sábado, 6 de maio de 2006

Consciência ambiental

Da jornalista Michelle Peluchera recebi o e-mail abaixo transcrito.

Sabe aquele caminhão, carro ou moto que passa soltando fumaça toda vez que você está indo ou voltando do trabalho, viajando ou curtindo um passeio com a família ou amigos? Na maioria das vezes ficamos revoltados, mas não sabemos exatamente como agir.

Agora existe uma forma de denunciarmos estas agressões ao MEIO AMBIENTE. Basta anotar a placa COMPLETA do veículo (município, letras e números), local e horário que você o viu e depois é só ligar para: 0800-113560 -DISK MEIO AMBIENTE - OPERAÇÃO FUMAÇA PRETA. O motorista receberá uma notificação para fazer uma Vistoria / regulagem no veículo, caso contrário, a multa é de R$ 611,00. Informe este telefone para o maior número de pessoas possível.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Garotinho: de criança, não tem nada

"Dinheiro não traz felicidade.
Então me dê o seu e viva feliz."
Autor desconhecido

A notícia abaixo é do Estado de S. Paulo. Em seguida, um comentário.

RIO DE JANEIRO - A greve de fome do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, que completou quatro dias, continua provocando reações diversas. Algumas delas debochando da atitude do político. Nesta quinta-feira (ontem), os humoristas do programa Pânico, da Rede TV! tentaram entrar no prédio onde Garotinho está para levar uma mamadeira a ele. Mas a hostilidade de partidários de Garotinho fez com que os humoristas Vesgo e Sílvio tivessem que deixar o local.

Em Sorocaba, no interior de São Paulo, o empresário Arany Marchetti, dono de uma funerária, ofereceu um enterro de graça a Garotinho.

Ele mandou confeccionar faixas com mensagens de pesar, duas coroas de flores e colocou um caixão de defunto modelo luxo numa das salas do principal velório da funerária Ossel, na região central de Sorocaba. Dentro da urna, pôs um boneco com a cara do político.

Dizendo-se apolítico, Marchetti disse que considera a greve de fome do pré-candidato do PMDB à Presidência "uma palhaçada para tomar o tempo" do brasileiro.

"O Garotinho disse que vai ficar em greve até morrer. Já que ele quer aparecer, estamos dando uma contribuição." Segundo o empresário, as despesas do enterro vão ficar por conta da sua funerária.

Um farsante profissional

O ex-governador Anthony Garotinho é realmente o que se poderia chamar de um farsante profissional. Seguidor de um populismo rasteiro, apresentador de soluções remendadas para problemas sociais graves, amigo de figuras que nenhuma pessoa de bem chamaria à sua casa, ele agora quer se apresentar como vítima de um complô - que não existe - para impedir sua candidatura à presidência da República.

Complô ou não, graças a Deus tudo indica que ele não será candidato. Mas, voltemos à questão do farsante. Há muitos anos assisti a um filme, na TV, intitulado "Magnífico farsante". Tratava-se da história de um vigarista. Mas desses vigaristas que o espectador, ao longo da fita, vai simpatizando com ele, gostando dele e acaba torcando para que consiga escapar da polícia, porque, na verdade, o homem era mais um trapalhão que um vigarista.

De alguma forma, Garotinho, que de criança não tem nada, é um farsante bem sucedido. Pelo menos bem sucedido até então. Tanto, que conseguiu alavancar sua carreira de locutor até chegar ao governo do Rio. Só que, ao contrário do personagem cinematográfico, não tem nada de magnífico, sequer um fio de credibilidade para ganhar simpatia e credibilidade.

Fizeram bem os humoristas, ao tentar levar a ele uma mamadeira. Afinal, menininhos precisam tomar o seu leitinho, para crescer fortes e saudáveis. Mas, até quando continuará a farsa da greve de fome? Trata-se, na verdade, de uma jogada de marketing, uma tentativa de vitimizar uma personagem deplorável da cena política brasileira.

Ele tenta chegar ao nível da exaustão, para suscitar na imprensa um clima de expectativa quanto ao seu estado de saúde, originando, a partir daí, uma atmosfera de pesar público, a compaixão orquestrada para com sua saúde.

Não dará certo. Greve de fome exige que quem a pratica tenha biografia, passado de credibilidade para tanto, e mais: é preciso que a causa seja honorável, que sejam nobres e socialmente apreciáveis seus intentos. Não há nada disso nas intenções de Garotinho. A não ser birra infantil de um político que eticamente não passou da primeira infância.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Natal, um instante do mundo

"As reticências são os três primeiros passos
do pensamento, que continua
por conta própria o seu caminho."
Mário Quintana

Do meu livro "Crônicas para Natal".

A grande paisagem do mundo pode ser resumida nas cidades.
Gente, árvores, bichos, rios,
tudo isso sai da natureza e também chega às cidades.
Cada cidade é um instante do mundo e da louca

aventura do Homem, rumo não se sabe bem a quê.

Assim é Natal: uma cidade brotada do mar,
mas que derramou-se para dentro do continente.
Como querendo dar um abraço, lá longe, no sertão.

Veloz e ferina em sua carreira, Natal corre para
todos os lados ao mesmo tempo.
Não, Natal não apenas corre.
Ela se escorre como um rio urbano de asfalto e verde.

E cresce, cresce sempre.E de sua entrada,

portão de paisagem e monumento, viaduto e
mirante ao mesmo tempo, recebe
os visitantes como quem diz: “Entre, a casa é sua.”

terça-feira, 2 de maio de 2006

Denúncia de plágio acadêmico

O professor João Emanuel Evangelista enviou-me e-mail denunciando plágio de trabalho acadêmico; lamentavelmente, uma prática que está se tornando comum. Leia.

Prezados, A colega Vera Chaia autorizou-me a divulgar essa denúncia de plágio acadêmico. Devemos redobrar os nossos cuidados.
Um abraço, João Emanuel

Prezado João Estou escrevendo, tardiamente, sobre um fato que aconteceu no penúltimo encontro da Compós.

O trabalho de Andréa Moreira Albuquerque e Isaltina Maria de Azevedo Gomes (UFPE Recife/PE) http://www.unb.br/fac/comunicacaoepolitica/andreaisaltina.pdf apresentado no XIII COMPÓS: São Bernardo do Campo/SP, 2004, é uma cópia de meu artigo ELEIÇÕES NO BRASIL: O ‘MEDO’ COMO ESTRATÉGIA POLÍTICA apresentado no III Encontro Internacional de Estudos de Comunicação e Política, Facom, UFBA, 14 a 16 de dezembro de 2002.

Posteriormente, o artigo foi publicado no livro Eleições presidenciais em 2002 no Brasil - ensaios sobre mídia, cultura e política, de Antonio Albino Rubim (org.), 164 pp., Hacker Editores, São Paulo, 2004.

Na ocasião cheguei a pensar na possibilidade de questionar as autoras judicialmente, mas deixei "para lá". Agora percebo que errei e daí esta manifestação com relação a este trabalho. Escrevo para você tomar conhecimento.

Atenciosamente,
Vera Chaia
Obs: as autoras citam meu trabalho só como referência bibliográfica.

Abrigo Juvino Barreto: o outono da vida

Nos olhos do jovem arde a chama.
Nos do velho brilha a luz.
Victor Hugo

O texto abaixo é do meu livro "Crônicas para Natal - as crônics do Jornal do Dia."

O tempo desceu sobre eles a sua pesada mão de outono. E a velhice começou a enferrujar seus corpos.

Como árvores antigas, plantadas na floresta esparsa do mundo, os velhos apresentam nos rostos as rugas que escondem o mistério de cada ser humano.

E assim eles vão. Lentos e pesarosos, ao encontro do fim. Um fim que já habita cada um de nós, todos os dias, desde o dia em que nascemos.

Mas o velho traz em si, oculto e eterno, o exato mapa universal da vida. O ensinamento do futuro, de todos os futuros. O horizonte ao longe, o caminho do bem. E essas velhas árvores humanas, como carvalhos a definhar relentos, são exemplos de caminho à procura da luz.






domingo, 30 de abril de 2006

A presença do Dalai Lama

"Perdoa sempre a teu inimigo.
Não há nada que o enfureça mais."
Oscar Wilde

A vinda de Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, ao Brasil, teve para mim um misto de missão pregadora da paz e atuação de uma personalidade de mídia, que sabe, e muito bem, misturar e mobilizar público para pronunciar discursos altamente elogiáveis, ganhar dinheiro e liderar líderes de outras religiões, como o rabino Henry Sobel e prelados da Igreja católica. Todos reunidos sob o comando do politicamente correto.

O Dalai Lama é o líder político e religioso do Tibete. Fugiu de lá sob intensa perseguição do truculento governo chinês, que hoje domina o país e, claro, proíbe o budismo, que ali tem o mesmo peso político que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB teve a partir de um determinado momento da ditadura no Brasil pós-64.

Com a fuga, ganhou muito justamente as simpatias do mundo. A partir de então, tornou-se autor de muitos best-sellers e sempre uma referência espiritual para quem não está satisfeito com os discursos e práticas das religiões ocidentais, especialmente o catolicismo e o protestantismo.

Acho que em essência o Dalai Lama é bem intencionado, merece respeito e admiração pelos lemas que professa. Só acho estranho que um homem do espírito ganhe para falar e defender a paz.

sábado, 29 de abril de 2006

O estranho visitante

"É a volta do cipó de aroeira
no lombo de quem mandou dar."
De uma canção de Geraldo Vandré

Era a noite de um estressante dia de trabalho na redação da Tribuna do Norte. As máquinas de escrever, paradas, silenciosas, eram testemunhas do trabalho de finalização do jornal. Eu estava cumprindo mais uma jornada de trabalho diária de cerca de dez horas, atuando numa espécie de fleuma da exaustão: um cansaço metódico e vigilante dirigia meus passos de editor da página cinco, o noticiário sobre Natal.

O negócio funcionava assim: eu fazia a pauta do jornal, e tinha de chegar às seis da manhã; era o chefe de redação e tinha de ficar os dois expedientes; era o editor da página e por isso era obrigado e seguir noite adentro. Somando tudo, dava essas dez horas de trabalho diário. Eu não tinha qualquer intenção hegemônica ao assumir tantos cargos de uma vez só, só se fosse louco: o problema é que a estrutura do jornal era ruim, tão ruim, que tudo acabou por ruir, ou pesar, pesarosamente, sobre os meus ombros.

Na redação, comigo, somente a diagramadora Tânia, que respondia pela programação visual de várias páginas, o que incluia a página cinco. O jornal usava máquinas portáteis, o que facilitava o trabalho. Podia-se pegar a máquina, colocar sobre a mesa da diagramadora e ali mesmo ir titulando as matérias e determinando sua disposição na página.

As redações são assim: vulcões que começam a fervilhar pela manhã, se aquecem ao longo do dia e afinal explodem numa multidão de repórteres apressados no final da tarde, todos colaborando com a grande lava que sai de suas mãos apressadas, numa torrente de textos e de fotos que fervem e se apagam na edição do dia seguinte, não sem antes trovejar sobre os leitores manchetes, gritos, dores e, às vezes, alguma boa notícia.

Pois bem: eu estava já no entrecruzar entre o cansaço e a resistência, quando, sem ser anunciado, silenciosamente um homem de uns trinta e poucos anos cruzou a redação como uma sombra. E essa sombra, de repente, estava ao meu lado. Só notei sua presença quando ele me disse: - Boa noite...

Virei-me e automaticamente respondi ao cumprimento. Não é comum o comparecimento de pessoas estranhas à redação em horários com o aquele. Esqueci de dizer, mas já era mais de oito de noite. E o ano creio que 1980, ditadura em seus momentos finais.

Em seguida, olho no relógio, perguntei: - Sim? - e ele, em rápidas palavras, contou-me que era funcionário do Ministério da Educação, mas especificamente de uma universidade federal (não me lembro de qual) e que estava sofrendo perseguições. Tanto, que vinha sendo transferido sistematicamente de uma universidade para outra tão-logo se organizava em uma cidade. Assim, de mudança em mudança, foi mandado para Natal.

E aqui, continuou, para completar, estava sofrendo ameaças telefônicas. Não precisa dizer que o homem era um dissidente do regime de 64.
Ainda de olho no relógio expliquei que estava no fechamendo da última página; tinha todo o interesse em seu caso, mas pedi que esperasse somente coisa de quinze a vinte minutos, que logo o atenderia.

Nem pensei em lhe explicar que eu de alguma forma também era um fugitivo, ou perseguido, fugitivo e perseguido por aquele expediente que não acabava nunca, por aquelas notícias que jamais paravam de chegar e pela organização do jornal, que levava o fechamento para horário tão tardio.

Fui obrigado a protelar a entrevista, de resto importantíssima: um perseguido político sendo ameaçado na UFRN pelos agentres do regime. O problema era o seguinte: caso eu tomasse decisão contrária, estaria provocando um grave problema de cronograma de fechamento, com pesadas repercussões na área industrial do jornal: o trabalho do parque gráfico. E olhe que, em relação aos tempos de hoje, um fechamento de página interna as oito de noite é inaceitável.

O homem, uma figura de aparência tristonha, cabisbaixo, concordou. Mas foi a concordância dos que não têm outra alternativa, a não ser abaixar a cabeça. Fui tomado por um sentimento de compaixão: estava ali um homem que não tinha a quem apelar, nem à justiça, nem a amigos que certamente não tinha em Natal, muito menos à polícia ou às autoridades.

Restava-lhe apenas procurar esconderijo e proteção no jornal, no escudo de papel de que muitas vezes se vale a sociedade para fazer valer os seus gritos. Escudo que muitas vezes se rasga e dá acatamento às decisões dos fortes e dos brutamontes econômicos, em detrimento do trabalhador e dos desvalidos.

Assim, viu no jornal sua última chance, a talvez única oportunidade para dar um grito de tinta e dizer:"Eu estou sendo perseguido no silêncio dos medos tramados; eu estou correndo perigo de vida; estou sob a mira de uma arma invisível e ninguém, ninguém, quer me ajudar. Agora, pelo menos quero contar tudo isso. E mesmo que eu desapareça em alguma esquina noturna, vocês saberão que eu existi."

Concentrei-me na edição da página. O tempo passou. Tempo pouco, coisa de nada, coisa de quinze minutos a mais, se muito. Terminei afinal. Eu estava com Tânia no "aquário", uma sala que tem uma parte da parede em vidro. Dali podia ver toda a redação. Terminei e disse "pronto!" bem alto, anunciando ao estranho visitante que agora poderíamos conversar.

Enquanto dizia aquela única palavra eu me virava. Foi um movimento rápido, mas hoje, quando o fato é lembrança, é como se as coisas tivessem acontecido em câmera lenta: meus olhos fizeram uma varredura de 180 graus e... lá estava ela. Em lugar do homem, uma solidão intensa; em lugar do ser humano ferido de amarguras, uma cadeira vazia; em lugar de quem sabe um futuro amigo, a presença de uma saída, talvez até mesmo uma fuga para a noite fechada da velha Ribeira. O desespero de alguém sem rumo.

Vencera a desesperança, tinia a vitória do desencanto. Meus quinze minutos foram para ele uma eternidade. E ele correu de volta aos seus horrores, sumindo-se para sempre e deixando na redação silenciosa uma espécie de vento frio de um medo que era só dele. Um medo que, por causa de quinze minutos, não pude compartilhar, nem tentar resolver. Lamento muito, estranho amigo. Lamento muito...

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Tio Nilzinho e Tia Nice

"A neve e a tempestade matam as flores,
mas nada podem contra as sementes."
Khalil Gibran


O tempo não mata o que o amor semeou.
É que a neve do tempo não congela nem pára a firmeza e a profundidade das raízes
daquilo que foi construído a quatro mãos. Tio Nilzinho e Tia Nice são como duas grandes e corajosas árvores da Vida: estendem seus galhos de amizade e carinho a filhos, netos e sobrinhos; a amigos, conhecidos e vizinhos; e trazem a todos que estão à sua volta um exemplo de confiança e paz.

São 50 anos de casados, são 50 anos de vida, são 50 anos de uma profunda amizade de casal, vez que os casais, além do amor, precisam ser amigos de si mesmos, pois é dessa amizade que nasce o sentimento cúmplice do belo.

Tio Nilzinho e Tia Nice, mesmo na distância entre este Rio Grande do Norte e as montanhas de Minas, receba o nosso abraço, nosso afeto e muita admiração. Afinal, as distâncias foram feitas para ser as estradas por onde mais facilmente a saudade nos leva àqueles que amamos.
Emanoel e Teinha

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Políticos e tropeços; tropelias e fracassos

"Quem sabe faz a hora,
não espera acontecer."
Geraldo Vandré

Em sua recente visita a Natal, o candidato a presidente Geraldo Alckmin cometeu senão um ato falho, pelo menos uma confusão verbal: declarou ao Jornal de Hoje Primeira Edição que "o presidente Lula terá uma reeleição difícil." O sentido imediato da afirmativa chega a ser bastante claro: Alckmin admite, antecipadamente, que será derrotado pelo Presidente. Suponho que ele pensava o contrário, mas, de qualquer forma, cometeu o deslize declaratório, que o jornal não soube aproveitar como manchete.

Se os seus raciocínios político-administrativos forem todos desse tipo, o Brasil estará, sob seu governo, numa situação difícil. Já pensou, um presidente pensando de um jeito e agindo de outro? Já pensou, um presidente pensando que pensa de um jeito e desdobrindo depois de um grande erro que na prática a teoria é outra?

Ironias à parte, não confio nas promessas de Alckmin, como também não confio que o presidente Lula, caso venha a ser reeleito, consiga transformar o País no melhor dos mundos. Isso ele já vinha prometendo e deu no que deu.

Se você se vira para o outro lado, Anthony Garotinho está agora sob acusação de ter recebido doações de ninguém menos que um assaltante. Pode? Nunca pensei de ver tanto horror perante os céus...

E chegando a uma terceira margem do rio o que encontramos? Deputados flagrados como usufrutuários de verbas de 15 mil reais, gastas com... gasolina. É realmente um assunto inflamável.

A realidade política brasileira se apresenta como um universo cintilante de encenações, um espetáculo triste e lamentável. Se o Brasil fosse uma caravela, certamente se realizariam todas as terríveis previsões do Velho do Restelo e iríamos a pique bem depressa.



terça-feira, 25 de abril de 2006

É o medo... é o medo...

Quem não luta pelos seus
direitos não é digno deles.
Rui Barbosa

De repente, você se descobre vivendo numa casa com janelas e portas gradeadas; de repente, até mesmo apartamentos estão gradeados. De repente, é o medo que se fez força espalhou-se entre nós. Problemas de má distribuição de renda, rápido e descontrolado processo de urbanização, falências de modelos de comportamentos, mudanças na estrutura familiar que deixou de ser um referente forte de mundo, e estamos aqui, imersos na convivência com o medo.

E aí surgem os condomínios fechados, lugares que se voltam sobre si mesmos, como se fosse possível fugir da violência do mundo. Morar num condomínio fechado, desses de segurança máxima, representa uma das mais vigorosas demonstrações da tentativa humana de fugir daquilo que nós mesmos construímos: uma sociedade de medo, cheia de conflitos, habitada por crises.

E essas comunidades de segurança, luxuosos claustros de conforto, são uma tentativa de evitar-se o mundo, como se fosse possível estar-se num lugar que está fora de todos os lugares.

Mas também é verdade é que nas ruas a insegurança corre lado a lado com os automóveis. E quando você estaciona o carro, corre o sério risco de um assalto, de ter o seu carro roubado ou o toca-CD arrancado com brutalidade.

Quem mora em apartamento tem medo de morar numa casa, quem mora numa casa arranja logo uma cerca elétrica e tenta se fechar. As pessoas parecem não perceber que isso apenas combate, ou tenta combater, os efeitos da violência, a restrição dos atos do criminoso, mediante medidas preventivas.

As causas da violência são sociais, decorrem do tipo de sociedade que construímos: valores, padrões, comportamentos de exclusão, cujas conseqüências redundaram na violência. Junte-se a isso a presença incompetente do Estado para promover políticas públicas de inclusão social, aliada à sua incapacidade de prevenção e repressão ao crime e temos a fórmula perfeita para o império do medo.

E, se é preciso ter para com o criminoso um olhar de humanidade, não se pode transigir com o crime, sob pena de nos tornarmos todos cúmplices ativos da cilada do medo.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

O contar de horas

Recebi de Alberto Barcelos a crônica que segue. O autor já foi escolhido como "Colunista da Semana" pelo Jornal do Brasil on line, quando publicou o texto que agora me envia. Vale a pena.


O prazer pode decepcionar;
as possibilidades, nunca.
Soren Kierkegaard

Um novo despertar, para uma vida que continua! Esse encontro, numa idade provecta, soa como arrependimento pelas horas perdidas de um sono, justo e merecidas, porém incapaz de descontar nas horas poucas que me restam.Aos oitenta, após vinte e nove mil e duzentas em que o processo se repetiu, deveria ter se estabelecido com a vida uma condicionante de não mais acabar, esquecendo-me que ela nada mais é que uma fuga da morte.

Rejeito a idéia e olho para o outro lado da cama: uma linda mulher, cheia de vida, divide comigo o espaço para dois, onde quarenta anos nos separam no tempo e em nossos desejos, embora reste uma tênue esperança de fazer com que esse relacionamento não se acabe.Sorrateiramente, afasto o lençol que nos cobre. O dorso nu da mulher amada aparece numa exuberância sem limite e seus dois faróis apontam para mim, como um desafio fosse. Suavemente cubro o que imagino ser só meu...

Levanto, pé ante pé, para preparar nosso desjejum, embora saiba que ela dormirá por bom tempo. Um hábito e um direito adquiridos por ela, quando há três anos, reúnem interesses comuns. Suco de laranja, mamão papaia e torradas de pão integral, dispostos em bandeja de prata, aguardam seu despertar, ao seu lado da cama.

As páginas do jornal que viro, em busca de recomendações de investimentos vantajosos, não podem, no seu farfalhar, despertá-la. Só acontecerá de forma espontânea, quando seu subconsciente chamá-la para a vida.Um breve sussurro, um espreguiçar de braços, gestos incapazes de manter o linho que cobre seu corpo, esconderem um tesouro que nele existe e, lá com seus botões, deve lembrar de Ana Carolina: “Tô nem aí!”

Meu córtex cerebral reage a um passado de cinqüenta anos atrás, desgastado pelo fisiologismo do sistema, de estimular a supra-renal da libido necessária para acontecer... Um sorriso franco, vendo meu carinho renovado, e um desabafo sincero: - Meu coronel!

A consciência da verdade cala fundo. Ontem foi um vestido. Hoje certamente será um sapato, e amanhã o anel pela comemoração do dia dos namorados.Porém, não concordo com tudo que ela sonha. A aliança, símbolo de uma união para sempre desejada, nego definitivamente.É a vingança de quem conta as horas, esperando o relógio parar!

sábado, 22 de abril de 2006

A espera

"É preciso emprestar-se aos
outros e dar-se a si mesmo."
Montaigne

Esperar é como um exercício, só que parado. A espera, para quem adestrou-se internamente, é uma forma de combate. A espera é prima-irmã do tempo; compreende seus atrasos, demoras, percalços, desvios de última hora. A espera é uma forma de severidade que não pune quem a sabe administrar. A espera pode até ser exultante, se você contém com mestria o impulso de arco que está dentro de você.

Diferente da resignação, que é também uma forma de coragem, quando você percebe e acata o inevitável e não se abate, a espera pode se transformar em angústia, quando o guerreiro deixa de esperar confiantemente.

A espera não se desilude, não sucumbe ao tédio, não se dobra ao aparente vazio do momento que pára; a espera é uma forma de dinâmica que o homem pode aprender com as estátuas, estas em seu eterno movimento congelado no ar.

A espera, no instante preciso, saberá dar vôo ao sentimento contido e, logo depois, estará caminhando ao lado da liberdade. A espera é um abraço que você guarda cuidadosamente para a mulher que é sua: imóvel enquanto não é dado, mas poderoso quando toca seu corpo de estátua.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Jornalista lança livro sobre atendimento ao cliente

Recebi e-mail sobre livro de autoria do jornalista Walter Medeiros. Segue na íntegra.

O livro “Onde está o atendimento”, escrito pelo jornalista Walter Medeiros, já está sendo distribuído para as livrarias de todo o Brasil e se encontra disponível no site da Editora Viena, onde podem ser vistos o índice e outros detalhes.


O livro trata da qualidade no atendimento e satisfação do cliente, através de cinqüenta artigos publicados na internet e revistas especializadas. Traz também um posfácio sobre a Norma NBR ISO 10002, da ABNT, referente à satisfação do cliente, que entrou em vigor em 30 de janeiro de 2006.

O link para acessar o livro é
http://www.editoraviena.com.br/livraria_detalhes.asp?ProdID=720&Cat=9 ou www.rnsites.com.br/atendimento.htm .

Segundo a publicação, o momento mágico de atendimento ao cliente é bem mais amplo do que se pode imaginar. Mas ao contrário do que era de se esperar, a cultura empresarial levou os estabelecimentos a reduzir profundamente o âmbito do contato com o cliente. Chegaram ao ponto de limitar muitas vezes o “atendimento ao cliente” a um cubículo quase escondido, onde às vezes encontramos até pessoas mal humoradas.

As situações narradas pelo autor são todas verídicas e ocorreram nos mais diversos estabelecimentos e lugares, como café, shopping center, farmácia, loja de discos, loja de móveis, banca de revistas, loja de informática, plano de saúde, loja de material de construção, restaurante, imobiliária, repartição pública, SAC, conselho profissional, site, consertos, supermercado, táxi, corretor de seguros, estabelecimento de ensino, hotel, peixaria, estacionamento, consultório médico, clínica, escritório de cobrança, academia, buffet, ótica, eventos, farmácia, loja de artesanato, sapataria, laboratório e loja de baterias.

Trata-se de leitura indispensável para profissionais de todos os setores que se preocupam com a imagem da sua empresa ou instituição. Depois da leitura desse livro, o leitor certamente vai enxergar o atendimento em lugares onde talvez nunca tivesse imaginado.

O petróleo é nosso. O petróleo é nosso?!!!

"O insucesso é apenas uma oportunidade
para recomeçar, com mais inteligência."
Henry Ford

Abaixo, transcrição de matéria do Estado de S. Paulo. Depois, um comentário.

Lula irá à plataforma para imitar Getúlio

Ele deve repetir o gesto dos anos 50 e mostrar mãos sujas de óleo Nicola Pamplona - RIO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobe hoje pela segunda vez na plataforma P-50, desta vez para anunciar a conquista da auto-suficiência na produção nacional de petróleo.


A expectativa é que ele repita, em frente às câmeras, o gesto de Getúlio Vargas, que, no início da década de 50, mostrou as mãos sujas de óleo aos fotógrafos em ato para comemorar a descoberta de um poço de petróleo pela então recém-criada Petrobrás.

Por motivos de segurança, a viagem do presidente à plataforma enfrentou resistência de técnicos da estatal, mas a promessa de boas imagens em ano eleitoral pesou na decisão dos organizadores da festa.
Além da comitiva presidencial e de executivos da empresa, pelo menos dois helicópteros foram reservados para o transporte de fotógrafos e cinegrafistas à P-50. Por causa da limitação no número de pessoas que podem embarcar ao mesmo tempo na plataforma, não será permitida a presença de repórteres na visita. __________________

Além do comportamento marqueteiro do presidente Lula, é de se lamentar algo mais, com releção à Petrobrás - grafo sempre Petrobrás porque assim o termo deve ser escrito, já que se trata de um oxítono. Sem o acento agudo, a marca apenas adequou-se ao idioma inglês, que desconhece acentuação. Ou seja, a Petrobrás apenas adequou-se aos interesses de seus parceiros-mentores internacionais.

Se alguém se recorda, a retirada do acento tônico ficou envolta num princípio de escândalo, quando a empresa queria gastar milhões com a mudança na marca. Que me lembre, foi impedida a tempo. Ficou só na retirada do acento agudo.

Pois bem, este artigo será curto e eminentemente interrogativo. Eis o que se segue:

Por que a Petrobrás, que se gaba tanto de ser uma empresa eminentemente nacional, a maior delas, vende gasolina tão cara ao sofrido povo brasileiro?

Por que é tão cara essa gasolina, se o Brasil já alcançou a auto-suficiência em petróleo?

Por que a Petrobrás adiciona álcool à gasolina, deixando a sociedade refém dos usineiros?

Por que o governo não determina que todos os carros já saiam de fábrica com a possibilidade do uso de gás como combustível, em vez de gasolina ou álcool? Ou, pelo menos, com a possibilidade de múltiplos combustíveis?

Houve uma época uma grande campanha cívica em favor na nacionalização da exploração do petróleo. Era a campanha "O petróleo é nosso."

A meu juízo, restou uma perplexidade: "O petróleo é nosso?" Você acha que a direção da Petrobrás está pelo menos um pouquinho preocupada com seu bem estar, sua segurança, com suas despesas com combustíveis? Se alguém pensa assim, ou é um tolo ou muito mal intencionado.

PS: a culpa não é do Governo Lula. A Petrobrás há anos explora o povo brasileiro, às custas de manter essa conversa de empresa nacional. Não sou privativista. Defendo a empresa estatal. Só não posso admitir que se monte uma situação que se vem sustentando ao longo da história, o povo não se beneficia de nada e ainda tem de engolir uma miragem.

Flores no meu caminho

"Se não houve frutos, valeu a beleza das flores;
Se não houve flores, valeu a sombra das folhas;
Se não houve folhas, valeu a intenção da semente."
Henfil


É de Zilda Neves a crônica que recebi e publico. Vejamos:

A natureza é bela. Em qualquer lugar, a qualquer momento tudo fica lindo. É a presença das flores enfeitando a vida com seus matizes. No meu caminho, elas estão sempre presentes, deixando suas marcas. Ainda pequena, aprendi a admirá-las e delas cuidar com muito carinho nos jardins da casa de meu pai, português, onde as rosas de várias espécies e cores eram as suas prediletas.

Os canteiros eram embelezados por violetas, crisântemos, dálias, lírios, copos de leite e cravos, hoje pouco cultivados. A admiração era sempre voltada para as flores plantadas, e somente em ocasiões muito especiais, uma ou outra era cortada e colhida.Pela primeira vez, tive em minhas mãos um buquê de rosas, brancas, lindas! Era o dia do meu casamento.

O tempo passou... elas murcharam, perderam o frescor, colocadas ao acaso, assim como o meu matrimônio. Ao longo de minha trajetória de vida, no meu trabalho, sempre que possível elas estavam presentes.: num vasinho ou em uma jarra, em minha mesa. Como todo ser humano, minha vida foi vivenciada com algumas histórias: as margaridas, num “mal-me-quer” ou “bem-me-quer”, serviam de brincadeira, com esperanças de terminarem num bem querer!

Os brincos-de-princesa eram colhidos, colocados em minhas orelhas, como se jóias fossem. Dizem os entendidos num ditado popular: “Lá de trás daquele morro tem um pé de manacá, nós vamos casa e vamos pra lá...” A esperança de um novo amor renasce...O leitor se lembra do buquê de rosas brancas?

Pois bem, alguns anos atrás, no dia do meu aniversário, ganhei um lindo buquê de rosas, igual àquele, porém: vermelhas, sensuais, cor da paixão, que mais uma vez marcou meu caminho, dessa vez espero, para sempre...

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Insegurança no Campus da UFRN

Não é de hoje que o Campus da UFRN enfrenta problemas com a insegurança. Assaltos, arrombamentos, temor entre estudantes e professores. Recebi, da jornalista Emily Araújo, e-mail que segue abaixo, abordando o assunto.

Prof. Emanoel, Venho lhe estimular através deste e-mail a escrever em seu blog sobre a segurança no campus. Além dos problemas que nós já conhecemos, houve um arrombamento seguido de roubo no departamento de Artes e na Superintendência de Infra-estrutura. Uma servidora da superintendência enviou e-mail para a lista de discussão "Ciranda" relatando o fato, o qual lhe encaminho abaixo.
Abraço!
Emily Araújo
_____________ Caros cirandeiros e cirandeiras,Depois do CCSA e da Escola de Música, chegou a vez da Infra-Estrutura , Deptº de Artes e FUNPEC.Cheguei para trabalhar e, como parece ter virado rotina na universidae, o prédio havia sido arrmbado e roubado.Não podemos pensar só nos danos financeiros mas, hoje, por exemplo era o último dia de envio de alguns projetos que estavam em computadores que foram levados.

No setor de projetos perderam os computadoes e os discos de arquivo foram quebrados e outras e outras perdas que comprometem a retomada dos trabalhos nos setores.Pelo tamanho do estrago relatado por colegas que chegaram mais cedo e ainda tiveram acesso ao prédio, só um caminhão para levar tudo.

Sorte deles, dos ladrões, que chegaram no local em horário que o carro da ronda não passou, pois senão teriam passado maus bocados. Digo isso porque no dia que o carro de uma amiga foi levado do estacionamento do setor V do Campus, em pleno meio dia, ao chamar a segurança do Campus, levou um susto quando desceram do carro 4 homens armados.

Talvez seja bom cada um começar a prever em seus projetos uma pequena verba para segurança, aliás pode até ser ítem obrigatório, como câmeras, cerca elétrica, vigilância privada... Bom dia a todos e todas e bom feriado!Marjorie (20/04)

Tempos velhos, fotos antigas

"De súbito sabemos que é já tarde.
Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas
e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos.
Que não será aqui a nossa festa."

Paulo Geraldo

Gosto de olhar fotografias velhas. Observar as expressões, os olhares, os gestos captados e imobilizados pela câmera. E de imaginar o que se seguiu após aquela foto, o que aquelas pessoas foram fazer, quais os destinos que cumpriram, quantas tiveram a vida revirada em tragédia, quantas alcançaram seus planos, quantas apenas viveram o tédio diário e mudo, quantas...

Olhar fotos velhas em paredes, em revistas muito antigas, em painéis que às vezes encontro, é para mim como uma viagem no tempo. No tempo envelhecido e gravado no papel. Observando as fotos muito antigas entendo: estou olhando para fantasmas, quem sabe fantasmas gentis, almas cordiais que jamais assombrarão nem casarões abandonados ou aguardarão as pessoas em ruas escuras.

Olho para fantasmas e percebo, quando olho em volta, que também, de alguma maneira, estou cercado de fantasmas, que cumprem o mesmo destino daqueles que estão naquelas fotos. Todos podem ser fotografados e, sem perceber, daqui a cem anos, serão apenas vultos impressos na fotografia.

Olho então para esses fantasmas e percebo então que também sou um fantasma. Quem sabe, nesse momento, alguém esteja fazendo a minha foto.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

A natureza

De Zilda Neves recebi o texto que segue:


A tristeza do lilás ou roxo é sobrepujada pela VIOLETA. Nas flores, ela é representada no amor-perfeito, na hortência, na alamanda, no formoso ipê e na flor que leva seu nome, violeta. Tão lindas e singelas...

A cor ANIL, na esfera de nossa Bandeira, recebe o brilho das constelações. Nos jardins, são lindos miosótis pequeninos, que a representam. Nos olhos de uma criança, são duas contas azuis, suaves, que passam tranqüilidade...Jardins, florestas, matas.

Em todos, está presente o magnífico VERDE. É a cor da esperança: no amor, no sucesso, na vida. Árvores, arbustos, caules, folhas sempre verdes, enfeitando a natureza.

Ah! AMARELO. Como é lindo ver um girassol com suas pétalas voltadas para o “Astro Rei”, irradiando energia. Lindas flores, com essa cor, embelezam os canteiros: dálias, rosas, tulipas, como se fossem um tapete coberto de ouro!

Mescla do brilho do ouro, com a vitalidade do vermelho paixão, o ALARANJADO está sempre presente nos arranjos florais ou na composição de estampados, nas passarelas.

Sensual é a representação do VERMELHO: o amor. Pulsa nos corações apaixonados. Cor quente, abrasadora, arrastando consigo a paixão... Nas rosas, significam a cumplicidade. Nas tulipas, uma declaração de amor. Nas dálias exuberantes, uma linda mulher. Na calliandra, o rouge nas bochechas de uma criança... Todas, literalmente, representam o coração!Paz! Tão desejada, tão almejada pelo homem, num mundo cheio de guerras e conflitos.

O BRANCO, em todos os momentos traz serenidade, harmonia. É a cor da pureza tão bem representada nos lírios.O Arco-Íris é um fenômeno da natureza, onde ocorre o encontro da chuva e do sol ao mesmo tempo. A luz solar branca sofre decomposição, dando origem às luzes coloridas: violeta, anil, azul, verde, amarelo, alaranjado e vermelho.

Esse fenômeno, conhecido popularmente com “arco-da-velha”, quando ocorre, traz alegria para adultos e crianças que correm pelos jardins, bosques e praças, misturando-se com o colorido das flores... Tem sido tema no folclore, na literatura e aqui mais uma vez, motivo de inspiração!
*****

sexta-feira, 14 de abril de 2006

A alquimia de Alckmin

"Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo:
nem ele me persegue, nem eu fujo dele,
um dia a gente se encontra."
(Mário Lago)

O candidato à presidência da República Geraldo Alckmin está no Nordeste. Veio "nos ver" e "ser visto". As notícias estão dando essa informação. Vai assistir hoje à encenação da morte de Cristo em Fazenda Nova, Pernambuco, e amanhã participa de um megaalmoço com líderes de partidos que poderão apoiar sua candidatura.

O Nordeste só serve para isso mesmo: candidatos quase anônimos nacionalmente vêm aqui para nos usar como laboratório sócio-comunicacional, querem se tornar personalidades de mídia, atrair a atenção do público, testar a sensibilidade do nordestino a um novo produto político.

É assim, com essa alquimia política, que Alckmin vai tentar fazer decolar nesta região sua candidatura. Vai chegar com um sorriso implantado na boca, a mão estendida por alguns segundos a pessoas na rua e no sertão, buscando mimetizar à sua imagem os desejos, sofrimentos, insatisfações e desencantos do Nordeste.
É triste, mas ele vem para ser visto. E espera, com sua alquimia, fazer passar por algum tubo de ensaio o pensamendo do nordestino para, depois desse processo, transformar o povo em voto e a perplexidade com essa sua atitude de cálculo eleitoral em esperança.
E enquanto sua mulher, dona Lu, fica em São Paulo experimentando vestidinhos caríssimos, ganhos de presente, ele, travestido de líder, quer dizer ao nordestino que essa fatiota, essa fantasia de líder, lhe cai bem.

Tempo de ficar triste

"O pessimista é uma pessoa que, podendo
escolher entre dois males, prefere ambos."
(Oscar Wilde)

A música ao fundo é com Billie Holliday, chama-se On the sentimetal side. É algo tranqüila, boa de ouvir. A voz da diva é suave como uma mulher de andar elegante e discreto. Escrevo meio devagar, teclando aos poucos, coisa incomum. Sou de redigir rápido, metralhando o teclado. Mas hoje é Sexta-feira Santa, antigamente conhecida como um dia grande, um dia santo.

Acho que é por isso que estou escrevendo devagar. Acho que é porque hoje é dia de ficar triste. Não aquela tristeza que sai da gente como algo que estava guardado e de repente aparece: espontâneo e forte, que dá até para notar. Mas tristeza como reflexão, atitude interna que requer silêncio só de você, mesmo que a seu lado estejam todos cumprindo o ritual diário da voz e do barulho.

Uma tristeza programada, metódica, que tem começo, meio e fim. Acho que hoje é dia de ficar triste porque há tantas dúvidas e são poucas as portas a se abrir; são tantas pessoas, cada uma com o seu passado, e muitos e incertos todos os futuros; são largos os rios e frágeis as poucas pontes; o pouco sem poder de enfrentar o muito; a fome sem poder encontrar um prato.

Acho que construímos um mundo estranho. Só para dar um exemplo, um mundo onde a publicidade intensa e enfática diz e diz que você precisa porque precisa de um telefone celular de marca tal, porque assim poderá falar tantos minutos,
ligar para-não-sei-onde, beber palavras dos outros, falar, falar, falar.

Na verdade, o que se oculta por trás de tanta fala é um silêncio denso e fútil; na verdade, não se fala: emitem-se sons supostamente inteligíveis, durante conversas que não levam a nada. Os celulares são a marca da convivência banal, a frivolidade eleita como estilo de vida.

Mas se hoje é dia de ficar triste, é também dia de saber que essa tristeza, como falei, programada e serena, é apenas um instante antes do próximo passo. Depois, de caso pensado, você volta e sabe que a vida continua. Afinal, se a noite é escura, é durante a noite que dormimos para, dia seguinte, tocarmos a vida em frente. Então, enfrente. E, dessa vez, nada de tristezas.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

A voz das ruas

"O Brasil não é para principiantes."
(Tom Jobim)


A recente prisão de Suzane Richthofen, menos que atender a um imperativo de legalidade, a partir de uma suposta base moral que rege a formulação das leis, atendeu muito mais ao clamor social que se espalhou pelo País, ao se constatar, pela imprensa e pela TV Globo, que a assassina de seus próprios pais era, ao invés de uma jovem de estrutura emocional frágil, na verdade uma personagem fria e cruel. Tanto, que havia participado do matricídio e parricídio.

Na verdade, não havia mais o que constatar. Ela confessara o crime e sua particiação. Errou a Justiça ao permitir a sua libertação. Mas o enfoque que quero dar não vai na direção do questionamento da Justiça, unicamente; sim no encaminhamento do quanto a pressão da imprensa, respaldada pela opinião pública pode, em um determinado instante, direcionar o norte dos acontecimentos.

O quê ocorreu, então? Com o flagrante, com o desmonte da farsa, o Judiciário caiu em si: jamais deveria ter libertado a jovem Suzane. Uma espécie de vergonha social varreu certamente o aparelho da justiça. Afinal atendeu-se à voz das ruas, que jamais aceitou tal libertação, e a ordem liberatória foi revogada.

Vendo um caso como o de Suzane Richthofen, endende-se facilmente porque Tom Jobim dizia que o Brasil não é para principiantes.


terça-feira, 11 de abril de 2006

"É goooooooooooooool!"

“O sapateiro não é a
pessoa mais autorizada a
dizer onde o sapato aperta.”
(Raymundo Faoro, ex-presidente da OAB)

Não se sabe bem como, mas, de repente, ele se viu cercado por um bando de meninos taludos, todos acusando-o de haver, simplesmente, furado a bola da turma. “Eu? Como fiz isso?”, questionou, antes de receber o primeiro safanão na cabeça.

“Ora”, respondeu o maior de todos “vimos quando você ia passando e chutou a nossa bola, que voou e bateu bem ali, naquele caco de vidro.”

Só que não tinha sido ele. A bola realmente dera a impressão de haver batido em seu pé direito, seguindo então certeira para o caco de vidro, desses que são colocados em cima de muros, para proteger o quintal das casas.

O menino raivoso perguntou, ameaçador: “E agora, vai pagar o prejuízo?” Ele não tinha como pagar o prejuízo de uma bola oficial, novinha, orgulho de turma.

“Então”, disse o maioral, “vamos ficar com os seus sapatos. Vamos vender e comprar outra bola.” Ele não tinha como se defender. Era menor, mais fraco, estava sozinho e os outros eram exatamente o seu oposto.

Outro garoto da turma, sentindo-se o próprio senhor da situação, uma espécie de vassalo privilegiado do mandão do pedaço, até aproveitou para lançar um desafio, certo de que isso resultaria na humilhação total do garoto que estava sendo acusado.

Disse:“E vai ver que você nem ao menos joga futebol. Deu aquele chutão só por chutar. Não dribla, não faz embaixada, não cruza, não atira a gol.” Todos caíram na risada. Era o máximo, tripudiar sobre alguém indefeso.

Como que por encanto alguém apareceu com uma bola, também oficial e novinha e lha entregou: “Toma, vai lá, mostra que é o bicho...”, ironizou o aprendiz de brutamontes. O menino olhou para um lado, para o outro, buscou uma brecha por onde pudesse fugir e somente viu ante seus olhos uma massa compacta de corpos rijos, que impediam até mesmo um pensamento de escapada.

Aí, aconteceu o que nem ele mesmo esperava. “Vai!”, berrou um moleque, empurrando-o. E ele foi. Incrivelmente, dominou a bola, fez embaixadas incríveis, driblou um, dois, três, quatro e seguiu em frente, dando um show.

A molecada de queixo caído. Ele controlou a situação, saiu jogando sozinho, deu um chute enorme e estourou a bola contra um ferro pontudo que havia num muro. Todos fizeram “ohhhhhhhhh!”, enquanto viam a bola murchar.

Ele sorriu, virou-se para os adversários e berrou a plenos pulmões: “É goooooooool!!!”, e foi embora sorrindo.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Não adianta fugir, ninguém pode se esconder

"O Grande Irmão
zela por ti."
(Do livro 1984, de George Orwell)


Temor ao dar qualquer passo, insegurança até em casa, vigilância sutil, domínio silencioso. Assim deverá ser o mundo em futuro bem próximo. Sua vida pode ser vigiada, acompanhada, segredos pessoais devassados, hábitos personalíssimos conhecidos. Tudo como conseqüência de um simples acesso à internet.Veja o que pode acontecer, e o que já está acontecendo, no artigo que transcrevo abaixo, intitulado "A sedução dos serviços gratuitos".

Empresas da web oferecem ferramentas online sem pagamento, mas comercializam dados pessoais dos internautas.
David H. Freedman - Newsweek


Uma amiga tira uma foto sua com o celular e o coloca na bolsa. O aparelho, ainda ligado, descobre quem você é e envia a informação junto com sua localização para uma empresa que arquiva o dado com outras informações pessoais. Assim, um indivíduo pode pagar à firma para lhe encontrar e ser notificado da sua proximidade.
A empresa pode ser o Google, Yahoo ou Microsoft. Nenhuma rastreia as fotos do celular, mas elas o seguem de outras formas e lucram com isso. A idéia é fechar o cerco para, em cinco anos, conhecer seus movimentos, amigos, interesses, compras e correspondências. Com isso, ajudariam os marqueteiros a ganhar dinheiro.

A posição do usuário determinará o futuro da computação. Google e outros gigantes da web criarão uma constelação de produtos baseados nos seus dados pessoais e apostam que você trocará as informações pelos benefícios. Mas, ao cooperar, perderá grande parte da sua privacidade - e talvez mais.

Com o detalhamento dos nossos arquivos, fica fácil registrar crenças políticas, históricos amorosos, hábitos embaraçosos e pequenos delitos. O risco é o de ser perseguido rotineiramente por isso. Ou pior: temer embarcar em comportamentos que possam ser controversos.

- O que acontecerá no campo da privacidade nos próximos 10 anos terá implicações profundas em como nos relacionamos social, econômica e politicamente. Não deveríamos entregar tão fácil nossos dados para o mercado - explica Jerry Kang, professor de Direito da Universidade da Califórnia.

O Congresso americano estuda leis que tornariam ilegais a coleta e partilha de informação pessoal na internet ou por celular sem aviso e permissão claras. Esse tipo de restrição já existe em parte da Europa.

Mas os esforços parecem fadados a falhar. Uma nova geração de consumidores, adolescentes, cresce sem medo de entregar informações sobre si no Orkut, blogs e fotologs.

O diretor de Pesquisa do Yahoo, Prabhakar Raghavan, diz que a ''rede sensível'' coletará e tratará as informações.
Como mágica, ela entende o que você quer e o atende na hora e lugar certos, em PCs, rádios ou celulares.

Marissa Mayer, vice-presidente de Busca e Experiência do Usuário do Google, espera o dia em que possa falar ao carro que quer ir a um restaurante francês ou pedir à TV que faça o download de um filme.

- Qualquer computador me ouvirá e tomará ações relevantes para mim na internet.

As tecnologias para tal estão chegando. Muitos celulares já identificam onde o usuário está. Na Ásia e Europa, os telefones móveis são cartões de crédito sem fio. As empresas podem rastrear suas compras e indicar promoções, como a de um prato no restaurante da esquina.

Para evitar ser rastreado, não adianta desligar o celular. Nos Estados Unidos, cerca de 25 mil câmeras de vigilância já estão instaladas em locais públicos e privados e aumentam em 2 milhões por ano. Em cidades européias como Londres, é difícil caminhar na rua sem ser fotografado de vários ângulos. E, em cinco anos, não será mais preciso um humano para reconhecer o sujeito na imagem.

- A rede saberá tanto de você como um amigo próximo - avisa Michael Gold, pesquisador no SRI Consulting Business Intelligence, na Califórnia.

Grandes redes sem fio, chips com transmissão por rádio e telas de vídeo tornarão os produtos na prateleira e na casa em ''objetos inteligentes''. O pacote de cereal no supermercado o informará, por um visor, que seu estoque em casa acabou.

- Se a rede sabe onde você está e a caixa é conectada a ela é fácil gerar a mensagem - afirma o professor de Engenharia Elétrica da Universidade de Princeton, nos EUA,

Em cinco anos, a maioria dos cidadãos receberá informações personalizadas ao andar na rua. Pode ser um alerta no celular avisando que seu amigo está na cidade ou pelo som do carro de que uma loja próxima tem uma ótima promoção.

O envio de anúncios diários baseados nos dados pessoais é a a única forma que Google, Yahoo e outras empresas têm para ganhar dinheiro, já que estamos mimados por serviços gratuitos delas.

- Cobrar uma mensalidade por um serviço online é uma boa forma de perder 90% dos consumidores. A atenção humana é sempre rentável - afirma Steve Jurvetson, diretor da Draper Fisher Jurvetson, empresa de investimentos de risco em alta tecnologia nos EUA.

Por isso, as empresas podem arriscar o envio de anúncios com base no seu perfil. Assistiu a um programa sobre energia solar? Visita muito a oficina? Pode ser candidato à publicidade de um carro híbrido, enviada quando estiver próximo a uma concessionária.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

As falsas feias

Se o povo não tem pão
que coma brioches.”
(Rainha Maria Antonieta)

Há algum tempo, leia-se há muitos anos, eu costumava, em parceria com o jornalista Vicente Serejo, redigir notas para uma coluna que, no Diário de Natal, fazia o maior sucesso: chamava-se “Bastidores”.

A coluna surgira sem qualquer planejamento, um verdadeiro calhau, para encher um canto da página 3, onde ainda hoje está o noticiário político. Bastidores, entretanto, não tratava só de política. Seu pequenino espaço, uma coluna, de cima abaixo, permitia-nos vôos bem distantes do puro (ou melhor, impuro) jogo do poder político.

Ali, em poucas linhas, traçávamos vários tipos de assuntos, até que um dia inventei de falar numas tais de, imagine só, “falsas feias”. Ficamos, eu e Serejo, sustentando uma seqüência de notas a respeito do tema, dizendo coisas mais ou menos como “a falsa feia é a mulher que, na verdade, traz uma beleza embutida no rosto e somente em determinados momentos se permite-nos a sua visão.”

Agora, passado já um bom tempo, e tocando nesse assunto novamente, concordo: as falsas feias não são feias em si: a visão dos outros é que não lhes encontra a beleza oculta e densa. A falsa feia é diferente da falsa bela, a mulher que precisa se produzir demais, para atrair olhares e, mais que isso, admiração e, melhor ainda, inveja das demais.

A falsa feia tem a discrição dos tímidos, pois sente-se diferente e, como tal, discriminada; torna-se suave não por maneirismo, mas por saber que, quem a descobrir, terá chegado a uma praia imensa, somente a poucos dada.

Querendo, pode ser irônica, afrontando a beleza inútil e produzida das que se acham as maiorais.A falsa feia é a Bela que não precisa adormecer para ser beijada. Ela é dona dos seus próprios sonhos.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Quando o crime vira lei

"A roubalheira política ganhou jurisprudência."
(Alex Medeiros, jornalista)

A frase de Alex, muito além de ser um achado, é uma inusitada espécie de resumo, um vade mecum dos corruptos, uma deixa fácil para culpados recuarem em direção aos bastidores, perdendo-se depois nos escaninhos do esquecimento.

A Câmara dos deputados, ontem, viveu momentos tristes. O deputado Pinotti chegou a dizer que a Casa não deveria "julgar irmãos", deixando a apuração de culpas de parlamentares ao Poder Judiciário.

O deputado João Paulo Cunha citou o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que em um de seus contos fala de uma velhinha cega que admitia ser culpada de um crime que absolutamente havia cometido. Mas confessara, tal a pressão policial, para assim agir. Na mesma história, o escritor dizia que o suposto crime tinha sido publicado pela imprensa, o que seria suficiente para formar a acusação e configurar a culpa.

E a imprensa, na ficção de Galeano, mentia. O deputado, então, colocou-se em situação igual à da personagem, colocando-se como vítima. Logo ele, que admitira de público que havia recebido dinheiro do mensalão. Mas agora, não. Não houve, nada; nada, a não ser uma espécie de alucinação coletiva, cujo resultado seria a culpabilidade de um inocente parlamentar.

O final da ação corporativa dos deputados foi elucidativo para quem acompanhou pela TV o processo de votação e apuração. Anunciada a absolvição de João Paulo, ouviu-se um grande silêncio, manifestação imaterial da vergonha plural, o bisonho epílogo da honradez.

Alex foi feliz em sua frase lapidar. Infeliz é o povo que tem deputados assim. Escudado pela jurisprudência da roubalheira, o deputado João Paulo fugiu da imprensa num passinho apressado, correndo a se esconder em seu gabinete, tão logo encerrou-se a sessão.

Rui Barbosa tinha razão: é chegado o tempo em que os homens têm vergonha de ser honestos. Oremos ao Senhor.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Madrugada

"Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode
ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas."
(Olavo Bilac)

Recebi de Zilda Neves este sinteticamente belo e grandioso texto. Trago para você ler.

Faz frio! Na sala, oito relógios. Todos com horários diferenciados nos segundos.
Duas horas. Tic-Tac, Tic-Tac...

Um pêndulo balança sonoramente.
O cuco canta pausadamente.
A vida também é assim: tem seus minutos e segundos diferentes; assim como os relógios: minutos e segundos alternados...

Observo atentamente. Um está parado. Resolvo acertar as horas. Ando para lá, ando para cá... Paro. Reflito...
Deixo como está. Olho ao redor.
Os móveis no mesmo lugar: a arca; a mesa redonda com quatro cadeiras; a poltrona coberta por uma manta de tecido brocado; um carrinho de chá, em desuso; um pé de máquina, centenário, única recordação de um noivado, em Portugal, de meus pais.

Lembranças de uma vida passada tornam-se objetos de decoração...
Caminho pela sala.

Olho mais atentamente: abajures, pratos de parede em porcelana, uma deusa - peça de origem francesa -, formam contraste com um camiseiro que destoa do ambiente.

Não me agrada. Tento arrastá-lo, voltando-o para o lugar de origem: no quarto.
Volto atrás minha decisão: seria inconseqüente, um transtorno à passagem de uma pessoa debilitada.

Gostaria de não estar aqui, nesse momento. Não posso!
Os minutos passam.
Tic-Tac, Tic-Tac...
O tempo passa.

Estou triste. Não choro...
Estou com fome. Não me alimento...
Estou com frio. Não me agasalho...
Por quê? Porque estou só. Muito só...

Ouço passos na rua: uns apressados, com certeza trabalhadores para o seu dia de rotina; outros, lentos... Talvez namorados, sem pressa de chegar...

Fecho os olhos para uma oração.
Peço paz, tranqüilidade, abnegação e serenidade para o dia que começa,
e a incerteza do momento em que a morte o levará...
Apago as luzes!

terça-feira, 4 de abril de 2006

Sobre o Cristo apresentado como gay

Recebi, do jornalista Alex Medeiros, grande figura e grande caráter, e-mail que segue.

Caro Barreto,
Vi o filmete há algum tempo, até citei-o num artigo sobre a polêmica das charges de Maomé. Usei como referência para falar da intolerância muçulmana em comparação com outros credos. Ninguém até agora viu um só cristão querendo queimar embaixadas por causa do tal filme.
Abração, Alex

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Jesus mostrado como gay

"O sentido da vida consiste em que não tem
nenhum sentido dizer que a vida não tem sentido."
(Niels Bohr)

O diretor argentino Javier Prato, de 28 anos, está exibindo um clipe em que apresenta a figura de Jesus Cristo como um gay parrudo, debochado e escandaloso, que afronta pessoas e caminha pelas ruas de uma metrópole envergando unicamente um fraldão. Ele entoa a canção I will survive, dublando a cantora Gloria Gaynor, um sucesso e referência musical dos gays. O ator Miguel Mas faz a interpretação de Cristo.

De repente, ao tentar atravessar uma avenida, o Cristo é colhido por um ônibus e literalmente é tragado pelo veículo, sumindo em meio a um grande impacto visual e sonoro.

A produção, que está dando ao seu diretor seus 15 minutos de fama, tem sido encarada ao redor do mundo por pessoas que a consideram como um acinte, um sacrilégio, bem como por aqueles que a entendem apenas como uma jogada de auto-promoção do site do argentino ou simplesmente manifestação de irreverente senso de humor. A imprenssa tem registrado isso.

O título da canção, em português, é Eu sobreviverei, mas o Cristo não sobrevive em meio à metrópole. É tragado por ela, some, desmaterializa-se em meio ao caos. Seria a vitória da "racionalidade" urbanóide em sua lógica bem própria de caos cotidiano, sobre a irracionalidade advinda da religiosidade.

A mensagem pode ter outras leituras, além das visões simplistas de sacrilégio ou humor escrachado.

Inicialmente, tem-se morte do Cristo, enquanto símbolo, ao ser apresentado como uma pessoa desequilibrada, que anda pelas ruas gesticulando louca e vaidosamente, em substituição à imagem ancestralizada de Jesus como um ente de paz, sabedoria, tranquilidade e equilíbrio.

Além disso, a mensagem insinua que, no mundo de hoje, Jesus seria já uma figura/representação desatualizada, incompetente para conviver com o modus vivendi dos tempos de hoje. Não mais preencheria expectativas nem deveria ser tomado como padrão comportamental ético, sendo portanto substituído por uma nova ética do cotidiano das pessoas e suas relações.

O ator mostra um Cristo agressivo, que tromba com as pessoas, choca, apela, agride pelo visual e pelos gestos. Perfeitamente inserido nas sociedades de avançado processo de urbanização, onde imperam a concorrência a qualquer preço e a falta de compostura do ser humano na busca de traçar seu caminho entre os seus iguais.

Houve uma espécie de ato falho do diretor, que, ao investir contra uma figura que encerra uma gama de valores positivos, acaba por desmascarar, sem o querer, que tipo de sociedade está sendo gestada: vazia, centrada na aparência, regida por uma competição desregrada e que segue em frente, sem respeitar quem esteja ao lado ou colocado no meio do caminho.

Vale a aparência, não a essência. A mensagem, além de não contribuir para a luta que os gays desenvolvem em favor de seus direitos civis e de conquistar o respeito social pela sua opção sexual, ajuda a acirrar visões e preconceitos contra eles.

Além do mais, termina por ser um louvor, um hino alienado em favor de um tipo de sociedade em que o simulacro das relações se manifesta até mesmo em pessoas travestidas. Parecem, mas não são; e são o que não parecem, ou seja: não são críticos, são apenas pessoas que seguem uma multidão faminta por momentos exuberantes. Mas esquecendo de que o rio em que se navega é o mesmo que pode afogar.

O endereço do site é:

http://youtube.com/watch?v=Hcp9WsH5TBg







domingo, 2 de abril de 2006

Os meninos estão bem*

“Liberdade, Liberdade,
abre as asas sobre nós.”
(Do Hino da República)
Dona Maria Eutínia morava no Tirol, idos dos anos 50. Gravemente religiosa, mantinha a família, inclusive o marido, sob estritos cânones de orações diárias, respeito aos ditames da Igreja e austeridade em todos os seus atos.

Acreditava piamente que dinheiro muito era coisa do Diabo e assim a família não precisava buscar amealhar dinheiro:“Dinheiro é coisa do Cão. Não junte dinheiro. Dê aos pobres o que sobrar do salário”, cobrava de seus cinco filhos e de Juvenal, o marido, dono de uma mercearia.

Com o passar dos anos, Dona Maria Eutínia foi ficando mais e mais arredia com as coisas do mundo e voltando-se para o mundo da religião. Missa todo dia bem cedinho, orações enquanto fazia o almoço. E, enquanto preparava as refeições, ouvia no rádio notícias de que os preços estavam subindo, subindo.

“É a carestia, é o Cão se preparando para tomar conta de tudo”, pensava, com angústia. Quando os filhos saíam para o colégio, ficava temerosa: o que seria deles no futuro, quando o mundo fosse dominado todo pelo dinheiro e pelo Diabo? E quando ela morresse, o que seria deles e de Juvenal?

E foi com pensamentos assim que preparou um almoço especial. O marido e os filhos chegaram, comeram e foram dormir. Nunca mais acordaram. Dias depois, percebendo um estranho odor que exalava da casa de Dona Eutínia, os vizinhos arrombaram a porta e lá estava ela: na sala de visitas, rezando o terço, cercada pelo marido e pelos filhos envenenados.

“Dona Eutínia, o que foi isso?”, gritou uma vizinha.“Agora está tudo bem, Zefinha, agora está tubo bem. Deixa o futuro chegar. Os meninos estão bem. Agora, eles não têm que ter medo do dinheiro e do mundo.”

* Esta narrativa e ficcional.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Não traga o dragão

"Gagarin subiu, subiu,
Foi até o espaço sideral.
Chegando lá na lua ele sorriu:
vou m'imbora pro Brasil,
Que o negócio é carnaval"
(Marchinha de carnaval, quando o russo Yúri Gagarin fez a primeira viagem espacial)

O astronauta brasileiro Marcos Pontes vai passar oito dias no espaço, enquanto seus companheiros lá ficarão por seis meses. A imprensa está comemorando o fato com os clarins do heroísmo. O fato não está sendo analisado. Está sendo relatado.

O que de tão importante para a ciência pode ser constatado em apenas oito dias? Foram 35 milhões de reais, para uma viagenzinha espacial. Muito, para um país cujo povo tem tão pouco.

Este comentário é curto. Espero apenas que, ao voltar, se ele não puder trazer São Jorge para nos ajudar, não traga, por acaso, em meio às suas tralhas astronáuticas, o dragão. Se isso ocorrer, estamos em má situação: como não mais existem cavaleiros andantes, nem mesmo Dom Quixote, quem nos salvará da fera?

Não vou, não vou e não vou...

"Na guerra, o essencial é a vitória;
não campanhas prolongadas."
(General chinês Sun Tzu, em "A arte da guerra")

O ex-ministro Palocci disse que não ia, porque estava com estresse. Okamotto, aquele que pagou do própio bolso 23 mil reais de uma dívida do presidente Lula para com o PT, também não vai. Mais claramente, esse pessoal está sendo chamado, chamado não, intimado a depor pela Polícia Federal, mas não vai.

Não vai, não vai e não vai. E não acontece nada.

Uma pergunta: a polícia perdeu seu... poder de polícia? Quer dizer que suspeitos, pessoas notoriamente envolvidas com transações ilegais, se apresentam para depor quando querem, se querem ou se puderem? Lamentável, não?

A questão de Okamotto, dirigente supremo do Senac, chegou ao deboche: um agente foi entregar a intimação, que ele não recebeu porque "estava viajando", foi o que disse uma secretária e assim publicado pela imprensa. Só que, à saída, o agente voltou por qualquer motivo e viu ninguém menos que Okamotto saindo de uma sala e entrando em outra.

Espere aí: isso não tipifica alguma figura delituosa? O sujeito não poderia ter sido preso ali mesmo, por tentativa de obstrução do trabalho policial? A situação brasileira, cheia de enigmas morais, viscosidades éticas, transvios de conduta ideológica, chega agora ao cúmulo da cretinice.

Elementos de alta periculosidade - sim, corrupção e desmandos com os dinheiros públicos, a meu ver, tipificam periculosidade - caminham à solta e, soltos, futuramente voltarão a delinqüir.

Eu supunha que uma intimação policial tinha força coativa, era uma imposição, não uma escolha por parte do intimado. Em meio a um governo que em seu cerne acumula toda uma gama de desregramentos e depravações políticas e administrativas, o presidente Lula pensa sua próxima intentona: voltar a dirigir - eu disse dirigir? - os destinos do Brasil.

Na verdade, ele intenta dirigir as desditas do Brasil. Nisso ele é muito bom.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Banalização da Carta Magna

"Muitas vezes a inteligência
vale mais que o conhecimento."
(Einstein)

O jornalista Walter Medeiros envia artigo cuja transcrição segue abaixo.


O mundo tem visto a repetição cotidiana de imagens que, antigamente, a ficção seria acusada de imaginar demais, caso as produzisse em películas cinematográficas. A aventura destruidora e mortal do presidente Bush no Iraque, com mortes aos milhares, depois da aventura louca no Afeganistão, em busca de Osama Bin Laden, que até hoje não encontrou.


Aqueles campos de prisioneiros criados pelos americanos em Guantânamo, que vez por outra vêm à tona, mostrando imagens horrorosas, que só lembram os campos nazistas, e tantas outras situações fartamente “ilustram” os telejornais através dos relatos sobre a vida, o poder e a morte dos traficantes de drogas e outros.

Os produtores do Fantástico, por exemplo, parece que perderam a noção do próprio nome do programa e transformaram a chamada revista eletrônica do domingo em mais um programa de reportagem policial; não bastasse o Linha Direta, que presta seus serviços e desserviços também toda semana.

Desta forma vai se consolidando na sociedade a cultura do fato policial em primeiro lugar, invertendo completamente a ordem de interesse que qualquer sociedade saudável tem, de deixar para o vulgo as páginas ensangüentadas dos jornais caça-níqueis.

Pois esta banalização da violência vai mais longe e começa a contaminar os ambientes onde se podia esperar que não ocorresse, em vista de certos mantos protetores que encontramos nos regimentos e regulamentos internos das casas legislativas.

E chega pelas vozes de advogados que, a título de discutirem questões ligadas ao cotidiano dos processos administrativos e judiciais, extrapolam no linguajar, de forma completamente diferente daqueles tempos em que se usava o latim no âmbito jurídico e a linguagem chula era rechaçada, para manter elevado o nível das discussões.

O fato que motiva estas considerações se deu no dia 28.03.2006 durante reunião da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal. Tratavam sobre as vantagens ou desvantagens de implantar a chamada Super-Receita e para tanto vieram representantes de diversos setores do serviço público federal e entidades representativas de categorias profissionais envolvidas na questão.

Os argumentos até que eram fortes e pertinentes, mas de uma hora para outra começaram a achar que havia um desamparo de certos setores que, devido à legislação vigente, teriam desvantagens ou desequilíbrio ante as regalias estatais.
Meses atrás escrevi artigo sobre violência, onde enumerava as formas como a sociedade recebe ou é invadida pela mídia, principalmente, com termos incitantes, muitas vezes utilizados até inadvertidamente e sem nenhuma intenção de cultuá-los.


No futebol, tudo é “gang”, “máfia”, “tiro de longe”, “vamos agredir mais”, “vamos combater”, etc. Fato que se repete em programas, novelas e telejornais. Da mesma forma que nas escolas as crianças e jovens usam termos que nem no chamado baixo meretrício usavam antigamente.

Mas o que chocou naquela discussão entabulada no Senado Federal, com transmissão ao vivo para todo o Brasil, foi a explicação que altos funcionários (altos pelo menos no status) da Receita Federal, que condenavam o poder de certo colegiado de decidir contra o contribuinte sem opção de recurso.

Aquele que teria um leque imenso de palavras a utilizar para representar sua indignação foi tão longe e, o pior, sem qualquer estranheza dos presentes, para definir em três palavras o que achava do cerceamento dos direitos dos contribuintes: “Estupraram a Constituição”.

A afirmação, esdrúxula - por mais metafórica que tenha sido - constitui um desrespeito àquele documento que veio trazer um novo ordenamento jurídico para o Brasil, no rumo da legalidade e da legitimidade. Diz a doutrina e a lei, sobre o estupro: “crime contra os costumes consistente em constranger mulher, mediante violência ou grave ameaça, a manter conjunção carnal.”

Aceitar com naturalidade aquelas palavras, seria o mesmo que considerar normal as ocorrências costumeiras nos presídios, onde os presos que declaram com ar de sabedoria o Artigo do Código Penal onde estão enquadrados, cometem mais crimes ao alegarem que fazem justiça com as próprias mãos, para punir os estupradores que chegam com o fim de cumprir suas sentenças.
(
walterm.nat@terra.com.br )

Insegurança e Estado

"Inimigos sabem que quando a França
envia um regimento da Legião Estrangeira
é porque quer acabar com o conflito rapidamente."
(Gianni Carta, jornalista)

A frase acima, pinçada do livro "Velho Novo Jornalismo", dá bem a dimensão de quanto o problema da violência, quando atinge pontos socialmente inaceitáveis, precisa de uma ação enérgica do Estado, sob pena de estar encaminhando o conjunto da sociedade ao descalabro, ao desequilíbrio, ao medo.

Refiro-me à histórica leniência do Estado brasileiro para com o crime organizado, aqui e, em especial, no Rio de Janeiro. Ontem, o Jornal de Hoje Primeira Edição abordou a existência de um ponto de venda de drogas a apenas 100 metros de uma delegacia em Neópolis. O fato é do conhecimento da polícia e nada foi feito.

Em função da matéria, apenas reduziu-se um pouco o tráfico. Mas, depois, tudo volta ao normal, ou seja: os bandidos voltarão a agir com desenvoltura, violência e impunidade.

O caso no Rio, milhares de vezes mais grave do que o de Natal, onde também se comerciam largamente drogas de todos os tipos, demonstra com bastante clareza a ineficiência decisória do Estado em enfrentar com rigor, quero dizer, com ação implacável, a ação dos criminosos.

A situação no Rio já chegou ao ponto do insuportável e, historicamente, mantendo-se o atual quadro, poderá trazer conseqüências as mais dramáticas, uma vez que os bandidos têm organização e inegável poder de fogo.

Junte-se a isso o fato de que bandidos autores de crimes hediondos poderão ser beneficiados com prisão semi-aberta. Com isso estarão novamente nas ruas, livres e rápidos, para voltar à prática do seu ofício de morte. Cidadãos vão morrer e os bandidos terão sempre uma nova chance para voltar ao crime.

O Estado tem o dever de garantir ao cidadão o exercício da cidadania e isso inclui o direito de ir a vir. Com a ação dos bandidos, esse direito está duramente atingido. Portanto, é preciso dos aparelhos policiais não apenas uma presença meramente legal, mas uma ação eficazmente presente.