quem não participou da preparação dessa torpe iguaria.

Mais claramente: vai ser socializado o prejuízo, uma vez que os lucros já foram embolsados. E o deus mercado, que é fielmente adorado pelo Diabo, revela-se impotente para desfazer seu próprio feitiço. Quando isso ocorre, historicamente tudo o que há de pior é repartido. As elites estarão a salvo, a massa humana que vá para o inferno.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

All that jazz


Cara Amiga,
Caro amigo,

A foto, feita em 1954, mostra o então jovem trumpetista Chet Baker. É o que se poderia chamar de flagrante posado, mesmo que isso seja um paradoxo. Mas paradoxal era Chet, em sua música e talentos privilegiados; e o autor da foto, William Claxon, que morreu aos 80 anos sábado passado.

Chet era paradoxal em sua estatura musical, diretamente proporcional em seu envolvimento com as drogas. Claxon era paradoxal em sua competência para selecionar momentos essenciais, instantes de luz e sombras, passos e gestos de gente no mundo.

Trabalhava com privilégio na fotografia dos grandes músicos. E nada melhor do que conviver com grandes músicos, para se compreender a magia dramática de seu trabalho, perceptível e intocável, sensibilizador e intenso.
Deixa literalmente uma imagem do que seja o grande fotógrafo: a atenção, o ato e a captura do momento preciso.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Oração da Bolsa - ou Vade Retro Mr. Dollar

Cara amiga,
Caro Amigo,

Dólar nosso que estais no Inferno,
maldito seja o teu nome.
Não venha a nós o vosso terror
nem seja feita a vossa vontade,
nem aqui, ou em parte alguma.

O pão nosso de cada dia,
não tomai.
Perdoai as dívidas que nunca fizemos,
assim como nós perdoamos tudo o que
nos tomastes.

Não nos deixeis cair na recessão,
mas livrai-nos do vosso Mal.
Amém.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os otários querem futebol

Cara Amiga,
Caro Amigo,

As notícias, as coisas de jornal, informam que "o Rio Grande do Norte segue firme como candidato para ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Na próxima semana, Natal receberá os técnicos que farão um levantamento das cidades que buscam sediar os jogos. Eles virão com objetivo de fazer um estudo que será finalizado no dia 14 de dezembro e que servirá de base para a escolha das cidades-sede."
O Estado brasileiro fará descomunal esforço para desperdiçar dinheiro público com a Copa do Mundo, em 2014. E isso, como se não tivéssemos problemas como o combate às drogas, uma rede de saúde lastimável, péssimos salários pagos a professores dos três níveis, defesa do meio ambiente, proteção à Amazônia, malha rodoviária em péssimo estado... Fiquemos por aqui.
No Rio Grande do Norte, estado riquíssimo, como se sabe, a farra com o dinheiro do contribuinte terá resultado inversamente proporcional às suntuosas instalações que a Fifa exigirá. Ou seja: quanto mais se gastar com futebol, menos haverá para fazer funcionar de verdade postos de saúde, escolas, aparelho policial, etc... etc... etc...
A desculpa será o surrado refrão de que a Copa incentivará o turismo e, por gravidade, outros segmentos da economia serão dinamizados. Balela. Uns poucos lucrarão com esses jogos e a população ficará segundo a lei do pão e circo.
Tolos das mais variadas espécies gritarão como loucos a cada gol, e se sentirão honrados em ser enganados. Na volta à casa, serão assaltados e reclamarão. Não terão esse direito: o dinheiro para o trabalho da polícia foi todo gasto com futebol, sob o aplauso daqueles mesmos bobos. Então: calaboca!
Espero que o Rio Grande do Norte não seja escolhido pela Fifa. Se mal temos dinheiro para dar aumento ao funcionalismo, de onde tiraremos recursos para gastar com bola?
Emanoel Barreto

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A guerra do fogo

Cara Amiga,
Caro amigo,
O filme "A guerra do fogo", talvez você se lembre, é uma grande metáfora da condição humana, um magnífico trabalho poético. Em sua trama, a descoberta da solidariedade e a sobreposição do que hoje chamamos de amor, ao instinto básico de reprodução.
No final, uma cena belíssima, intrigante, instigante, desafiadora: ao fundo, bem distante, a noite que se derrama sobre o mundo é riscada por um pontinho de luz, na caverna onde o homem passou da hominização à humanização. Aquele pontinho de luz era o graphos, a escrita poética a nos mostrar o início da nossa aventura sobre a Terra: um ser frágil, dependente de um fogo tão imponderável e perigoso, quanto amigo e essencial.
Creio que você poderá encontrar essa produção numa videolocadora.
Da época tratada pelo filme até agora, passou-se um tempo incontável para os nossos pobres relógios. Relógios que só marcam horas, mas não registram os momentos humanos das horas, a ação trágica do homem; o tinir da espada, a explosão da bomba.
Talvez somente nos reste buscar uma caverna e sentirmo-nos como aquele pequeno grupo de homens e mulheres, perdidos naquele tempo: acender uma pequena chama e esperar.
Emanoel Barreto

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A fera, o ferro e o ferido


Cara Amiga,
Caro Amigo,
Quem com fera fere, com ela será ferido.
Quem com sangue pinta, com ele será tingido.
Quem com erro anda, desterro é o seu destino.
Quem com ferro marca, de fera será chamado.
Quem as feras chama, no fogo será queimado.
Quem se envolve em lama, revolve seu próprio eu.
Quem do revólver saca, engole sua mesma bala.
Quem embala o ódio, tem como presente o gatilho.
Quem tem no presente a fera, o sangue e o desterro;
o fogo, a lama e o revólver, se envolve tanto em ódio,
que então um dia descobre: para sempre estivera morto.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A perfeição da desgraça

Cara Amiga,
Caro Amigo,


A eleição para prefeito de Natal resultou no que se esperava. A Câmara de Vereadores foi re-novada em 50 por cento. E la nave va...

No cenário profundo, uma crise se posta com a força de um tsuname. As elites financeiras, donas de tudo, brincaram demais com dinheiro. Venderam e compraram demais papéis podres e agora, se falharem as medidas que os governos tentam acionar, algum miserável no Brasil ou na Somália, ficará mais miserável. As elites financeiras, não tenha dúvida, sobreviverão; e continuarão maquinando planos para mais lucros, mais fome, mais desolação.

A irracionalidade que domina o mundo desde os tempos das mais antigas civilizações, arremete para mais insensatez, apoiada agora na sofisticação, aprimoramento e agudização da tecnologia, o que permite ao homem chegar à perfeição da desgraça.

Multidões sucumbem ao peso da ideologia e do fundamentalismo, religioso ou financeiro. Nunca a religião deu tanto lucro, jamais as armas renderam tanto. O desvario neoliberal apodera-se de tudo e de todos. Corpos e mentes obedecem docilmente.

E no silêncio grande das favelas e dos becos, surgem novos e novos famintos e bandidos; do mesmo modo que, no silêncio dos grandes escritórios de Wall Street, algum sorriso sarcástico comemora. A crise é só um susto para a síndrome de Tio Patinhas.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Nem vida, ou gesto ou destino

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Tão iguais e cada um sozinho.
Multidão que nem direitos tem.
Para onde vão, não se sabe nem se conta.
O seu tempo é sempre o depois.

E depois que as portas não se abrem,
estão calados e não têm o que dizer.
Suas todas palavras se gastaram,
na garganta a voz se afundou.

E quem não tem palavra, nem gesto nem destino,
já não tem vida, que a vida é isso:
palavra, gesto e destino.
Emanoel Barreto

A vergonha que o fogo não ilumina

Caras Amigas,
Caros amigos,

A foto de Joana Lima, do Diário de Natal, mostra detalhe da manifestação de ontem, contra a corrupção na Câmara Municipal de Natal, envolvendo os vereadores Renato Dantas, Adão Eridan, Sargento Siqueira, Emilson Medeiros, Dickson Nasser, Geraldo Neto, Júlio Protásio, Edivan Martins, Salatiel de Sousa, Aluisio Machado, Adenúbio Melo, Aquino Neto e Carlos Santos. Ao que consta, receberam propina da imobiliária Abreu Imóveis para adequar o Plano Diretor de Natal aos interesses da empresa.

Grupos de manifestantes queimaram bonecos que representavam os envolvidos. O protesto chegou a parar o trânsito no Centro. Os jornais, os impressos, digo, cobriram o assunto. Mas, estranhamente, as TVs, não.

Tenho muito tempo de jornal para saber que não existem matérias privativas de impresso e matérias privativas de TV. Muito ao contrário, jornais e TV sempre intercambiaram as informações. Ou seja: material veiculado na TV é aproveitado pelo impresso e vice-versa.

Não é estranho que nenhuma TV tenha tido o cuidado de não cobrir o acontecimento? Incompetência ou coisa mesmo de diretores comprometidos com os vereadores? Ninguém tem vergonha? Ninguém tem ética? Onde está o jornalismo?
Amigas e Amigos: vocês sabem a resposta.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Complicado, incoerente, ilógico



Caras Amigas,

Caros Amigos,


Domingo, a cidadania acorrerá às urnas para eleger seus representantes. Do ponto de vista gramatical uma assertiva irretorquível em termos de compreensibilidade; juridicamente, uma verdade. Mas, do ponto de vista social, vocês acreditam mesmo nessa afirmativa? Não será mais uma mentira, um equívoco, quem sabe a expressão de um projeto mal-intencionado?


Meu pessimismo à parte, na verdade uma provocação a que se pense sério a respeito, é preciso desconfiar do que os políticos dizem. A avalanche de promessas, "compromissos com o povo", soluções virtualmente para todos os problemas de Natal, vocês acreditam mesmo nisso?


Perceberam como, a cada dois anos, surgem e se renovam programas de governo municipal e estadual que vão nos tirar para sempre das trevas? E, por falar nisso, onde estão as luzes? Certamente os políticos não pagaram a conta e foi cortada.


Outra coisa, renovar quer dizer tornar novo aquilo que era velho: re-novar. Ou seja: renovar significa, nada mais nada menos, que manter o velho em seu lugar. Renovar não quer dizer nada. Melhor: quer dizer exatamente isso: nada.


A cultura política nacional recende a falcatruas, golpes, alianças espúrias, conluios, tramas, gente mancomunada para transformar a coisa pública em coisa privada. Será preciso um longo período histórico, um choque cultural profundo e estrutural, para que as coisas comecem a mudar.


Mas, enfim, vamos votar. Mesmo sabendo que, com o voto, voltam os mesmos a dizer: re-novar.

Emanoel Barreto

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Gatilho

Caras Amigas,
Caros Amigos,

A arma a alma desarma.

A arma ama a morte.
A arma parte a vida.
A bala, o grito, o fim.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

E agora, deus mercado?

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Venha a nós ó Príncipe Valente,
já que agora o dólar nos faltou.
E quando o deus mercado nos esquece,
valei-nos, ó figuras
saídas da imaginação.

E se o dinheiro é também criado,
é ilusão, é fruto, é criação;
é também farsa imaginada, sempre pronta
a fugir, desfalecer.

E da mesma forma que os heróis
dos quadrinhos sempre nos enganam,
o dinheiro é também astuto.

Só que, farsa, ele é real;
ilusório, pode ser tocado;
e, criação, ele se inverte - e, querendo, pode, até mesmo, matar, roubar, nos destruir.
Emanoel Barreto

sábado, 27 de setembro de 2008

A Liberdade em busca de um beco

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Na foto de Evandro Teixeira, fotógrafo velha-guarda do então grande JB, um momento do tempo, instante congelado da ditadura perseguindo quem queria a liberdade como coisa cotidiana.

Liberdade, direito portátil e feito para todos.

Entre o momento da foto, que, creio, foi feita em 1968, e o instante do agora, já se passaram muitos anos. A Liberdade virou afinal um direito portátil. Mas, atenção, essa é uma liberdade formal, prescrita nos códigos, prevista em lei.

Então, e o povo? O povo que aquele jovem perseguido representa tão bem, onde estará? Aquele jovem lutava pelos direitos, dentre eles o direito de votar, a liberdade de votar.

Bem, o povo, o povo ganhou o direito de votar, afinal. Melhor dizendo, ganhou o direito para votar, ou seja: ganhou a obrigação de votar nos mesmos nomes, com as mesmas promessas, os mesmos encantos de um futuro reluzente, uma era fabulosa, onde todos serão felizes e fim.

O que quero dizer? Digo que há uma diferença entre o direito de votar e o direito para votar. A primeira situação pressupõe, simplificando, uma sociedade democrática, o que inclui melhor divisão de renda, consciência de classe e uma sociedade civil atenta, esclarecida e atuante. A segunda, indica mesmo o que já disse: uma obrigação de comparecer às urnas.

Mais claramente, os que são candidatos não são eleitos; fazem-se eleger, o que é sutilmente diverso da primeira situação. E o povo, bem, o povo segue perseguido, em busca do próximo beco da história, onde possa parar e ofegar.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Do gemido das ruas aos silêncios e sotaques



Caras Amigas,
Caros amigos,

A política tem um lado espetáculo. Desde a Grécia antiga, quando os chamados homens livres compareciam à praça para debater as questões da cidade a oratória, a argumentação, a eloqüência, os grandes gestos retóricos, já compunham o dado dramático, encenador-teatral da arte política.

O espetáculo, hoje mais que nunca, é parte da política. Na atual campanha pela prefeitura do Natal, duas candidatas se apresentam com favoritismo frente aos demais: Fátima Bezerra e Micarla de Sousa. Das duas, Micarla parece ser a que tem chances reais de vitória.

Dois aspectos, para isso, devem ser levados em conta: a questão da mídia, que favorece Micarla, e o esvaziamento do discurso contestador, que fora o referente ideológico maior de Fátima.

Surgida do movimento sindical dos professores, Fátima chegou à Assembléia Legislativa como um furacão. Ela era a voz das ruas, o gemido do povo, o grito crispado dizendo "Não!". Agora, integrante de uma coligação que tem a consistência de uma lâmina de cavaco-chinês, está irreconhecível.

Hoje, a Fátima furacão cedeu espaço a uma candidata que repete diariamente um rol de realizações do governo Lula, numa ladainha cansativa e desgastada, típica dos políticos tradicionais.

As mazelas sociais, seus malefícios, são agora postos por ela pelo seu lado B, ou seja: existem, mas estão sendo tratadas, mesmo que, em sã consciência, todos saibam que medidas pontuais não revertem a situação trágica do povo.

Fátima perdeu o discurso: eis a real face, o fato que explica a perda do poderio eleitoral de Fátima. Fátima silenciou a voz que nela palpitava. O furacão transformou-se em tempestade tropical, perdeu força e pode acabar como brisa ligeira, dessas que, aos finais de tarde, tocam docemente os corpos de veranistas afortunados.

Ninguém pode, de repente, renegar seu passado. Ninguém pode transformar-se de um instante para o outro, esse o problema.

Quanto a Micarla, sua visibilidade diária, sua eloqüência visual, estão dando conta do recado. Utilizando-se de um sotaque que nada tem de nordestino, estranhíssimo, convoca a seu favor simpatias e, certamente espera, votos.

Resultado: uma, por perda de identidade e outra, por assumir uma identidade de mídia, são personagens do nosso tempo, do tempo da sociedade do espetáculo.

Fátima, ao anunciar benesses, confia que o povo acreditará que a vida melhorou, só porque a televisão está dizendo; Micarla, ao prometer benesses afins, garante que não: ela é que trará as benesses - a televisão também está dizendo.

Enfim: a perda do discurso prejudicou Fátima; e ao incorporar um discurso de massa, Micarla ganha o que Fátima perdeu. Em ambas, o discurso vazio. O povo, bem, o povo, ora acredita, ora não.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Os livros, esses bons amigos; os computadores, esses malucos que nos enlouquecem




Caras Amigas,

Caros Amigos,

Após, digamos, uma grande luta, consegui afinal recolocar o computador para funcionar. E cada vez mais me convenço do seguinte: essas máquinas têm uma espécie de vida. Quero dizer: algo como uma quase-vida.

Ao contrário dos livros, que são amigáveis, sensíveis ao toque das mãos e jamais faltam ao que deles esperamos, os computadores, não: são bichos bonitos, uma espécie de ave-do-paraíso, porém indócil e imprevisível. Quando menos se espera, eles nos enviam, como direi, uma mensagem dizendo que não obedecem. E pronto.

Livros são seres vivos bons e pacificados. Têm essência e consistência. Livros pensam. E a cada leitura, se for mesmo um bom livro, vocês podem navegar e navegar em suas páginas que, de alguma maneira, encontrão um novo encanto, um porto mais adiante, uma paisagem que a sensibilidade até então não habia percebido.

Quanto aos computadores, são como os pôneis dos tempos do correio a cavalo: intrépidos, impulsivos; corcoveiam em suas dunas digitais. E se o cavaleiro não for bom ou estiver distraído, pode, vejam só, ser destruído.

Anos e anos de pesquisa e trabalho podem ser levados para a zona etérea do disco ríogido e desaparecer em meio ao seu mar de informações. Então, adeus e só nos resta chorar. Se tanto.

Continuo amigo dos computadores, mas com saudade das velhas e boas máquinas de escrever. Quero ter sempre um por perto, mas sempre pronto para o próximo sobressalto. Espero que o mesmo se dê com vocês.
Emanoel Barreto

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Os computadores, esses seres estranhos


Caras Amigas,
Caros Amigos,

Problemas com o computador mantiveram-me afastado.
Computador, máquina fotográfica digital, laptop, carros também com sistemas eletrônicos no motor, GPS, palm-top... Cada vez mais dependemos da informática. Isso é bom, mas tem seu preço. O defeito no meu computaror foi no disco rígido, aliás, é no disco rígido.
O técnico virá mais tarde instalar um novo, mas deixou-me uma dúvida aterrorizante: teme pelo backup, pois o disco antigo pode estar com os arquivos corrompidos. Se isso se concretizar, toda a minha produção para a Universidade poderá estar perdida. Um trabalho de anos...

A informatização tem dessas coisas. Minha última esperança está no pen drive. Frente a isso, lembro-me das velhas e confiáveis máquinas de escrever. Tão antigas e tão boas: escreveu, estava ali, no papel. Pronto: seu trabalho, seu esforço, estava à mão, palpável e visível. Agora, não: é preciso tomar mil cuidados, cercar-se de precauções, caminhar num território virtual ao mesmo tempo maravilhoso e não totalmente confiável.

Chegamos ao tempo em que as máquinas de alguma forma fazem exigências. Seu mecanismo é algo volátil, bem diferente da troca de uma roda dentada ou um parafuso. Lidamos com o imaterial e o intocável, e a vida parece habitar esses estranhos seres que são os computadores.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Breve histórico da corrupção, a engenhosa invenção do cientista De Putado

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Lobista não se contentava com o que tinha. Caminhando pelos meandros da burocracia, trilhando tapetes e gabinetes, salas e palácios, resolveu que deveria desenvolver ao máximo sua capacidade de, digamos, lobar.

Lendo um jornal, viu uma notícia a respeito de transgênicos e resolveu: iria ser um lobista transgênico. Assim, ó: misturando suas habilidades naturais para enganar, conluiar, mancomunar, trapacear, burlar, tramar, fraudar, gorar, espoliar, conspurcar, garrotear, procrastinar e influenciar, com um toque de outras qualidades malignas que iria buscar imediatamente, com certeza obteria novos e maiores lucros às suas ações. Lobista sofria da Síndrome dos Irmãos Metralha. Mal incurável e endêmico no Brasil.

Daí à prática foi um passo: caminhando na praia, encontrou-se com um enorme polvo a quem propôs negócio: na fabulosa máquina de mimetização do Professor De Putado, poderiam formar um só organismo e melhor: metamorfosear-se o quanto quisessem, garantindo desta forma mais agilidade aos golpes. O polvo topava? Claro, claro que sim, topava. Estavam acertados. E tiveram o seguinte diálogo:
- Ramo trabalhar?
-Ramo.
- Então ramo.
-Bora.

E foram ao gabinete do cientista De Putado, que imediatamente os meteu na engenhosa máquina. Dez minutos depois, estavam unidos numa só, enorme e pegajosa criatura. A nova descoberta de De Putado recebeu o nome de Corrupção e deste então invade, penetra, se mete e aprofunda em tudo quanto é canto onde possa haver dinheiro.

E, até hoje, ninguém conseguiu pegar a criatura.
Se a virem, é fácil identificar: come dinheiro e somente freqüenta ambientes de alta$ tran$açõe$.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Um caso literalmente de polícia

Caras Amigas,
Caros amigos,
As coisas de jornal do Estadão informam o seguinte:
"Gravações telefônicas em posse do Ministério Público foram decisivas para o pedido de prisão do diretor-executivo da Polícia Federal, delegado Romero Menezes. Os grampos mostrariam Menezes pressionando o superintendente da PF no Amapá, Anderson Rui Fontel de Oliveira, a favorecer seu irmão José Gomes de Menezes Junior.De acordo com informações do Ministério Público, nas conversas, gravadas com autorização judicial, o segundo homem na hierarquia da PF reclama da demora de Fontel em concluir o processo em que o irmão pede o credenciamento como instrutor de tiro. As conversas indicariam ainda que Menezes estaria articulando o afastamento do superintendente do cargo, caso a exigência não fosse atendida."
O papel social de uma pessoa, ou seja, aquele conjunto de atributos que supostamente deva ter para assumir aquilo que dela se espera, indicam que, de um policial, especialmente ocupando um alto cargo em sua corporação, seja o de comportamento ilibado. E isso em sentido o mais amplo possível.
Afinal, será ele quem vai dar vida ao "longo braço da lei", como diziam os livrinhos de bolso. Ao que está dito, esse delegado age de maneira completamente imprópria, para colocarmos sua avaliação de maneira elegante.
O proclamado distanciamento do policial de sua missão é um dado, apenas mais um dado, a demonstrar como a corrupção chegou ao estágio de endemia. A Polícia Federal, para fazer um comparativo cinematográfico, é o nosso FBI. No cinema, seus agentes são apresentados como incorruptíveis, densamente presos à sua ética, às suas responsabilidades. Verdadeiro ou não, é isso o que o cinema mostra.
Agora, voltando à nossa realidade, temos um escândalo, quando o delegado reclama prebenda empregatícia para um irmão e estaria até mesmo mancomunando para descartar um colega. Ao que parece, estamos mesmo muito longe de 007, o agente secreto inglês, charmoso e envolvente que, em meio a uma conquista e outra, cumpria à risca o seu dever.
Aqui, além de faltar aplomb e um toque de elegância, a polícia precisa de polícia.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Bum-bum! Bum-bum! Bum-bum!

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Candidata a prefeita de Itamaracá, Pernambuco, a cantora Gretchen tem dito às coisas de jornal que confia em que sua campanha cresça e até chegue a ser eleita. País carnavalizado, chacrinizado, talvez ninguém melhor que ela para representar essa faceta nacional. Afinal, os representantes de uma sociedade saem dessa mesma sociedade e levam consigo, de alguma maneira, seus valores, crenças práticas e costumes.

Não se espantem com a corrupção em câmaras, assembléias legislativas, câmara federal, senado e governos municipais, estaduais e federal: eles são, entalhados e esculpidos, a cultura brasileira em sua mais pura e impura essência. O que acontece no macro, da mesma forma se representa no micro.

Não digo que ela seja a personalidade ideal para disputar uma eleição; mas tem legitimidade para tanto. Somos uma sociedade dionisíaca, sensual; somos o povo do jeitinho, do levar vantagem em tudo. Assim, os chamados atores políticos são uma amostra veraz e forte do caldo cultural que forma a sopa política e social do grande ser coletivo que é o povo.

Dessa forma, vamos em frente, enquanto, na bagunça, os tambores fazem bum-bum, bum-bum, bum-bum.
Emanoel Barreto

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Deixem-nos morrer

Caras Amigas,
Caros Amigos,

As coisas de jornal comunicam ao mundo que pequenos grupos de milionários estão em desespero porque seu banco faliu.

E falindo esse banco, que é americano, muitos outros bancos poderão entrar em desespero, ou seja: pequenos grupos de milionários, donos desses bancos, poderão ver-se em perigo - e, como se sabe, essas pessoas, pelo seu status e influência política sobre os destinos do mundo, não podem, não devem e não merecem perder seu rico dinheirinho.

Acho interessante o funcionamento desse esquema mental, perverso e insano: pouquíssimos milionários não podem perder dinheiro e é preciso o governo americano investir preciosos dólares do Tesouro para cimentar o mercado.

Enquanto isso, populações inteiras passam fome no mundo e ninguém se preocupa, ninguém diz nada. Essas pessoas, como não têm dinheiro, não têm importância; virtualmente, não existem. Nascem, crescem e morrem em meio ao anonimato histórico a que foram relegadas pelo cruel e pragmático sistema que domina o mundo.

Mas, é isso:
deixem-nos morrer;
eles valem nada;
não rendem dinheiro,
nem compram nada
.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Amanhã

Caras Amigas,
Caros amigos,
Voltarei a atualizar o Coisas de Jornal amanhã.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Silêncio


Caras Amigas,
Caros amigos,

Pequenos em sua largamente estreita vida,
eles estão ali, em toda parte, em qualquer calçada,
habitando os instantes do mundo.

Não há lágrimas que possam chorar
por tanto horror, não há pena
para tão insano crime.

São tão pobres, calados, miseráveis,
que nem mesmo os vemos ao passar.

E passamos distantes e calados.
A vida também nos passa -trapaça -
e não vem a nossa boca
o grito de acusação.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Evo precisa botar moral

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Evo Morales tenta refundar a Bolívia, descobrir novos caminhos para o povo, exterminar privilégios históricos das elites, dar ao boliviano o que o seu chão produz. Mas, elementos descontentes com as mudanças que a massa da sociedade civil quer, defende e precisa, atacaram o gasoduto que fornece o produto ao Brasil, num ato terrorista.

Temo que isso possa ser o princípio de uma seqüência de ocorrências violentas, buscando desestabilizar o governo. Temo, mas espero que não.

A história tem registrado, sempre, que os donatários do poder, ao se verem sob ameça de perda de prebendas e guoloseimas sociais que os encantam, buscam levar a situação a um extremo, a uma circunstância de crise, de forma a que tenham a oportunidade de aplicar seus golpes.

Tais golpes, anunciados como em "favor da pátria", voltam-se unicamente para manter as soldagens do sistema de dominação, quando estas começam a estalar. A Bolívia tem todo um histórico de golpes e exploração dos trabalhadores. Agora, quando as coisas começam a mudar, eles querem de volta a velha e boa Bolívia dos ricos. Vejamos como se comportam as Forças Armadas.
Emanoel Barreto

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Os imperfeitos, não


Caras ,
Caros Amigos,

A mídia não dá à Paraolimpíada de Pequim, como não foi dado às demais Paraolimpíadas, qualquer destaque.

Os imperfeitos, os anormais, os esteticamente dissidentes, não.

Os grandes atletas, completos, belos e belas como deuses e deusas gregos, foram cultuados, incensados, aplaudidos pelos refletores e amados pelas câmeras.
Os imperfeitos, não.

Suas vitórias foram mostradas como atos heróicos, de superação e grandeza, quase um martírio glorioso e triunfal.
As vitórias dos imperfeitos, não.

Os gritos dos grandes atletas, a expressão da magnífica batalha triunfada, seus músculos crispados de vigor, tudo isso marcou e comoveu a milhões, em todo o mundo.
Os imperfeitos, não.

Houve força, dedicação, preparo, luta, superação, coragem, empenho e doação; louvemos os grandes atletas.
Os imperfeitos, não.
Emanoel Barreto

domingo, 7 de setembro de 2008

O choro dos inocentes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Encontrei esta charge assinada por Latuff.
Genial.
Um bom domingo.
Emanoel Barreto

sábado, 6 de setembro de 2008

Condolezza não leva condolências

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Condoleeza Rice anda pelos lados da Tunísia e da Líbia, para dizer a Kadafi que ele fez muito bem ao deixar de lado seu programa nuclear. Certíssimo. Vai falar também contra o terrorismo. Certísssimo, também. Agora, não explica ao mundo o porquê de os Estados Unidos disporem do maior arsenal atômico do planeta e o uso de suas tropas para atacar qualquer país que sejam vistos pelos americanos como de interesse para as suas balas.

A incoerência das grandes potências é algo monstruoso, revoltante. A política externa dos EUA é sinônimo perfeito de agressão, violência, dominação, destruição, poluição, exploração, explosão, confusão. É triste, mas não é ilusão. Quem discordar, entra no facão.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

E la nave va...

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Havia no ar um desafio de sombras;
bujarrona, quilha e proa voltadas para o além-mar.

A nave cumpre seu rito
de navegar, sempre, destinos presos ao mar.

Grumetes, jovens gajeiros, marinheiros,
artilheiros,
eis-vos agora, louca, solta no vento,
a mestria de viver.

E o vento não tem cordame, onde se possa agarrar.

O navio solta os panos, luzes acesas na cabina.
Pelas leis do mar, o Comandante ficará até o fim.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Jus puniendi

Caras Amigas,
Caros Amigos.
Estas são as mãos de um depoente.
O prisioneiro aqui presente confessa que trabalhou; admite que foi explorado.

Confessa que perdeu todas as esperanças,
afirma que nunca teve nada, além da própria vida.

E diz sem relutar que o campo de concentração
em que sempre esteve preso
é tão vasto que sempre soube que
jamais poderia fugir.

Não necessita ser sentenciado, senhores jurados.
Começou a cumprir pena no dia em que nasceu.
Emanoel Barreto

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Importantíssima, essa nova invenção

Caras Amigas,
Caros Amigos,
São bons, e como são bem intencionados, prestativos e atentos ao bem estar do mundo, esses fabricantes de quinquilharias eletrônicas. Fabricam até mesmo telefones celulares que, pasmem, dentre suas mil e uma utilidades servem para... telefonar. A Folha Online confirma estas palavras, quando informa:

A multinacional Sony lança no fim de outubro, no Japão, um televisor digital portátil que pode ser utilizado durante o banho. Além de ser à prova d'água, o Sony XDV-W600 oferece tela de 4 polegadas, tem 2 Gbytes de memória interna e funciona durante 23 horas com pilha comuns.
Divulgação
Sony lança em outubro, no Japão, televisor digital que funciona durante o banho
Sua recepção suporta o sinal digital móvel no padrão japonês (ISDB-T 1 seg), ou seja, funciona no Brasil. O aparelho será vendido com tela LCD de resolução 272 x 480 pixels. Ele consegue gravar até dez horas da programação e também recebe rádio AM/FM. No Japão, custará cerca de US$ 370.
A empresa recomenda que o aparelho fique submerso até, no máximo, 1 metro de profundidade --e não mais do que meia hora.


--- Importantíssimo, percebem? Ver televisão durante o banho é necessidade, é algo essencial aos tempos da mulher e do homem modernos. Especialmente, a um metro de profundidade. E banhos, como se sabe, devem durar pelo menos meia hora, tempo suficiente para que o telespectador veja sua programação preferida.

Então, no Brasil, esta terra pátria amada, salve, salve, um televisor durante um banho será algo de uso mui precioso. Especialmente para que certas pessoas que, já que não podem lavar-se por dentro, limpam-se por fora, durante um longo e refrescante banho, tendo ao lado um televisor submersível. Muito bom. Maravilha.
Emanaoel Barreto

sábado, 30 de agosto de 2008

A noite, a torre, o mar e o abismo

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Naquela paisagem morava uma estranha eternidade,
feita de momentos recurvos, instantes enovelados,
minutos que não se passavam.

Ali, naquela alma de mar, falésias de escuro
traziam perigos.
E o vento corria sem freio ao redor da torre.

Depois, a noite ficou pegajosa de frio
e invadiu de brumas as passadas
de quem se arriscasse a andar por lá.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tira a mão desse petróleo

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Vejam só como o capital internacional é bem intencionado e preocupado com o povo brasileiro. O texto é da Folha Online.

Realizar mudanças no marco regulatório do petróleo após as descobertas na camada pré-sal pode ser arriscado. A avaliação consta de reportagem da edição eletrônica da revista britânica "The Economist", publicada nesta quinta-feira.
A revista avalia também que uma nova estatal para cuidar das reservas descobertas pode se tornar "inchada" com indicados políticos, além de criar a tentação de rever os contratos já existentes no setor petrolífero no Brasil, o que seria "desastroso" para a Petrobras.

"Embora a Petrobras, que é sujeita às regras do mercado, seja relativamente enxuta, uma nova estatal pode rapidamente se tornar inchada com indicados políticos. Em segundo lugar, o governo pode se sentir tentado a revisar contratos existentes, o que seria ruim para a confiança e desastroso para a Petrobras e suas parceiras (a britânica BG Group tem uma participação de 25% no campo de tupi e a portuguesa Galp Energia, 10%)", diz a reportagem.
"Além disso, deixar de fora os acionistas estrangeiros da Petrobras pode assustar os investidores estrangeiros em geral", acrescenta o texto.

--- A ação do governo brasileiro, supostamente interessado em assegurar controle sobre material energético estratégico, faz com que grandes latifunduários da humanidade emitam sinais de "preocupação", como se estivessem mesmo querendo o melhor para a Petrobras, para o Brasil, para nós...

Trata-se de um discurso mistificador, típico dos que desejam apoderar-se das riquezas de um país que vem historicamente sendo explorado, com recursos dos mais diversos tipos sendo drenados para os países centrais.

O governo precisa assumir uma postura firme. As coisas de jornal falam que as reservas petrolíferas do pré-sal chegariam a 50 bilhões de barris, superando as reservas do Golfo do México. O Brasil, com a exploração dessas jazidas, seria o sexto do mundo no setor.

Já perdemos muito; não dá mais para continuar com a sangria.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Volta, Peri. E traz teu arco...

Caras Amigas,
Caros Amigos,

O Estadão Online publicou a seguinte notícia: "O ministro do STF Carlos Ayres Britto, relator da ação sobre a demarcação da Raposa Serra do Sol, defendeu o modelo de demarcação contínuo da terra indígena, do jeito que a reserva foi homologada pelo governo federal. A defesa contraria os arrozeiros de Roraima, que defendem a demarcação em "ilhas". "Modelo geográfico tem o sentido de continuidade", afirmou.

"Ainda na argumentação, Britto disse que o modelo contínuo possibilita que "se viabilize um poder administrativo de perfil coletivo e uma auto-suficiência econômica com idéia de abertura de horizontes, contra o modelo ilhas de identificação", que ele chama de "asfixia espacial" e "confinamento sem grades". São terras, segundo ele, que não são propriedade privada. "É bem público. É da União para servir aos índios".
--- As coisas de jornal tocam em um problema gravíssimo: os 500 anos de subjugação , que o Aurélio define como "submeter pela força das armas", "dominar moralmente". O genocídio dos indígenas pelos portugueses e depois pelos que viriam a sermos nós, os brasileiros, transforou as nações de indígenas em indi-gentes.

Trata-se de massacre de corpos e de culturas riquíssimas em sua essência antropológica e grandiosidade humana. Essa questão dos arrozeiros contra os índios é apenas mais um passo do nosso domínio, nossa hegemonia sobre etnias que, em seu confronto conosco, levaram nítida desvantagem, do ponto de vista bélico. Um arco, uma lança, jamais poderiam enfrentar os arcabuzes de Porgual, como não podem, com mais razão, enfrentar os rifles e outras armas dos bandos que servem aos arrozeiros.

O governo federal tem a obrigação, moral e jurídica, de repor de alguma forma aquilo que foi violado. Os índios e a natureza formam um todo. E isso tem que ser respeitado.
Emanoel Barreto

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sarney e o silêncio dos inocentes


Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Folha de S. Paulo sabatinou o senador José Sarney. Quando indagado a respeito de revisão na lei que isenta torturadores de presos políticos durante o regime militar, disse: "Não tinha conhecimento nenhum [das torturas], pois estava no Maranhão, era governador do Maranhão [...]. O que posso dizer é que quando cheguei no Congresso é que formamos um grupo para lutar para que o processo se abrisse", contou o ex-presidente."

Mais adiante, afirmou: "Não há razão para que devemos renascer com o assunto. Evidente que isso não cura quem foi torturado. Mas o processo político da anistia fez parte da transição", disse Sarney, rechaçando a revisão da lei."

--- É estranho que um governador fosse tão desinformado a respeito de algo que todo o País sabia. Não seria o fato de morar no Maranhão - que, ao que consta fica no Brasil - que o impediria de tomar conhecimento do assunto. Até porque governos estaduais também contam com serviços de informação e, principalmente, Sarney fazia parte do grupo que estava no poder.

Sem dúvida, ele se recusa a ver abertos os porões da ditadura para evitar que o eco dos fantasmas dos mortos cheguem a clamar aos seus ouvidos.

O Brasil não pode ficar refém de um grande medo: o medo de que os militares fiquem insatisfeitos com investigações a respeito daquele período, como se fôssemos uma republiqueta que a qualquer momento pode ser presa, novamente, de uma ditadura.

A tortura a presos de consciência assume características extremamente dolorosas, porque aqueles que estão sob o peso da mão do Estado lutam por uma causa, se expõem, lutam pela superação de estágios históricos de atraso e exploração. De alguma forma, sofrem uma espécie de martírio. E isso não pode ficar impune.

É preciso ter coragem para abrir o cofre dos horrores. E o presidente Lula tem, perante a história, essa missão: o resgate da memória dos que foram agredidos e a punição dos criminosos que atacaram a Liberdade.

Emanoel Barreto

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Algo preocupante

Caras Amigas,

Caros Amigos,

A Folha traz a seguinte notícia: "Enganaram-se os que pensavam que o Supremo Tribunal Federal iria ter um negro submisso, subserviente", diz o ministro Joaquim Barbosa, ao comentar os desentendimentos com alguns de seus pares -como Marco Aurélio, Gilmar Mendes e Eros Grau. Ele atribui os atritos à defesa que faz de "princípios caros à sociedade", como o combate à corrupção. Barbosa entrou em choque com ministros tidos como "liberais" em julgamentos da Operação Anaconda. Ficou conhecido popularmente como relator do inquérito do mensalão e recentemente discutiu com Eros Grau sobre a liberação de um preso da Operação Satiagraha.

--- A atitude do Ministro demonstra, é o que ele me fez supor, algo preocupante: existiria racismo no STF. Ao fazer a afirmativa, deixa claro que a elite jurídica togada precisaria passar por uma reforma em seus valores quanto à questão das etnias.

Uma sociedade que se quer civilizada e justa não pode admitir que em suas elites intelectuais se plante a erva daninha do racismo. E o Ministro, que tem-se notabilizado por suas atitudes críticas, pode se tornar um símbolo, um indício, do quanto este país ainda tem que evoluir.


A ser constatada a convicção que expressou, a coisa é muito grave. Data venia.


Emanoel Barreto

domingo, 24 de agosto de 2008

Ave Zeus, dai-me a vitória...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A disputa em um esporte, coletivo ou não, pode ter muitas leituras. A primeira, e exatamente a mais simplista, é aquela que encara o esporte pelo esporte e vem dos torcedores, dos jornalistas especializados nas diversas modalidades, das pessoas em geral. Um jogo é um jogo e pronto; uma maratona é somente isso: heróica e tensa, mas tão-somente um conjunto de jogos.

Todavia, num esporte, especialmente quando elevado à condição de representar grandes contingentes humanos, como torcidas de grandes clubes ou até mesmo países, assume conotações dramáticas monumentais e trazem em sua essência a grande tragédia humana.

Vejamos uma olimpíada. Quantas esperanças, anseios, desejos de auto-superação, vontades de nações em aparecer brilhando. Quantas compensações, íntimas ou nacionais, não estarão aí contidas.

É o atleta queniano superando a miséria de onde foi gerado, para se lançar ao mundo como o novo Fidípides, o herói das tropas da Alexandre. Ele correu 42 quilômetros e uns tantos metros, para comunicar aos compatriotas gregos a vitória sobre os persas na planície de Maratona, que hoje mais mais existe. Informou sobre o triunfo glorioso e depois morreu...

É a Seleção brasileira feminina de futebol chegando ao esforço último de todas as fibras vivas de suas atletas, para ser injustamente derrotada pelas americanas.

Especialmente nos esportes coletivos os jogos ganham uma dimensão simbólica de guerra. Usa-se da tática e da estratégia. Os corações dos atletas vibram num diapasão diferente: eles não lutam por um gol apenas, mas lhes está inculcado que lutam pela pátria; lutam pela glória, a passageira imortalidade de algumas manchetes.

O dado dramático do esporte, sua face tragédia sintetiza e encena a batalha humana no mundo da vida; a incerteza, o medo, o próximo passo, os desvãos e ravinas do existir nesse planeta. É o combate pela sobrevivência, a busca pela superação dos limites humanos, uma forma estética e enérgica de enfrentar obstáculos e desafios.

O esporte é tudo isso e é também política e ideologia. O Poder dele se utiliza para crescer e se tornar ainda mais poder. Geralmente, não há morte nesses combates cifrados e plenos da mais íntima perplexidade; mas o homem, pequenino e trêmulo, morre a cada momento de derrota. Logo ele, que antes dos jogos, orava em seu silêncio escuro: "Ave Zeus, dai-me a vitória..."
Emanoel Barreto