sexta-feira, 1 de julho de 2011

A doce vida dos corruptos

Acompanho a olhar tardo o noticiário salpicado, difuso, relatando as coisas dos corruptos. Nas coisas de jornal é assim: no início há cobertura intensa mas os corruptos, esse seres dotados de alma encharcada, conseguem receber - e aparar - todos os golpes. Os amortecedores morais de seus corpos civis suportam a carga da artilharia da imprensa e meses depois já quase ninguém deles se lembra. O corrupto é um imoral bem assessorado.
Pois bem: passada a fase dura do noticiário,  o processo se amorna, acomoda-se entre os papéis de outros processos e todos dormitam entre o mofo e as traças. E assim o corrupto, protegido pelo silêncio caduco da lei processual, cobra forças para novas investidas, assume outros cargos, torna-se autoridade novamente. E vai, vai e vai; até que surge nova denúncia, mas ele nega até o fim. Sabe que nada lhe aconteceu e, sob a proteção pesada da cortina do seu próprio poder, bebe seu uísque e estira a mão para a fortuna, a deusa da sorte que há tanto o acompanha.



quarta-feira, 29 de junho de 2011

O crme do Vectra prateado

Não se vende uma menina

A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa. 
A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.

Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”

Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”

“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos. 

Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.

“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.

“Sim; mas não se vende  uma menina." Apontou a pistola para o delegado. E disparou.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Arraiás da memória

Walter Medeiros – waltermedeiros@supercabo.com.br
 

Os festejos juninos, principalmente para nós, nordestinos, proporcionam momentos agradáveis e felizes, que vêm das nossas raízes e ligações com a terra, a caatinga, o sertão. Algo como ouvir aquele acorde da sanfona e as batidas da zabumba e do triângulo; como comer aquela espiga de milho cozido ou assado; aquele pratinho de canjica; aquela pamonha. Tudo isso junto forma aquele tradicional arraiá, que antigamente era feito quase por rua, e há alguns anos passou a ser concentrado na disputa para saber quem faz o maior do mundo.

Meus arraiás estão guardados na memória, e deles tenho aquela saudade de quem já sabe que foram felizes e ficaram lá no passado. O “Arraiá do Xico Careca”, do tempo da Av. Rafael Fernandes – anos 60; o arraiá da Rádio Cabugi e Tribuna, feito aos pés da antena que ficava nos transmissores da estrada da Redinha, à época tão longe; o arraia do Movimento Estudantil, onde dançamos até ao som de Belchior; o Arraiá do Pinguinho de Gente, acompanhando a criançada; o Arraiá do SESC Taguatinga, quando morava em Brasília; o Arraiá de Alfama, com o manjerico, dois anos atrás (foi de lá que vieram tantos trejeitos bons); e hoje o “Arraiá da UNICAT”, nosso local de trabalho.

Sempre que se fala em arraia, vêm à mente aquelas músicas que tanto marcaram os citados momentos: “Ai, São João / São João do Carneirinho...”, “Tem tanta fogueira / tem tanto balão...”, “Zabé como é que pode / eu viver longe de você...”, “Eu fiquei tão triste / eu fiquei tão triste naquele São João...” mas para marcar as quadrilhas eram sempre as marchas animadas, porém não tanto. Hoje multiplicaram as batidas e as quadrilhas dançam num ritmo frenético e desconforme, que as distancia daquele passo tão confortável de antigamente.

Movimentando o arraia, agora vemos gente fantasiada com trajes meio carnavalescos, e na TV dizem também que a estrutura de confecção das vestes é idêntica à dos barracões das escolas de samba, algo meio Carnaval. Aos poucos foram sumindo aquela fogueira em que se assava milho e elegia os compadres, as comadres, os afilhados e as afilhadas, sob os versos inesquecíveis do “São João Disse / São Pedro confirmou...” tão fortemente cantados por Luiz Gonzaga.

Não sou contra os grandes forrós. Apenas não consegui ainda me situar neles. E até mesmo por bairrismo, torço para que Mossoró ganhe de Caruaru e Campina Grande, para que nossos conterrâneos passem a ostentar o título de maior São João do Mundo. Apesar da discriminação da mídia, que mostra até coisas menos importante, pois deixa de mostrar qualquer festejo junino do Rio Grande do Norte, haja vista o Globo Repórter passado.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

 A chuva em Natal

A chuva em Natal trocou a luz tropical da cidade por um cinza calmo, um silêncio salpicado pelo tamboril dos pingos e muitas vezes uma cachoeira que despeja litros de barulho no telhado. A chuva em Natal trouxe o inverno do sertão às ruas. A chuva em Natal trouxe a este meu início de férias a vontade de um bom livro e um pouco de descanso. A chuva em Natal aguou o meu jardim. A chuva em Natal vai fazer-me parar um pouco e ter tempo para escrever, mesmo que só um pouco.

sábado, 25 de junho de 2011

Meu Nome é trupizupe Zé Tamalho Ao Vivo

 Deu na Folha:
Documentário busca a verdade sobre o ET Bilu; veja

AMANDA DEMETRIO
DE SÃO PAULO


"Busquem conhecimento", disse o personagem que ficou conhecido como ET Bilu, em um vídeo que virou fenômeno na internet. O produtor de vídeo Fernando Motolese e o hacker Vinícius K-Max seguiram o conselho à risca e correram atrás da história do suposto ET. Os dois estão lançando a primeira parte de um documentário sobre Bilu e o Projeto Portal, grupo de pesquisadores que cuida da fazenda onde o suposto ET teria sido encontrado.

"Em outubro do ano passado, vimos o vídeo da 'TV Record'. Inicialmente, achamos que aquilo fosse uma palhaçada, mas o Vinícius começou uma investigação, analisando tudo o que já havia sido publicado sobre o assunto", afirma Motolese, com exclusividade à Folha.

Os dois conseguiram, então, a autorização para visitar a fazenda do Projeto Portal. "Nos primeiros quatro dias de expedição, aconteceram fenômenos impressionantes. Uma fenda se abriu no céu e vimos luzes inusitadas. Ficamos impressionados", conta Motolese.

Na segunda viagem, os dois amigos viveram como integrantes do projeto durante 15 dias. "É preciso ter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos", explica, enfatizando que não há consumo de drogas no projeto. O contato com Bilu veio de uma maneira inesperada. "Ele se movimentava no mato, sem que a gente pudesse escutar. Ele piscava luzes muito diferentes e de uma maneira muito rápida. Isso ajudou a gente a quebrar a imagem de que ele fosse uma pessoa disfarçada", diz.

Segundo ele, muita gente "ridicularizou" Bilu. "Adotamos um posicionamento sério, contratamos um locutor do 'History Channel' para dar um ar sóbrio ao documentário. Nossa investigação é totalmente independente", afirma Motolese. Acreditam na existência do ET? "Ainda não temos certeza total, porque não o vimos sentado do nosso lado, mas estamos tendendo mais a acreditar do que a não acreditar."

Um segundo episódio do documentário será lançado em breve, já que o Projeto Portal afirma que o ET Bilu passará uma mensagem importante para a Terra em menos de 20 dias. "A partir daí, vamos produzir a segunda parte", conta Motolese.

Assista à primeira parte do documentário (com narração em inglês e legendas em português):


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Quando for visitar a Câmara Municipal de Natal não se assuste com as figuras que verá. Aqueles rostos, aparentemente tão díspares do que se convencionou chamar de face, são apenas aspecto exterior. 

Na alma, são todos bons, seráficos e pios; rezam, comungam e distribuem óbolos aos mais necessitados e, semanalmente, organizam o Pão dos Pobres. São os vereadores, amigos. São bondosos, mas, aí sorte infeliz!, a natureza os privou da beleza superficial e tão em moda e eles apresentam o espetáculo facial dos circos de horrores. Mas afinal, como dizia o Pequeno Príncipe, o essencial é invisival para os olhos. Assim, confie na bondade dos vereadores. Verá: nada tem a perder. 

Agora, veja com que cara você será recebido:

1920's The Charleston

Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós

Tenho minhas desconfianças se a internet é assim esse reino da liberdade, anárquico e incontrolável, democrático e totalmente livre de injuções. Entendo que, em circunstâncias digamos normais, isso se aplique tomando-se como parâmetro o Ocidente. Mas, não esqueçamos que países como a China e a Coreia do Norte nos dão indicativos em contrário: ali a internet é sim controlada e dominada.

Comprovando o que temo, detalho: jamais aderi ao novo formato do Twitter. Acho que a versão atual é a melhor, mas para minha surpresa nos últimos dias, sempre que acesso, leio logo acima das caixinhas de TTs a seguinte informação que entendo como uma ameaça: "You will automatically be upgraded to New Twitter very, very soon."

Numa tradução livre, algo como "você será automaticamente remanejado para o novo Twitter, muito, muito em breve." Ou seja: quer queira ou não, serei levado à nova forma do Twitter por alguém que tem poder para isso. E pronto. Daí minha suspeita de que os donos de provedores ou seja lá o que for ou quem for que domine a internet têm, eles sim, a capacidade de nos dar a liberdade. E liberdade desse tipo, que é dada, não é liberdade, é uma espécie de território social onde eu posso trafegar, mas até certo ponto. E pronto.

Hackers LulzSecBrazil Atacam Site Brasileiro - Veja a Mensagem

Neste vídeo, os hackers que vêm atacando sites do governo brasileiro enfatizam sua ação com um discurso universalista. Algo como se estivéssemos vivendo um mundo guiado pelo Grande Irmão, sendo eles o grupo contra-hegemônico. Apresentam-se como onipresentes e capazes de denunciar e trazer a público atos e práticas corruptas mantidas em segredo. Utilizam-se de linguagem típica de filmes de ficção científica e têm no personagem de  "V de vingança" seu avatar. Veja o vídeo.

Um recado dos hackers LulzSecBrazil

O grupo hacker LulzSecBrazil que vem atacando sites do governo brasileiro divulgou no Youtube vídeo em que convoca uma grande mobilização contra "governos corruptos". Esse tipo de ação aparentemente busca assumir conotações político-ideológicas. Seria um neo-oposiconismo, cujos reais propósitos ainda precisam ser devidamente analisados.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

 Pela transcrição.

ADURN agora é SINDICATO!

Editorial publicado na coluna da ADURN no Jornal Tribuna do Norte, dia 17/06/2011

A data de 16 de junho de 2010 entrou para a história do Movimento Docente da UFRN, quando, em Assembléia, a categoria aprovou, de maneira definitiva, a criação do Sindicato Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Natal, Caicó, Currais Novos, Macaíba, Santa Cruz, Macau e Nova Cruz (ADURN-SINDICATO), num processo marcado pela ampla participação dos nossos professores. A criação do ADURN-SINDICATO recebeu o “sim” de 96,7% dos que participaram do processo.

A categoria enfim toma um rumo que aponta para o fortalecimento da participação dos docentes na entidade, com a criação da federação nacional dos sindicatos dos professores das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). Teremos, a partir de agora a responsabilidade de forjar um sindicato que tenha a competência política de trazer à categoria discussões, debates e proposições que elevem a representatividade dos professores.

A Associação dos Docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ADURN), foi criada em 1979, registrada em cartório em 1980, adquirindo identidade jurídica própria; e em 1992 tornou-se seção sindical do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN), passando a denominar-se ADURN-Seção Sindical do ANDES-SN. A partir de 2004, com a criação do Fórum de Professores das Instituições Federais de Ensino Superior (PROIFES-Fórum), a então Diretoria da ADURN, aliou-se ao mesmo e passou a contestar os rumos tomados pelo Sindicato Nacional, cada vez mais intransigente e voltado a construir uma central sindical “revolucionária e popular”, que mais tarde viria a ser chamada de Coordenação Nacional de Lutas – CONLUTAS, hoje CSP-CONLUTAS, ligado ao PSTU.

Com a eleição desta atual gestão,ocorrida em 2008 (e reeleita em 2010), a Diretoria optou por colocar, de forma definitiva, o debate sobre o nosso desligamento do ANDE-SN, a filiação ao PROIFES-Fórum e a criação do ADURN-SINDICATO.

Foi um longo processo, em que a Diretoria demonstrou que o caminho a ser seguido é o mais correto, na medida em que agora teremos o respaldo jurídico, consignado na organização sindical brasileira e teremos a força política necessária para a construção da Federação. Recebemos o apoio da categoria em várias ocasiões e, nesta quinta (16) o ato final transcorreu dentro da legitimidade consignada nas urnas e no voto.

O ADURN-SINDICATO nasce com o desafio de torna-se um representante efetivo da categoria docente da UFRN. Nasce com a força da participação dos professores na sua construção. Nasce soberana e independente.

domingo, 19 de junho de 2011

 Veja o que deu no Estadão:

Mundial tem orçamentos fictícios

Projetos precários e contestados pelo Ministério Público, como Maracanã e Mané Garrincha, abrem brecha para estouros propositais de gastos no evento


Rafael Moraes Moura - O Estado de S.Paulo
A conta da Copa do Mundo de 2014 é uma fantasia, um "chutômetro" calculado a partir de projetos básicos incompletos, mal feitos ou ambas as coisas. Essa precariedade, como se não bastasse, ainda serve para justificar estouros orçamentários. O projeto básico deve ter uma descrição suficientemente detalhada para caracterizar a obra ou serviço.
Beto Barata/AE
Beto Barata/AE
 
Sem campo. O Mané Garrincha, em Brasília, é um dos projetos problemáticos da Copa de 2014: no orçamento faltam os custos da cobertura, dos assentos, das traves e até do gramado
O caso de Brasília é emblemático do "voo cego". O governo do Distrito Federal alega que o novo Mané Garrincha vai custar R$ 671 milhões. Mas desse orçamento não constam cobertura, assentos, catracas e, pasmem, gramado e trave. "O preço final desse estádio é uma grande interrogação, que ninguém sabe responder", criticou o promotor Ivaldo Lemos Júnior, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

"Se fez licitação e excluiu o assento, iluminação e gramado, não pode atribuir à Fifa a responsabilidade, porque a Fifa estabeleceu que tem de ter iluminação, gramado, assento. Se alguém eventualmente fracionar a licitação por conveniência, que assuma a responsabilidade", disse o ministro do Esporte, Orlando Silva.

Em fevereiro, relatório do TCU sobre o Maracanã apontou que "não há qualquer segurança de que a planilha contratual, derivada do orçamento base, contemplará o custo real da obra".
Na Tribuna do Norte, coluna de Woden Madruga, encontro texto extraordinário, de inventiva certeira como flecha de Guilherme Tell. É a respeito da intetona da Copa do Mundo. Segue: 
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.apoio-sp.org.br/porta

A Copa e os sonhos de Vereda

No meio da semana cai na bacia das almas um bilhete de Florentino Vereda dando conta de uma passagem rápida por Natal e se desculpando por não ter tido tempo para um papo na Ribeira, apesar da vontade danada de rever o mestre Gaspar na calçada famosa do Cova da Onça. Estava fazendo uma baldeação (vinha do Tocantins) para o Arquipélago do Cabo Verde e a TAP só lhe tinha dado cinco horas de trânsito, mal dava para chegar em Lagoa Nova e pegar na casa de certo parente um livro de Luiz Romano que fala sobre os escritores cabo-verdianos, entre eles o Manoel Lopes, também poeta, uma de suas leituras preferidas (“E porque o teu coração encerra / a saudade do mar e a saudade da terra / - tua ilha é grande”). Na volta da África (iria até ao continente) marcaria um encontro na Bella Napoli. Gostaria de conhecer o poeta Volontê “e outros artistas natalenses”.

No bilhete, Vereda encaminha um texto que escrevera na véspera de vir para Natal, na noite friorenta que se derramava pelo Jalapão. Fala sobre a Copa do Mundo e um sonho que tivera nos cerrados. Vai na íntegra:

“Meu caro Woden:

Bom leitor que você é, certamente já leu ‘A interpretação dos sonhos’, de Sigmund Freud – que não entendia de churrascos nem de maracutaias, mas conhecia bem as desumanidades da mente humana. Pois bem: semana passada tive um sonho grotesco que – se me permite – gostaria de comentar agora.

Final da Copa de 2014. Por razões que só os sonhos podem explicar, jogam em Natal, as seleções do Irã e dos Estados Unidos. Natal está prestes de presenciar um acontecimento histórico, que poderá definir para sempre o conflito milenar entre muçulmanos e cristãos.

Antes do jogo, desfiles e alegorias dignas de Joãozinho Trinta, que nada tem a ver com um parente ilustre que compõem as hostes governistas locais. Desfiles alegóricos, lembrando fatos históricos desta brava terra de Poty. Motoboys ensanguentados e mutilados distribuem, aos espectadores, as pizzas cozinhadas em fornos das câmaras e assembleias legislativas. Pela passarela do Carnatal desfilam blocos multicores: verdes, vermelhos, rosados e outras tantas cores que ofuscam os olhares extasiados do público amontoado nas arquibancadas.

Há gente de todas as espécies: enfermos que, em macas e cadeiras de roda, abandonaram as filas dos hospitais; adolescentes – quase crianças – que deixaram os sinais onde ganham e perdem avida; funcionários públicos que interromperam as greves intermináveis e inexplicáveis. Palhaços, saltimbancos e malabaristas representam o povo em geral. Ninguém quer perder o espetáculo. Sapos barbudos cospem na plateia, em atitude de escárnio e desprezo.

Na preliminar jogam os times das penitenciárias de Alcaçuz e de Mossoró, que são estrepitosamente ovacionadas pelos seus fãs, lobistas que vieram de Brasília para torcer por seus times e seus ídolos e garantir a sua parte no butim. De repente, milhões de borboletas verdes – com as asas manchadas de rosa – passam esvoaçando sobre o novíssimo estádio, são atacadas por esquadrões de “aedes egypti” e somem dentro dos buracos que não puderam ser tapados por falta de recursos, todos desviados para a obra faraônica.

Embora o tempo regulamentar já se tenha se esgotado, o juiz não se decide a encerrar a partida. A bola continua a correr e os jogadores querem a sua parte. Cada gol marcado é multiplicado por vinte, sem que se consiga explicar o motivo.

Cada minuto a mais representa alguns milhões de dólares, mostrados no placar eletrônico, para delírio da torcida, que não se apercebe que os seus bolsos estão ficando mais vazios.

Terminado o jogo, foguetões explodem, mas, ao invés de luzes, muito sangue derramado, misturado ao leite roubado da merenda escolar. Em lugar dos estrondos retumbantes, choros de crianças mal nascidas, abandonadas nas ruas, cujo destino não passará dos semáforos da Prudente de Morais ou das calçadas da Roberto Freire. A pólvora queimada cheira a crack e oxi, consumindo os cérebros carcomidos dos adolescentes, outrora conhecidos como ‘futuro da pátria’.

Mas aí já é tarde, Inês é morta e o show deve continuar.

A FIFA não pode faltar com os inúmeros compromissos assumidos.

E eu, então, acordei com o barulho da implosão do Machadão, em cujo terreno serão sepultados o bom senso e a decência. Na lápide, uma frase singela: ‘Do alto desta arena quarenta ladrões me contemplam’.

Um abraço sonolento de seu admirador,

Florentino Vereda”
Dez anos de solidão

Lançando olhos nas folhas de domingo e nas folhas encontrando as coisas de jornal, eis que a força gravitacional da página diagramada encaminha e prende a vista numa nota de falecimento; nota de falecimento não: na verdade, o registro de recordação de uma filha pranteando o encantamento de seu pai. Algo chamou-me a atenção: diz ela, em detalhe de texto maior, que "durante dez anos foi impedida de ver o pai'".
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://i772.photobucket.com/albums

Um estudioso de semiótica diria que estava aí, no adjetivo "impedida", um índice, ou seja um indício, uma pista para algo mais complexo e tocante que a simples presença da palavra no texto. Explico: estar impedido é sutilmente diverso de estar impossibilitado. A impossibilidade pode ser decorrente da incapacidade de alguém de fazer algo seja por incapacidade de deslocamento, limitação de comunicação ou restrição de movimentos; as ilações seriam muitas. Já impedimnto pressupõe que alguém esteja sendo cerceado em seu direito de fazer algo. Eis aí o sentido trágico que precebi: uma filha obrigada a ficar ausente do pai.

Percebi então nesse índice todo um texto, um texto mínimo que sobrelevou-se como onda ao discurso onde estava inserido, um largo drama. Drama vivido de forma pungente e íntima pela filha separada do pai. Impedimento, assim, significou, claro fica para quem está acostumado a palmilhar textos interpretando o discurso adjacente, que ali se postava um fragmento de história de vida ou parte de todo um drama, palavra que o Houaiss define como "um acontecimento comovente".
E foi desta forma que a palavra inserida naquela texto, e confrontada com seu contexto, me apareceu: inscrevia-se naquele pequeno mapa o percurso de uma história em espiral de sofrimento. Cumprido ao longo dos dez anos que a filha ficou impedida de encontrar, ver, viver o pai - sim porque pessoas amadas são vividas por nossos sentimentos, são vividas em nós, chegam ao íntimo do eu profundo e nele se enraízam.

Suponho que havia ali um grande mistério, pelo menos uma grande dúvida em mim: por que impedida, por que não "distante" ou "saudosa"? Que grilhões prenderam aquela filha, cercando-a de distância e sofrimento? Mais que isso: quem foi ou foram os autores dessa história comovente? Então, foi isso que chamou a minha atenção neste domingo chuvoso. Mas, as coisas de jornal são assim mesmo: têm meandros, praias distantes, intenções subliminares, recursos sutis, surpresas para aqueles que sabem se surpreender.

Agora, se estiver errado, se a minha viagem estiver navegando na nau do equívoco, e nada do que suponho aconteceu - cerceamento, grilhões etc... -, perdão. E se alguém que conheça essa filha, desta crônica tomar conhecimento e lha contar que escrevi estas linhas peço perdão pelo gesto de escrever, mas afirmo: de alguma forma com ela sofri esses dez anos de impedimento. E lhe apresento aqui minha tristeza.



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Vejo na Folha suíte de matéria sobre esquema de ocultação da farra da Copa 2014. Compartilho.
 
Governo esconde gastos com novas obras da Copa

Ministério recua e não assegura mais divulgação de despesas na internet

Relator dos projetos do Mundial no TCU considera grave a falta de transparência dos gastos públicos


DIMMI AMORA
DE BRASÍLIA

O governo federal decidiu que não vai mais divulgar todos os gastos com obras e serviços contratados para a Copa do Mundo de 2014.
Em ofício enviado ao Tribunal de Contas da União, o Ministério do Esporte avisou que a prestação de contas de novos contratos de valor estimado em R$ 10 bilhões vai depender da "conveniência do Poder Executivo".

Esse é o segundo recuo do Planalto quanto à transparência das informações das obras da Copa. Anteontem, ele mudou a redação da nova Lei de Licitações e tornou sigiloso também o orçamento inicial. O projeto foi aprovado pela Câmara e ainda será examinado pelo Senado.
Se a mudança for mantida, órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União só serão informados sobre as previsões de gastos se o governo achar conveniente, o que poderá prejudicar a fiscalização dos projetos, como a Folha mostrou ontem.

Quando se candidatou a sediar a Copa, o Brasil se comprometeu com a ampla divulgação de suas despesas com o evento. "Todos os gastos públicos serão acompanhados pela internet por qualquer cidadão brasileiro ou do mundo todo", disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho de 2010.
O Planalto prometeu divulgar no Portal da Transparência, mantido pelo governo, na internet informações detalhadas sobre os gastos.

Agora, segundo ofício do Ministério do Esporte, o site só acompanhará contratos que já tinham começado a ser divulgados. A inclusão de novos gastos em áreas como segurança e telecomunicações não é assegurada.

O TCU aponta em relatório outro problema: o portal não tem sido atualizado.
Os técnicos afirmam que não aparecem no site pouco mais de R$ 500 milhões gastos em obras e serviços das rubricas que a pasta prometeu continuar a divulgar.
Entre as obras está a intervenção urbana na rodovia BR-163, em Cuiabá, avaliada em R$ 357 milhões.
Também não foram atualizados os orçamentos das obras dos estádios. O custo do Maracanã, por exemplo, cujo projeto foi modificado, saltou de R$ 600 milhões para cerca de R$ 1 bilhão.
O relator dos projetos da Copa no TCU, ministro Valmir Campello, considerou grave a predisposição do ministério em não prestar todas as informações.

"Não vejo como tratar desse fluxo de informações sem uma ciência ampla de todas as ações envolvidas", escreveu em relatório analisado na quarta-feira. "[Isso] representa uma prévia assunção às cegas dos riscos envolvidos para a realização bem-sucedida do Mundial."
O TCU determinou que até o fim de julho o Ministério do Esporte detalhe seus planos para segurança, turismo, saúde e outras áreas e atualize essas informações a cada quatro meses. E que atualize, ainda, os cronogramas de obras que já estão no portal.

Segundo o TCU, esta parte do planejamento está atrasada. O ministério não respondeu aos questionamentos da Folha alegando que ainda não foi informado pelo TCU das críticas feitas no relatório de Campello.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Algo de podre, podre poder

Transcrevo da Folha e abaixo comento:  
A Câmara dos Deputados aprovou ontem à noite o texto básico de uma medida provisória que permitirá ao governo federal manter em segredo orçamentos feitos pelos próprios órgãos da União, de Estados e municípios para as obras da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada do Rio em 2016.

A decisão foi incluída de última hora no novo texto da medida provisória 527, que cria o RDC (Regime Diferenciado de Contratações), específico para os eventos.
Com a mudança, não será possível afirmar, por exemplo, se a Copa-2014 estourou ou não o orçamento. O texto final, porém, ainda pode ser alterado, já que os destaques só serão avaliados no dia 28.


Pelo texto atual, só órgãos de controle, como os tribunais de contas, receberão os dados. Ainda assim, apenas quando o governo considerar conveniente repassá-los -e sob a determinação expressa de não divulgá-los.
A MP altera ou flexibiliza dispositivos da Lei de Licitações (8.666/1993) para as obras da Copa e dos Jogos. O governo tenta mudar a lei desde 2010, mas esbarrava na resistência da oposição.


Normalmente, a administração pública divulga no edital da concorrência quanto estima pagar por obra ou serviço (orçamento prévio).
O cálculo é feito através da aplicação de tabelas oficiais ou em pesquisas de mercado. O valor é usado para balizar o julgamento das propostas. O governo alega que a divulgação pode estimular a formação de cartéis e manipulação de preços.


Na versão que o Planalto tentou aprovar em maio, a MP prometia disponibilizar os valores aos órgãos de controle e não havia restrição à revelação dos dados.
Além disso, os órgãos de controle poderiam solicitar informações antes ou depois do final da licitação. Agora, a MP diz que o orçamento prévio será disponibilizado "estritamente" a órgãos de controle, com "caráter sigiloso". Também foi retirada do texto a garantia de acesso a qualquer momento por esses mesmos órgãos.


Em tese, portanto, o governo poderia informar valores só após o fim das obras.
O texto foi reescrito ontem pelo deputado José Guimarães (PT-CE), após reunião do colégio de líderes dos partidos governistas na Câmara.
O RDC estabelece outros pontos polêmicos, como a possibilidade de aumentar o valor de um contrato sem limite, na mesma licitação.


Hoje, pela lei, esses aditivos estão limitados a 25% (obras novas) e 50% (reformas).
A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) pediu unidade na base aliada na votação da MP.


O Ministério das Relações Institucionais disse à Folha que o caráter sigiloso do orçamento estava "implícito" no texto anterior e que a mudança ocorreu para deixar a redação "mais clara".


Ainda segundo a assessoria de Ideli, a possibilidade de sigilo é prevista na Constituição "quando há interesse do Estado e da sociedade".
A alegação é que a abertura de preços reduziria a competitividade e que tudo estará, em algum momento, disponível a órgãos de fiscalização.

...... 
 O sigilo em torno do uso, ou abuso de dinheiros públicos é algo que indicia, suscita de antemão a suspeita. Por que manter fora do alcance da sociedade o emprego dessas verbas? A Copa de 2014 é um evento de dimensões ciclópicas, está atraindo um enxame - ou um magote, uma curriola -, de gente que vai ganhar dinheiro, muito dinheiro. Dinheiro que sem dúvida faltará naquele escolinha de bairro, nas finanças de um hospital público, nas verbas para a Universidade brasileira. Só para ficar nesses exemplos.


O segredamento tem ares de coisa mancomunada, trama, tramoia, conluio protegido por lei. É caso paradoxal, engenhosa manobra político-legal para garantir o convescote que vai girar em torno da copa como moscas sobre... você sabe.


Isso é só o início do que será a Copa em termos de finanças. Depois, depois ficaremos como ficou a África do Sul: elefantes brancos plantados pelo país afora e o povo, bom o povo teve o seu quinhão: gritou gol e ficou feliz pra danado.
A sombra, assombração ou o pudor do Poder

Inventiva, engenho e arte. O talento do fotógrafo cujo nome não pude apurar, flagrou esse instante magistral, transporto a instigante metáfora das coisas do Poder.

O ministro em desgraça é advertido pela sombra da presidente. 

Surreal formulação das coisas, dos escaninhos do Poder: a fantasmática sombra como espectro da punição, dedo em riste àquele que desobedeceu às normas - que deveriam reger - o pudor do Poder. Genial momento de fotógrafo que desconheço.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Transcrevo da Assessoria de Imprensa da UFRN.

Livro
Marize Castro revela preciosidades sobre Zila Mamede


A escritora Marize Castro lança nesta sexta-feira, às 11h30, na Cooperativa Cultural da UFRN, seu mais novo livro: " O Silencioso Exercício de Semear Bibliotecas ". A publicação, resultado da sua dissertação no mestrado em Educação, é um profundo trabalho de pesquisa sobre a obra e a convivência de Zila Mamede com os livros.
Ninguém melhor do que Marize para falar do seu ensaio sobre a trajetória de Zila e sua dedicação na organização de bibliotecas. Confira a entrevista:

Qual a sua relação com Zila Mamede?
Conheci Zila e sua poesia na década de 1980. Ela era a poeta em Natal que mais me suscitava curiosidade. Admirava (ainda admiro, claro) sua preocupação com a forma, seu trabalho com a palavra. Fui vê-la pessoalmente pela primeira vez durante uma aula do Laboratório de Criatividade – uma experiência interessante, que reunia os jovens poetas da época, com professores-poetas como Luís Carlos Guimarães e Franco Jasiello. Zila foi convidada para falar sobre seu processo de criação. Depois da sua fala eu fiquei ainda mais interessada para conhecer sua poesia. No entanto, só fui apresentada a ela em 1984, quando ela estava lançando o seu último livro “A Herança”. Quem nos apresentou foi o poeta Nei Leandro de Castro. Uma semana depois eu lancei meu primeiro livro, “Marrons Crepons Marfins”, e Zila Mamede foi a primeira pessoa da fila para quem eu autografei. Depois não mais deixamos de nos falar. Há um capítulo no livro que eu narro todos os nossos encontros até a sua morte, em 1985.

O que levou você a escrever “O silencioso exercício de semear bibliotecas”?
O livro é fruto de minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, sob a orientação da professora Arisnete Câmara de Morais. Como disse antes, Zila Mamede e sua obra sempre foram de meu interesse. Quando ingressei na pós-graduação esse interesse tornou-se muito mais vigoroso. Pensei: eu posso estudar Zila no mestrado! Então fui ver o que já haviam falado sobre Zila na academia e constatei que a poeta já havia sido estudada, como relato no primeiro capítulo do livro, porém o importantíssimo trabalho dela como bibliotecária permanecia inédito. Daí, resolvi contar a trajetória dessa mulher excepcional semeando bibliotecas naquela Natal da década de 1960.

Foi difícil pesquisar o universo de Zila Mamede com os livros?
Consultei livros de memória de autores como Mailde Pinto Galvão e Umberto Peregrino, mas para reconstituir o trabalho pioneiro realizado por Zila na biblioteconomia potiguar obtive também depoimentos de familiares e de profissionais que trabalharam com ela e, também, fui aos chamados setores de pesquisa dos jornais Tribuna do Norte e Diário de Natal. Inúmeros exemplares desses periódicos foram investigados, sustentando, iluminando a pesquisa. Enfim, nesses arquivos encontrei verdadeiras preciosidades sobre Zila Mamede nos textos assinados por nomes como Sanderson Negreiros, Woden Madruga e Dorian Jorge Freire.

Qual a importância desta obra para a UFRN e para a cultura do RN?
Diferentes abordagens trouxeram Zila Mamede à academia, mas a sua prática na área da biblioteconomia ainda não havia sido estudada. O trabalho pioneiro realizado por Zila de organizar bibliotecas no Rio Grande do Norte e de formar profissionais para trabalharem nessa “construção cheia de livros” – utilizando uma das acepções do Dictionnaire, de Furetière –, estava para ser contado. Este livro narra a trajetória pessoal e a trajetória profissional de uma pessoa que organizou as bibliotecas mais importantes do Rio Grande do Norte: a Biblioteca Central Zila Mamede, da UFRN, e a Biblioteca Pública Câmara Cascudo, acho que somente este dado responde a questão.
Não sou exatamente um admirador da linha editorial da Folha mas esse editorial abaixo vale a pena ler.


A sete chaves

Numa vitória do Estado contra a sociedade, Planalto ensaia recuo na promessa de dar acesso a papéis sigilosos após um máximo de 50 anos

Sob argumentos nada claros, o governo federal indica ter voltado atrás na promessa de empenhar-se pelo fim do sigilo eterno nos documentos oficiais do país.

Pela lei atual, os papéis de teor considerado "ultrassecreto" ficam 30 anos inacessíveis ao público, e esse prazo pode ser renovado indefinidamente. A Câmara dos Deputados decidiu, no ano passado, diminuir para 25 anos o tempo do sigilo, autorizando sua renovação por uma vez apenas.
Mesmo levando em conta a eventual gravidade das informações contidas em papéis do tipo, um total de 50 anos para sua divulgação não parece imprudente.
O projeto da Câmara foi encaminhado ao Senado Federal; a presidente Dilma Rousseff comprometera-se a apoiar sua votação tal como o texto se encontrava.
Recuou, entretanto. Ontem, a nova ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, acrescentou a isso a disposição do governo de manter a renovação do prazo do sigilo por tantas vezes quanto se considerar necessário.
Impede-se, assim, o acesso a informações que, em última análise, não são propriedade do governo, mas de toda a sociedade.
Vieram de dois antigos governantes, segundo se noticia, gestões para manter indefinidamente a guarda dos segredos de Estado. Os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor, hoje senadores, respectivamente, pelo PMDB do Amapá e pelo PTB de Alagoas, manifestaram suas preocupações.
Considerando-se as datas em que ocuparam a Presidência da República, ambos estariam preservados de divulgações inconvenientes por um bom tempo.
Estaria então sendo avaliado, pela ótica dos ex-presidentes, o perigo da divulgação de fatos ainda mais remotos? Quais?

Eis o mistério. Fala-se em acordos celebrados há mais de um século, relativos às fronteiras do país. À medida que se aponta para assuntos desse tipo, contudo, o segredo se torna paradoxal: vêm a público os seus motivos (ou pretextos), mas não seus termos.

Só resta a impressão de que algo -não se sabe o quê, e talvez qualquer outra coisa também- deve ficar escondido. O sigilo justifica o sigilo, eternamente.

Compreende-se a necessidade de cautela. Mas é comum, nas relações entre Estado e sociedade, que o argumento termine levando a abusos muito além dos supostos motivos que a originaram.

Como que movido pela própria natureza, o Estado resiste ao julgamento da opinião pública, mesmo em assuntos recobertos pela pátina do tempo. Pela intensidade da reação, contudo, pode-se inferir o quanto de democracia, ou de autoritarismo, há em seus atos.

Buracos de Natal - Por alunos de Reportagem Pesquisa e Entrevista - UFRN

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma oração

Jorge Luis Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. 

Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. 

A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. 

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.
O povo, o povo são restos a pagar. O povo é uma dívida cuja herança recai sobre o próprio povo. O povo é uma névoa que se esfumaça na penumbra dos gabinetes.

O Aadurn-Sindicato é um processo irreversível



Editorial publicado na coluna da ADURN no Jornal Tribuna do Norte, dia 12/06/2011

Consolidar uma nova forma de organização sindical. É com este objetivo que na próxima quinta-feira, 16 de junho, estaremos realizando uma Assembleia Geral, convocada para convalidar a decisão tomada pela categoria e pelos associados em julho do ano passado em criar o Sindicato dos Docentes das Universidades Federais com base territorial em Natal, Caicó, Currais Novos, Santa Cruz, Macaíba, Macau e Nova Cruz, o ADURN-Sindicato.

O direito dos professores de IFES de se organizar autonomamente em entidades locais, de base municipal, estadual ou nacional é inquestionável, e está amparado na Constituição Federal, na CLT e na Portaria 186 que disciplina a formação e desmembramento de sindicatos no Brasil.

A transformação da ADURN em Sindicato e a formação de um Novo Movimento Docente, plural, democrático e representativo, é uma reação legítima dos professores ao aparelhamento por partidos e correntes que a Andes sofreu ao longo dos anos e que a afastou, definitivamente, dos anseios dos professores das IFES. Isto levou os professores a buscarem novas alternativas de organização, como os Sindicatos Locais e o PROIFES-Fórum, na busca de canais de negociação efetiva de seus interesses, os quais têm obtido pleno sucesso, com os acordos salariais de 2008 a 2010, com a recuperação da isonomia entre ativos e aposentados, com a equiparação das carreiras de ensino superior, básico, técnico e tecnológico, entre outras conquistas históricas.

Esse processo é irreversível, porque emana da vontade expressa pelas bases, que democrática e soberanamente têm aprovado em assembleias massivas e históricas a transformação e a criação de entidades autônomas em relação à Andes.
Reiteramos o compromisso da Diretoria em defender os interesses específicos da categoria, convictos que poderemos contar com o apoio de todos os colegas professores para que possamos aperfeiçoar a democracia sindical, convalidando o ADURN-Sindicato.
É um momento significativo, pois estamos diante de um processo decisório dos docentes na tentativa de construir uma entidade que volte a colocar a categoria dos professores como eixo central de sua linha de ação.

A Diretoria da ADURN reitera que é favorável a mais ampla liberdade de associação dos docentes e que deseja a unidade dos professores na sua luta por um Novo Movimento Docente justo, plural e soberano, mantendo-se autônoma diante de todos os agentes políticos, inclusive o Estado e o aparelho estatal. O movimento dos trabalhadores, especificamente o movimento docente, deve ser pautado pelos interesses da categoria.
Ao defender o direito de cada professor a tomar o posicionamento político que lhe for mais conveniente, a Diretoria da ADURN considera positivo esse novo movimento e espera que, de forma equilibrada, o debate seja conduzido e que se respeite o encaminhamento do processo presente.

A Diretoria manterá sua postura firme em defesa do aprofundamento da democracia na ADURN, pois acredita que a criação do ADURN-Sindicato:
(a) Adéqua a nossa entidade à legislação em vigor, tornando-o um sindicato de fato e de direito. Além de termos a identidade jurídica própria (que já possuímos), teremos todas as prerrogativas legais inerentes a um sindicato;

(b) Reforça a tese da reorganização do movimento docente das federais em bases federativas, já que a nossa entidade construirá a federação dos professores das IFES, aumentando nossa capacidade interlocutória e firmando nossa identidade sindical;

(c) É um passo adiante da nossa entidade, já que aponta para a modernização das estruturas internas da mesma, com a criação de um Conselho Fiscal; o fortalecimento do Conselho de Representantes e a introdução do plebiscito como forma mais democrática de discussão de questões pertinentes;

(d) Significa que a nossa entidade, que será independente e soberana, estará mais próxima dos professores da UFRN, na medida em que seremos nós e não uma direção nacional, que decidirá os rumos a serem tomados nos aspectos políticos, jurídicos e financeiros.

A ADURN se prepara para dar esse salto qualitativo e esperamos contar com a presença dos docentes da UFRN no auditório da Escola de Enfermagem (Campus Central da UFRN, em frente ao Restaurante Universitário), na próxima quinta-feira (16) para escrevermos mais uma página da história da nossa entidade. Lembrando que a sua presença às 9h30min é imprescindível para a instalação da Assembleia.

sábado, 11 de junho de 2011

Sereias ou 0 retroprojetor que encanta

Na aula de ontem com estudantes de Oficina de Texto falei a respeito da crônica, esse gênero bem brasileiro. A crônica se constroi de assuntos pequenos, limitadas parcelas da vida, esquecidos instantes de quase ninguém e que quase ninguém percebe, vê  ou sente. É essa a matéria prima do cronista: o trivial, o tolo esquecido, o delicado refugo da vida que de repente no texto se dá a conhecer.
Ulisses, amarrado, enfrentando o canto magnífico e enganador das sereias

Como exemplo peguei um retroprojetor. Como se fosse um bicho vivo e cheio de manhas ele insistia em não se deixar manusear. Quero dizer: aquela haste que dá suporte à lente estava presa na lateral e aparentava ser impossível erguê-la. 

Depois de muita luta alevantou-se a lente e lá estava a máquina de ver: altaneira e firme como um grande olho de cristal e observar o mundo.

E então, pronta a minha metáfora de coisa insignificante e magnífica, disse que o retro podia ser encarado como uma máquina mágica, uma máquina que via ao contrário, porque uma máquina que exibia o seu olhar. Ao contrário de nós, que puxamos com o olhar a vida - puxamos para nós, puxamos para dentro de nós, para as nossas emoções caladas, o que está no mundo.

Assim, o retro passava a ser vivo e trazia pela luz ao mundo o mundo que escondia em seu ego de objeto vivificado. Os fios como fibras nervosas; a eletricidade como  força,  anima que a fazia coisa alumbradora.

Depois fomos à internet e vimos jornais de outras partes do mundo, jornais de longe de Natal e daquela sala do Setor II. A crônica da vida em mundo virtual envivecido. Acho que foi um grande-pequeno momento. Acho não, foi. 

E aqui, tratando dessa situação momentânea, passageira e de beleza que pude perceber, terminei fazendo uma crônica que se completa com o seu olhar de leitor que por acaso achegou a essa praia feita de letras, remansos e calmaria que dá o que pensar; pensar como meditação boba, de jornalista que datilografa como o fazia em priscas eras, em meio e volutas de cigarro e litros de café.


PS: um dia, ainda um dia, encontrarei uma praia secreta e distante, onde verei sereias. Como Ulisses, como Ulisses...
Leio na Folha e reproduzo:

Edição destaca pioneirismo de Braga

Ao ocupar vão entre jornalismo e literatura, capixaba é apontado como fundador da crônica moderna brasileira

Lançamento traz carta e texto inéditos, além de antologia de trechos, depoimentos, fotos e análises sobre autor

Fotos Divulgação/Arquivo Roberto Seljan Braga

O cronista Rubem Braga em autorretrato não datado

FABIO VICTOR
DE SÃO PAULO

Cigano, Seu Rubis, Lobo, Urso, Sabiá da Crônica, Príncipe da Crônica, Fazendeiro do Ar, Velho Braga.
Quietarrão que disfarçava o banzo em tantos apelidos -alguns dados por si próprio- , jornalista que elevou a crônica ao nível de grande literatura, Rubem Braga (1913-1990) volta à ribalta.
É o homenageado da nova edição dos "Cadernos de Literatura Brasileira", do Instituto Moreira Salles. A série iniciada em 1996, que alcança o 26º número, pela primeira vez se debruça sobre um cronista típico, alguém que fez da miudeza do cotidiano seu substrato e do jornal seu meio.

A deferência se justifica. Como aponta José Castello num ensaio da edição, ao se colocar simultaneamente à margem da literatura e da imprensa, perfilando-se num intervalo entre os dois, Braga "afirma a absoluta singularidade do que escreve" e "se torna o fundador da crônica moderna brasileira".

"Nossa escolha é o reconhecimento da crônica como uma forma literária autenticamente brasileira e de Rubem Braga como nosso cronista mais interessante", diz Antonio Fernando de Franceschi, diretor editorial dos "CLB". A edição do volume é de Manuel da Costa Pinto.
Em termos biográficos, a homenagem não traz novidades para quem leu "Um Cigano Fazendeiro do Ar" (Globo), a biografia de Braga escrita pelo jornalista Marco Antonio de Carvalho.

Mas há uma crônica inédita em livro (e possivelmente na mídia, segundo os editores), em que Braga detalha a criação do seu lendário terraço numa cobertura em Ipanema. E uma carta do cronista a Miguel Arraes (1916-2005), felicitando-o pela eleição ao governo de Pernambuco em 62. Marca dos "CLB", o diferencial está também no conjunto sintético sobre vida e obra do cronista, nas fotos, na antologia de frases e nas análises e depoimentos.
Nesta última seção estão textos de Danuza Leão (leia trecho ao lado), do jornalista Claudio Mello e Souza e do tradutor Boris Schnaiderman -que participou da campanha da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra e critica a cobertura que Braga fez do conflito como enviado do "Diário Carioca".

Além do ensaio de Castello, há os de Humberto Werneck (que selecionou, com Michel Laub, trechos de crônicas) e de Sérgio Augusto. Entre os deslizes, um que decerto faria Braga resmungar: na introdução do "Caderno" ("Folha de Rosto"), há termos e expressões como "inconsútil", "do alto do seu dossel" e "restaura o labor", tão distantes de seu estilo límpido e desempolado.

Como complemento ao lançamento, o blog do IMS (blogdoims.uol.com.br) vai publicar nos próximos dias as três melhores crônicas de Braga escolhidas por um time de jornalistas e escritores. O IMS não bateu o martelo sobre o próximo homenageado dos "Cadernos", mas Franceschi dá a pista. "Vale lembrar que em 2012 teremos os 110 anos de nascimento de Drummond."

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Comunicar erros

Pedimos encarecidamente a quem perceber súbitas e louváveis mudanças de comportamento em

Filhos pródigos
Maridos viciados em cartas
Obcecados por jogos eletrônicos
Políticos corruptos
Portadores de egos narcísicos
Desocupados
Preguiçosos
Mentirosos
Funcionários absenteístas
Fraudadores do fisco
Trambiqueiros de todas as espécies
Passadores de cheques sem fundos
Bebedores de cachaça de macumba
Falsários
Difamadores
E outros elementos que tais,

Comunicar com urgência às autoridades policiais. Esses tipos estarão tramando alguma coisa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Refocilar no ragabofe

Encerrada rapidamente, a crise no governo é apenas mais um espetáculo da cena brasileira em seu plano político. Enredado em meio a denúncias de concupiscência, digamos concupiscência financeira, Palocci deixa o palco e vejo na Folha que anunciou que agora "quer emagrecer, viajar de férias e retomar a empresa". A "empresa" é a mesma com a qual amuentou seu patrimônio vinte vezes em quatro anos.  

Afastado Palocci, o que temos? Ou melhor, o que tivemos? Muito simples: um homem flagrado em meio às suas trabalhadas com dinheiro e supostamente tráfico de influência, a Folha de S. Paulo capitaneando seu bombardeio, a oposição falando em CPI, blá, blá, blá... Tudo encenação, tudo patuscada. Palocci somente fez o que muitos opositores, podendo, fariam ou fazem. A Folha, por sua vez, não trataria assim alguém do PSDB.

O que quero dizer é que isso é Brasil. Palocci, de forma precautória, já foi inocentado por instância jurídica garantindo-se para o futuro, a CPI acho que não sai e os opositores ficarão à espreita de alguma falha no governo para nova investida. Todos são um mesmo tipo, todos jogam a mesma partida, seguem as mesmas regras, refocilam no mesmo regabofe.

O povo? O povo espera é Copa do Mundo...